Rompendo a redoma

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem.

Acabou que a mãe não preparou bem a filha para a vida. A princípio, a viu apenas como menina introvertida, tímida e, não obstante, autossuficiente para criar um universo de brincadeiras solitárias, para se desembaraçar nos estudos sem precisar de ajuda, para, sendo ajuizada, ir sozinha para a escola.

A mãe não se preocupou até entender quem era aquela garota que lhe merecia todo o amor. Aí, se tornou protetora. A garota já havia aprendido a respeitar os mais velhos, a compreender que cada pessoa tinha as próprias opiniões, que dependiam dos conhecimentos que adquirira, a agir com discrição, a ser cordata diante de uma boa argumentação e, sobretudo, a pensar que todo mundo era movido por bons sentimentos: de qualquer classe social, de qualquer etnia, de quaisquer preferências...

Toda a gente, portanto, podia ser recebida de braços abertos, tornar-se, eventualmente, uma grande amiga. Enfim, conhecendo bem a filha, se preocupou ainda mais do que antes. Virou uma mãe superprotetora.

A mocinha, porém, não lhe deu grandes trabalhos, porque gostava de ficar no quarto -- meio biblioteca, meio escritório -- ouvindo música, estudando, lendo, desenhando e escrevendo. O pai fazia restrições. Uma vez, ela o ouviu reclamar com a mulher que estava sendo criada sob uma redoma, que aquilo não daria certo, não ia prestar. (Você ligou? Nem a mãe. Nem ela.)

Obviamente, ainda que mantivesse os mesmos hábitos, os mesmos gostos, chegou a hora em que a moça não só colocou as asinhas de fora como resolveu lhes testar a envergadura. Voou! E voou cada vez mais alto e cada vez mais longe. Meio sem rumo, meio errática. A mãe, aí mesmo, que se descabelou de preocupações. O pai, mais discreto do que a mulher, se preocupou também, mas tratou de construir uma pista de pouso para a filha. E ela voltava.

Não tinha hora certa para chegar, mas ambos respiravam aliviados quando viam a menina deles, na manhã seguinte, a ressonar na cama. Enfim, um dia, ela voou de vez, foi embora, aprendeu rotas, fez pouso em outras plagas.

Redoma, proteção, superproteção... Tudo, em vão. A mãe sofreu muito. O pai sofreu também, mas se apressou em deixar a porta da casa aberta. E ela voltava sempre para visitá -los. Infelizmente, sem saber, a mãe errara. O pai é que estivera certo.

Hoje, embora sã e salva, a idosa já avessa a voejar compreende que nem tudo deu certo, nem tudo prestou. Ela nunca aprendeu a lidar com gente, a ter jogo de cintura, a se precaver contra pessoas nocivas, interesseiras.

Braços abertos, no mundo real, no dia a dia, são bons apenas para o treino de tiro ao alvo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!