Roses and Demons: Hell's Flower
17 Assassinato
Notas iniciais
Recomendo ler Roses and Demons: Extra para mais informações sobre os demônios e os mundos paralelos (Utopia e Pravus) da história.
Empoleirado sobre um galho, Corvame observava atentamente a cena se desenrolando diante de seus olhos amarelados. Não era a primeira vez que via algo do gênero, mas a curiosidade aflorava em sua mente, alimentando seu interesse. Enquanto a ave assistia, Morburi murmurava palavras, infundindo o próprio ar com energias místicas, enquanto mantinha seus braços abertos. Ele estava no centro de um círculo arcano desenhado com sangue humano e, ao seu redor, se espalhavam vinte ou mais cadáveres mutilados.
Cerca de uma hora já havia transcorrido desde o início do ritual e, finalmente, ele começava a surtir efeito. Uma parede transparente avermelhada se ergueu pela trajetória do círculo e os corpos no interior começaram a se desmanchar, sem sequer deixar os ossos para trás. Todos sumiram, exceto aquele que estava aos pés de Morburi, no centro exato do diagrama. Por fim, foi a vez do próprio demônio se desfazer, literalmente derretendo até não restar mais nada. Devagar, a muralha de luz desceu até se apagar e a escuridão engoliu outra vez o ambiente. Apesar disso, o corvo atento enxergava tudo com perfeição e a ansiedade de saber o que aconteceria a seguir borbulhava em seu âmago. Então, os olhos do cadáver que restou se abriram e ele se levantou. Era um soldado perto da casa dos trinta anos, completamente nu. Seu corpo não apresentava qualquer ferimento aparente, logo a única pista que poderia indicar o fato de que se tratava de um cadáver era a pele completamente pálida. Os olhos brilhavam com uma ferocidade incomum, mas que não traía a verdadeira natureza de quem estava no controle, pois mantinham a cor castanha de seu dono original. Da mesma forma, a voz soava clara e, acima de tudo, humana.—Agora estou pronto para matar aquela bruxa. Se tivesse mãos, Corvame provavelmente bateria palmas. Compreendendo perfeitamente o que havia acontecido, ele admitia para si mesmo que o plano de seu aliado era ao mesmo tempo ousado e inesperado. A curiosidade deu lugar a uma satisfação sinistra.—Muito inteligente, Morburi. Cheguei até a pensar que você estava colecionando aqueles cadáveres por diversão. Mas quanto tempo dura essa transformação?—Tempo suficiente para arrancar a cabeça de uma garotinha estúpida.—Entendo, mas só isso não será o suficiente. Como pretende invadir o acampamento? Se for pelo portão, com certeza vão desconfiar de um embuste. Ouvir os avisos da ave vultosa divertia Morburi a ponto de fazê-lo desatar numa gargalhada. Seu semblante de triunfo deixava claro que ele não tinha esquecido deste detalhe.—Como você é ingênuo, Corvame. Vou mostrar a você como são assustadores os poderes que ganhei em Via Mortis. Intrigado, o corvo bateu suas asas e ganhou os ares, acompanhando o cadáver ambulante de perto. A muralha erguida por Ent ao redor do acampamento desenhava um círculo imperfeito, com as raízes robustas que o formavam se entrelaçando e acompanhando as nuances da maneira como as tendas foram dispostas. Num certo ponto a noroeste do forte, os dois demônios que planejavam derrubá-lo se detiveram diante da barreira.—Para isto aqui, vou precisar apenas de uns momentos. O cadáver movido pela vontade de Morburi, ainda nu, ergueu o capacete sujo e lascado que trazia consigo e enfiou a mão até o fundo, cobrindo-a com o sangue escurecido e nojento acumulado no interior. Depois, começou a desenhar um círculo na madeira, ocasionalmente lambuzando os dedos novamente para poder continuar. Quando finalmente se deu por satisfeito com o trabalho, ele encostou a palma da mão no centro do diagrama e começou a entoar palavras incompreensíveis para seres humanos. Passando-se um minuto, a mesma luz avermelhada de antes surgiu, começando pelas bordas e seguindo por linhas de sangue até alcançar a mão de Morburi. No instante seguinte, as raízes contidas dentro da circunferência viraram pó, criando uma passagem que levava até o outro lado. Satisfeito, o demônio sorriu e largou o capacete, tomando nota de que todo o sangue que antes estava impregnado em seus dedos havia sido consumido na execução da magia.—Realmente, muito esperto. Mas não me diga que você pretende mesmo entrar lá desse jeito! – Grasnou Corvame.—Não diga tolices, imbecil. As vestes e armaduras dos soldados que morreram do lado de fora estão todas sujas e danificadas. Limite-se a ficar observando enquanto eu faço o meu trabalho. Sem qualquer hesitação, Morburi seguiu através do buraco na muralha. Uma vez do outro lado, virou freneticamente o rosto para a esquerda e para a direita, contente ao verificar que ninguém se encontrava por perto. Escolhera deliberadamente um lugar onde a vigilância era mais relaxada, por sugestão do corvo diabólico, mas ainda assim era apenas uma questão de tempo até que a passagem fosse descoberta. Mantendo-se nas sombras, o demônio começou a se movimentar pela orla da muralha. Eventualmente, ele avistou um soldado solitário carregando uma tocha na mão direita e caminhando em sua direção. Morburi analisou o ambiente por um momento antes de se endireitar e continuar adiante, com passos lentos. Ao ver o que parecia ser uma pessoa despida se aproximando, o soldado estancou, absolutamente estarrecido, e então correu ao seu encontro.
