Roses And Demons: Warbloom

70 Mais que um Simples Ferreiro


Notas iniciais
Este capítulo contém o verdadeiro nome da Viper.

Antes do sol raiar os preparativos já estavam concluídos e quando a luz fraca começou a iluminar as campinas e bosques do sul de Chesord, o exército de Empericia já marchava. O astro rei estava oculto acima de uma grossa camada de nuvens e pequenos flocos de neve caíam sobre os guerreiros. As temperaturas, que diminuíam a cada dia, não deixavam mais dúvidas de que o inverno estava chegando ao seu ápice.

O objetivo de Walters era chegar a Hadob, uma cidade cujo nome ele soube graças a seus batedores. Nos arredores havia uma região montanhosa com alguns túneis e cavernas. Certamente um bom lugar para preparar emboscadas e dificultar as investidas dos Chesordianos.

Já os seis manipuladores seguiam por um caminho diferente, guiados por Samantha em direção ao local onde vivia Jack. Karin, Yasmin e Luna sabiam apenas que iam ao encontro de um ferreiro talentoso que ajudara seus antigos rivais após a batalha em Ekal, onde o machado de Fernand fora danificado. Embora as três se preocupassem com o caráter que alguém que ajudou foragidos perigosos pudesse ter, preferiam não tocar no assunto. Bastava que pudesse reformar o cajado da manipuladora da luz.

Eles tinham companhia em sua viagem. O sétimo integrante do grupo era ninguém menos que Elbio Lumarc, que optou por auxiliar as bruxas chesordianos por mais um tempo, com a condição de que o avisassem quando a batalha estivesse prestes a eclodir. Ele ainda desejava encarar o exército de seu reino, mas concordava que não era o momento adequado.

Quinze minutos depois que o pequeno grupo se separou das tropas, Yasmin levantou um questionamento para sua amiga, Luna.

–O Capitão Walters está indo em direção à sua cidade natal. Tem certeza de que você não quer ir junto?

–Eu soube que o lugar foi abandonado. Os habitantes, com medo do exército invasor, se refugiaram na região central. Não vejo motivo para ir lá justo agora.

–Você não sente saudades de casa, Luna? – Perguntou Karin.

–Não exatamente. Claro que eu fiz algumas amigas no orfanato, mas não tenho nenhuma afeição em particular pela vila. Para mim é muito mais importante estar junto de vocês e ajudar a colocar esse reino maluco em ordem novamente.

–E quando foi que este reino esteve em ordem? Só se foi antes da barreira ser erguida, porque depois disso tudo só piorou. – Expressou-se Elbio.

–Não se preocupe, nós vamos garantir que, quando tudo estiver resolvido, as bruxas nunca mais sejam perseguidas. – Garantiu Yasmin.

–Essa eu quero só ver. – Disse Samantha.

Para muitas almas que eventualmente estariam envolvidas num conflito de escalas cada vez maiores aquele foi apenas um dia de viagem. Não apenas do lado dos estrangeiros, mas também para alguns integrantes da Rosa Branca. Logo veio a noite e o trio decidiu descansar em Siral, uma cidade longe o suficiente dos locais onde as batalhas foram travadas. Ainda assim, embora não houvessem planos de evacuação, era evidente que a população estava inquieta.

Viper, Quartzo e Scythe conseguiram facilmente um quarto com três camas logo na primeira estalagem onde foram. A situação era péssima para o turismo, afinal de contas. Os dois primeiros apreciavam uma refeição, durante a qual o controlador de cristais desfez a parte inferior de sua máscara para conseguir comer. Depois de alguns momentos de silêncio, sua companheira cansou da falta de assunto.

–Sei que não é da minha conta, mas por que você usa uma máscara?

–Se você sabe que não é da sua conta, então não pergunte.

A resposta seca irritou a controladora do veneno, mas ela decidiu ser compreensiva. Provavelmente aquele era um assunto delicado para o rapaz, portanto seria melhor falar sobre outra coisa.

–Como quiser. Mas eu também estou preocupada com Scythe, ela parece sempre tão distante. O que deveríamos fazer para que ela se sinta mais à vontade?

–Simples, não fazemos nada. Se ela não quer se envolver com os outros não é problema nosso. Até porque quando isso tudo terminar, Inferno vai mandá-la de volta para o meio do mato, que é o lugar dela.

Viper bateu na mesa com as mãos.

–Você é um ignorante, sabia? Se não precisássemos de você eu te envenenaria e assistiria você morrer lentamente.

Então ela saiu do quarto, furiosa, para respirar um pouco de ar fresco no lado de fora da estalagem. Depois de caminhar um pouco pelas ruas desertas ela chegou ao local onde antigamente estava um dos pilares e percebeu que não estava sozinha.

