Um ritual para a nova era no governo do Japão começou. Os espectros humanoides (astrooms) usavam quimonos e levavam incensos ao templo vermelho. Havia outras criaturas assistindo à cerimônia. E Tatsunootoshigo foi, por fim, coroado como o novo governador do Japão e Oceania. O primeiro decreto como governante era a extinção da raça humana nas ilhas do Oceano Pacífico.

Seus espectros aquáticos mergulharam no oceno e foram para cada ilha onde tinha presença humana. E não era difícil para os monstros localizarem as pessoas, haja vista possuíam olfato muito apurado.

Tatsunootoshigo levantou a espada e proclamou o Japão como o país de Krom. Krom II.

De repente, uma salamandra gigante surgiu do céu e caiu sobre o templo vermelho do mensageiro. O prédio teve o seu telhado destruído, incluindo boa parte da área interna.

— Alguém pode me explicar o significado disso? — indagou aos seus subordinados.

Os espectros guardas foram verificar a salamandra e encontraram marcas de socos e partes da pele do bicho queimadas.

— Me-mestre...

— Não precisam me dizer. Temos um intruso na cidade. Ele quer um desafio. E eu aceito.

...

Longe dali, Rodrigo espancava os espectros que apareciam na frente dele. Dezenas de monstros de todos os tipos atacaram o herói, mas sequer conseguiam alcançá-lo. Rodrigo fez o fogo vermelho surgir dos seus punhos cerrados e iniciou os golpes. Cada soco era praticamente um golpe único, fazendo os espectros caíram.

Pedaços de espectros caíam de um lado para outro. O mestiço não tinha pena e matava sem dó nem piedade.

— Ainda nem me cansei. Mas parece que não vai se resolver tão cedo — ele estava ensanguentado (do sangue dos espectros). Viu centenas de outros monstros.

Explosões no centro comercial de Tóquio. Predios caíram como castelo de cartas.

Rodrigo socou uma salamandra gigante e usou as suas chamas para eliminá-la. Jogou para o céu.

...

— Espectros! Parem de atacar. Quero que venha até mim — falou Tatsunootoshigo telepaticamente aos seus monstros.

Rodrigo percebeu que os espectros pararam de atacar e abriram caminha para que passasse. A princípio não entendeu.

— O que é isso? A recepção dos monstros? — brincou.

O herói decidiu voar para o palácio imperial.

...

Enquanto isso, Eins continuava a dirigir pela estrada. Alguém colocou pregos na pista e furou os pneus do Chevette. Alguns humanos surgiram armados e apontaram para o bichano.

— Vamos usar esse espectro como moeda de troca para aquele centauro maldito — falou um soldado.

— Eles acham que sou aliado do império, nya. Lascou de vez. Como vou me justificar?

Entre os soldados, um adolescente vestido de terno. Os homens pediram que o garoto se afastasse, pois seria muito perigoso.

— Sua alteza, por favor, fique longe. É muito perigoso se aproximar desse espectro.

— Ele tá escrevendo algo... olha — disse o príncipe.

I'm not an enemy! Eins mostrava um papel escrito em inglês.

— Que conversa fiada. Vamos metralhar esse carro.

O gato ativou o modo de defesa do Chevette antes de ser metralhado.

— Parem! — O soldado viu o carro todo revestido com uma capa metálica preta.

De repente, um espectro surgiu diante de todos. Era uma criatura da seguinte forma: corpo, da cintura para baixo, de aranha; corpo, da cintura para cima, de um minotauro; quatro olhos; o braço direito musculoso e mãos com garras; o braço esquerdo igual o de um caranguejo.

— Vamos sair todos daqui! — os soldados correram para a vegetação.

O espectro pisou no teto do carro e passou por cima. Foi atrás dos humanos.

Eins aproveitou para dar a partida e ir embora, mas no meio do caminho desistiu.

— Droga. Agora tenho pena daqueles que tentaram me matar!

O gato voltou.

...

Ainda em Tóquio...

— O que está havendo? — Rodrigo voou pela cidade sem ser incomodado. Tentou entrar em contato com Eins por walkie-talkie, mas não teve êxito.

A área verde do palácio imperial podia ser vista. Ele preferiu pousar e caminhar por uma pista.

