Rosas Azuis E Vermelhas
2 I promise I'll help you, blue rose.
Notas iniciais
Gemi. Garry. O amigo Garry. Será que ele foi... Morto? Não pude mais conter o choro ao pensar nessa terrível possibilidade. E outra mensagem foi escrita na parede:
"Por que você não me ouviu? Não chore, Ib!"
Uma rosa azul quase sem pétalas estava caída nos meus pés. Segurei-a firmemente pelo caule, ainda chorando... Para minha surpresa, ela se regenerou por completo, em menos de um minuto, diante dos meus olhos! Era as minhas lágrimas, que a molharam, e fizeram-na reviver... Mais palavras surgiram, desta vez na parede e com uma caligrafia mais legível.
"Isso prova que lhe devo a vida! Me salvou novamente!"
— Cansei disso! Apareça logo! (Gritei para o nada, farta dessa suposta timidez.)
Sem resposta. Soltei um suspiro, tentando não dar um chute na parede. Algo estava diferente em mim. Não sei o quê. Meu coração batia mais forte do que de costume... Senti um frio no estômago, que raramente sentia.
— Obrigado, Ib. Eu agradeço-lhe muito. Senti saudades de você. Pode vir me dar um abraço, pequena?
Virei o rosto bruscamente: E ele estava lá. A melhor pessoa que alguém pode desejar ter como amigo. Como não suportava mais um segundo daquilo, corri mais uma vez naquele maldito dia, como uma maluca completa. No entanto, quando eu estava prestes a saltar em seus braços, uma espécie de espada atravessou seu peito, me dando um dos maiores sustos da minha vida.
— NÃO! (Berrei, tão alto ponto de machucar minha garganta.) GARRY, NÃO!
Porém, nenhuma gota de sangue foi sequer derramada. Garry não parecia estar sentindo a menor dor, para minha surpresa. Pelo contrário, ele riu de um jeito tão assustador que fez meu coração acelerar de medo. Caí de costas no chão, chutando o ar, me sentindo nervosa, confusa, triste e enfurecida. Tudo ao mesmo tempo, resultando numa sensação absolutamente horrorosa. E ele sumiu como se fosse fumaça se desfazendo. Por trás da aparente miragem, havia... Outro Garry! Mas este andou apressadamente até mim e se ajoelhou.
— Ib! Estava tão preocupado! Você... Está bem?
Como não respondi devido a mistura de sentimentos dentro de mim, ele respirou fundo, e disse, afastando alguns fios do meu cabelo de meu rosto.
— Aquele... Ou melhor, aquilo era uma versão escura de mim. Uma versão fantasma, pode-se dizer. Não entendo como ele sequer ousou tocar em você! Por que continuou seguindo as pétalas da minha rosa, eu lhe disse para não fazer isso, Ib!
— Desculpe pelo que vou fazer agora. (Murmurei.)
— Huh? O que você vai fa...
Interrompi-o, já que cinco segundos depois estava soluçando, agarrada no seu velho, bom e acolhedor casaco rasgado. O verdadeiro Garry acariciou minha cabeça, hesitante.
— Eu entendo, eu entendo... É normal ficar triste. Pode me dizer o que quiser, eu vou lhe escutar. (Garantiu ele, num tom protetor e confidente.)
— Como você veio parar aqui? (Perguntei.)
— É uma longa história... E não é das mais felizes. Não quero te assustar, Ib.
— Me conte, Garry. Por favor... (Supliquei, tentando me acalmar.)
— Tudo bem. Você tem o poder de convencer os outros com muita facilidade, é incrível! Mas sabe o que eu reparei?
— O quê?
— Não é estranho... Sermos tão próximos, e não sabemos o nome completo um do outro?
Dei um sorrisinho, agora com a cabeça em seu colo. Ele fez o mesmo, ainda afagando meus cabelos. Então percebi uma coisa: Eu me acalmo surpreendentemente depressa quando estou ao seu lado.
— Ib Platehouse Von Shellwetz.
— Hum, que nome digno para vossa majestade! (Zombou Garry.) Alteza, eu sou o cavaleiro Garry Wodehouse Plichota Wolf! E desde o dia que nos conhecemos, sou um JOVEM herói, tendo apenas 21 anos! E minha senhora parece ter 19, estou correto?
Acenei positivamente com a cabeça, rindo abertamente agora. Este sim, soava o antigo Garry. O que eu conheci dez anos atrás. O que me explicou o que eram Quebra-Cabeças de leite e Macarons¹. O que prometeu que iriamos sair dali vivos e intactos. E o que fazia dar gargalhadas com seus gritos agudos e engraçados.
— Ei, você está me enrolando, Garry! Conte a história!
Ele abaixou a cabeça, mas ainda tinha um leve traço de riso em seu rosto.
— Eu tinha esperanças de lhe distrair... Mas vamos lá, então!
"Bom, quando nos despedimos, voltei para casa, como qualquer um faria. Mas aqueles dias seguintes a nossa aventura de terror não foram fáceis para mim. Tinha pesadelos durante a noite, e de dia, pensava sobre tudo aquilo intensamente. O problema foi quando tentei apagar aquilo da minha mente. Conheci uma garota igual a Mary, tanto mentalmente quanto fisicamente. Viramos grandes amigos. Mas ela avisou que iria morar para a Holanda com os pais. Para darmos o último adeus, convidei-a para ir a minha casa. Ela concordou."
— E depois? (Insisti.)
— Ela era realmente a May. Me deu uma paulada na cabeça com um guarda-chuva e eu desmaiei. Desde então, estou aqui, preso do lado de dentro e do lado mais sombrio desta galeria...
Silêncio.
— E como você poderia sair daqui, Garry? (Perguntei, segurando sua mão gelada.)
— Não sei. A Mary esconde a resposta para a sua pergunta num lugar que não consigo entrar mais ali, de jeito nenhum, por alguma razão que eu desconheço: O coração do caderno de desenhos.
— Eu vou te ajudar, Garry!
— É perigoso demais, não posso fazer isso com você! Eu fico aqui, basta você... (Ele parou no meio da frase, aparentemente sem saber o que dizer.) AH, IB!
— Não, eu não deixo você ficar aqui! Estou de implorando, Garry, por favor, deixe-me te ajudar, confie em mim!
— Não vou me perdoar se você se ferir, já lhe me afastei de você uma vez, não quero lhe perder de vez agora!
— NÃO IMPORTA! (Gritei, nervosa.) Eu só quero ter você de volta pra mim!
Ele olhou para mim de um modo altamente desesperado, com aqueles olhos escuros e profundos. Apertei sua mão com mais firmeza. Agora não há mais jeito de me fazer mudar de ideia. Não agora que eu o reencontrei: Eu sou capaz de salvá-lo, tenho certeza! Eu consigo, sim.
— Você... (Começou ele.)
— ... Sim, eu vou te salvar. Não fique preocupado, tudo bem?
— Tudo bem, Ib... A partir de agora, lembre-se que por você, sou capaz de tudo.
Ele parecia mais calmo, o que fez com que eu me sentisse feliz. Corei ao repetir mentalmente o que ele tinha falado agora a pouco... Por alguma razão idiota, com certeza. Só sei que eu senti algo diferente ao fazer isso.
— Hnm... Obrigada, Garry.
— De nada!
Eu sempre tive certeza do que eu iria acontecer quando eu o reencontrasse Garry na galeria... Mas agora... As coisas vão se repetir. Disso sim, eu tenho certeza.
Fale com o autor