A dor formigante nas costas arrancou Inferno de seu torpor. A primeira coisa que viu foi sua espada, igualmente derrubada, mas logo os passos pesados de Onimaru o despertaram por completo. A primeira tentativa de levantar, contudo, resultou numa pontada violenta de dor que o colocou de volta no chão. Antes que percebesse, o demônio já estava diante dele.

Agarrando o corpo do manipulador, Onimaru o ergueu, seus olhos reluzindo de antecipação diante da oportunidade de devorar uma alma tão vigorosa. Já havia se passado meio milênio desde o início de seu exílio humilhante, no qual se viu obrigado a sacrificar a própria força a fim de influenciar a magia do portão, mas agora tinha certeza que finalmente seria capaz de quebrar o feitiço que o mantinha preso.

Graças à sua habilidade única de consumir a energia de humanos vivos, havia encontrado uma forma de alcançar a liberdade que tanto almejava. O pesadelo de uma era esquecida estava prestes a renascer.

Onimaru então abriu a boca, pronto para engolir o homem inteiro. Depois que toda a sua energia vital e espiritual fosse consumida, ele seria regurgitado, tornando-se mais uma das almas penadas que povoavam aquela dimensão funesta. Entretanto, a única coisa a alcançar a garganta do monstro foi a lâmina de uma espada.

Inferno já havia gasto quase toda a sua energia, mas ainda lhe restava o bastante para inflamar as entranhas do demônio outra vez, ainda que apenas por um breve momento. Desvencilhando-se da mão que o agarrava, ele foi novamente ao chão, mas logo levantou-se, a despeito das dores insistentes.

Suas perspectivas, porém, não eram as melhores. Embora tivesse conseguido escapar, a potência do ataque havia sido insuficiente para causar qualquer dano significativo. Mesmo para um demônio, a resistência de Onimaru era excepcional, permitindo que arrancasse a espada da boca e a jogasse de lado como se fosse algo trivial. Além disso, ele sabia que Inferno não tinha mais forças para continuar lutando.

—Será que eu preciso esmagar seus ossos primeiro? Eu garanto que desse jeito vai ser bem mais doloroso!

—Eu não dediquei minha vida aos deuses para deixar que um demônio devore a minha alma! – Retrucou o manipulador, inconformado. – Eu me recuso a aceitar uma coisa dessas!

—Pouco me importa se você aceita ou não! – Veloz, Onimaru, alcançou seu adversário, atingindo-o com um chute pelo lado direito. Arremessado longe pela força do golpe, Inferno permaneceu caído, retorcendo-se e grunhindo. – Vocês humanos não passam de fantoches com vestígios de consciência! São só brinquedos que existem para divertir os seres de Pravus e Utopia!

As dores se tornaram ainda mais agudas, dando a Inferno a certeza de que seu braço direito estava fraturado. Talvez até mesmo algumas costelas. Apesar disso, ele se manteve indômito, dirigindo um olhar afiado para o seu algoz.

—Eu não me importo de ser uma ferramenta dos deuses de Utopia. Eles são nobres e justos, diferentes de criaturas nojentas como você!

—Você não entende nada, não é mesmo?! No fim das contas, humanos só servem para ser usados... – Onimaru disparou adiante, estendendo o punho em direção ao peito de Inferno. – ...e depois descartados!

Numa demonstração surpreendente de resiliência, o manipulador saltou para o lado, esquivando-se. Determinado a refutar as palavras ditas pelo demônio, ele invocou sua espada na mão esquerda, erguendo-a de forma desajeitada. O corte ascendente cruzou o rosto de Onimaru, rasgando seu olho direito e deixando para trás uma nítida cicatriz.

—“Mesmo tendo esgotado sua energia elemental, ele continua lutando...” – Constatou Nerhart, até então limitando-se a observar o confronto. Mesmo ele, respeitado em sua época pela coragem ímpar enquanto líder da Rosa Branca, se via admirado com a tenacidade de seu sucessor. Não via medo ou desespero no rosto de Inferno, mas sim a vontade firme de um homem decidido a defender seus ideais até o fim. – “Não posso permitir que Inferno morra aqui. A Ordem da Rosa Branca precisa de heróis como ele...”

Incapaz de continuar se desvencilhando, Inferno foi novamente agarrado pela mão enorme do demônio. Desta vez, contudo, seus braços estavam firmemente presos, tornando impossível qualquer retaliação. Furioso com o ferimento que havia recebido, Onimaru começou a apertá-lo, e só pararia quando não restasse mais um único osso inteiro no torso dele.

—Já me cansei da sua teimosia! Morra sabendo que quando eu terminar com você, seu mundinho patético será o próximo!

Uma onda fantasmagórica então invadiu a espada de Inferno, espalhando-se em seguida pelo seu corpo. A energia desconhecida que o preenchia veio à tona como uma poderosa onda de calor, intensa o bastante para fazer com que Onimaru, urrando de dor, o soltasse.

