Roma XXVI

3 Primeiro dia no Ludus


Luzes, câmeras, gritos desesperados. Crianças, adultos, idosos, pessoas vestidas de trapos, outras ricamente adornadas. Todas asa idades e classes sociais representam o público que entope todos os lugares possíveis do Coliseu II com seus corpos. Se esbarrando, se espremendo para ter um vislumbre dos duzentos criminosos que serão sua fonte de diversão nos próximos dias. Como isso deixa as pessoas idiotas. A ponto de ver um massacre de pessoas iguais a eles como uma brincadeira. Algo divertido de assistir.

Algumas pessoas nos conduzem pela arena. Não formamos fila e nem nenhum outro tipo de organização. Andamos por onde nos convém, observando os rostos dos nossos futuros combatentes. Uma mulher negra está prestes a chorar. Um homem relativamente gordo parece que vai desabar e rolar pelo chão a qualquer momento. Salvo alguns, a maioria deles parecem ser competidores fortes. A mulher gigante do meu presídio, Rômulo, Helena, outro chamado Golias, literalmente um metro maior que eu e esbanjando músculos torneados de aparência brutal. Eu não sei o que estou fazendo no meio destes gigantes. Eu me sinto uma mosca, um rato prestes a ser pisoteado .

Solto da mão de Helena. À frente, estão dispostos vários pedestais baixos, e algo me diz que devemos ficar sobre eles. Me movo até lá, e com certo esforço, consigo me colocar equilibrada sobre ele. Uma música solene começa a ecoar pela arena. Vários competidores começam a me imitar, subindo em seus pedestais. Logo, todos já acharam seus devidos lugares. Vejo, no alto do coliseu, uma espécie de assento mais elevado e adornado. Constâncio IV está sentado sobre ele, com um microfone em mãos.

— Bom dia, cidadãos de Roma! — Exclama ele. Gritos exasperados respondem à voz do imperador. — Mandei construir este novo coliseu, com seus cento e cinquenta mil lugares, para abrigar confortavelmente todos os meus queridos... Residentes romanos. — Mais gritos. — Durante as próximas semanas, contemplaremos um espetáculo e traremos à tona todos os fragmentos históricos que nos levaram à glória. Vejam isso como a porta de entrada para voltarmos a ser o poderoso império, que dominava toda a Europa e que as mais poderosas tropas de soldados temiam!

“ Daqui a exatamente uma semana, começaremos a nossa primeira fase da competição. Serão sorteados duplas a partir dos nossos duzentos combatentes. No final do dia, só haverão cem. Nós reservamos uma surpresa para nossa segunda fase. Mas, meus queridos, agora, vamos assistir a introdução do nosso maravilhoso festival!

Foguetes, fogos de artifício e outras coisas que eu não sei o que são brilham no céu. Dançarinos de fitas invadem o estádio, dançando majestosamente ao som de músicas antiquadas. Nós, os participantes, ficamos parados atrás, em silêncio, com olhares indignados e expressões vazias. Bailarinos balançam seus corpos leves e exibem sorrisos, como seu estivessem sendo jogados continuamente ao vento. Uma apresentação totalmente desorganizada. Em nenhum momento consigo distinguir bem o que está acontecendo. Faz meus olhos doerem e minha cabeça latejar. O restante do tempo parece irreal. Os sons, a visão e a sensação daquele lugar interromperam todos os meus sentidos. Eu não sinto meu corpo. Meus olhos estão vidrados no espetáculo, horrível e lindo, com aquelas luzes piscando e corpos pulando infantilmente sem parar.

Assessores vêm nos avisar que podemos ir. Desço do pedestal, cambaleante, Helena segura o meu braço e eu me recomponho. Desta vez, em fila, seguimos até um túnel que se origina no lado oposto do Coliseu II.

— Estamos indo para o Ludus. — Avisa a assessora. Se me lembro bem, Ludus é a escola de treinamento dos gladiadores.

Com passos vagarosos, andamos através do túnel demasiadamente iluminado. Chegamos, ao final, em uma sala mais escura, que oferece um conforto aos meus olhos acostumados a dormir na escuridão dos becos, e entre cobertores e colchões roubados no inverno. Mas sempre à luz tênue da lua.

Quando o restante dos gladiadores chega, a sala fica totalmente cheia. Fico prensada entre a parede e o corpo de Helena. Ouve-se uma voz abafada vindo do centro da sala. A assessora sobe em cima de uma mesinha, e consigo ver sua cabeça sobressaindo sobre os ombros dos outros criminosos.

