Rodrigo e o horror de Scuti
19 Atlantika
As ondas mataram pessoas que sobreviveram à invasão e à guerra. Sobreviventes restantes continuaram firmes e resolutos. O desejo de sobrevivência dos humanos era invejável. E algumas Marias ajudavam. No entanto, a raça humana na Ásia seria exterminada se ondas de 30 metros fossem as próximas, sobretudo as ilhas.
Kreuk se aproximou de Cthu e perguntou qual seria o próximo plano. O mensageiro avisou que reuniria mais poder e criaria ondas com mais de 30 metros para arrasar todo o litoral asiático; do Japão até o Iemen.
— O meu palácio já está pronto. Tenho que concordar que ficou melhor do que esperava.
O palácio do Capitão Cthu era preto com as paredes cheias de espinhos como se fosse um ouriço-do-mar. A fachada era gótica, com um grande portão vermelho que se dividia e abria automaticamente para os lados. As grandes janelas com vidros brancos dava uma aparência de um crânio (pareidolia). Um par de chifres gigantes saía de cada lado da parte central do palácio.
— Não houve nada melhor do que usar esses humanos para fazer a minha nova casa.
Cthu entrou no palácio, mas impediu Kreuk de ir junto.
— Não posso entrar, senhor?
— Não. Tenho que descansar agora. Juntar muita energia para o próximo passo do meu plano. Você fará parte desse plano, Kreuk. Não se preocupe.
Ao redor do palácio, um pequeno lago com águas repletas de tridentos, um tubarão alienígena perigoso do planeta Triton-33
Ver o palácio pronto e a ambição de Cthu em criar tsunamis deixou Kreuk preocupada. Naquele momento, ela não poderia mandar informações ao seu filho. Manter o disfarce e descobrir o ponto fraco do vilão eram necessários.
...
Saber que o próximo passo era invadir Atlantika deixou Hopper muito ansioso. Ele sonhava em um dia livrar o seu povo das garras do império. No entanto, suas forças nunca foram suficientes.
— Você disse que a sua mãe é uma espiã e que está interpretando um papel de braço direito do mensageiro. Como foi que ela acabou assim? — questionou Rodrigo.
— Mamãe sempre trabalhou para o mensageiro. Mas ela conheceu o meu pai e se apaixonou por ele. Acabou enxergando a podridão do império. Ela se culpa até hoje.
— Você é um mestiço como eu — Hopper olhou com surpresa. — É sério. Sou filho de duas raças distintas. Mas isso não impediu que ambos se apaixonassem e me tivessem.
— Algum de seus pais trabalhavam para o império?
Antes de responder, Rodrigo foi interrompido por Eins. Este impediu que o colega revelasse sobre o seu pai ter sido um mensageiro. Certas coisas não deveriam ser reveladas.
— Todos estão prontos? — Hopper indagou aos seus companheiros. Todos assentiram.
— Alocamos as armas nos aquavers — avisou Prisco.
Aquavers eram como lanchas que podiam submergir e navegar por baixo d'água. Eram como submarinos sem proteção. Muito usado pelo império. A versão da gangue de Hopper era modificada a ponto de caber armas embutidas.
— Vamos no submarino e acompanharemos logo atrás — respondeu Rodrigo, puxando Eins.
Azuro perguntou se estava tudo bem. Rodrigo sentiu que o ex-rei não podia ir por causa do ferimento na barbatana.
— Nunca que deixarei o meu neto lutar sozinho — mergulhou.
— Aquele peixe é teimoso, nya.
— Vamos embora.
Os homens de Hopper entraram nos aquavers e submergiram primeiro. O último veículo ficou para Hopper, Prisco e os principais gangueiros.
— Chegou a hora. Não tem como voltarmos atrás — avisou Prisco.
— Era o que devíamos ter feito há muito tempo. Agora tenho plena convicção de que venceremos.
O último grupo mergulhou.
...
Cidade Atlantika
A maior cidade subaquática do mundo e a capital do antigo reino dos managuarianos. Atlantika abrigava cerca de 100 mil habitantes entre astrooms e geckos. A arquitetura da cidade era moderna, com cúpulas transparentes tampando alguns prédios e casas. Mas a cidade em si era totalmente no fundo do oceano. No entanto, Atlantika estava dentro de um bolsão de ar que impedia a água tomar conta de tudo, ou seja, os habitantes respiravam oxigênio (e isso explicava o fato dos astrooms viveram lá sem equipamento de mergulho).