—Qual o seu problema, idiota? Está bêbado, por acaso? Onde já se viu andar por aí desse jeito, ainda mais no meio do inverno? Nunca houve resposta. Morburi simplesmente estendeu as mãos e torceu o pescoço do homem, concedendo a ele uma morte instantânea. Depois, o despiu rapidamente e usou as vestes e a armadura para cobrir a si mesmo. Por fim, despejou o cadáver num lugar afastado e de lá traçou seu rumo em direção ao forte, contornando as tendas que estavam no caminho. Não precisou andar muito para encontrar algumas pessoas reunidas ao redor de uma fogueira, todas segurando copos de madeira cheios de um líquido fumegante. Ninguém prestou muita atenção na chegada de Morburi, mas alguns olhares curiosos o encontraram quando ele começou a se misturar na pequena multidão.—Por favor, me ajudem! Preciso ver aquela bruxa chamada Gabrielle, é uma emergência! Uma mulher, militar chesordiana, examinou a expressão aflita do demônio disfarçado e se viu preocupada. Deveras, ele aparentava estar muito debilitado.—Pelos deuses, como você está pálido! Deve ser algo muito sério! Esperem aqui um minuto que eu vou levá-lo até a bruxa.—Rápido, eu não quero morrer! Morburi fez um esforço imenso para não colocar qualquer indício de cinismo em sua fala. Era difícil conter esse impulso com seu plano correndo de forma tão desimpedida. Foi necessário cruzar o acampamento de um lado até o outro para que o invasor pudesse encontrar seu alvo. Durante o trajeto, várias vezes ele parou para descansar, fingindo estar exausto. Já eram altas horas da madrugada e quase todas as bruxas dormiam, à exceção de algumas poucas que montavam guarda. A guerreira que acompanhava Morburi fez sinal para que ele aguardasse e foi conversar com uma jovem de cabelos dourados. Uma breve troca de palavras se sucedeu e a expressão da bruxa se tornou indecisa. Ela olhou para o demônio e então de volta para a mulher com quem conversava, eventualmente cedendo e acenando de forma afirmativa. Com passos rápidos, alcançou uma tenda próxima e, momentos depois, saiu na companhia de uma garota sonolenta e descabelada. Diante daquela cena, Morburi sentiu uma poderosa fúria tomando conta de cada fibra de seu ser, fazendo sua própria alma ferver. Estava a um passo de perder o controle, mas a precaução falou mais alto. Ainda não podia se dar ao luxo de entregar seu disfarce. Foi necessária uma boa dose de concentração para evitar que seu poder se tornasse instável. Assim, quando finalmente se deu conta, ao seu redor estavam a guerreira e as duas bruxas, todas as três apreensivas.—Você fez bem em trazer ele até mim, Izane. A palidez por si só já é preocupante, mas do jeito que ele estava tremendo, não resta dúvida de que o problema é grave.—Eu sinto muito por estar sendo importuno. – Mentiu Morburi. – Sei que você já teve muito trabalho, mas não sei quanto tempo mais vou aguentar.—Não se preocupe, vou dar um jeito em você num instante. Por sorte eu estou com todos os equipamentos de que preciso na minha tenda. Venha comigo. O demônio podia sentir o momento derradeiro se aproximando. Sem a menor cerimônia, ele tomou a frente, sendo seguido de perto por Gabrielle. Um candelabro iluminava o interior da barraca, colocado sobre uma mesa repleta de equipamentos e frascos que a bruxa não havia tido tempo de organizar. D’Illusie os ignorou e recolheu um lampião em outro canto, também aceso, enquanto apontava para um banquinho de madeira.