Notas iniciais
Ainda não terminei a revisão, mas eis aqui um novo capítulo.
Vou contar uma pequena curiosidade sobre Lince Walters, que muitos devem ter percebido no capítulo anterior. Ele é canhoto.

General Modnar era um homem na casa dos quarenta anos. Possuía uma curta e bem aparada barba, um bigode discreto e cabelos curtos e espetados, grisalhos. Ele trajava uma armadura completa, à exceção capacete, de metal dourado. Detalhes em forma de linhas curvas e avermelhadas cruzavam o traje, terminando nas extremidades pontiagudas. O militar estava sozinho em seu escritório simples, com paredes de rocha sólida, uma mesa de madeira repleta de documentos, assim como uma estante e um balcão feitos do mesmo material. O que mais chamava atenção eram os objetos distintos que se esparramavam sobre o tal balcão, todos eles troféus de guerra tais como chifres, amuletos e armas.

O barulho incessante que vinha do outro lado da porta do escritório evidenciava que algo incomum estava acontecendo no quartel. Modnar decidiu conferir e, no mesmo momento em que deixou o recinto, deparou-se com um homem que jamais pensou que veria lá novamente.

-Agas Pyrath! O que veio fazer aqui?

Agas era o pai de Yasmin Pyrath e um dos homens mais respeitados de Chesord. Tinha aproximadamente a mesma idade de Modnar, mas já estava aposentado. Diferente do general, os cabelos do Pyrath eram de um castanho vívido, longos e repicados. Apesar do corpo atlético, Agas passava a impressão de ser frágil, um grave engano para quem fosse seu adversário. Seus trajes evidenciavam a nobreza a que pertencia, roupas negras e elegantes, com uma gravata da mesma cor que descia por baixo do sobretudo e uma espada longa presa ao cinto.

-Pensei que fosse óbvio, meu caro amigo Modnar. O exército de nosso reino sofreu um vexame sem precedentes nos últimos meses, fracassando totalmente em sua missão. Não posso simplesmente continuar em casa vendo a confiança do povo nos militares sendo destroçada.

-Mas depois do que houve com a sua filha eu imaginei que você...

Era evidente que Modnar estava muito desconfortável com a presença de Agas lá, temia que o nobre tentasse tirá-lo do comando e nem sequer sabia como conter seu nervosismo.

-Não posso fazer nada a respeito das escolhas de Yasmin, ela sabia muito das consequências. Além disso, não culpo a Ordem da Rosa Branca, eles simplesmente fizeram aquilo que tinham de fazer.

Agas não voltaria atrás em sua decisão, ele tinha certeza de que a vergonha pelo qual o exército de Chesord passou era culpa da incompetência de seus líderes. Estava na hora de mudar essa realidade.

-Agora Modnar, se me dá licença, eu tenho muito trabalho a fazer.

A atmosfera era fria e opressora na escura sala do trono de David Follet. Minúsculos filetes de luz entravam pelas janelas cobertas por panos enquanto o rei se perdia em seus pensamentos no final do recinto que mais parecia um corredor largo com um tapete em seu centro. O trono estava sob uma série de degraus na forma de semicírculo, um metro e meio acima do chão. O assento do regente era simples, sem adornos exagerados.

David possuía pouco mais de cinquenta anos, mas sua aparência era a de um homem acabado. Magérrimo, enrugado e com cabelos compridos e um tanto desgrenhados, brancos como a neve. Sua barba comprida era feia e mal cuidada. O contraste com suas roupas limpas e elegantes, que misturavam azul e preto, e com a majestosa coroa cravejada de esmeraldas era gritante.

O silêncio e a concentração do rei foram quebrados por passos que ecoavam pela escuridão. Um homem se aproximava devagar, sua aparência ocultada pelas sombras. Ele falou como uma voz forte.

-Meu rei, peço perdão pela demora, mas finalmente tenho informações definitivas sobre a situação dos reinos vizinhos.

-Então diga o que descobriu.

Até mesmo a voz do rei era cansada, um verdadeiro suspiro de um homem velho e fraco.

-Estávamos enganados em pensar que os demônios destruíram completamente a civilização fora de Chesord. Na verdade, eles forjaram um pacto e agora os outros reis não passam de fantoches, prontos para atender cada pedido de seus senhores infernais.

-Então não temos outra escolha senão ir à guerra?

-É lamentável, mas é a única opção que nos resta. Não demorará para que Empericia envie seus soldados para tomar este reino.

-Você é o melhor conselheiro deste reino, Banemare. Diga-me, o que sugere que eu faça?

David teve a impressão de ver um sorriso se formar no rosto do homem, mas não podia ter certeza.

-Temos que lutar com todas as forças. Devemos ignorar os problemas internos do reino e convocar todos os soldados, assim como os membros da Ordem da Rosa Branca, para lutar. É nossa única chance de sobreviver.

-Muito bem, então assim será.

A tarde começava a chegar ao fim, cedendo seu lugar à noite. Lince constatou isto enquanto mexia numa grande bolsa de couro que estava presa à cela de seu cavalo. Tirou de lá dois conjuntos de ração para viagem, alimento padrão para os soldados de Empericia, e estendeu um deles a Gabriel, que respondeu com uma expressão de nojo. O capitão não insistiu e devolveu um dos conjuntos para a bolsa.

-Não me culpe se passar fome, senhor alquimista.

-Nada nesse mundo me faria atentar contra meu paladar refinado dessa forma. Além disto, amanhã pela manhã já estaremos no Monastério da Deusa da Lua.

-Só espero que a comida das bruxas não seja também um atentado ao seu paladar refinado.

O olhar de desprezo do alquimista deixou bem claro que ele não estava gostando da atitude de Walters.

-Francamente, esperava que o rei fosse enviar alguém mais educado para me acompanhar.

Até aquele momento, Gabriel não havia desrespeitado o rei uma única vez, mesmo tratando seu companheiro de viagem como se fosse um ser inferior. Não se tratava de bajulação, Lince conseguiria notar se fosse o caso. Era lealdade, mas de uma forma que ele ainda não compreendia com clareza.

-Desculpe, Gabriel, não era minha intenção ofender. Se me permite a pergunta, você parece ser um homem bastante atarefado, então por que aceitou esta missão?

-O rei financia minhas pesquisas, portanto é apenas justo que eu atenda seus pedidos eventuais. Além disso, ele acredita que minha relação com uma das bruxas pode facilitar as negociações.

-Relação? Por acaso você-?

Gabriel cortou rispidamente a fala do capitão.

-Não tire conclusões precipitadas! A pessoa a quem me refiro é minha irmã mais nova, Gabrielle D’Illusie.

Notas finais
Lince descobre que as bruxas que vivem no Monastério da Deusa da Lua são muito... peculiares.
Capítulo 103: Negociação
Em breve.