Os geckos eram criaturas tais como salamandras que podiam respirar tanto no ar quanto na água. Possuíam o corpo igual de um lagarto bipede, mas usavam roupas iguais de mergulhadores. As roupas variavam de cores pretas, azuis ou vermelhas.
Astrooms quase sempre usavam roupas de astronautas na rua, mas outros vestiam roupas de mergulho.
Os cavalos-daguianos eram enormes cavalos-marinho que serviam como meio de transporte aos moradores. Desde a época em que os managuarianos viviam na cidade, os cavalos-daguianos eram feitos como transportes. E isso não mudou!
— É lindo — disse Rodrigo ao ver todo o esplendor de Atlantika. Estavam a uma distância considerável e mesmo assim era nítida a grande cúpula.
— Nossa cidade foi construída com muita beleza e brilho — a voz de Hopper saía por um tipo de rádio comunicador (parecia um celular tijolão). — Eles tiraram tudo da gente.
— Mas vamos reconquistá-la pra vocês. E eu serei aquele que vai dar um chute bem na bunda do Capitão Cthu — respondeu Rodrigo.
A frota com os aquavers estava a uma distância de 5 quilômetros de Atlantika. A cidade era o lar do atual governo mundial do planeta, mas estava sem o seu mensageiro.
— Vamos agora! — bradou Prisco.
Os astrooms perceberam a chegada dos intrusos e soaram o alarme. Os seus pequenos submarinos foram na direção dos invasores. Uma batalha dentro do mar iniciou.
— Eles notaram muito cedo. Temos que nos defender.
— Hopper, não! Precisamos continuar. Nossos aliados vão ficar para trás justamente para que você possa chegar até a cidade — disse Prisco.
— Mas Prisco... tenho que protege-los.
— Eu sei disso, chefe. Mas todos estão aqui por você. Vamos morrer por você.
Hopper abaixou a cabeça e assentiu. As palavras de Prisco eram verdadeiras. Toda a sua vida estava juntando gente para a invasão. Além disso, sua mãe estava com o Cthu, desviando a sua atenção.
— Parece que nossos amiguinhos estão com um dilema, nya.
— Deixa eles. Eu sei muito bem o que estão passando. O planeta deles foi invadido e tomado a força assim como a Terra.
Enquanto isso, Azuro derrotou alguns submarinos, ajudando o aquaver do Hopper chegar até a borda da cúpula.
O aquaver e o Chevette atravessaram a borda e caíram em solo seco. Era uma bolha gigantesca. Toda a cidade era seca.
— Aqui também respiram oxigênio — Rodrigo foi o primeiro a por a cabeça para fora da janela do carro.
Hopper sentiu falta da tartaruga gigante do mensageiro. Talvez o planeta fora deixado à sua sorte.
— Tem alguma coisa errada. É como se nenhum obstáculo fosse colocado para nós.
— Mas chefe, acabamos de passar pelos submarinos.
— Tá, mas estou mais preocupados com os geckos.
Sem acreditar na facilidade da chegada, Hopper segurou uma metralhadora de plasma e caminhou pelas ruas desertas da cidade. Apenas alguns animais semi-aquáticos perambulavam pela região. No que parecia ser uma praça circular, um telão colocado bem no meio.
— Precisamos ir ao castelo. Lá deve ser o portal que Cthu pegou para ir à Terra.
— Lá? Sinto muito.
— Prisco?
Prisco usou uma arma de choque e atingiu a nuca de Hopper, que caiu eletrocutado. Depois o rapaz jogou a arma de plasma para longe.
— Não existe mais castelo real, amigo.
— Prisco? O que tá fazendo?
Prisco colocou as mãos de Hopper para trás e o algemou.
— Levanta.
— Prisco?
— Levanta, caramba!
— Isso é um motim?
Algo no telão surgiu.
— Isso mesmo, príncipe Hopper. Seu valioso amigo era um agente duplo, trabalhando para mim — disse o Capitão Cthu no telão.
A mente de Hopper veio abaixo quando viu a imagem de Kreuk como refém do vilão.
— Deixa ela em paz!!
— Você passou anos elaborando o plano de tomar Atlantika de forma cega e esqueceu da possibilidade ínfima de eu ter tido informações. Sou um dos 5 mensageiros do imperador, por isso tenho poder de espionagem quase irrestrita. Você me subestimou!