Cerca de quase 100 espectros que guardavam a entrada do palácio imperial surgiram armados com metralhadoras. Eles utilizaram as armas de fogo dos sodados japoneses mortos. Apontaram para o protagonista e atiraram. Rodrigo utilizou as suas asas como um escudo e suportou a saraivada de balas, que eram tantas a ponto de empurrá-lo muitos metros para trás.

— O que achou disso, hein? — falou um reptiliano.

Mas Rodrigo não se abalou nem um pouco com os tiros (apesar dos tiros serem de armas de grosso calibre). Durante o seu treinamento em Megav-011, Rodrigo aprendeu a transformar a superfície do seu corpo num escudo super resistente.

— Chega!

Antes de Rodrigo atacar, Tatsunootoshigo surgiu entre ele e os subordinados.

— Vocês com certeza serão mortos por esse humano. Posso chamar de humano, não é? Mas que interessante vista. A única espécie que detém asas plumadas são as Marias, e ainda assim brancas. Nunca vi um ser com essa coloração preta.

— Você deve ser o mensageiro responsável por Fuji-10.

O espectro samurai olhou com desdém e cruzou os braços.

— Sou sim. Governei aquele planeta por duas décadas. Tudo sob a minha liderança de mão de ferro.

Rodrigo riu ao perceber que o vilão não descobrira sobre a queda do seu regime em Fujijuu.

— E quem é você?

— Aquele que derrotou definitivamente o seu subordinado... aquele espantalho feio como o demônio.

O semblante de Tatsunootoshigo mudou um pouco. Pensou na possibilidade daquele homem ser muito forte, pois derrotar Mortuário era para poucos. Mortuário era o segundo espectro mais forte da facção de Krom, abaixo apenas do próprio Tatsunootoshigo.

O samurai vermelho pegou a bainha da espada e fez um movimento ultrarrápido, como se tivesse tirado e colocado a espada. Foi em 1 décimo de segundo. Rodrigo viu algo indo em sua direção numa velocidade extrema, como um sopro. Ele desviou. O golpe cortante do vilão partiu um prédio ao meio.

— Desviou. Ninguém desvia facilmente desse ataque. Mas vejo que foi uma força acima do que está acostumado — as palavras do vilão se referia ao corte no braço direito do herói.

— Isso não foi nada — falou Rodrigo com o corte não muito profundo, mas que foi suficiente para sangrar.

...

Os soldados e o príncipe imperial entraram numa fábrica desocupada por falta de humanos vivos. Enfim, fecharam a porta e se esconderam.

O espectro quimera batia na parte de fora da fábrica e conseguiu arrombar com certa facilidade por causa da pinça.

— Fique comigo, alteza. Não permitiremos que esses monstros destruam a família imperial.

— Hyoruki-san, tenho medo.

— Tudo bem.

Os soldados começaram a atirar no monstro, mas foram mortos um por um.

A fábrica era de alguma empresa automobilística e ainda havia peças de carros. Essas peças foram transformadas em barricadas pelos soldados.

O espectro lançava os soldados para longe. E não havia como parar aquilo, pois os tiros não feriam significativamente e a barricada improvisada não protegia o suficiente.

— Eu devia voltar e esquecer tudo isso. Mas estou eu aqui tentando ajudar esses humanos inúteis — resmungou Eins, carregando uma arma de plasma.

O príncipe Hiro era o único membro da família imperial japonesa a estar vivo. Se continuasse assim, seria coroado o próximo imperador. Manteve-se vivo, pois estava numa excursão ao norte do país. Foi ajudado por militares a chegar ao sul de Tóquio.

— Hyoruki-san, não saia de perto de mim.

— Alteza... não o farei — Hyoruki era o seu chefe da segurança e único vivo.

Os gritos dos soldados ecoavam nos ouvidos do garoto. Era como ouvir a ópera do inferno. Almas sofrendo no caldeirão de enxofre. Mas aquilo era a vida real.

Num certo momento, o espectro arrancou a porta de um escritório onde o principe estava com alguns militares. Levou mais alguns tiros, suportando todas as balas em sua pele dura.

— Acabou a munição de todos — falou um soldado.

O monstro abriu a boca e liberou uma língua, agarrando um soldado e arrastando para fora.

— Fique atrás, alteza.

Hiro começou a chorar e achar que seria morto pelo espectro.

Enquanto isso, Eins viu todo o rastro de destruição e morte causado pelo monstro quimera. Escutou o barulho.

