Roses And Demons: Warbloom

32 Um Resquício de Magia


Notas iniciais
Por que colocar dentro de uma caixa? É tudo uma questão de densidade.

Dois dias se passaram sem grandes acontecimentos. Lince Walters e seus soldados precisavam de tempo para se recompor, desejando a todo custo evitar confrontos neste momento de vulnerabilidade. Agas Pyrath mantinha batedores em constante vigília, agindo com cautela para não ser pego de surpresa. Os cinco manipuladores se concentravam em treinar e espionar a capital de Chesord, valendo-se do auxílio de algumas poucas bruxas infiltradas na cidade. Apesar dos pedidos de Fernand, Samantha se recusou a cortar novamente o cabelo para facilitar suas investigações, preferindo vasculhar os becos e ruas na calada da noite, procurando rotas de fuga e invasão.

A tarde apenas havia começado quando Kate e Elbio terminaram uma refeição, retomando a viagem em direção ao esconderijo de Papillon. Eles estavam preocupados que pudessem encontrar patrulhas eventualmente, mas até o momento não haviam sido perturbados. Tanto melhor, pois o rapaz não tinha a intenção de chamar a atenção ainda, principalmente sem ter controle total de seus poderes.

-Ainda bem que encontramos aquelas uvas, eu já não aguentava mais comer carne de bode. – Comentou Elbio, sorrindo.

-Se o seu problema é variedade de comida então trate de aprender a conjurar uma vara de pescar, pois teremos de cruzar um rio logo à frente.

-Boa ideia, talvez eu deva começar a praticar agora-

O rapaz silenciou e deteve seus passos, enrugando o rosto como se fizesse algum tipo de esforço interno. Kate não pôde deixar de notar como ele parecia se sentir desconfortável, mas não fazia ideia da razão.

-É muito fraco, quase não dá pra sentir. – Disse ele.

-Mas que diabos está acontecendo, Elbio?

-Eu sinto um resquício de magia no ar, algo que me faz lembrar vagamente a sua presença, Kate.

-Como assim? Você quer dizer que há uma bruxa aqui perto? – Questionou a garota, cada vez mais confusa.

-Eu não sei, mas acho que devemos investigar. Venha, eu sinto que tem algo nesta direção!

Sem sequer esperar para saber se a bruxa aprovaria ou não tal atitude, Elbio começou a correr. Depois de quase trinta minutos finalmente pôde ver com clareza um rio de profundidade moderada adiante, com a distância de três metros de uma margem e outra. Pedras se erguiam da superfície da água, interrompendo a correnteza fraca em diversos pontos. Mas o que mais chamou a atenção foi uma pequena caixa de madeira, presa num emaranhado de pequenos galhos de uma planta que crescia à beira do curso d’água.

-Daqui até eu consigo sentir, tem alguma coisa mágica dentro dessa caixa. – Comentou Kate, ofegante, enquanto se apoiava numa árvore.

-Eu vou abri-la. – Respondeu Elbio, se aproximando devagar.

-Tudo bem, mas tome cuidado.

Pouco tempo depois, ele retornou com a caixa aberta em mãos e mostrou o conteúdo para sua companheira de viagem. Duas adagas prateadas reluziam, escorrendo pingos de água e emanando uma energia que poucas pessoas seriam capazes de notar. Para os dois viajantes não restava dúvida de que eram armas encantadas, mas esta certeza somente gerava mais perguntas em suas mentes.

Luna simplesmente não conseguia se acostumar com o ambiente do esconderijo das bruxas. Era frio, escuro e lúgubre demais para que ela pudesse se sentir à vontade, tanto que a sacerdotisa se espantava ao notar o quanto Samantha parecia contente naquele lugar. Sempre que caminhava pelos corredores, a manipuladora da água sentia-se trancada numa masmorra sinistra, mas se esforçava para não demonstrar. Felizmente, naquele momento, Karin e Yasmin estavam mais preocupadas em saber o motivo de Madame Papillon chamar as três, pois provavelmente tinha algo a ver com o estranho pedido dela dois dias atrás.

