Melody Sparks

Dei um pequeno salto do penúltimo degrau da escada até o chão, caminhando até Thomas com um sorriso de orelha a orelha no rosto, de tanta satisfação que eu estava sentindo no momento. Por enquanto, eu nem queria pensar em como estaria o humor de Charles quando eu voltasse, porque eu simplesmente não conseguia me importar com isso.

– Já podemos ir. – informei ao loiro e saí da casa logo em seguida, colocando minhas mãos nos bolsos da calça enquanto o esperava.

– Parece que alguém está de bom humor. – soltou uma risada nasalada e eu somente sorri de canto.

– Pode-se dizer isso. – girei meu corpo, virando para o garoto enquanto caminhava de costas. – Onde pretende me levar?

– Estava pensando em uma festa bem lotada, onde possamos nos alimentar o quanto quisermos sem fazer nenhum estrago muito grande. – comentou.

– Me parece bom. – voltei-me para frente, porém mantendo atenção em Thomas e nos sons a minha volta. – O que recomenda?

O loiro sorriu torto e vi uma faísca de diversão passando por seus olhos verdes.

– Vem comigo. – caminhou mais rápido até estar na minha frente. Não demorou para sairmos do meio das árvores e logo a floresta ficou para trás. Thomas começara a caminhar mais rápido e eu acompanhava da forma como podia. Quando nos aproximamos de uma esquina, só vi o borrão do garoto enquanto ele corria.

Minha visão ajustou-se quase que automaticamente, e pude perceber os movimentos do loiro com mais clareza. Clareza o suficiente para reparar quando ele piscou para mim e me lançou um sorriso torto. Como um convite para que eu o acompanhasse.

Acho que estava na hora de descobrir minha nova velocidade. Disparei atrás do garoto até que o ultrapassei, parando bem a sua frente, fazendo com que ele diminuísse a velocidade em tempo recorde.

– Pra que tudo isso? – indaguei.

– Decidi que não vou só te ensinar a se alimentar, Sparks, e sim te ajudar a descobrir do que é capaz.

– E não acha que já sei disso? – ergui uma sobrancelha.

– Não acho. Ainda tem muito para aprender, e eu posso te ensinar. – colocou as mãos dentro dos bolsos da jaqueta. – Vai querer?

– Bem, eu não neguei, não é? – ri baixo quando o garoto ergueu as sobrancelhas, logo antes de dar de ombros.

– Chegamos, caçadora. – indicou o outro lado da rua com um movimento de cabeça. Havia uma fila enorme de homens e mulheres, e também dois seguranças guardando a porta.

Thomas atravessou a rua e foi direto até o segurança, comigo ao seu alcanço. Não disse nada, mas tive certeza de ter visto suas presas, e o homem não precisou de mais nada para nos deixar entrar.

– O que foi aquilo? – falei perto do ouvido de Thomas.

– Digamos que temos benefícios por aqui. Lembra-se do que te ensinei?

– Perfeitamente. – garanti.

– Então te dou meu voto de confiança. Divirta-se. – e logo depois ele havia desaparecido na multidão. Respirei fundo e deixei-me guiar pela música e meus instintos, mesmo que não tivesse tanta confiança neles.

Misturei-me no meio das pessoas, dançando e lembrando de quando costumava fazer isso com as garotas, nas noites de folga. A diferença é que não era num lugar infestado de vampiros. Mas eu sobreviveria a esta noite.

Olhei em volta e todas as pessoas estavam dançando sem se preocupar com nada, e a única coisa que fiz foi me juntar a elas. Num meio de corpos energéticos, bêbados e suados. Tal observação me fez pensar se eu ainda conseguia ficar bêbada, e talvez eu descobrisse mais tarde. Embora não estivesse muito à vontade com a possibilidade de virar uma vampira descontrolada. Resolvi ignorar isso por ora.

Eu me movia no ritmo da música enquanto olhava em volta, reparando no rosto das pessoas, procurando alguém que parecesse interessante, para que eu finalmente pudesse agir. Por mais que o local estivesse escuro e que as luzes coloridas não ajudassem em muita coisa, diferente dos outros, eu enxergava perfeitamente, sem ter meus sentidos confundidos.

