Rose Kiss
9 Michael Ross
Notas iniciais
Tentei chegar o mais depressa possível perto de Lavi, mas quando lá cheguei já estava o grupo todo reunido.... E no meio, o corpo de um homem deitado no meio das flores. Lavi verificou a pulsação. Pela expressão dele percebi que já estava morto.
–Vou ver se encontro algo que o identifique. — Disse
– Ok, nos vamos ver se encontramos mais qualquer coisa. -propoz Lenalee.
Agora que me deixaram a sós com o cadáver, comecei a analisá-lo.
Era um homem com os seus vinte e tal anos, loiro, e devia ter a mesma altura que o Krory-vampiro. Estava vestido formalmente e usava chapéu.
Vasculhei os bolsos do casaco que o homem usava. Encontrei vários cartões de contacto: “Michael Ross, Jornalista vinte e quatro horas por dia no Holand Times.”
“Que originalidade”, pensei.
– Oi! Minna! Já sei qual vai ser a nossa próxima paragem. — Chamei-os.
– Então, encontraste alguma coisa? — Perguntou Lavi.
– Yup. Este aqui, — fiz zinal com a cabeça para o cadáver — chama-se Michael Ross e é jornalista. Olhem. — Mostrei-lhes o cartão.
– É melhor irmos andando…
– Sim, já lá vou, vão vocês andando, não me demoro nada.
– Arranquei uma tulipa ensaguentada e embrulhei-a num lenço. Não sei porquê, acho que nos vai ser útil.
Ao levantar-me, o Sol encandeou-me. Coloquei o braço por cima da testa para fazer sombra. Estranho, as flores pareciam que faziam reflectir toda a luz. Até mesmo os moinhos…
Enfim, não podia estar muito tempo aqui, os outros estão à minha espera para partir.
Dirigi-me para a carroça pronta a partir em viagem, a pensar onde poderia estar a inocência.
Já sobre rodas, Lenalee não hesitou em perguntar o que é que fui fazer.
– Não sei se vocês notaram, mas reparei numa coisa estranha.
Tirei o lenço que continha a planta, agora manchado de vermelho. Coloquei-o nas mãos de Lenalee.
– I-Isto é o que eupenso que é? — Disse Lenalee um pouco chocada, ao desembrulhar o bocado de tecido.
– Sim, as túlipas na verdade são brancas…
Lavi tirou a flor das mãos de Lenalee, e analisou-a detalhadamente.
– Não há dúvidas que é sangue… Mas custa-me acreditar que foi derramado tanto assim para cubrir todas as plantas. — O Bookman lá sabe…
– O que é estranho é os moinhos não estarem com nem um salpico de sangue — interveio Krory que até agora estava a assistir silenciosamente à conversa. Eu por acaso não tinha reparado nesse pormenor, mas realmente o vampiro-chan tinha razão.
Parámos em frente da sede do tal jornal. Lavi bateu à porta e esta foi aberta por um homem gordinho e pequeno (pequeno para um homem, porque tinha quase a mesma altura que eu).
– Os senhores, o que desejam? — Perguntou um tanto irritado por estarmos a incomodá-lo.
– Queriamos falar com o director disto… — Disse Lavi, como nosso porta-voz. — Pertencemos à Ordem Negra. — A expressão do homem pareceu mudar quando soube da nossa identidade.
– C-claro, entrem. Venham até ao meu gabinete. — Deu-nos passagem. Várias mesas cheias de papelada e ocupadas por máquinas de escrever. A desorganização reinava no espaço, e dava um aspecto desleixado àquele lugar.
À medida que íamos passando, olhares curiosos dos jornalistas que teclavam nas máquinas pousavam em nós.
O director abriu a porta para uma sala isolada da confusão daqui, Este sentou-se na sua secretária, seguidamente de mim e de Lenalee, pois havia apenas mais dois lugares.
– O que pretendem? Antes de mais, não falei nada sobre vocês, muito menos publiquei nada, por isso estou inocente.
– Não, não é nada disso — Interrompi o homem. — Estamos no meio de uma missão… Não posso revelar muita coisa mas encontramos um dos seus homens morto, num campo de túlipas que pertence aqui à cidade…
– Não pode ser, esse campo foi abandonado há vinte anos… — pareceu nervoso.
