Rosa dos Ventos
7 VII • Meu sucesso excepcional e suas consequências
Notas iniciais

— A ROSA DOS VENTOS. UM GUIA. Um objeto de direcionamento para todos aqueles que estão perdidos e se importam o suficiente em seguir o caminho certo. Mas, muito mais importante que isso... o símbolo de nossa escola.
As luzes da sala foram acesas, interrompendo parcialmente meu estado de sonolência avançada. Apesar do incômodo, resisti bravamente e mantive a cabeça encostada na parede. O Professor Leal caminhou cerimonialmente do interruptor até ao lado de sua mesa, apoiando-se sobre ela e encarando-nos como se mal esperasse para encher até a borda o buraco vazio que eram nossas mentes.
— E isso não foi uma coincidência. Os fundadores desse nosso renomado Internato, no seu excelente domínio no campo de simbolismos e referências, instituiram a Rosa dos Ventos como nossa insígnia de maior poder. Ah, e também não esqueçamos do Leão — Ele disse, curvando-se sobre o notebook e substituindo a estrela de quatro pontas longas e quatro pontas curtas exibida no Data Show por um leão estilizado e carrancudo. —, emblema secundário que adorna nossas portas, troféus e o corrimão das escadas. Ele nada mais é do que o resistente condutor daqueles que almejam a glória da vida correta e...
Como um sinal da piedade divina, o sinal militaresco e enjoado zumbiu ao longe, anunciando o fim da aula. O Professor Leal arrumou rapidamente seus pertences, como se a ideia de descumprir o dever – no caso, atrasar-se para a aula seguinte e fazer o próximo professor esperar. – fosse absurdamente inaceitável. Ele segurou com incrível destreza o notebook e a pilha de livros que trazia eternamente consigo e num instante desapareceu pela porta.
Reprimi um bocejo. Aquele definitivamente não era o meu dia. Atrás de mim, Denis grunhia algumas músicas que, pelo que me parecia, deveriam ser de alguma banda de rock oitentista muito sem-noção.
— Yzieeaarrghh... hun, ei, ei. — Ele falou, dando um chutinho na minha bunda por detrás da carteira. Eu definitivamente precisava adicionar a atividade "Cobrir o Espaço Vazio Abaixo do Encosto da Carteira com a Mochila" na minha agenda, ou algo do tipo. — Ei, viado, me escute. Já soube dos boatos? Parece que o professor Leal tá de encrenca com o Rondarolli. Tão dizendo que algo foi roubado e ele se responsabilizou. Ah, pensei que esse dia nunca fosse chegar, ver o engomadinho se ferrando...
Virei-me para ele, encarando-o com frieza.
— Escute, eu não dou a mínima para a vida do Professor Leal. Aliás, você nem sequer deveria ter a coragem de se dirigir a mim depois do que fez naquele dia. — Respondi, e voltei-me novamente para a frente. Ouvi ele dar uma risada idiota.
— E você nem sequer tem ideia de como teve sorte. E eu não estou me referindo ao fato do babaca do Nathan ter aparecido, e sim ao de que outros garotos seriam muito mais violentos. Você não faz a mínima ideia do que eu já presenciei.
Um arrepio tomou conta de meu corpo. Senti o olhar de gato de beco dele perfurar as minhas costas.
— Você... você está blefando, e não se engane achando que foi um exemplo de gentileza, porque...
— Eu digo isso para seu próprio bem, viado. Acho que aquele seu amiguinho do segundo ano também já deve ter te avisado: arranje alguém, ou vai ser ainda pior caso você caia nas mãos erradas.
Nesse momento um som de botas marchando pesadamente introduziu-se à sala, seguido pela figura musculosa da Professora Margarida, que apareceu pela porta como um general adentrando à trincheira inimiga.
— Página quinze. Advérbios. Vocês têm trinta segundos para ler o texto e responder até a décima questão. AGORA! — Ela gritou, sem nem mesmo pôr os livros que trazia nas mãos sobre a mesa.
Antes de obedecê-la, olhei novamente para Denis, que exibia um sorriso cortado e desafiador. Aquilo seria uma ameaça? Tive a impressão que o aviso pairaria pela minha mente por muito tempo. O acontecimento do jantar na noite anterior me voltou como um turbilhão.
Mais motivado pela perspectiva de distrair a cabeça desses assuntos do que pelo olhar feroz da Professora, abri o livro de Português.
...
A tarde não serviu para me animar.
O primeiro motivo: Nathan. Durante o intervalo eu o avistara de longe, sentado à mesa junto com seus amigos. Foi meio estranho ter que parar para decifrar se ali era realmente ele. Ainda não havíamos nos falado desde o incidente com Júnior, pois eu havia passado o resto da noite trancado na enfermaria, fazendo os curativos em meu pulso, mas eu precisava de uma explicação para aquilo tudo. Nossos olhares se encontraram por um momento e eu entendi a mensagem que ele me passou. Conversamos mais tarde.