Um homem de cabelos e olhos castanhos que aparentava certa de vinte e três anos dançava a poucos metros de onde eu estava, e quando seu olhar encontrou com o meu, abri um sorriso de canto e continuei a rebolar no ritmo da música. Logo eu estava dançando de frente para o moreno, me aproximando cada vez mais, até que meus lábios roçaram em sua pele.

– Não grite. – disse, quase que embolado por conta das presas que já cresciam, e o mordi, sentindo meus dentes perfurando a pele e o sangue explodindo em minha boca. E quando comecei a sugar, esqueci-me de parar, até que as palavras de Thomas martelaram em minha cabeça.

Afastei-me do pescoço do cara e olhei em seus olhos.

– Se esqueça de mim e do que aconteceu. Volte a se divertir. – disse e saí de perto dele, indo para o outro lado, para procurar pelo outro vampiro.

Sentia cheiro de bebidas, suor, e do sangue que corria nas veias das pessoas que estavam por ali. Minha garganta arranhou assim que identifiquei o cheiro, mesmo eu tendo me alimentado recentemente. As presas rasgaram meu lábio inferior antes que eu me desse conta, e eu avancei na garota que passava por mim, cambaleando de tão bêbada.

Não me lembro de mandá-la ficar calada, mas creio que o fiz, porque a garota de cabelos roxos mal abriu a boca. O sangue dela tinha um gosto diferente, mas não parei de tomar por causa disso, não imediatamente, pelo menos. Só parei de tomar seu sangue quando senti que o gosto incomum era álcool e que ela estava começando a ficar fraca. A hipnotizei para esquecer-se do que acontecera, embora duvidasse de que ela se lembraria de qualquer coisa que fosse desta noite.

Comecei a me desviar das pessoas na esperança de tropeçar com Thomas, porque já duvidava estar no controle de meu próprio corpo e de minhas ações. Tentava não prestar atenção nos cheiros, focando apenas em minha visão, para que encontrasse o loiro o mais rápido possível. Até que o vi prensando uma loira contra a parede do lado com menos iluminação.

Parei onde estava assim que vi a cena, e ergui uma sobrancelha involuntariamente. Cruzei os braços abaixo dos seios e esperei que ele terminasse o que estivesse fazendo lá. Ele tinha o rosto enterrado no pescoço dela e a garota mantinha os olhos fechados e mexia no cabelo do loiro.

Esperei para que ele a fizesse esquecer que ele se alimentara dela e finalmente me notasse, mas não foi isso o que aconteceu, já que quando tirou o rosto do pescoço da loira, ele a beijou. Não senti o cheiro do sangue da mulher, e de longe consegui ver que ele não a mordera. Saí dali quando ele a ergueu pela cintura e a garota passou as pernas em volta dele, antes de ser mais pressionada contra a parede e o corpo de Thomas.

“Te dou meu voto de confiança.”

Bufei quando as palavras de Thomas ecoaram na minha cabeça, o que só fez com que eu ficasse com mais raiva do que já estava. Duvidava que aquilo fosse um voto de confiança e não um modo educado de dizer “se vire sozinha, tenho mais o que fazer”.

Rolei os olhos e decidi esquecer. Nunca fui do tipo de lamentar o abandono ou qualquer coisa do tipo, e não é agora que vou ser, mesmo que bêbada. Portanto eu esqueceria o que acabara de ver, e voltaria a dançar, como se nada tivesse acontecido.

Minhas gengivas latejaram e eu tentei resistir ao impulso de atacar alguém, sem muito sucesso, já que comecei a atrair o primeiro garoto que vi de forma involuntária, notando o que estava prestes a fazer quando minhas presas roçaram na pele de seu pescoço, e ainda assim, não senti a mínima vontade de parar o que estava fazendo.

Quando sussurrei para que o garoto não gritasse, e estava prestes a me desligar totalmente do mundo ao meu redor, senti um cheiro familiar e ouvi uma voz que foi capaz de me fazer parar no exato momento em que ela chegou até mim. Ergui os olhos e vi ao longe, no bar, um garoto moreno conversando com os amigos.

Encontrar os olhos dele fez com que um arrepio doloroso atravessasse minha espinha e memórias invadissem minha mente sem aviso prévio. Uma série de imagens, vozes, cheiros e sensações. Como um flashback de toda a minha vida, passei por tudo até chegar ao dia em que saí com Jeremy para ver filmes com seus amigos, e finalmente reconheci o moreno sentado no bar.

