Roma XXVI

9 Vestido de Ferro


Notas iniciais
Hey hey, leitores. Desculpa por demorar tanto para postar, eu estava com o capítulo pronto há dois dias mas eu fiquei sem internet. Confiram:

Após contar tudo o que aconteceu, entre suspiros, soluços, lamentações e algumas lágrimas, eu escorrego para o chão, batendo o cotovelo e fazendo um choque se desprender do meu membro e se espalhar pelo meu corpo.

— Você não está bem. — Murmura ela.

— Agora diga algo que não sei. — Meu tom de voz é frio.

A ferida na minha mão começa a arder.

— Eu não sei o que dizer. — Menciona Helena.

— Não diga. — Respondo. — Vou tomar banho.

Pego uma camisola dobrada sobre a cômoda, pelo visto eles vão nos mimar um pouco antes do abate. Antes de me fechar no banheiro, olho para o relógio. São seis horas em ponto. Muito cedo para dormir, mas não temos nada o que fazer. Além disso, amanhã as lutas começarão cedo, muito cedo, eu imagino. Não sei como farão cem lutas em um dia. A menos que favoreçam alguém, para que ganhe mais rápido, ou tenham distribuído a maioria em duplas desiguais.

Entro no banheiro e me olho no espelho. Maquiagem borrada, pingos de sangue coagulado, olhar triste. Lavo-me esfregando minha pele com toda a força, até que ela arda. Ao olhar no espelho, noto que meu cabelo está em um estado terrível. Parece que litros de óleo foram jogados sobre ele. Uma ideia passa pela minha cabeça. Tateio em cima do armário do banheiro, e meus dedos encontram uma tesoura de ferro pesada.

Jogo todo o meu cabelo para frente e o corto bem curto. Muitas mechas caem no chão. Com o cabelo assim será mais fácil correr. E aliás, sempre foi meu sonho fazer uma mudança dessas. Morrer assim será melhor, irreconhecível.

Lavo-os com sabão, seco-me e troco-me. Saio do banheiro espalhando uma névoa de vapor pelo quarto.

— Quer um pouco? — Pergunta Helena, oferecendo-me uma bandeja repleta de comida.

— Sim, claro. — Me dou conta de que não comi nada o dia todo. Meu estômago ronca. — Como eles se incomodaram em nos alimentar hoje. Não comi nada.

— Serviram o almoço às duas. Mas você já tinha ido para a sala do velho, eu imagino. Você deve ter demorado para chegar aqui.

— Este prédio é imenso. É um labirinto. Não é só o Ludus. Devemos estar no térreo, pois há um túnel e eu subi muitas escadas quando fui arrastada para a sala de Morfeu. — Digo, ao abocanhar vorazmente uma coxa de frango.

— Mas ao olhar pela janela, só se vê um pequeno jardim e muros. E após a janela ainda há duas grades e um emaranhado de fios que parecem ser elétricos.

— Eles querem nos prender aqui, é claro. Mas não interessa, vamos morrer.

— Eu sei, eu sei. Mas duvido que não tentará vencer. Eu tentarei. — Diz ela, limpando a boca com um guardanapo. — Estou saciada.

— Eu não. — Olho para a minha comida. A bandeja ainda está cheia.

Como algumas verduras, um quarto de uma fruta, um pão, um pote de uma sopa estranha e um pedaço de bolo que parece ser de laranja. A comida acaba, mas ainda não estou cheia.

Recosto na parede com as pernas sobre a cama.

— Onde você nasceu? — Pergunto para Helena.

— No campo. Ao norte, há exatos trinta e cinco anos. — Ela se atreve a dar um único e pequeno sorriso, quase imperceptível. — E é lá que eu deveria estar.

— Eu nasci na Vila Miséria. — Falo. — Como eu sofri naquele lugar. E sofri na rua também. E sofro aqui. Eu fui uma ladra, claro, mas fui presa injustamente. Não deveria estar aqui.

— Mas o que faria na rua? Viver, viver, viver... Sobreviver, é o mais correto. Não tem vontade de ter uma vida de verdade?

— Já tive, não tenho mais. Não sei nem o que isso significa.

No relógio constam sete e meia. Escorrego meu corpo para dentro dos cobertores e cubro minha cabeça, deixando uma fresta para olhar para a parede.

Pela primeira vez em dias, durmo tranquilamente e acordo descansada. Meus olhos enxergam bem, meus músculos estão prontos para uma corrida, meus reflexos parecem mais velozes. Ao menos uma coisa boa.

Eu e Helena trocamos de roupa, em silêncio. Regata branca e um shorts de tecido leve, justo e bem curto . Ao terminarmos, ela se espreguiça.

— O que acha que vai ser? — Pergunta.

—O quê?

— Sabe, a luta. — Diz ela. — O outro vai estar lá do outro lado, e vai vir até mim. Eu vou correr. Eu vou me paralisar. Eu vou lutar. Fingir de morta. Chorar. Eu não sei o que vou fazer. Parece ser algo tão irreal que não consigo me dar conta de que está acontecendo. Parece uma brincadeira. E eu tenho medo.