– Bom, para um campo abandonado, estava bastante bem tratado. Demasiado, até. — Disse Krory.
– Foi o Ross não foi? Bem me pareceu um pouco estranho ele não aparecer aqui às cinco da manhã, à hora que ele entrava.
– Senhor director, posso saber onde arranjou esse olho negro? — Perguntou Lavi.
– Eu juro! Eu não o matei! Não fui eu!
– Só queremos saber como o fez, não estamos a insinuar nada. — A delicadeza de Lenalee pareceu descontrair um pouco o cobarde homem.
– E-Eu não me lembro… Acordei de manhã já com ele. Podia seer qualquer coisa.
– Estou a ver. E não acha estranho nesta cidade haver muita gente ferida?
– Não, nem por isso. Não me quero meter nos assuntos dos outros. Mas há vários motivos. Maridos a bater nas mulheres, homens a serem maltrataados no trabalho… O mundo é cruel, sabia?
Não sei porquê, o homem barrigudo não me inspirava confiança nenhuma. Sempre a responder a perguntas precipitadamente, como se tentasse esconder alguma coisa, sempre a fugir com o rabo entre as pernas, e ainda por cima responde como se tivesse o rei na barriga. “Não me quero meter nos assuntos dos outros”. Tsc, tretas. O homem é jornalista.
– Assim tão cruel para toda a população deste lugar sofrer mazelas? Não sei como funciona aqui, mas acho que todas as cidades têm os seus pontos negativos, e não se vê tanta gente ferida como aqui.
– Eu não sei mesmo o que se passa. A maioria diz que não se lembra, cá para mim é para não serem descobertos que são vítimas. Mas, como já disse, não me quero meter nisso.
Eu ia continuar a minha “discussãozinha” se Lenalee não tivesse falado mais cedo que eu.
– Claro, claro, acredito no senhor. Sabe se Michael Ross tinha familia… Alguém próximo…?
– Oh, sim. Ele morava com a esposa.
– Podia-nos dar a morada? Gostariamos de falar com a sua esposa. — Perguntou Lavi.
– Sim, esperem um pouco.
– O homem começou a vasculhar papel atrás de papel, pasta atrás de pasta, até que, depois de se passarem alguns minutos, escreveu a morada num papelinho e entregou-nos.
Batemos à porta de uma pequena casa. Podia dizer que não ganhavam lá muito no final do mês.
Atrás da porta, apareceu uma mulher morena, de cabelos castanho claro comprido e olhos azuis. Usava um vestido azul simples.
– Peço desculpa por estar a incomodar, somos da Ordem Negra e infelizmente viemos trazer-lhe uma notícia muito triste. — Introduziu Lenalee. A mulher ficou um pouco assustada. Pudera, não é todos os dias que é abordada por estranhos exorcistas.
– Claro. Entrem por favor.
A senhora guiou-nos até à sua sala de estar que só tinha dois sofás, no qual nos sentámos depois de ela pedir para tal.
– É sobre Michael, não é? Ele ontem não veio para casa à noite.
– Hm… Como é que eu ei de começar… Sim, é sobre o seu marido — “Tentei começar mas Lenalee tocou-me no braço como se avisasse que fosse ser ela a falar.
– Senhora Ross… Viemos aqui pois achei que devesse saber por nós ja que encontrámos o seu marido, mas entristece-me dizer que ele não se encontrava nas melhores condições… — Mesmo a subtileza das palavras de Lenalee atingiram violentamente aquela pobre mulher.
– N-Não me digam que ele… que ele… — A rapariga tentava não chorar, ao cobrir o seu rosto com as mãos. O corpo, que não aguentava com a tristeza, tremelicava por todos os lados.
– Lamento imenso… — Continuou Lenalee. Foi a última gota. A mulher começou seriamente a chorar e Lenalee abraçou-a numa tentativa de a acalmar.
– Eu espero lá fora… — Disse Lavi.
– Vão… Eu ainda fico um pouco. — Respondeu Lenalee.
Aproveitei a boleia dos rapazes para fugir ao constragimento daquela situação. Eu não era boa ao lidar com pessoas, muito menos quando estas sofriam.
E assim ficámos, à espera de Lenalee na rua, com o vento a baloiçar os meus cabelos.
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