Roma XXVI
13 Fraca e Mortal
Notas iniciais
Hércules está armado, ainda, uma espécie de rede triangular com uma bola de ferro em cada ponta. Corro para o alto de uma elevação longe da água. Aos poucos, ela tomou conta da arena. Isso é um pântano. Estou sobre uma espécie de planalto, e Hércules à muitos metros à frente, com metade do corpo submerso. Nadar nunca foi o meu forte, mas minha leveza pode ajudar aqui.
Corro para a água, segurando firme a lança e o escudo na frente do corpo. Hércules corre em minha direção, espirrando água para todo lado. Quando ele se aproxima de mim, me jogo no chão, em um lugar mais fundo, atingindo sua panturrilha com a lança, nadando da melhor forma que posso. Ele me segue, vindo vagarosamente em minha direção. Seus pés tocam o fundo, enquanto eu preciso flutuar na água para me manter com a cabeça fora dela. Meu capacete pesa na cabeça. Afundo todo o meu corpo, vendo por baixo d’água as pernas do meu oponente.
Sinto uma dor aguda percorrer o meu tornozelo, e vejo a água tingir-se de vermelho. Hércules me atacou com a lança. Chego à terra, e corro pelo gramado, gritando desesperadamente de dor. A ferida foi funda, e o sangue jorra da abertura no centro do músculo. Pisar envia uma dor intensa por toda a minha perna. Hércules corre para mim, com a lança em mãos. Ele deve estar achando fácil demais. Eu não posso deixar que isso aconteça. Ninguém pode tirar a minha honra, e eu não posso deixar Helena sozinha.
Levanto com muita dificuldade e corro pelo terreno encharcado, ignorando completamente a dor no tornozelo.
— Não adianta correr, princesa! — Grita ele. — Olhe só para mim! —Contra todos os meus extintos, me viro. Ele está exibindo um grande sorriso, com os braços abertos. — Você tem como lidar com isso? Têm?
— Não interessa! — Grito, ainda mais alto. Minha voz sobrepõe os gritos da multidão que nos assiste extasiada. — Você não pode arrancar a minha honra com uma espada!
Ele anda em minha direção, e não me dou ao trabalho de fugir.
— Eu não preciso da sua honra.
Ele se lança sobre mim com seu escudo, colidindo com o meu peito e me atirando no chão, sobre uma poça de água. O frio envolve meu rosto, enquanto dores se espalham pelo meu corpo. Ele se absteve da espada, e disfere socos pelo meu corpo. Luto com todas as minhas forças, com as pernas e com os braços, mas seu peso me comprime contra o chão. Uma terrível sensação de impotência me invade, e posso dizer que é a pior sensação do mundo. Não ter como lutar, não ter como fugir. Sem saída. A única saída é a morte, e é inevitável. Como essas pessoas acham que me sinto? Como um brinquedo em suas mãos imundas, pronta para diverti-los e distraí-los de seu trabalho? Não. Vou provar que não. Esse não é o meu destino, eu sinto isso quando meu coração bombeia o sangue e quando o ar invade meus pulmões.
Com um grito digno de filmes de terror, tateio a procura da lança caída ao lado do meu corpo e a lanço sobre as costas de Hércules, cortando sua pele desprotegida de cima á baixo . Ele urra, e se joga para trás. E é aí que inicio meu plano de dominação. Levanto com muita dificuldade, segurando cada ponta da lança com uma das mãos. Jogo-me sobre Hércules e arrisco um golpe no peito do meu oponente, ele tosse e expele todo o ar. Na minha segunda tentativa, ele toma a lança de minhas mãos e me golpeia da mesma forma. Voo por metros e caio no chão com um barulho horrível. Minha vista se embaralha.
