Notas iniciais
Essa é uma história bem doida que planejei o ano todo. Não será tão longa assim. E não haverá continuação. Boa leitura.

Mirna Ferreira, 25 anos, acendeu um cigarro Derby após descer do itinerário da linha 44 da cidade de Fortaleza. Tragava a mistura gasosa do tabaco com nicotina, andando na rua declive, desértica e com pouca iluminação. A sua residência ficava numa distância média de 3 quadras da parada.

Por volta das 23 horas daquele sábado, Mirna não teve outro jeito a não ser atravessar o ponto obscuro da rua paralela a sua. A lâmpada do poste iluminava até um certo ponto, contudo havia uma escuridão quase que sobrenatural faltando um quarteirão da sua casa. Obviamente, ela parou, assustada e sem a mínima vontade de prosseguir o trajeto. Lembrou que a companhia de energia teve problemas devido a uma chuva forte na noite anterior, gerando apagões em muitos bairros.

A luz do posto piscou algumas vezes, dando Mirna a oportunidade de ver em poucos flashes o que tinha no meio daquela escuridão. Um sujeito vestindo uma capa preta e chapéu da mesma cor. Seu rosto não era notável, haja vista a luz piscava em segundos.

— Olá?

Mirna falou em voz alta na tentativa de saber quem era o sujeito que estava no meio do caminho.

A lâmpada do poste parou de piscar e resolveu iluminar o trecho escurecido. Por fim, o estranho ser se mostrou completamente para a mulher. No entanto, não se movia, forçando Mirna a pensar que poderia ser um boneco judas e uma brincadeira de mau gosto de alguém. Entretanto, ela viu algo aterrorizante: uma bocarra cheia de dentes, sorrindo de ponta a ponta da orelha, e olhos brancos.

A princípio, petrificou, mas voltou e correu.

A rua não tinha casas simples e as poucas que tinham eram muradas. Não havia nenhuma entrada de casa ou prédio, nenhum local com campainha ou interfone para ela pedir ajuda.

Sem socorro, Mirna foi vítima do maníaco desconhecido chamado Mão Negra. Ele abriu a boca, que cresceu do tamanho de um tambor de lixo, e passou a engolir a mulher da cabeça aos pés. No fim, deu um arroto.

A luz do poste retornou.

...

Segunda-feira, os alunos da Escola Católica Maria da Misericórdia voltaram das férias de julho. O local era um edifício com cinco andares, com quadra de futsal e piscina.

Um dos alunos era Rodrigo Neves do Carmo, 14 anos, que fazia o 1° ano do ensino médio. Sempre ia e vinha da escola com a sua bicicleta. Ele era um rapaz branco com cabelos cacheados e castanhos.

— Quase chega atrasado — falou o professor de Educação Física, que tomava conta do portão externo.

— Acordei atrasado — falou Rodigo com bastante afobação. Na realidade nem queria ir para a escola no primeiro dia, mas os seus pais eram durões e a mensalidade era cara demais para ficar faltando deliberadamente.

Uma área externa na frente do predio servia para guardar bicicletas, além de estacionamento para os carros.

Algum tempo depois, o diretor avisou a todos que a professora de biologia desaparecera e que a família procurava por pistas sobre o seu paradeiro. Aquilo deixou toda a escola com o clima nebuloso, pesado, haja vista era incomum alguém como um professor desaparecer sem deixar vestígios.

Quando as aulas terminaram, o adolescente pegou a bicileta e foi embora.

No trajeto para casa, Rodrigo passava por uma rua cheia de casas. O mais estranho era que a rua possuía um fim, mas o seu fim não terminava com uma casa ou muro. Havia um prédio de 10 andares e com paredes de cerâmica vermelha. Era um prédio muito chamativo e o único do bairro, além da escola. Ele não pegava o trecho final da rua, e sim dobrava à direita para outra rua e pegar uma ciclofaixa de uma avenida.

— Cheguei — falou Rodrigo assim que abriu a porta do apartamento.

Seu pai vivia ocupado no notebook no sofá, trabalhando home office. Sua mãe era médica e chegava apenas no turno da noite.

— Pai o Heitor veio?

— Ele não apareceu. Ei... eu soube que a tua professora desapareceu. Sabia que tá desaparecendo gente na cidade? Semana passada foram 10 pessoas no Bom Jardim.

— Tenho que tomar banho — ignorou.

— Não demore muito para o jantar — o homem via as notícias pelo mundo sobre desaparecimentos.

Por volta das 19 horas, Rodrigo terminou o dever de casa e foi verificar no Reddit sobre um assunto intrigante que deu início a sua busca num tipo de grupo de pessoas. Os usuários falaram sobre certas aparições de criaturas pelo mundo. E dessa vez não significava que tais avistamentos eram frutos de um acontecimento criado por humanos apenas para angariar atenção. Por exemplo, em West Virginia, um homem-mariposa surgiu em plena luz do dias, culminando no avistamento por parte de mais de 1 centena de pessoas em menos de duas horas. As penas do monstro foram analisadas e biólogos sugeriram que era uma espécie de coruja mutante desconhecida.

— O jantar está na mesa — falou o seu pai.

— Tudo bem, em 5 minutos estarei lá.

A segunda aparição era a caçada ao yeti na Rússia. Aparentemente, o exército russo capturou um primata de 1,5 metro de pelos brancos, que era oriundo da Sibéria. Outra criatura bizarra foi encontrada numa lata de lixo da cidade de São Paulo, arrastando-se para dentro do Rio Tietê. O monstro lembrava uma bolha cor de rosa.

— Desaparecimentos têm algo a ver com esses monstros? — teclou o jovem, deixando a pergunta no fórum.