— Hey, bicho feio — Eins viu a criatura matar um soldado, partindo-o ao meio com a pinça.

O monstro correu para cima do bichano. Eins apenas deu um tiro de plasma no corpo do espectro. Este caiu com tudo.

— Essa arma realmente faz efeito, nya.

Mais outro tiro e o monstro morreu.

Soldados saíram do escritório e cercaram Eins com as suas metralhadoras. No entanto, o príncipe Hiro pediu que ninguém fizesse mal ao bichano.

— Ele nos salvou.

— Alteza, ele também é um espectro.

— Hyoruki-san, que importa? Ele nos salvou.

Eins retirou algo do bolso que parecia um microfone de lapela em formato de moeda e colocou na altura do colarinho da sua camisa.

— Olá! — as palavras do gato humanoide foram entendidas pelos japoneses. — Vocês podem me entender agora?

Todos concordaram.

— Meu nome é Eins. Realmente sou um espectro, mas não faço parte do Império Scuti. Estou aqui para ajudar a derrotar o mensageiro encarregado desse país.

Hiro saiu de trás e se aproximou de Eins.

— É verdade que você está nos ajudando? — o microfone também convertia a fala de outra pessoa estrangeira ao português (segunda língua do gato).

— Escutem. Nem todos os espectros são subordinados desses monstros. Vivemos pacificamente em nossos mundos na Terra de Baixo. Mas uma boa parte resolveu se filiar ao império. Eu faço parte do grupo que tenta restaurar a paz na Terra e no meu universo. Agora mesmo há um herói que está lutando contra esses monstros.

— Herói? — indagou Hiro.

— Sim. Ele é forte pra caramba e tenho a certeza que vai vencer, nya.

...

A luta final entre Rodrigo e Tatsunootoshigo ainda estava em sua fase preliminar. Nenhum dos dois tomaram a dianteira para atacar. Porém, o mensageiro parou de brincar com a espada e resolveu tirar a sua arma da bainha.

— Eu nunca tive essa sensação de que preciso ser mais diligente. Você não é ordinário. Pois bem, se é tão forte assim, desvie disso.

Tatsunootoshigo segurou a espada com as duas mãos e fez um movimento de corte. Uma lâmina de ar superou a velocidade do som e foi com tudo para cima de Rodrigo. Este recolheu as asas e se abaixou. A lâmina de vento fez um corte profundo no chão, partindo tudo ao meio num raio de duzentos metros. Até mesmo os encanamentos no subsolo foram expostos.

— Você é irritante como uma mosca no rosto. Acabem com ele!

Os espectros foram para cima de Rodrigo. Dezenas, centenas ou até milhares. Todos em Tóquio receberam a ordem de eliminar o intruso. Porém, os espectros não tiveram a vida fácil, pois as Marias surgiram em peso. Muitas delas eram gueixas e estavam prontas para atacar.

— Amarilys nos contatou — disse uma japonesa, falando em um bom português.

— Ela me surpreende a cada dia.

— Concentre-se no mensageiro. Vamos cuidar dos espectros.

— Valeu. Achei que não sairia vivo dessa.

Uma guerra entre Marias e espectros iniciou. Mas a batalha decisiva ainda estava para começar.

Tatsunootoshigo avançou muito rápido para cima de Rodrigo e fez um movimento cortante. Rodrigo desviou e soltou um punho de fogo, dissipado pela espada do mensageiro. Este aproveitou para dar um coice. Rodrigo foi jogado longe até atingir o templo vermelho.

— Não hesitarei destruir minha casa se for para acabar com a sua ameaça — Tatsunootoshigo arrancou o teto do templo com apenas um corte. Várias árvores foram cortadas ao meio.

Uma rajada de fogo atingiu o mensageiro, mas este utilizou a sua espada para se defender.

Kelpie, o cavalo, baforou uma bola de fogo. Isso deixou Rodrigo impressionado, pois não pensava que o cavalo tinha tal poder.

— Não se distraia — Tatsunootoshigo fez um corte, mas cambaleou. As pernas de Kelpie estavam feridas com penas pretas fincadas na pele. — Quando foi que...?

Rodrigo deu um soco em Tatsunootoshigo. O elmo do samurai caiu. O bicho era careca e sua boca era repleta de dentes afiados.

