Rosas Flamejantes
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Melody Sparks
Thomas abriu a porta de casa e me deixou entrar primeiro, após me fazer limpar os pés no carpete da entrada. Ele tinha segurado meu braço, e erguido levemente às sobrancelhas, então olhou para o carpete, e depois novamente para mim. Eu acabei sorrindo levemente com isso.
Pude colocar os pés no piso de madeira da casa quando já estava com as botas limpas. Thomas entrou logo depois, e foi me seguindo pelo caminho. Até parecia que a casa era minha, e que eu conhecia todo o local, mas na verdade, não sabia de praticamente nada dela. Muito menos para onde ir.
E isso fez com que eu parasse na metade do caminho, e Thomas tomou a frente.
– Acho que deveríamos ir para a sala. – sugeriu.
– Me parece bom. – dei de ombros e segui o loiro pelo caminho até o cômodo.
O que vimos ali nos fez inclinar levemente a cabeça para o lado.
Ethan estava sentado no sofá com uma garota em seu colo. Ela usava jeans e uma blusa preta. Tinha o cabelo loiro batendo quase na metade das costas e não vi o seu rosto, por ela estar de frente para Ethan.
– Hm. Eles chegaram. – disse Ethan, e a loira saiu de seu colo, logo caminhando até nós. Ela tinha um sorriso moldando os lábios e olhos azuis acinzentados.
– Você deve ser a Melody.
Acho que eu não deveria me surpreender com o fato de Ethan estar com uma garota, mas eu estava meio confusa. Tentando assimilar os fatos. Olhei para Thomas, e ele sorria. No mínimo, era amigo da loira. Portanto ela já veio aqui antes.
– Mel, essa é a Liz. Uma amiga nossa, e eu a chamei aqui para te ajudar.
– Ajudar em que? – perguntei.
– Primeiramente com sua transformação, e também o motivo dela. Ainda não sabemos por que começou com o processo de transição.
Assenti e olhei para a garota. Parecia ser simpática, então estendi minha mão para ela, que a apertou, com um sorriso no rosto.
– Você vai mesmo tentar me ajudar?
– É claro que sim, eu não vejo porque não. Acho que merece respostas.
Sorri com as palavras e não disse nada, porque Thomas começou a falar.
– Merece respostas e descanso. Não que ir dormir? – ele me olhou e eu franzi o cenho.
– Não... Eu não quero dormir. – disse, meio sem graça. Senti-me uma criança.
Liz riu baixo.
– Não seja um chato, Thomas. A garota é uma vampira agora, e somos noturnos. Ficamos acordados a noite toda. Ela tem que se acostumar.
– Tudo bem. Fiquem à vontade. Qualquer coisa é só pedir pizza. – disse Thomas, após revirar os olhos.
Eu acabei rindo e observei Elizabeth indo até Ethan e tirando o celular do garoto do bolso. Ele a olhou confuso por um momento, mas depois acabou deixando de lado e somente perguntou o que ela queria com aquilo.
– Você vai pedir as pizzas, tudo bem? Aquelas de sempre. – ela fala como se estivesse dando uma ordem, porém com leve tom de brincadeira. Depois ela se voltou para mim. – Eu quero conversar com você.
Eu franzi o cenho, mas depois acabei assentindo. Não faria mal algum conversar. Portanto deixei com que Elizabeth segurasse meu pulso e me guiasse por uma série de corredores. Em alguns deles, que pareciam mais antigos, a madeira do chão fazia ruídos conforme nossos passos.
Após virar mais um corredor, o ambiente ficou mais claro e o piso parou de ranger, parece que as coisas estavam mais novas naquela parte da casa. Como se tivesses escolhido o que valia a pena reformar.
Paramos diante de duas grandes portas de madeira. Elizabeth as empurrou, e as portas se abriram, revelando uma biblioteca.
Arregalei levemente os olhos e senti que estava sorrindo. Fui puxada pelo pulso mais uma vez e andei por toda a biblioteca com a loira. Ela parecia estar mesmo procurando alguma coisa, e eu estava me perguntando o que.