“– Prazer em conhecê-la novamente, Mel. Eu sou o Daniel. – ele depositou um beijo em minha bochecha e se afastou novamente, como se nada tivesse acontecido.”

Eu continuava no meio de todas aquelas pessoas, agarrada ao garoto desconhecido, com uma leve ideia de que atrapalhava algumas pessoas que circulavam por ali.

Conseguia sentir o cheiro do sangue que exalava do corpo do garoto, quase conseguia ouvir o som dele correndo pelas veias mais alto do que a música que tocava. Porém meus instintos batiam de frente com o meu controle, minhas lembranças. Porque eu simplesmente não poderia me alimentar de um inocente enquanto me lembrava de minha antiga vida. Enquanto lembrava-me de Jeremy, e de como era viver como uma caçadora.

Empurrei o garoto para longe, não antes de sussurrar para que ele se esquecesse de minha existência e do que acontecera. Afastei-me do lugar com velocidade, deixando para que outros segurassem o desconhecido. Cobria a boca com a mão, pois ainda sentia as presas arranharem meu lábio inferior, ameaçando cortá-lo a qualquer momento.

A música alta pareceu diminuir para que eu só conseguisse ouvir o som de meu coração batendo contra o peito, quase me ensurdecendo. O único cheiro que eu sentia era o da mistura de sangue e suor, de todas aquelas pessoas dançando e bebendo por ali. A sensação de necessitar de algo e não poder ter, chegando ao ponto de que qualquer parte de seu corpo lateje, é horrível.

Cambaleei até a parede mais próxima, lançando-me contra ela com força, deixando com que o impacto levasse o meu ar embora, distraindo-me da sede por pequenos segundos. Minha visão embaçou e eu respirei fundo, fazendo meu pulmão encher-se com ar novamente. Essa era uma força com a qual eu ainda não havia acostumado. Olhei para cima, observando a fina rachadura que abrira na parede, indo até o teto.

Estava distraída com a minha dor a ponto de não notar que minhas presas já haviam se retraído, embora a garganta ainda estivesse seca e arranhando. A mente ainda estava bagunçada, mas meu controle voltava aos poucos, como se fosse a dormência indo embora lentamente, lhe devolvendo os sentidos.

Tudo o que sabia era que precisava sair correndo ali, ir embora rápido, sem sequer olhar para trás. Sem me importar com Thomas, que por sinal também não se importava muito comigo no momento. Só o que me interessava no momento era a minha sanidade e como mantê-la, e eu sabia que não era ficando ali no meio de todas aquelas pessoas e muito menos de Daniel. Pois tudo nele só me lembrava do dia em que perdi tudo.

Tomei fôlego e impulso para sair dali, mesmo sem nada me impedindo – além da minha consciência que insistia em me dizer que eu ainda não tinha controle o suficiente para passar no meio de todas aquelas pessoas ­­–, e ergui o rosto, tentando mostrar para mim mesma que estava confiante e sem muitos problemas.

Olhei em volta, absorvendo detalhes de todo o lugar, procurando a maneira mais fácil de sair ali, sem esbarrar em muitas pessoas, para que eu não causasse um estrago por onde passasse. Meu corpo parecia travar uma luta contra o álcool que estava presente no sangue que eu consumira da garota de cabelos roxos. Por alguns momentos eu me sentia zonza, e em outros, perfeitamente bem.

Provavelmente foi essa confusão de sentidos que me impediu de enxergar que alguém se aproximava de mim com a violência presente no olhar e modo de andar. Acordei para a vida quando minha cabeça bateu contra a parede e pude até ouvir a rachadura aumentar. Abri os olhos lentamente, pronta para encarar o rosto de meu agressor e revidar. Não sei o motivo ter me surpreendido a encontrar os olhos azuis profundos de Charles e a boca entreaberta do moreno, deixando as presas à mostra.

– Surpresa, Sparks? – ele ergueu as sobrancelhas. – Não pensou que eu deixaria passar em branco o estrago que a senhorita fez ao meu pescoço, não é? – a raiva passou por seu olhar, mas deu lugar a diversão, e seus lábios moldaram um perfeito sorriso sádico.

Notas finais
Se eu contar que metade do capítulo já estava pronta faz tempo, vocês vão me bater? Sinto muito pela demora, mas agora tá aqui. Espero que se agradem. Borboletas Azuis