— Desde muito tempo, — digo eu — eu sempre me repito algumas palavras. Só sinta medo do que você pode evitar. Se não pode, não sinta, por que as coisas virão de um jeito ou de outro.

— E a morte...

— A morte vai vir hoje, depois ou daqui a muitos anos. Que diferença faz?

— Nenhuma.

— Nenhuma. — Repito. — Vamos.

Saio pelo porta, e dou uma última olhada no meu quarto. Nunca voltarei ali, e caso volte não serei a mesma pessoa. Hoje vou matar ou morrer. Tirar a vida de alguém vai me fazer ser diferente, eu acredito. Eu nunca fiz isso antes. Não sei realmente se quero fazer. O peso que eu carregarei sobre as minhas costas pelo resto da minha vida vai valer a pena?

Espanto os pensamentos da cabeça. Vou fazer o que tiver de ser feito.

Andamos pelo corredor até o grande salão. Lá, diversas pessoas estão a escrever em pranchetas e arrumando os objetos. Cerca de cem de cadeiras estão apertadamente dispostas de frente a um grande telão. Acima dele, lê-se: “Gladius Innovatore”. Provavelmente, iremos assistir as lutas ali.

— Esta é a ala dos grupos 1 e 2. Os grupos 3 e 4 ficarão na ala ao lado, com um túnel, mais longo, que direcionará para o lado oposto do Coliseu II. — Avisa um homem ao lado da porta do refeitório.

Eu sou do grupo 2, portanto permanecerei neste salão. Junto com Helena, e Rômulo.

Seguimos para o refeitório, onde mesas com bandejas cheias estão dispostas. Uma cozinheiro conversa com a outra.

— Ainda bem, não é? Logo teremos a metade de pratos para lavar. — A outra concorda, e continua colocando bandejas sobre as mesas.

Tomo um lugar na primeira mesa. Na bandeja há pão, leite, bolos, tortas e dois copos cheios de suco. Começo a devorar a comida, ciente de que precisarei de energia. No centro da mesa há algumas facas, eis que então uma voz penetrante penetra nos meus tímpanos.

— Pode me passar a faca, mocinha? — À minha frente está sentado um homem grande e robusto. Ele ostenta um sorriso e um olhar malicioso. O meu concorrente.

—Não, — olho no fundo dos seus olhos — não sou sua empregada. A distância é a mesma.

— Hum... Que rebelde você. Vai ser rebelde assim no Coliseu ? Estou com tanto medo. — Sua ironia me causa raiva.

— Você vai ser convencido assim no Coliseu? — Mordo um pedaço de pão com violência.

— Se me levar a vitória. — Diz ele. — É claro que sim.

Bebo o último copo de suco e como as migalhas da bandeja.

— O mesmo vale pra mim.

Me levanto e ando de volta para o grande salão, Helena me acompanha.

— Não acredito que disse isso. — Emite ela, como um sussurro.

— Dane-se.

— Você não deveria...

— Dane-se! Eu não tenho chance mesmo. Ao menos quero minha dignidade! Que saco.

— Desculpa.

— Não precisa se desculpar. — Seguro sua mão. — Nunca precisou.

Ao chegar na sala nos entregam uma caixa para cada.

— Suas armaduras. — Informa uma mulher magra e pálida. — Troquem e voltem imediatamente. Por cima deste, mesmo.

Entreolhamo-nos e corremos para o quarto. Ao chegar, rasgamos a caixa e retiramos um vestido de metal e uma sandália com várias amarras. E ainda, um capacete pesado de ferro.

— Não acredito que usaremos isso. — Diz Helena, ao levantar a armadura. — É tão pesado.

— Não há outro jeito.

Coloco o vestido com muita dificuldade, ajeitando a estrutura de ferro rígido sobre o meu corpo. O vestido é curto e vai até a metade da coxa. Eles não se importaram muito na segurança, e sim na estética. É claro que eles não querem facilitar as coisas para nós. Calço as botas, de couro grosso, e ponho capacete. Devo estar parecendo uma adolescente em direção a uma festa a fantasia. Olho para a minha companheira de quarto.

— Você ficou muito bem. — Murmuro.

— Olha só quem fala. — Ela sorri. — Você está espetacular.

Corro para o banheiro e me olho no espelho. Ela está certa. Parece ter sido feito sob medida para mim, especialmente para mim.

Tudo se ajusta ao meu corpo. Minha cintura parece ainda mais fina, e pareço ser mais musculosa. Ainda por cima, o ferro escuro faz um contraste incrível com a minha pele. É sério, eles estão brincando comigo. Não posso ficar feliz. Não devo. Não vou.

Saio do banheiro, quase chorando.

— O que foi? — Pergunta Helena.

— Precisa explicar? Vamos ver o banho de sangue.

Notas finais
Então, eu sei que esse ficou meio fraquinho né? Mas o próximo já vai ser postado, onde vai ter a primeira luta. Da Helena? Rômulo? Cassandra? (suspense sensacionalista). Só lendo para saber haha ( risada maléfica). Até mais!