Só consigo vê-lo vindo na minha direção, ainda firme, ainda forte. Corro, corro como nunca corri na minha vida. A água barrenta espirra no meu corpo. Hércules está atrás de mim, com a sua espada e a minha lança, e o escudo nas costas. Agarro o escudo com força, correndo pela grama, até encontrar uma depressão cheia de água. Não consigo nem enxergar o fundo, e ela se estendem por metros como um riacho. Sem pensar duas vezes, salto, e tenho a impressão de ser recoberta por um líquido negro. A água não é clara. A água não me deixa ver, nem ouvir. O elemento tira meus dois mais importantes sentidos, mas aguça em mim uma percepção totalmente nova. Posso sentir que Hércules está com os pés na água, e que ele tenta me atingir com a lança. Afundo ainda mais, nadando para frente, mas o fim parece nunca chegar.
Agito meus pés, tentando submergir, mas algo parece me puxar para o fundo. Não são mãos. É a própria água. Me sinto no meio de um redemoinho, girando e lutando contra a força da natureza. Não, natureza não. Contra a força dos homens que me colocaram aqui. Aqueles que me querem ver morrer, e aqueles cujo privilégio eu não vou dar. Meus pulmões começam a arder, eu não consigo ficar segurando o fôlego por muito mais tempo. Subitamente, deixo que o ar escape e me vejo em estado de completo desespero. Luto contra o meu instinto de inspirar água, e sacudo todo o meu corpo, atingindo uma área onde a água está mais calma. Finalmente, vejo-me livre daquela prisão. Porém, ainda estou dentro dela. Agitando as perna, chego a superfície e permito que o ar inunde minhas vias respiratórias e oxigene o meu sangue. Uma sensação de renovação me percorre, mas todo o meu corpo dói. Me levanto, sem conseguir encontrar Hércules.
Dou um giro de trezentos e sessenta graus, que já me faz ficar tonta. Ele sumiu. E então, de repente, uma lança corta o ar em minha direção. No último milésimo de segundo, ergo o escudo, e a arma se choca contra ele, enviando uma vibração dolorosa pelos meus braços, que tremulam incontrolavelmente com o choque. Pelo impacto, sou jogada para trás, mas me equilibro e mantenho-me de pé. Cato a lança, tomando muito cuidado. Vamos brincar de esconder, então. Corro para o ponto mais alto, e percebo que toda a água na arena se agita como se por uma tempestade invisível, correndo como um rio. Realmente, eles capricharam nesta aqui.
Corro o olhar por todo o perímetro, a ponto de ver dois pés afundando em um ponto em que a água está muito acumulada. Chegando perto do poço, consigo ver vagamente uma silhueta se movimentando. Mais cedo ou mais tarde, ele vai ter que sair. Ou talvez...
Atiro minha lança com toda a força que me é possível, em direção à Hércules. Entretanto, a água parece amortecer a força com que foi jogada. A lança afunda inofensiva, e me vejo desarmada. Uma mão surge na superfície, segurando uma espada enorme.
— Erro cruel, boneca.— Diz ele, quando sua cabeça surge, cuspindo água. Toda aquele agito da água não parece controla-lo nem um minuto. — Não sabia que a água é o melhor dos escudos?
Ando para trás, no momento em que a rede de Hércules prende as minhas pernas, se enrolando nela, me derrubando no chão. Recomponho-me, arranhando minha pele e afastando os fios da rede numa tentativa de me ver livre. Mas as esferas de ferro se enrolaram na rede e feriram a minha perna com a violência do impacto. A esfera literalmente rasgou a minha pele, fazendo uma fenda de onde é possível enxergar o músculo brilhante e vermelho da minha coxa, de onde sai um pouco de sangue. A dor é intensa e dificulta um pouco o processo, mas consigo arrancar a rede no momento em que Hércules se encontra poucos metros de mim. Levanto-me, ignorando a dor lacerante, apertando a mandíbula com toda a força contra o maxilar. Pego a rede e a atiro na direção do gladiador, mirando sua cabeça, mas a rede chega somente ao seu pé. Ele urra de dor, com os dedos provavelmente doloridos pelo impacto. Ele reduz a corrida, mas com o tempo suficiente para que eu corra. Estou quase desarmada, sendo que perdi a lança na água e é praticamente impossível pegá-la de volta sem que Hércules me mate antes, e a rede poderia ser uma arma eficiente caso eu fosse mais forte e precisa, mas uma arma é uma arma.