Estávamos entre duas estantes e eu olhava os livros nas prateleiras, quando vi Elizabeth retirar um livro grosso de uma das estantes e se sentar no chão.
– Vem aqui. – me chamou e eu me sentei ao seu lado.
Ela passava as pontas dos dedos pela capa do livro. Era um livro enorme, com capa de couro e aparência antiga. Mas acho que para vampiros, nada deve ser tão antigo assim.
– Melody, – começou ela. – esse livro explica algumas coisas sobre os vampiros. Coisas que precisa saber. Entende? É claro que podemos lhe contar tudo o que quiser saber, porque temos experiência. Mas se tiver interesse, leia.
– Tudo bem. Vou ler sim. – voltei o meu olhar para ela. – O que quer conversar comigo?
– É sobre a sua transformação. Quero que me diga tudo o que sabe.
– Eu não sei de muita coisa, na verdade. – dei de ombros. Isso tudo me frustrava. Eu morri e voltei, e não faço a mínima ideia de como ou por quê.
– Não me importo, eu estou aqui para lhe ajudar a descobrir toda a história. Mas me fale o que aconteceu. – disse Elizabeth, e eu assenti.
– Eu havia saído da sede da Organização, e ido para casa ficar com a minha família. Minha tia havia dito que teria um jantar, e por mim estava tudo bem. – fui explicando. – Pouco tempo depois da minha chegada, chegaram os convidados. Lewis e Charles Beaumont. – bufei.
Elizabeth ergueu as sobrancelhas e eu dei de ombros, continuando com minha narrativa.
– O jantar até que correu bem. E quando terminei de comer, me retirei, indo para o meu quarto. Charles foi até lá e tentou me matar. – respirei fundo. – Porém não conseguiu, porque Jeremy, meu primo, chegou lá antes que ele concluísse a ação.
– Então como que você morreu? – Elizabeth franziu o cenho.
– Meu primo me convidou para ir ao cinema com ele e os amigos, e eu aceitei. Muito tempo sem sair. – encolhi os ombros. – E lá eu encontrei com Charles e Ethan. Como se me perseguissem. E tudo bem que tentei matá-los, mas é porque é isso o que eu faço. Eu sou uma caçadora, ou pelo menos era, e o meu dever é matar vampiros. Só que aí eu corri. E senti o impacto de um carro contra mim. E aí eu morri. – ri, amarga.
– É tudo o que sabe?
– Eu disse... Estou perdida.
– Bem, para começar, eu tenho que te falar como pessoas viram vampiros. Acontece de duas formas. A mais comum é quando um vampiro drena quase todo o sangue de um humano, e isso faz o que a transformação ocorra. Geralmente, não tomamos muito sangue das vítimas, embora tenha alguns desajustados que matam a vítima. Mas às vezes acontece um meio termo, tomamos demais, mas não matamos. E aí acontece.
– E qual é a outra forma?
– É quando, de alguma forma, você acaba com sangue de vampiro em seu organismo. Se você morrer com o sangue no corpo, volta à vida no processo de transição. Mas não é muito comum uma pessoa ter sangue de vampiro no corpo, porque não costumamos dar o sangue para mortais. Então me diga Melody, algum vampiro já mordeu você?
– Claro que não! Nunca.
– Então já podemos descartar a primeira opção. Agora o que resta saber, é quem te deu sangue. – ela me encarou e ergueu as sobrancelhas.
– Eu nunca tomei sangue. – afirmei.
– Melody, você morreu e voltou à vida. Você tinha sangue no corpo. Precisamos saber como e por quê.
E eu fiquei quieta. Somente pensando. Em todos esses anos eu nunca fui mordida. E muito menos tomei sangue de vampiros. Nunca tive esse tipo de contato com vampiros. E eu nem iria querer. Mas como Elizabeth disse, eu estava com sangue de vampiro no corpo.
Mas eu me lembraria de ter tomado sangue de algum vampiro por aí. E isso não aconteceu. Só aconteceria se eu estivesse inconsciente no momento. Parei por um momento quando notei certa lógica nas coisas.