–Ah, então você estava aqui.

Scythe estava sentada num banco, o mesmíssimo banco em que Sol descansava durante sua vigília poucos meses atrás. Ela reconheceu a voz mesmo sem ver quem se aproximava e então levantou para encarar a colega.

–Ainda bem que você apareceu. Eu ia me sentir uma idiota perguntando para um cidadão o caminho de volta para a estalagem.

–Você... está perdida? – Viper ergueu uma sobrancelha.

–Sinto muito, mas o único lugar que eu conheço bem é o Bosque Sinelth.

A garota de cabelos verdes riu e caminhou até a controladora da morte, passando seu braço sobre os ombros dela, sem tocar diretamente a pele.

–Fique tranquila, você está em boas mãos comigo.

–Viper, cuidado! Você pode se machucar! – Disse Sabrina, genuinamente preocupada, enquanto a outra garota praticamente guiava seus passos enquanto caminhavam.

–Não se preocupe, estou sendo cuidadosa. Além disso, pode me chamar de Priscilla enquanto não estivermos agindo em nome da ordem. Priscilla Minson.

–Então acho que pode me chamar de Sabrina Grimheart. Estamos voltando para a estalagem?

–Não, ainda não quero ver a cara daquele imbecil do Quartzo. Ou a máscara, nesse caso. Vamos ver se existe algum lugar nessa cidade que possa nos divertir um pouco.

Scythe não estava exatamente animada com a ideia, mas não tinha muita escolha. Arrependia-se de ter deixado a estalagem em primeiro lugar, pois tinha a impressão de que mesmo que tentasse retornar sozinha, Viper não permitiria.

No final da tarde do dia seguinte o grupo guiado por Samantha finalmente chegou ao sopé do monte onde vivia o homem que procuravam. Fernand tomou a frente a ergueu o braço em direção ao cume.

–Senhoras e senhores, bem-vindos ao monte onde vive Jack, o ferreiro. Foi aqui que eu quase morri enfrentando bichos pedregosos para consertar meu machado.

–Eu acho que ouvi esse nome em algum lugar. Não é um ferreiro que dizem ser muito talentoso, mas que não gosta de ser importunado? – Perguntou Yasmin.

–Sim, e o vimos em carne e osso. Ele pode até passar a impressão de ser mal-educado e antissocial, mas eu diria que é uma boa pessoa. – Comentou o soldado da terra.

–É a primeira vez que eu venho aqui. Alguém mais esteve nesse lugar? – Questionou Elbio, e como resposta Luna e Karin balançaram a cabeça negativamente.

–Estamos perdendo tempo, vamos encontrá-lo logo. Aposto que ele exigirá alguma missão antes de consertar a arma de Karin. – Disse William, já subindo a encosta.

Em vinte minutos todos já estavam diante da cabana onde vivia Jack, mas não havia sinal de que alguém estivesse por perto. Não subia fumaça alguma pela chaminé e o silêncio reinava. Luna foi até a porta e bateu duas vezes, mas não houve resposta. Quando já estavam pensando em desistir, eles ouviram uma voz masculina.

–Que diabos vocês estão fazendo aqui?

O ferreiro, vestindo apenas uma calça cheia de sujeira como de costume, descia uma trilha com dois baldes de água nas mãos. Samantha, William e Fernand ficaram aliviados ao perceber que a viagem não tinha sido um desperdício. Elbio, Luna e Yasmin se perguntavam se aquele homem realmente era confiável e se estava mesmo disposto a ajudar. Karin, por outro lado, correu até ele e o abraçou.

–Mestre Faith! Então você veio morar aqui?

–Karin, é você mesma? Mal te reconheci vestindo essas roupas laranjadas.

A garota o soltou e girou no mesmo lugar, sorrindo.

–São bonitas, não são? Ganhei como presente de minhas amigas.

–Espere um momento. Ele é Jack Faith?! – Exclamou a ex-capitã.

–Sim, é o nome do meu mestre, Yasmin. Por quê?

–Ouvi dizer que um dos sábios da corte de David Follet que se tornou um foragido há alguns anos atrás tinha esse nome.

–Mas que papo é esse? Quer dizer que ele é mais que um simples ferreiro? – Perguntou Fernand, um tanto desconcertado.

–É claro que sim, seu tonto! Não ouviu quando eu disse que ele é meu mestre?

Enquanto a manipuladora da luz ralhava com o da terra, Faith colocou os baldes no chão na frente de sua residência e abriu a porta.

–Tratem de se acalmar e entrem. Responderei suas perguntas assim que disserem o motivo de terem vindo aqui.

Notas finais
As verdades sobre o passado de Scythe e de Jack Faith. Capítulo 171: Duas Histórias Em breve.