— Pessoal! Pessoal! — Grita ela, o máximo que sua vozinha fraca é capaz. — Logo seus professores irão chegar. Por enquanto, as mulheres do Presídio Santo Abôndio dividem o dormitório 03 esta noite. Mulheres do Presídio do Valle no dormitório 01, Homens no 02! Entendidos?

Ouvem-se murmúrios de aprovação. Aos poucos, pessoas escorrem da sala para seus dormitórios. Quando praticamente todos já entraram, entro no meu dormitório, o 03. Não é nada mais do que um corredor comprido, com cerca de dez portas. Eu e Helena entramos na última delas. Ao abrir a porta, percebo que ninguém tomou posse de nenhuma cama ainda. É um quarto simples, pequeno, mas limpo e sem nenhum enfeite. Carpete branco, cortinas cinza e roupas de cama também brancas. Há uma porta no fundo, provavelmente o banheiro. Três beliches estão dispostas no quarto : Duas nas laterais e uma encostada no fundo. As paredes claras passam uma sensação de paz.

— Vou ficar nesta. — Aponto para a direita.

— E eu nesta. — Diz Helena, apontando para a direção oposta.

Sobre cada cama estão um conjunto de roupas. Troco-as, e jogo minhas roupas medievais aos pés da cama. Cubro-me com os cobertores grossos. Eu não me banhei hoje, e isso não me incomoda. Eu tomava banho raramente na rua.

— Fala sério. — Diz Helena. — Eu não acredito que isto está acontecendo. Eu não entendo por que não estou chorando.

— Nem eu. — Me permito um risinho. — Não vejo lógica nisso.

— Não há. Por que não existe lógica! Disseram-nos que isso serviria como uma medida contra a superlotação dos presídios. Eu sei que matar meu marido foi um tanto... Drástico. Eu aceitaria minha pena de morte de bom grado, mas isso é muito, é tão humilhante. Ter que lutar?! Cara, estamos no século XXVI! Cinco séculos atrás eu não duvido que eles utilizassem esses meios, quando estávamos decaindo. Agora estamos voltando a crescer, e essa ideia é absurda.

— Completamente. — Concordo. — Ao menos eu não tenho ninguém. Eu sei que vou morrer aqui. E ninguém vai sentir saudades de mim. Mas e você?

— Eu tenho família, meu bem. Não é das mais estruturadas, no entanto. Eu amo meus filhos com todas as minhas forças, e eu sofri o tanto quanto é possível sofrer para um ser humano quando eles foram tirados de mim e eu fui arrastada para a cadeia. Eu queria ser um modelo para eles. Nunca fui, nunca serei. Também tenho pais, primos, tios... E eu também os amo.

Naquele momento me dei conta de que se alguém tiver que vencer a Gladius, esse alguém é Helena.

— Mas... — Continua ela. — Morrer seria um alívio. Eu poderia pagar com a minha vida o preço que eu sustento sobre minhas costas a tantos anos e me assombra de noite. Eu matei uma pessoa, meu Deus! Eu matei! Isso não tem perdão!

— São tantas reviravoltas, não é? Chegamos a pensar se nós valemos a pena. Eu não sei. Só sei que vou tentar tudo que puder nisso. É um instinto, a autoproteção.

— Eu também. Só acho que não tenho chance. Eu tenho 35 anos, estou mais velha que a maioria daqui. Meus músculos não são mais os mesmos, e eu não sou tão forte comparado à Rômulo ou outros...

— E eu? Eu não sou nada.

— Você deve ser rápida... — A interrompo.

— Não. Não, não, não... Vamos parar. Vamos dormir ao menos hoje.

Cubro minha cabeça com a coberta. Eu dormia assim na rua, para me proteger do frio, mas também me traz certa segurança. Na minha cabeça sou de novo a garotinha que tinha medo dos pais.

Por alguns minutos consigo pegar no sono. Não tarda até que sonhos invadam minha mente. Mas dessa vez não são sonhos, são vislumbres do passado.