Um dos que estavam no reddit disse que houve um desaparecimento de mais de 50 pessoas em uma cidade da Índia num período de dez dias. E que havia avistamentos de um ser com seis braços caminhando de madrugada pelas ruas.

A porta novamente foi batida. Rodrigo deixou o seu notebook sobre a cômoda e se preparou para o jantar.

— Papai...

— Oi?

— Aquele prédio vermelho no final daquela rua. O senhor sabe o que tem lá?

O pai parou de comer e olhou seriamente para Rodrigo.

— Por que quer saber?

— Só curiosidade.

— Dizem que é um hotel. Mas eu nunca entrei ou quis saber. Mas já vi o proprietário uma única vez. Foi uns 5 anos atrás.

— Estranho um hotel ser num bairro residencial e calmo como aqui. Sempre tive uma sensação ruim quanto a ele.

— Você não precisa de todas as respostas, filho. E não quero que se envolva com aquele lugar.

Rodrigo sorriu e brincou que o pai estaria com medo de que fosse sequestrado.

— Não é por isso.

— Então pelo quê?

— Você não entenderia. Qual é o problema de eu mandar você não ir lá e você me obedecer?

Rodrigo parou de provocar.

Sua mãe chegou mais tarde do que o planejado. O plantão foi demorado. Tanto que Rodrigo ja estava em seu quarto. Deu um beijo no filho e foi ao próprio quarto.

— Então quer dizer que ela desapareceu no sábado? Tenho sensação que já deve estar morta — comentou Rodrigo.

Heitor era um rapaz moreno com cabelos raspados, brinco na orelha esquerda e maníaco por animes.

— Dizem que ela foi sequestrada a um quarteirão da porta de casa, saca? Quem poderia ter feito isso, Rodrigo?

— Ela morava no Montese. Vai ver lá é perigoso.

— A cidade toda é perigosa, caralho! Não tem pra onde fugir...! — Rodrigo ouviu batidas.

— Que foi isso, Heitor?

— Meu irmão jogando a porra da bola contra a parede. Aí faz esse barulho.

— Então amanhã você vai à escola?

— Acho que sim. É que final de semana peguei um resfriado. Mas creio que estarei bem. Hey... você esta muito paranoico com esses acontecimentos. Pode descansar ao menos uma vez?

— Tentarei.

Rodrigo finalizou a ligação. Verificou a hora e sentiu o espanto ao olhar que passara quase uma hora conversando com o amigo. O tempo passou tão depressa!

...

Ainda naquela noite, algo muito estranho ocorreu acima do prédio vermelho. Uma abertura ou portal surgiu no céu e algo saiu dele.

— Eu sou Mordecai, um dos mensageiros de Scuti — o homem tinha quase 2 metros de altura, longos cabelos pretos e lisos, pele pálida e olhos vermelhos. Vestia-se com terno cinza.

— Bem-vindo, senhor Mordecai. Quer tomar um café antes? — Quem recepcionou a criatura foi o proprietário do prédio. Um idoso careca e com olhos esbugalhados, dentes de ouro e bigode vultoso.

— Hoje eu passo. Cadê as oferendas?

O velho abriu um sorriso macabro e levou o ser até um quarto do hotel. Abriu a porta e revelou mais de vinte pessoas nuas, amarradas e amordaçadas.

— Esse é o número que pediu. São 21 pessoas. Vidas a serem sugadas por Grande Scuti.

Mordecai cheirou o ambiente e sentiu que todas as vítimas eram saudáveis.

— Aqui está o elixir da juventude. E deixarei o seu nome escrito no rolo da lei para que os espectros não matem ou torturem quem trabalha nesse hotel.

— Obrigado, senhor.

— Agora saia. Preciso preparar o lanche do imperador Scuti.

O velho sabia o que Mordecai estava prestes a fazer com os sequestrados. Deixou que o ser ficasse sozinho no recinto.

— Se-senhor... ele vai fazer aquilo? — indagou a camareira.

— Que horrível. Já é outro mensageiro. Ele deve ser ainda mais assustador que o anterior — falou o zelador.

— Calados! Esse ser misterioso é terrível. Ele pode ouvir vocês daqui.

Os trabalhadores do hotel se arrepiaram ao imaginar o destino cruel das vítimas.

Uma das pessoas sequestradas era Mirna, professora de Rodrigo. Foi a única a acordar. Viu o terror que Mordecai fazia para transformar seres humanos em bolas de carne. Cada pessoa era alvejada por um ácido que saía de um verme de dentro da boca do homem. Tentou fugir, mas o corpo não respondia. Logo percebeu que os seus braços e pernas foram arrancados. Não fugiu. O ácido derramou sobre ela, derretendo a pele, tecidos e ossos. Apenas os olhos permaneceram intactos. O verme sugou todo o conteúdo de Mirna, deixando Mordecai inchado, e cuspiu em forma de almôndega do tamanho de uma bola de futebol.

Um chamado da Terra de Baixo deixou o homem em prontidão. A imagem de uma criatura monstruosa surgiu, revelando ser Scuti. O ser cósmico que vivia para comer criaturas inferiores.

— Meu lanche!

— Aqui está, senhor.

Vários espectros usando roupas de astronauta surgiram no quarto e levaram as bolas de humanos.

— Você fez bem o seu trabalho. Em pouco tempo, invadiremos por completo o mundo humano!!

— Como deseja, meu senhor.

— Por enquanto estarei satisfeito com isso. E não perambule pela Terra dos Humanos.

— Sim.

A comunicação terminou. Mordecai saiu do quarto e limpou o seu sapato impecavelmente preto.

Notas finais
Tem uma inspiração lovecraftiana nessa história.