— Você que não pode se distrair.

— Chamem reforços — ordenou o mensageiro aos subordinados que assistiam à luta.

— Er... mestre. Temos um problema. O planeta Fuji-10 foi tomado pelo Pipepadopopuly e sua equipe.

— Quê?!! Então era isso! Você invadiu o meu planeta e deu um golpe de estado.

— Pera lá — Rodrigo negou com o dedo. — Golpe de estado foram vocês que deram. Apenas restituí o poder de Fuji aos seus líderes naturais. Os greys sofreram muito nas mãos de vocês.

O samurai mudou de semblante. Seu corpo expeliu uma energia vermelha jamais vista. Raios negros surgiram. Um tremor de terra iniciou.

Astrooms e reptilianos fugiram do palácio imperial assim que sentiram o verdadeiro poder do seu mestre.

Tatsunootoshigo ficou ainda mais rápido e bateu em Rodrigo sem a espada (ele utilizava os punhos e as pernas). Rodrigo voou para longe do local a fim de não por a vida das marias em risco. Mas logo foi alcançado pelo mensageiro que pulava no ar.

— Lâmida do Coração de Scuti-sama!

O mensageiro fez um movimento de corte. A lâmina de ar tinha uns 20 a 30 metros de comprimento e rasgou os céu de Tóquio. Rodrigo desviou, mas teve algumas penas arrancadas. O corte cortou ao meio a Torre de Tóquio com facilidade.

Rodrigo pensou que morreria naquele instante. A força de um mensageiro era o mais longe que ele sequer poderia alcançar. Seria o seu fim? Não. Pensou em seus pais, seus amigos e em toda a sua vida antes da invasão.

Modo Turbo!

Rodrigo do Carmo, 21 anos. Raça: mestiça única entre Maria e Espectro. O diferencial era que o seu pai fazia parte dos anjos caídos, seres poderosos da Terra de Baixo.

A pele de Rodrigo ficou cinzenta e quase pálida. Olhos vermelhos marcantes. Uma aura arroxeada. O cabelo dele cresceu instantaneamente e ficou como antes, porém com um loiro mais claro. Até a sua tunica branca mudou de cor e ficou preta. As asas se restauraram do corte anterior.

— Essa aparência não muda nada! O destino da Terra é ser a morada do imperador Scuti. Humanos só servem como alimento para ele!

O fogo ficou azul. O punho de Rodrigo acertou o rosto do cavalo Kelpie, destruindo os seus ossos do crânio (olhos do cavalo pularam fora da órbita e os dentes destruídos). Tatsunootoshigo ficou chocado, mas não se importou com Kelpie e tentou partir o herói ao meio. Rodrigo segurou a espada com a mão.

— Essa força! De onde vem essa força?

Rodrigo segurou a mão de Tatsunootoshigo, que já segurava a espada, e fez força para a espada se voltar contra o seu dono. O mensageiro colocou toda a sua força e até fez o protagonista sangrar, mas não pode se sobressair com o tremendo poder do rapaz. A espada de Tatsunootoshigo perfurou o peito do espectro mensageiro. O fogo azul passou pelo fio da espada até queimar os órgãos internos do vilão. Tatsunootoshigo torrou por dentro. Caiu morto.

— AAAAHHH!!!! — gritou Rodrigo. — Esse vai ser o destino de todos do império Scuti. Até chegar a você, Scuti. Prepare-se!!!

Rodrigou voltou à sua aparência normal. Uma maria salvou o rapaz de se machucar na queda.

Obdia-6

Scuti sentiu uma enorme pressão no peito e gritou. Seus servos ficaram impressionados com o ocorrido. Nunca na história o imperador gritou de dor. E não era só ele.

Mordecai caiu de joelhos no chão. O sentimento de perda era sufocante. Apenas a perda de um mensageiro seria capaz de causar tremenda aflição.

Outros mensageiros também sofreram. Capitão Cthu, Servespina e Anibal perceberam a derrota de Tatsunootoshigo.

Os espectros que continuaram a luta caíram um por um como se fossem peças de dominó. Suas vidas dependiam da vida de seu mestre. Mas já não havia mestre e nem propósito. Todos os espectros, incluindo aqueles que foram invadir as ilhas, morreram.

Rodrigo não sabia ainda, mas deu o passo inicial para a maior revolução do universo.