Logo a bruxa que as guiava parou diante de uma porta e bateu três vezes, anunciando que lá estavam. A líder logo a abriu e dispensou a guia enquanto convidava as manipuladoras para entrar. Certamente não era lá que a mulher dormia, mas a quantidade de prateleiras e mesas repletas de livros, frascos e equipamentos estranhos levava as meninas a crer que se tratava de um misto de escritório e laboratório pessoal.

-Disseram que você tinha assuntos importantes para tratar conosco, senhora. – Mencionou Yasmin.

-Eu tenho sim. A verdade é que não tive tempo de fazer uns amuletos para vocês na última ocasião em que estiveram aqui. Estive muito ocupada criando os encantamentos que os auxiliaram a derrubar o último pilar.

As três lembravam muito bem do que a bruxa dizia. Graças à magia dela, Yasmin tornou-se capaz de combater seu irmão com uma maestria incomparável, Luna sobreviveu a ferimentos terríveis enquanto lutava sem se cansar e Karin pôde se defender de muitos ataques violentos. Além disto, tais encantamentos serviram como focos para a magia de teleporte que as salvou. Definitivamente elas deviam muito a Madame Papillon e suas subordinadas.

-Creio que nunca vamos conseguir agradecer o suficiente pelo que já fez por nós e ainda vai nos dar outro presente? Eu nem sei o que dizer. – Disse Luna.

-Dessa vez eu quero ter a força para fender a terra! Foi muito divertido ver o Fernand arrancando aquelas portas enormes de madeira! – Falou Karin.

-Na verdade é algo bem mais simples, mas que pode ser útil mais tarde. Com os fios de cabelo que vocês me entregaram pude criar amuletos iguais aos que Fernand e Samantha possuem.

-Aqueles que permitem localizar o esconderijo? – Perguntou Yasmin.

-Exatamente. A fórmula para criar estes amuletos exige uma pequena parte da pessoa que vai usá-lo, como um fio de cabelo ou uma lasca de unha, e permite enxergar as trilhas luminosas que nós bruxas criamos para indicar a localização de nossos esconderijos.

Madame Papillon, que já tinha os três amuletos em mãos, entregou cada um deles a uma das manipuladoras. Não pareciam nada surpreendente, apenas pedrinhas azuladas presas cada uma a um cordão.

-Creio que serão úteis sim, mas estes amuletos não são perigosos? Se alguém roubá-lo poderia localizar vocês, não? – Questionou a sacerdotisa.

-Somente você é capaz de enxergar as luzes usando o amuleto que foi feito com seu cabelo, Luna, e somente enquanto ele estiver próximo ao seu corpo. A fórmula foi criada dessa forma justamente para evitar que fôssemos localizadas através da magia. – Explicou Papillon.

-Então o único jeito de sermos atacadas aqui é se alguém nos trair. – Falou Yasmin, um tanto séria.

-Isso já aconteceu, tia? – Perguntou Karin inocentemente.

-Já, há muito tempo atrás, logo depois que a perseguição começou. Muitas bruxas traíram suas irmãs em troca de proteção, todas morreram. Elas deixaram uma lição valiosa para nós e a certeza de que o governo de Chesord não poupa a vida de nenhuma bruxa.

A noite trazia consigo um frio familiar a Elbio e Kate, mas os poucos flocos de neve que caíam pareciam uma lembrança distante para Lumarc. A última vez em que o rapaz vira neve foi pouco antes de deixar sua cidade natal para reencontrar Rina. Contudo, não podia se dar ao luxo de se render ao sentimentalismo. Uma presença chamava a sua atenção.

-Eu sinto resquícios mágicos muito parecidos com os das adagas que encontramos. E tenho quase certeza de que a fonte se encontra a oeste daqui. – Explicou Elbio.

-Mas a oeste daqui só há uma base militar. Madame Ancara nos avisou que seria arriscado demais nos aproximar daquele lugar! – Protestou Kate antes mesmo que o rapaz dissesse que queria investigar.

-O rio que atravessamos passa perto do forte e a correnteza segue na direção de onde encontramos as adagas. Se eles tentaram se livrar de objetos mágicos, só consigo pensar em uma possibilidade.

-Por favor, Elbio, isso é loucura!

-Uma bruxa foi capturada e presa naquele forte. Eu preciso salvá-la!

Notas finais
Ignorando os protestos de Kate, Elbio decide invadir o Forte Brokefront.
Capítulo 133: Resgate
Em breve.