O manipulador deteve-se por um momento, observando sua arma e sentindo o poder que dela fluía. Era energia elemental, disso não tinha dúvida, mas manifestada de uma forma que nunca havia experimentado antes. Ao invés do poder metódico e controlado que obedecia cada comando de sua mente, este parecia reagir a suas próprias emoções, tornando-se mais intenso conforme seu próprio espírito de luta se elevava.

Como se fosse guiado pelo próprio poder, Inferno instintivamente envolveu sua espada com a fúria elemental do fogo e da terra, descendo-a contra o chão. A força acumulada então cruzou o solo, irrompendo explosivamente sob os pés de Onimaru, lançando-o ao alto.

—Esse poder não é meu... – Ponderou Inferno. – Será que...

Mas não havia tempo para pensar, não com seu corpo à beira da exaustão. Era necessário colocar um fim na batalha imediatamente. Avançando em direção ao demônio derrubado de costas para o chão, Inferno cravou sua lâmina no peito dele, liberando todo o poder nela acumulado.

Incendiado de dentro para fora, Onimaru gritou e se debateu enquanto seu corpo todo era carbonizado. Sucumbindo aos danos acumulados, ele eventualmente cessou de se mover, enquanto o Inferno, já sem forças, permanecia ajoelhado sobre o cadáver, segurando sua espada com a mão esquerda.

As próprias vestes do manipulador estavam chamuscadas e enegrecidas em vários pontos, mas ele próprio não tinha sinais de queimaduras, graças à resistência natural que possuía ao fogo. Por algum tempo ele permaneceu imóvel, erguendo a cabeça somente ao notar que o nevoeiro ao redor começava a se agitar violentamente.

—Nerhart, eu consegui...

Não ouve resposta. Onde quer que olhasse, não havia sinal do fantasma do segundo líder da Ordem. Retirando a espada do corpo de Onimaru, Infenro a observou com pesar enquanto sentia os últimos resquícios de energia se dissipando. Apesar de tudo, era uma sensação reconfortante.

—Não se preocupe, Nerhart. Eu prometo que vou defender a honra e os ideais de justiça da Rosa Branca até meu último suspiro.

Um som estridente preencheu o ar conforme o trono feito de ossos começava a rachar e espatifar, até finalmente se desmanchar por inteiro. Mesmo não sendo um especialista, Inferno reconheceu o símbolo arcano antes escondido embaixo dele: uma representação do sol com caracteres místicos em seu centro, pertencente às tradições dos sábios de Chesord.

De tal símbolo agora emanavam poderosas ondas de energia mágica, inundando o próprio solo com seu poder. Cegado pela luz cada vez mais intensa, o manipulador deixou de sentir a aura gelada de sofrimento que permeava o ambiente como um miasma, e então seu corpo inteiro foi arrastado por uma força invisível.

A vários quilômetros de distância, o grupo liderado por Carbon notou o imenso pilar dourado que se ergueu em direção ao alto, iluminando por um breve momento o céu noturno. O fenômeno deixou todos invariavelmente perturbados, pois sabiam que era lá onde haviam deixado Inferno para trás.

—O que foi aquilo? – Scythe foi a primeira a perguntar.

—Parece ser algum tipo de magia, mas não dá para ter certeza daqui. – Comentou Elbio.

—Pode ser que Inferno tenha encontrado uma forma de escapar do portão... – Carbon queria se manter esperançoso, mas as dúvidas se recusavam a abandoná-lo. – ...mas pode ser também que...

Elbio, focado apenas em resgatar as bruxas do esconderijo de Madame Ancara, era o único a não demonstrar preocupação naquele momento. Os demais, contudo, não conseguiam manter a calma, divididos entre o dever de cumprir a missão e o desejo de averiguar a situação do líder.

—Eu vou. – Disse Viper, finalmente.

—É perigoso demais! – Protestou Carbon, cedendo a seus temores. – Pode ser que você acabe presa no portão também!

—Estamos falando do Inferno, nunca que ele ia ser derrotado tão facilmente! – O rosto da controladora do veneno enchia-se de confiança. – Com certeza ele encontrou um jeito de escapar, mas pode estar precisando da nossa ajuda agora!

Um breve silêncio se seguiu. Embora receassem os riscos a que Viper estaria exposta, Carbon e Scythe também não desejavam simplesmente ignorar a situação.

—Nós todos sobrevivemos até agora, não é?! Não tem motivo para começarmos a deixar nossos amigos para trás! – Viper continuou, ciente da ironia em suas palavras. Ela própria não hesitaria em sacrificar o pouco de vida que lhe restava, mas não conseguia aceitar a perspectiva de perder Inferno. – Não podemos abandoná-lo!

Carbon suspirou, olhando em seguida para o rosto impassível de Elbio.

—Muito bem, Viper, vá checar a situação. Nós continuaremos em direção ao esconderijo das bruxas.

Notas finais
Viper arrisca a própria vida para proteger uma das pessoas que mais admira. Capítulo 259: Lágrimas e Veneno Em breve.