Neste momento, a multidão grita o nome de Hércules em coro. Suas vozes penetram na minha cabeça e bagunçam meus pensamentos. Meus tímpanos querem explodir somente para não ouvir tudo aquilo. Todas aquelas pessoas... Querem me ver morta! Todas aquelas pessoas estão cegas, Constâncio as cegou! Roubou-lhes a consciência de tal forma que teria sido melhor que os tivesse furado os olhos! O pânico começa a me invadir, e começo a correr em uma descida, em direção a água. Quero afundar nela para que ela inunde o meu crânio e me tire daqui... Tropeço no meio do caminho e começo a rolar na grama, mas ainda segurando firme o meu escudo. Meu capacete salta da minha cabeça e some da minha vista. Meu impacto com a água faz minha pele arder, e minhas feridas mais ainda.
Mãos agarram os meus braços e me jogam no chão. Me levanto e encaro o rosto de Hércules. Ele sorri.
— Está acabado. — Ele diz.
— Está acabado. — Repito.
Ele levanta a espada, mas um instinto de autoproteção toma conta de mim. Extraindo forças de onde não sei, desfiro um golpe do o pé no estômago de Hércules. Ele agarra a barriga. Foi forte. Corro para longe, mas ele continua me perseguindo. Isso é muito cansativo. Sinto vontade de desmaiar, mas tenho que reagir. Começo a correr em sua direção, salto com todas as minhas forças como se estivesse com o corpo totalmente são, mirando em sua face.
Porém, os instintos de Hércules parecem ser melhores do que eu previa. Ele segura a minha perna antes que eu atinja seu rosto, e me gira no ar repetidas vezes, antes de me atirar, completamente desnorteada, no chão molhado. Minha cabeça lateja, e todos os meus ossos parecem terem sido reduzidos à pó. Meu oponente agarra meus ombros e me põe sentada no chão, em seguida amarra meus pulsos com a rede, e retira algo da bainha, um punhal, enquanto me debato
— Diga suas últimas palavras.
— Desgraçado. Você vai morrer.
— Bem... Se você dissesse algo bonito, eu iria te matar logo. Mas já que...
Ele coloca a ponta do punhal no meu braço, e aperta.
— Diga que me ama.
— Eu te odeio.
Ele afunda um pouco o punhal, mas eu nem sinto dor. É estranho. Toda a minha energia está concentrada agora no meu cérebro, onde construo um plano minucioso. Vejo uma linha de sangue escorrer do meu braço. Hércules está brincando comigo, com a minha impotência.
— E agora? — Ele retira a lâmina, que parece ter afundado mais do que eu havia previsto.
— Eu te amo. — Respondo. — Com todas as minhas forças.
Com a sinceridade que empenhei para esconder a minha repulsa, fui convincente. Hércules está pensativo, mas eu preciso fazê-lo ficar pasmo.
Inclino meu tronco até ele, e aproximo minha face à ele. E o beijo, escondendo todo o nojo que sinto por estar fazendo aquilo, e as intenções que tenho por trás. Quando volto ao meu lugar, a boca de Hércules está escancarada e seu olhar manifesta a mais pura surpresa. Aproveitando deste momento de fraqueza, inclino minha cabeça como uma contorcionista, lutando contra as formas naturais do meu corpo, e mordo o bracelete e o arranco da minha pele, a cortando de leve. O bracelete mais que rapidamente se transforma em um punhal dourado e afiado. Antes que Hércules volte a si mesmo, aperto os dentes em volta do cabo repleto de fios metálicos entrelaçados e vou para cima do meu oponente, direcionando todo o poder da lâmina no centro da garganta de Hércules. Sem nenhuma chance de defesa, abalado pelo meu beijo, cravo punhal bem acima da clavícula e o afundo, mordendo o cabo a ponto de todos os meus dentes doerem como se estivessem se despedaçando.
O corpo de Hércules tomba para trás, com sangue jorrando da ferida, onde rompi uma artéria, e pela boca. Posso ver seu esforço para fechar os olhos. Ele não quer morrer com os olhos abertos. Com seu derradeiro suspiro, e suas últimas forças, vejo-o e ouço-o proferir sua última palavra.
— Desgraçada.
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