—Sente-se ali, por favor. Morburi obedeceu, observando com atenção enquanto a responsável por arruinar seu plano anterior colocava o lampião ali perto, testando qual seria a posição mais adequada para lhe permitir examinar o paciente. A repulsa que o demônio sentia ultrapassava os limites do ser humano, um ódio tal que somente um ser infernal como ele próprio poderia sentir. Seu desejo era de torturá-la devagar, deixá-la sentir o corpo sendo destruído por dentro, incapaz de fazer qualquer outra coisa senão vomitar sangue. Lamentavelmente, este era um prazer que teria de abdicar. Sob a pressão do olhar atento de Corvame e das expectativas de Banemare, Morburi buscava um único objetivo: o sucesso absoluto em sua missão de derrubar o forte Brokefront. Bastava eliminar aquela garota inconveniente e não só garantiria sua vitória, como também provaria de uma vez por todas que entre os demônios que agora caminhavam sobre Realia, ele era o mais digno de ser temido.—Nossa, como você está gelado! Parece até um cadáver! – Exclamou a bruxa ao encostar a mão na testa de seu suposto paciente. – Santa Argenta, isso é ainda mais sério do que eu pensei. Espero um momento enquanto pego o que preciso ali na mesa. No momento em que Gabrielle virou suas costas para Morburi, este se ergueu e puxou a espada que trazia presa ao cinto num movimento fluido e veloz. Sem dar tempo para qualquer reação, ele já havia enterrado a lâmina nas costas de sua vítima. Ou, pelo menos, era o que pensava. Para seu espanto, nem sequer uma gota de sangue escorria e nenhum grito de dor preencheu o ar noturno. De fato, embora a espada tivesse atravessado o tecido do quimono que a bruxa vestia, ela se recusava a perfurar a carne.—Mas que diabos é isso?! – Rugiu Morburi, enfurecido.—Eu já desconfiava. Agindo desse jeito agitado e com sintomas diferentes de todos os pacientes que eu atendi antes. Deixe-me adivinhar, você está trabalhando para Pravus, não é? Veio aqui tentar me assassinar? Gabrielle virou para encarar o inimigo. Seu olhar destemido, debochado até, foi a gota d’água para o demônio. Perdendo o controle, ele deixou o corpo morto que usava como disfarce inchar e apodrecer em ritmo acelerado, até que finalmente retornou à sua aparência original. Seus olhos amarelados se cravaram na garota e sua aura maligna começou a preencher a tenda como um miasma.—Quer saber quem eu sou? Sou o demônio que infectou esse acampamento asqueroso, e agora que encontrei você, vou garantir que nunca mais me atrapalhe. Prepare-se para ser esquartejada!—É verdade? Eu estava mesmo querendo encontrar você. Assim me poupa o trabalho de procurá-lo.—Você enlouqueceu ao descobrir que está para morrer, garotinha? As ameaças eram concretas, mas incapazes de abalar Gabrielle. Depois de enfrentar um demônio em combate mortal, ela já não os temia mais. Manifestando seu poder elemental no punho esquerdo, a bruxa atacou com um gancho, atingindo em cheio o queixo de Morburi. O impacto violento separou a cabeça do pescoço, fazendo-a disparar em direção ao alto e atravessar a parte superior da tenda. Nos céus sobre o acampamento, Corvame planava em círculos erráticos, perguntando-se quando tempo seu aliado ainda demoraria para matar uma mera garota humana. Surpreendendo-o, algo redondo subindo em alta velocidade o atingiu em pleno voo, a ponto de quase fazê-lo cair com o choque. Um instante antes do objeto começar sua descida, a ave monstruosa reconheceu a expressão de lamento no rosto sem vida de Morburi, compreendendo que ele havia falhado.—Que fim patético para alguém que se achava tão importante. Bem, agora só me resta reportar isso ao mestre Banemare.
Notas finais
Ent descobre o segredo da família de Madame Papillon.
Capítulo 248: A Mulher Chamada Annemarie
Em breve.
Fale com o autor