Romeo
1 Romeo - Crônica
Notas iniciais
Ele não era especial. Ele era apenas como eu. Nós dois éramos parecidos de uma forma íntima, éramos parecidos por dentro, contudo, ele era uma versão ousada minha. Romeo era de agir, eu era de falar. E, apesar disso, éramos semelhantes. Quando eu o vi não sabia dizer o que queria, não sabia se ele era confiável ou se vivia do seu jogo sujo. Ah Romeo! Você foi o mais perto que cheguei de morrer e se for pra morrer eu vou...
Conheci-o em um dia de chuva na faculdade. O campus estava alagado e meu guarda-chuva tampava apenas minha cabeça, o resto do corpo estava encharcado. Um rapaz vinha logo atrás de mim e eu me apresava para chegar rápido ao ponto de ônibus. Minha mochila estava pesada por causa de meu notebook e eu rezava mentalmente para que a água não o atingisse, aquele era quase meu instrumento de trabalho. Atravessei a avenida que cortava o campus e cheguei para esperar o ônibus. Como sempre ele estava atrasado. Esquivei-me da chuva e abracei a mochila. O sol estava escondido pelas nuvens, mas já havia passado das 18 horas. Resmunguei pela demora do ônibus e como um golpe de azar, a chuva aumentou. Corri para uma área tampada e vi Romeo. Ele estava molhado da cabeça aos pés. Usava uma blusa da universidade que dizia que ele fazia Ciências Sociais, que também estava molhada. Seu olhar cruzou com o meu, porém desviei envergonhada.
O ônibus chegou e eu me apressei para pegá-lo. Romeo também foi até lá, eu ainda não o conhecia, mas fiquei contente em saber que ele pegaria o mesmo ônibus que eu. Ele fez sinal para que eu entrasse em sua frente e eu passei, agradecendo a Deus por não ter molhado a mochila. Paguei minha passagem e rodei a roleta, havia apenas um lugar vazio e eu me sentei. Romeo veio logo atrás e ficou em pé ao meu lado. Levantei o rosto, o observei rapidamente e me ofereci para levar sua mochila, ele aceitou e passou o resto do caminho ouvindo música com seu fone. Vinte minutos depois, ele desceu três pontos antes do meu. Observei-o ir embora.
Foram duas semanas para que eu o encontrasse de novo. Desta vez o campus estava ensolarado. Meu rosto estava suado e meus pés protestavam contra o tênis. Era uma sexta feira, fim de tarde, e pouquíssimas pessoas andavam pelas calçadas. Peguei meu celular para escutar música enquanto andava, escolhi Art Deco da Lana Del Rey. Cantarolei algumas palavras em inglês e andei distraída até o ponto. Em determinado momento senti alguém segurar meu braço e puxar meu celular, fiquei em choque, mas puxei o celular de volta. O ladrão insistia em levar o aparelho e eu insistia em não deixar. Rapidamente ele tirou um canivete do bolso e me ameaçou. Entreguei o celular e ele mandou que eu mostrasse a mochila, o meu notebook não estava lá, por sorte. Com as mãos tremendo abrir o zíper e mostrei que havia apenas meu caderno e um livro. O ladrão irritado me pediu dinheiro e eu disse que só tinha moedas para pagar a passagem do ônibus. Ele bufou.
Antes que eu ou o bandido nos déssemos conta, ele apareceu. Foram poucos segundos até que Romeo prendesse o assaltante em uma chave de pescoço. Eu, um pouco em choque, fiquei parada enquanto ele mandava o ladrão devolver minhas coisas e ir embora. Pensei em protestar, dizer para ligar para a polícia, mas eu não estava muito consciente.
Romeo perguntou se eu estava bem e eu balancei a cabeça confirmando. Depois ele me levou até um dos prédios do campus e me comprou um suco de latinha, em uma máquina. Tomei aquilo e fiquei mais calma. Meu celular estava novamente comigo e Romeo me levava até o ponto de ônibus. Conversamos um pouco, ele me falou seu nome e eu falei o meu. Eu estava muito impressionada com o assalto, nunca havia passado por essa situação, por isso não tive muitos assuntos para conversar.
Um ano depois, eu não o vi mais. Eu passava muito tempo focada na faculdade e sempre saia mais tarde, por isso não esbarrava com Romeo no ponto do ônibus. Não havíamos trocado telefone e nem o facebook, mas eu ainda me lembrava dele. Faltava pouco tempo para me formar, mas eu ainda precisava de algumas disciplinas fora do meu curso, foi por esse motivo que resolvi cursar uma matéria em Ciências Sociais. Eu fazia Direito e uma disciplina voltada para o estudo da sociedade seria adequada. Juro que não pensei em Romeo quando fiz essa escolha, mas não me assustei quando entrei na sala e o vi sentado na penúltima mesa do fundo. Ele usava uma camisa desgastada do The Smiths.
No primeiro momento, ele não me viu. Talvez não se lembrasse de mim. Só que não demorou para que ele conversasse comigo durante o intervalo. Nós éramos parecidos. Ele gostava de música assim como eu, até tocava baixo. E também gostava de viajar, no entanto, diferente de mim, ele já havia ido para muitos lugares. Romeo e eu tínhamos sintonia, quando ele pensava em dizer algo, eu o completava.
Não demorou muito para que Romeo e eu começássemos a sair. Ele me envolvia em sua atmosfera. Nunca em minha vida encontrei alguém que me fizesse ficar como ele fazia. Romeo era insano e comportado, os dois lados da moeda em uma só pessoa. Eu almejava ser como ele. E por isso eu me submetia aos seus desejos. Porque perto dele eu não sabia dizer, se queria matar ou se queria meter... Romeo era a parte proibida da minha vida, o insonhável, o incerto... Aos poucos descobri que eu poderia ser como ele, eu também poderia ser livre e tão indiferente a julgamentos alheios. Quando Romeo passava eu via o mundo em chamas, eu era sua fumaça. Eu não sabia pedir para ele queimar devagar... Mas por ele tudo valeria a pena.
Romeo, você foi o mais perto que cheguei de morrer. Quero entrar em seu carro e fugir com você, pouco me importa se seu jogo é sujo. Podemos conhecer o mundo, largar tudo. Seremos quem quisermos ser... Mas por favor, seja meu.
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