Estou sentada na cadeira da cozinha. Acho que deveria ter catorze ou quinze anos. Minha mãe chegou, com seu característico olhar frio e com os cabelos puxados para trás em um coque apertado. “Olá, queridinha.” Ela disse. “Oi.” Respondi, relutante. “Sabe, você deveria limpar essa bagunça.” Ela apontou para a mesa, repleta de migalhas de pão. “Ah, é claro.” Obedeci prontamente. Peguei um pano e o passei-o pela mesa, mas quando cheguei na borda, me desequilibrei e deixei todas as migalhas caírem no chão ainda meio úmido que eu havia acabado de limpar. Olhei para minha mãe, fechei os olhos esperando uma chicotada nas costas. Mas ela não veio. Abri os olhos e ela bateu no meu rosto com o cinto, marcando com a fivela minha face esquerda. Depois de limpar o chão em silêncio, segui para o meu quarto.

Aquilo foi a gota d’água. Era demais para aguentar. De madrugada, arrumei uma mochila com algumas coisas, peguei um dinheiro que meu pai guardava dentro de uma boneca russa e tratei de quebrar até o última peça de porcelana que minha mãe estimava. Saí pela porta dos fundos, sem rumo e sem companhia. O dinheiro acabou, perdi a mochila, arranjei uma nova vida. E agora estamos aqui.

Acordo com um sobressalto, no relógio da parede ainda é uma hora da manhã. Não consegui pregar o olho durante a madrugada inteira, enchendo minha cabeça com pensamentos ruins. Só me levanto quando um alarme soa, e eu sei que nós devemos sair. Uma mão empurra dois conjuntos de roupas pretas para dentro do quarto.

— Eu não preguei o olho essa noite. — Gagueja Helena, com voz de sono e olheiras horríveis. Algo me diz que eu estou ostentando umas muito semelhantes a essas.

— Eu também.

— Fingi que estava dormindo para não incomodar você. – Diz ela.

— Eu também. — Respondo.

Vagarosamente, pego as roupas pretas do chão. São de um tecido leve e fino. Entrego as suas para Helena.

— Obrigada. — Não me dou ao trabalho de responder.

Trocamos de roupa e voltamos para a sala inicial. Várias dos presos já chegaram. Um homem está a esperar-nos.

— O refeitório é lá. — Ele aponta para um portal ao lado de uma estátua de um gladiador dando o golpe final no seu oponente.

Vamos até lá. Várias mesas estão organizadas. De frente para cada cadeira está um prato com um pão e alguma outra coisa, e uma caneca com um conteúdo fumegante.

— Bebam todos. — Avisa a cozinheira, brandindo a colher de pau. — É energético!

Todos nós bebemos e comemos. Depois de todos acabarem, a assessora do dia anterior nos manda segui-la. Ela nos direciona para a sala de treinamento.

— Este, — diz ela, subindo em uma plataforma e pegando um microfone e apontando para um homem de cabelos curtos e barba muito longa . — É o professor de combate corpo-a-corpo. — Ela continua com uma apresentação longa de todos os vinte professores. De arco e flecha, espada, faca, estratégia... Uma infinidade.

—Babacas. —Murmuro para mim mesma.

— Vamos ver quem é babaca quando você estiver na ponta da minha lança. — Me dou conta de que Rômulo está ao meu lado, com um olhar raivoso.

— O pé de novo? — Pergunto — É?

— Sim, é! Olhe. — Ele aponta para baixo, uma mancha rocha e vermelha está espalhada sobre todo o pé. Parece gosmento. — Você estourou a bolha. Satisfeita?!

— Sim. Muito. — Digo, em tom de desafio.

— Espere só.

— Ei, vocês! — Chama a assessora, apontando para nós. — Quietos pombinhos!

Ouvem-se risinhos por toda a sala, inclusive de Helena.

— Não. Nós não... — Argumenta Rômulo.

— Aí, sim, parceiro! — Brinca um homem ao lado dele. Ele somente recebe um olhar de raiva.

— Dividiremos vocês em grupos. — Informa a assessora. — Grupo 1, 2, 3 e 4. Mas na hora do combate, não interessa. É cada um por si. — Ela se vira para alguns homens ao seu lado. — Podem colocar os cartazes com os horários e os grupos.

Os homens pegam cada um dos rolos de papel do chão e o colocam estirado na parede da sala.

— Vocês poderão ver seus grupos de treinamento a partir de... — Ela vai para a entrada da sala. – Agora.

Corro até os cartazes. Rapidamente, leio-os até encontrar o meu nome. Grupo 2. Helena também está lá. Corro o olhar através dele para vislumbrar o nome de certa pessoa. Minhas expectativas são atendidas. Rômulo vai treinar comigo.