E, como se já não bastasse a confusão existencial na qual eu estava mergulhado, encontrei Samuel logo depois do toque para o almoço.
De certa forma, eu esperava que ele estivesse num estado lastimável — o humor dele era totalmente influenciado pela sua vida amorosa, e o que tinha acontecido ontem deveria ser suficiente para mantê-lo completamente destruído por, sei lá, meses. —, mas foi quase assustador vê-lo com um sorriso de orelha a orelha. Ele veio saltitando do banco onde estava sentado até mim assim que viu eu me aproximar.
— Ulisses! Puxa, você demorou mesmo. E então, já está firme e forte? — Ele disse, olhando ultraanimado para o meu pulso esquerdo envolto em ataduras.
Fiquei alguns segundos com a boca aberta, esperando que algo além do meu cérebro soubesse escolher a frase certa. Por que ele estava fingindo estar bem? Notei seus olhos meio inchados e levemente fundos. Com certeza havia passado a madrugada chorando.
— Eu... ahn... estou bem, acho. E você? — Perguntei, cauteloso. Ele sorriu muito exaltadamente.
— Estou ótimo! — Samuel disse, numa resposta quase gritada.
— Você... tem certeza? — Insisti.
— Claro. Ei, você vem comigo aqui um instante, sim?
— Ahn... tudo b... — Fui interrompido por um puxão pelo meu pulso bom. Samuel praticamente me arrastou até o lado externo do colégio, até área do jardim onde não havia quase ninguém. Assim que chegamos lá, ele se virou pra mim, cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar.
Quase pude sentir na pele a tristeza que ele emanava. Enquanto estávamos ali, os dois agachados em um espaço entre a mureta da praça e as paredes do colégio, com Samuel definhando em lágrimas, tive certeza de que ia vingá-lo. Júnior ainda ia ter seu troco.
Estávamos perdendo o tempo do almoço, mas mesmo assim fiquei ali com ele. Assim que Samuel estava muito mais calmo, mais de meia hora depois, ele se recostou na parede e me abraçou.
Foi meio estranho, confesso, mas abracei de volta.
— Ei... vai passar, não fique assim, por favor. — Tentei encorajá-lo, mas como conselheiro amoroso eu... digamos que era muito mais fácil arranjar confusão exibindo o pênis na frente de todos os calouros.
— O Sr. Rondarolli já chamou vocês na sala dele? — Samuel perguntou, com a voz entrecortada.
— Ainda não. Ele mandou avisar que eu fosse hoje logo após o almoço. Acho que ele queria tempo de preparar a câmara de gás, algo assim.
Samuel deu um sorriso, o que me fez sentir realizado.
— Então é melhor você ir, já são quase duas da tarde... ah, droga, fiz você perder seu almoço. Eu sou um idiota mesmo.
— Ei, não, está tudo bem, sério. Mas acho melhor eu ir mesmo, não quero virar churrasquinho de Ulisses.
Despedi-me dele com outro abraço e caminhei em direção à sala do diretor, também conhecida como Tártaro ou o Nono Círculo do Inferno.
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No caso, o inferno ficava em cima de nossas cabeças.
Localizadas entre os banheiros Norte, as escadas que levavam até a Sala do Diretor Rondarolli se assemelhavam mais a um poço virado de cabeça pra baixo. Elas subiam em uma espécie de espiral (se é que isso é possível com linhas retas), em direção ao primeiro andar. O som do meu pé no mármore do primeiro degrau ecoou até lá em cima. Uma ótima estratégia para saber que tem alguém se aproximando, pensei.
Subi o lance de escada até me deparar com a porta de madeira polida, aberta apenas por uma fresta. Pude ver, através do espaço mínimo, uma bandeira do Brasil pendurada na parede ao lado de uma espingarda de colecionador. Engoli em seco, rezando para aquela geringonça não funcionar mais.
— O que está esperando? As trombetas? Entre de uma vez! — A voz de Rondarolli gritou sobressaltada de algum lugar que eu não pude enxergar dali.
Mentalizando toda a sorte de deuses criados pela humanidade, empurrei a porta com cuidado e dei uma primeira espiada na sala.
Parecia uma versão mais pessoal e intimista da Sala dos Troféus: a um canto, uma prateleira com vários livros empoeirados, daquele tipo que a capa não tem qualquer letra e cuja única diferenciação se dá pela cor desbotada; bem à minha frente estava pendurada a tal bandeira do Brasil, e, seguida desta, as do nosso Estado, da cidade e do Internato. A sala fazia uma curva, como um L maiúsculo, de modo que precisei efetivamente entrar nela para enxergar o Diretor Rondarolli sentado lá no final, em sua longa mesa de mogno brilhante e toda decorada com objetos patrióticos e bugigangas que só um homem que atravessou bem mais de meio século poderia se dar ao luxo de ostentar. Uma outra porta estava à esquerda da sala, provavelmente a de acesso pelo primeiro andar.