Respirei fundo antes de me levantar e deixar a biblioteca, sem nem olhar para a loira. Ouvi as portas pesadas baterem e ignorei.
Eu refiz todo o caminho até chegar a um corredor e parar diante de uma porta de madeira. Eu não me preocupei em bater, nem nada do tipo, somente abri. Dei um passo para dentro do quarto e olhei em volta, deixando meu olhar passar pelo quarto, se acostumando com a escuridão do local, até repousar em Charles.
O moreno estava deitado na cama, com os braços atrás da cabeça e as pernas cruzadas nos tornozelos. Não vi o azul de seus olhos, pois estavam fechados. Ele estava vestido de preto, e respirava calmamente.
– Sabe Melody, não é legal ficar olhando as pessoas enquanto dormem. – ouvi a voz de Charles preencher o ambiente e vi seus lábios se mexerem. Mas seus olhos permaneceram fechados.
– Mas você não está dormindo. – respondi, sem paciência para jogos.
– Eu poderia estar. – o moreno abriu os olhos e me encarou.
– Mas você não está. – respondi séria.
– O que tá fazendo no meu quarto? – ele se sentou.
– Eu quero saber por que você acabou com a minha vida. – comecei a marchar na direção do garoto, sentindo a raiva correr pelas minhas veias. – Quero que me responda por que me deu o seu maldito sangue. Por que não me deixou morrer!
Eu já estava na frente do vampiro, e batia com o meu dedo contra o seu peito. Ele me encarou e se levantou da cama. Fui obrigada a recuar um passo, e tive que erguer o olhar para poder encarar o moreno. Ele parecia irritado.
– E por que acha que eu te daria o meu maldito sangue? Para salvar a sua vidinha inútil? – cuspiu as palavras.
Senti o calor da raiva subir para o meu rosto e meus caninos cortarem meu lábio inferior. E ele riu irônico. E ficou com aquele sorrisinho de canto moldando os lábios, totalmente... Irritante.
Isso foi o suficiente para que eu voasse em seu pescoço. Rolamos por cima da cama com o impacto, e caímos no chão. Eu estava por cima, mas ele agarrou meu pescoço e me empurrou.
Bati com a cabeça no piso e o garoto me virou, me erguendo pelo pescoço. Cerrei os punhos e virei um soco contra o seu maxilar, fazendo com que ele me soltasse e eu caísse de pé. Tentei acertar outro soco.
– Não adianta. Eu sou mais forte que você. – sorriu torto e agarrou meu pulso, apertando. Trinquei os dentes e me soltei, pronta para retrucar.
– Mas eu tenho mais técnica que você. – me preparei para um chute e por alguns segundos pude jurar que daria certo, até sentir a mão de Charles envolver meu tornozelo, me puxando. Em uma série rápida de movimentos, eu estava com as costas no peito de Charles e sendo sufocada por ele.
– Não, você não tem. – afirmou e apertou mais o meu pescoço. Eu sentia que estava sufocando e queria tentar me soltar a qualquer custo. Debater-me. Mas depois notei que tudo isso era somente uma impressão minha. Se eu não quisesse, não precisaria respirar. Ele só queria que eu sentisse como se estivesse sufocando e morrendo. Novamente.
Antes que me soltasse, o Beaumont me colocou contra a parede de seu quarto, ao lado da porta, e se aproximou, para que assim eu não saísse de lá. Ao olhar para o garoto, vi seus caninos alongados e suas pupilas dilatadas. Arquejei quando ele começou a aproximar o rosto, e tentei chegar mais para trás, porém era impossível.
– Eu só vou lhe avisar uma vez. Eu não te dei meu sangue, eu não acabei com a sua vida. – ele respirou fundo antes de continuar. – E da próxima vez que você resolver invadir o meu quarto, para gritar comigo e me acusar, eu não vou ser gentil. Então eu espero que você pense melhor, Sparks. – os seus caninos roçaram em meu pescoço.
Charles me soltou e me empurrou para fora do quarto, fazendo com que eu saísse aos tropeços. Ouvi a porta batendo atrás de mim e fiquei encarando a parede à minha frente, atordoada.
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