Roses And Demons: Warbloom

91 Um Coração que Parou de Bater


Notas iniciais
Esta batalha chegou ao fim, mas ainda tem mais pela frente.

Levar a sério seu dever como integrante da Ordem da Rosa Branca e seus treinamentos sempre foi a marca registrada de Ent. Foram traços que ele assimilou graças ao longo tempo que passou na companhia de Inverno, o antecessor de Aurora como manipulador de luz e água e o membro mais antigo quando o controlador das plantas era jovem.

De fato, quando Ent entrou para o grupo seu mentor, cujo verdadeiro nome era Nezorf Wiseman, já tinha mais de quarenta anos e detinha o posto de líder. Trinta anos depois ele faleceu, deixando o cargo para a pessoa em que mais confiava, seu melhor pupilo, o próprio controlador das plantas.

Passando a ser o membro mais velho da Ordem, ele aceitou as responsabilidades cada vez maiores e o fato de que agora era quem deveria ser um exemplo para a nova geração. Admirado por aqueles como Electron e Inferno, que valorizavam a dedicação acima de tudo, e evitado por outros como Sol e Viper, que tinham outras prioridades, o velho invariavelmente tinha o respeito de todos.

Mas mesmo ele, sempre visto sorrindo, carregava uma angústia. Desde o dia em que seus poderes surgiram, Ent dedicou sua vida ao rei e a Chesord. A Ordem tomou conta de sua existência de tal que forma que quando ele finalmente se deu conta, já perto dos cinquenta, não conseguia mais ver a si mesmo vivendo de outra forma.

Ainda assim, ele se contentou. Por mais que não tivesse vivido por si mesmo, sabia que ainda havia esperança nos corações jovens que assumiam os lugares de seus companheiros de outrora. No fim, o controlador das plantas decidiu que seu último objetivo de vida seria preparar os novos guerreiros não apenas para que pudessem garantir a segurança do reino, mas também para que pudessem ser felizes.

Na guerra, assim como durante a batalha pelos pilares e em todas as suas missões anteriores, ele estava presente apenas como integrante da ordem e nada mais. Não estava preparado para a ironia que o aguardava na forma de Anya Wald. Lutar contra ela podia ser parte do dever, mas Ent o fez de sua própria vontade. Não se importava de ser derrotado ou mesmo morrer, apenas desejava aproveitar ao máximo a melhor luta de toda sua vida.

Naquele momento derradeiro os dois sabiam que o combate estava se dirigindo rapidamente ao fim. Enquanto via a inimiga avançar veloz, mas cautelosamente, o controlador das plantas se perguntava o que poderia fazer contra alguém que não podia ser ferida. Mas onde até mesmo outros integrantes da ordem desistiriam, caso estivessem em seu lugar, a experiência em combate de um homem que lutou por mais de quarenta anos fez surgir uma alternativa.

–“De uma forma ou de outra este será minha última aposta, então vou usar toda a energia que me resta.”

Antes de desferir seu ataque, a bruxa pisoteou o chão com tamanha violência que desequilibrou todos nas proximidades com o tremor. Com o corpo caindo, o velho trouxe a tona todo seu poder e ergueu uma árvore enorme debaixo de si mesmo, que o levou para o alto. O golpe seguinte de Anya, que chegou tarde demais, abriu um rombo no tronco, mas era robusto demais para desmoronar com apenas isto.

Uma raiz surgiu por trás da mestra e se contorceu, atingindo-a nas pernas. A mulher caiu de costas e, antes que pudesse esboçar alguma reação, Ent já descia em sua direção. Um dos galhos da grande árvore envolveu seu braço e, após se destacar, tornou-se um verdadeiro aríete.

O ataque, lançado com toda a força da massa de madeira, atingiu em cheio o peito de Wald e o impacto a fez soltar um urro de dor, porém era insuficiente para detê-la. Mas, naquele momento, ela pôde ver que o restante dos ramos se juntava, formando uma massa enorme e cilíndrica no topo. O emaranhado desceu como um martelo sobre o galho que envolvia o braço do controlador das plantas e acertou sua parte superior. No outro lado, Anya recebeu todo o impacto daquele golpe descomunal.