Ele me observou aproximar, com seus olhinhos faiscantes, ansiosos para qualquer ataque de desespero que eu pudesse dar. Mantive em minha mente o pensamento de manter a calma a qualquer custo.
— Bem. Bem. Bem... Ulisses Pompeia. — Ele disse, assim que sentei-me na cadeira em frente à dele. — Confesso que poucos alunos, talvez até mesmo nenhum, tenham sido chamados aqui na primeira semana de aulas. Você percebe a gravidade disso?
Se ele pudesse fuçar minha mente, com certeza encontraria a parte que se debatia de vontade de gritar e sair correndo.
— Eu...
— Esse internato tem história, garoto. Atravessou gerações. Já ouviu falar do Ateneu? Bah, claro que não. O Ateneu foi o precursor de tudo isto. Ficava longe daqui, é claro, e foi destruído num incêndio há mais de cem anos, mas estamos assentados diretamente sobre seu legado: Compromisso com a virtude, valores e disciplina. — Ele falou, como se fosse uma fórmula. — Como você provavelmente já deve saber, esse é o lema do Rosa dos Ventos. Os pais procuram este colégio na esperança que, de alguma maneira, eu enfie no cérebro de passarinho de cada um de vocês, adolescentes ociosos e ignorantes, pelo menos uma noção ínfima do que essas palavras significam: Virtude. Valores. Disciplina.
Cada uma delas foi acompanhada de um pequeno soco na mesa, que fez tremer tanto os objetos sobre ela quanto eu mesmo.
— E, infelizmente, até agora você está se mostrando relutante em absorver esta noção. Arrumar briga? Tsc, tsc, péssimo. No refeitório, ainda por cima? Muito pior. Em pleno horário do jantar? Bem, digamos que as coisas não estão nem um pouco ao seu favor. Gostaria de falar alguma coisa para se defender?
A expressão dele era eufórica. Daria um jeito de se beneficiar aumentando minha punição com qualquer argumento que eu utilizasse. Além disso, o que eu diria? "Joguei a bandeja cheia de comida na cara do namorado nojento e sem excrúpulos de meu amigo, mas foi sem querer, juro!"
Não, definitivamente não.
— Acho que seu silêncio diz muita coisa. Bem, embora seja totalmente contra a minha vontade, infelizmente terei que lhe aplicar uma punição cabível... Ah, vejamos só. Reconhece isso?
Ele havia aberto a gaveta à direita e tirado um papel ofício com uma porção de coisas escritas de dentro dela. Após analisar por meio segundo, o Sr. Rondarolli estendeu a folha logo à minha frente. Pude detectar imediatamente do que se tratava só pelas primeiras linhas no cabeçalho:
PLANILHA DE DESEMPENHO PARA INGRESSO NO TIME DE FUTEBOL DO INTERNATO ROSA DOS VENTOS
ALUNO: Ulisses Araújo Pompeia
E, logo abaixo, estavam organizadas em uma tabela uma série de notas especificadas de acordo com a categoria, indo desde "Habilidades de esquiva entre cones — 10" até "Corrida de Resistência — 10". Eu tinha certeza absoluta de não ter ido muito bem na corrida, mas mesmo assim lá estava o dez. E ele se repetia por toda a tabela.
— Vê? Lá embaixo? Sabia que nenhum aluno, durante os quase cem anos de história desse colégio, conseguiu uma média maior que nove? O que me diz disso?
Com uma olhada rápida, pude ver o número 10 ao lado da legenda "Média Geral de Desempenho". Imaginei Nathan escrevendo aquilo na intenção de me agradar, sem ter a mínima ideia da roubada em que estava me metendo.
— O que você fez para conseguir essa nota? Por acaso... voou pela quadra? Criou outro par de pernas e fez um gol nas duas traves ao mesmo tempo? Ou algo pior? Hein? Posso saber?
Continuei calado, subitamente interessado na caneta tinteiro com o nome do Sr. Rondarolli ricamente trabalhado no cabo dourado. E então ele disse, depois de alguns segundos:
— Considere-se expulso do time. Isso é tudo.
Encarei-o na mesma hora, estarrecido demais para pronunciar qualquer coisa. Eu tinha ouvido aquilo direito?
— O-o quê?
— Vamos, se retire da minha sala. Você ouviu muito bem.
— Mas... você não pode fazer isso! Eu consegui entrar honest...
— Saia da minha sala se não quiser uma punição ainda pior, seu insolente. Vamos, saia!
Levantei-me furiosamente da cadeira e corri até a porta, fechando-a com um estrondo. Mesmo depois de me afastar dali, sentindo o sangue zumbir na minha cabeça, tive a impressão de ouvir uma risada cheia de prazer vinda de lá de cima. Talvez fosse só a raiva me pregando peças. Eu tinha certeza que não era.
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