Romantizadas

1 Vasto repertório de impressões e fantasias


Notas iniciais
Essa será um short-fic, mais ou menos na dinâmica da minha "A vida que a morte trás", porém dessa vez sem fazer parte de nenhum desafio. Espero que aproveitem, qualquer crítica (positiva ou negativa) é bem vinda.

Uma sucessão de movimentos sutis quebrou a doce e pacífica monotonia da sua rotina matinal. Não a envolviam de forma alguma, mas acenderam uma chama — que, como veremos, fez questão de alimentar ao longo de semanas — no seu imaginário. Ali, na posição de espectadora, viu com uma clareza quase dolorida o curto suspiro, a hesitação em desviar o olhar e o leve estrecimento que percorreu aqueles ombros estreitos.

Se acreditasse em amor a primeira vista, diria com segurança: a vira se apaixonar.

Chamava-a de Natália, em seu íntimo, pois em algum momento do ano anterior, teve a sorte de observar a garota reagir daquele jeito típico de alguém que ouviu o próprio nome. No entanto, jamais teve uma confirmação. Podia ser um simples sobressalto pelo som, mas preferia ignorar essa possibilidade para não estragar a alegria da suposta descoberta.

Ao que parecia, tinham começado a faculdade no mesmo ano e, agora que o terceiro período começava a avançar, — afinal a vida só tem início depois do Carnaval, — um extenso repertório de informações sobre a estranha já habitava sua mente. Não só ela, pois não conseguindo ler no ônibus, observar era só o que restava para combater o tédio e os pensamentos indesejáveis.

Porém não tinha, é claro, nada a respeito da vida amorosa dela entre os arquivos da sua biblioteca interna. Certa de que aquilo iria mudar, voltou o olhar para a culpada de tais estremecimentos: tinha acabado de subir e agora se ajeitava de pé, segurando a barra vertical amarela que se erguia ao lado de Nati, sentada.

O ônibus era pequeno, o menor tipo da cidade, mas eram poucos os horários em que não havia lugar para sentar. Das 6:30 às 8 certamente era um deles, já que a grande maioria dos passageiros tinha como destino alguma das universidades. Apesar de o ano letivo ter começado há uns meses, aquele rosto era uma novidade — e que gritante novidade! Seus cabelos vermelho-pimenta lisos, ajeitados atrás da orelha, ladeavam um rosto redondo e cheio de vida. Seus olhos eram puxados e os dentes da frente um pouco tortos, como conseguiu ver enquanto ela sorria pra tela do celular.

Era bonita e seus cabelos gritavam, mas era a mistura do descaso sonolento, da alegria e da segurança (no andar, nos gestos) com essa beleza que tornava tão forte seu magnetismo. Vestia uma calça de algodão cru e uma blusa verde musgo larga, com um ar leve apesar do tom escuro. Na aparência, divergia em tudo de sua admiradora.

Natália sentia seu coração palpitar, arrebatada pela pura existência de... Laura. Sim, Laura até segunda ordem. Alguma parte disso tudo pode até ser verdade, porém só sabemos que essa é a imagem criada por aquela jovem de imaginação ávida. Ao nosso alcance, isso é tudo que há.

Notas finais
Ah, céus, não estou confortável em descrever os olhos da menina como "puxados", não sei se é apropriado, porém também não consigo pensar em uma forma melhor. Se tiverem sugestões, eu ficaria grata em ouvi-las!
O que vocês acharam? Me deixem saber nos comentários.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.