Ao fim, toda aquela vegetação manipulada ressecou quase instantaneamente e se desfez em cinzas espalhadas pelo vento. Restaram apenas aqueles dois guerreiros idosos, a bruxa caída e o manipulador de joelhos. Este último olhou para sua adversária, que já não se movia mais. Mesmo depois de tudo seu corpo ainda não tinha ferimentos, graças ao incrível poder da magia Libero Repagula. Seu coração, por outro lado, deixou de bater devido à pressão esmagadora que sofrera.

Milagrosamente vitorioso, Ent se colocou em pé e manteve o olhar fixo na inimiga que tanto respeitava. Em seguida ele a ergueu nos braços e deu as costas ao campo de batalha, caminhando o mais rápido que seu exausto corpo permitia em direção ao Forte Brokefront. Num tom baixo, para que apenas a bruxa pudesse, de alguma forma, escutar, ele declarou.

–“Eu venci, mas foi somente graças a meu poder elemental. A verdadeira mestra do combate marcial é você Anya.”

Independente da origem nobre ou camponesa, a maioria dos manipuladores que eram acolhidos pela Ordem da Rosa Branca precisava passar por um rigoroso processo de treinamento para aprender a lutar. Electron era diferente.

Treinado desde criança para ser um soldado, Leonard Thoulash era o orgulho de seu pai Marcus, ao menos até sua morte trágica. Quando foi alistado para se unir aos manipuladores mais poderosos de Chesord, o controlador dos relâmpagos já era um lutador experiente.

Sua presença no campo de batalha era um alento para os soldados aliados e seus raios não perdoavam os inimigos. Mesmo sem usar força letal, ele conseguia abrir caminho e guiar seus subordinados à vitória. Mas quando ele se viu incapaz de usar seu poder elemental, temeu pela primeira vez desde que colocara os pés para fora do forte.

Não por si próprio, mas sim pelo destino de seus compatriotas. Se a Ordem da Rosa Branca não fosse capaz de acessar suas habilidades, havia o risco de acontecer o mesmo que na batalha anterior. Ele sabia, pelo relato de Spectra, que a responsável por isso era uma bruxa de cabelos ruivos, mas não esperava encontrá-la no meio da confusão do confronto.

Desta vez Jenipher combatia ao lado de suas irmãs e dos soldados sob as ordens do Coronel Froz. O empericiano decidiu não repetir a estratégia de usar a magia Ordem Natural para dar vantagem a seu exército, acreditando que desta vez os inimigos estariam preparados para isso.

Inevitavelmente, golpes de lança e de tridente colidiram. Chaneel sabia que se tornaria um alvo preferencial, já que mesmo lutando ainda era capaz de anular manipulações elementais numa pequena área o seu redor. Contava com o apoio de duas outras bruxas que a protegiam, dificultando o trabalho de Leonard.

Era evidente que um desafio destes não assustaria o homem que suportou a fúria de William Storde quando este estava descontrolado, mas o que aconteceria a seguir eventualmente o faria abandonar as intenções de combater a bruxa ruiva. A voz de Spectra o alcançou, clara mesmo na confusão da batalha.

–Afaste-se, Electron, essa luta é minha.

–Spectra? – O rapaz vacilava, sem saber se devia aceitar o pedido ou não.

–Essa mulher me derrotou na última vez em que nos enfrentamos e me impediu de completar minha missão. Você, melhor do que ninguém, deveria entender o quanto é importante para mim vencê-la.

E de fato ele compreendia, mas deixar a amiga lutar sozinha contra três inimigos era algo que Thoulash não conseguiria aceitar. Porém, ele não era o único a entender as intenções da controladora da névoa.

–Tem certeza de que quer repetir isso, Spectra? – Perguntou Jenipher.

–Absoluta. – A mulher de cabelos cinzentos respondeu com um olhar afiado como a lâmina da espada Draconis.

–Está bem, então vamos lutar mais uma vez.

Chaneel tinha certa consideração por Camilla Ellure. Além disso, pensava que se conseguisse entender de onde vinha toda a coragem daquela guerreira, talvez pudesse enfrentar melhor seus próprios medos. Dispensando as bruxas que a ajudavam, ela decidiu confrontá-la sozinha.

–Não falharei novamente.

–Sinto muito, mas não me lembro de ter visto um futuro assim.

Notas finais
Spectra pensou que deseja vencer para satisfazer seu orgulho, mas a verdadeira razão pode ser muito diferente. Capítulo 192: O Que Quero Provar Em breve.