Os geckos e astrooms saíram todos armados e se aglomeraram na praça.
— Você tem apenas 1 chance de sobreviver a esse cenário. Também posso salvar a vida da sua mãe. Hehe... Ela acreditava que estaria segura se continuasse trabalhando para mim nesse teatrinho. Achava que eu não sabia do relacionamento dela com o seu pai.
— Não faça isso, filho! — gritou Kreuk.
— Mãe! Não a machuque. O que quer?
Cthu respondeu que a única maneira de poupar a vida de Hopper e Kreuk era revelando a identidade do viajante secreto, aquele que havia matado o mensageiro Tatsunootoshigo.
— O que pretende fazer?
— Levarei ele vivo até o imperador Scuti para executá-lo com as suas próprias mãos. Eu ganharei muito crédito com o imperador. Fale. Cadê ele?
Um suor desceu da testa de Hopper. Era uma oferta extremamente difícil. A vida da sua mãe estava em risco.
— Responde, Hopper. Acaba com isso! — disse Prisco. — Se você não disser, direi eu.
— Traidor maldito. Nem ouse a abrir a sua boca.
— Eu posso dizer! Mestre Cthu, sei exatamente quem é o viajante. É o...
Uma lança atravessou o peito de Prisco, matando-o. Um gecko havia feito isso.
— Eu pedi ao príncipe. Um reles plebeu não tem voz aqui — comentou Cthu.
— Prisco... por quê?
— Foi pre... ciso...
Hopper chorou ao ver o antigo amigo morrer como um traidor.
— Ele sabia quem é o viajante, mas eu me nego a escutar palavras da boca da ralé. É muito mais divertido fazer você, o neto do antigo rei, contar. Agora conte!
Hopper se tremia de ódio e medo. Engoliu em seco. Prisco era aliado de Cthu, mas foi morto como barata. Talvez, mesmo contando a verdade, seria o seu fim.
— Eu...
— Você o que? Conta logo!
— Eu quero que você... vá para o inferno! Não sou ingênuo. Vai nos matar assim que eu disser. Você fez tudo isso porque está com medo do viajante. Eu soube que ele matou um mensageiro. Não seria impossível você ser o próximo.
Cthu ficou com muito ódio das palavras de Hopper e mandou todos ali atirarem nele.
— Acabem com esse miserável!
Os tiros de lanças e bestas foram em direção ao rapaz. No entanto, Azuro se meteu na frente e defendeu o neto com o seu próprio corpo. Aquilo deixou Hopper estupefato.
— Suba em mim, kyu. Eu consigo nadar no ar...
— Está sangrando!
Os dois fugiram e começaram a ser caçados.
— Protegeu a identidade do Rodrigo. Por que não disse sobre ele ao mensageiro?
— Temo pela minha mãe, mas acho que morreríamos mesmo dizendo a verdade. Rodrigo seria capturado e morreria também. E o império sairia impune. Se tivermos pelo menos 1% de chance de acabarmos com Scuti, eu vou me agarrar a isso.
A orca caiu com tudo no chão. Hopper ficou apavorado e pensou chamar Rodrigo, mas Azuro impediu.
— Tenho... um segredo... Eu...
Hopper chorou. Uma luz brilhou em torno do corpo do Azuro assim que parou de respirar.
...
Ainda em Atlantika, Rodrigo e Eins pegaram um caminho totalmente diferente com o Chevette. Ligaram a invisibilidade do carro.
— Nya... devíamos ter ficado com o Rodrigo.
— Isso seria inútil pra caramba.
— Quê?!!
— Ele deve ter sido traído por aquele amiguinho dele. O Trisco, Cisco... sei lá.
— QUÊ???
— Não percebeu? Você é mais inteligente do que eu, mas não lê o cenário ao redor. A minha intuição disse que aquele cara não era confiável, e por isso seria algum tipo de trunfo do mensageiro.
— Então por que você não falou ao Hopper, nya?!
— Você pode me achar cruel, mas eu me calei porque eu quis que houvesse uma grande distração enquanto eu me preparava para o me próximo passo. Para o carro aqui.
— Então Hopper...
— Calma, Azuro vai salvar o seu descendente. Mas ele vai precisar passar por um teste de fogo para atingir o seu objetivo maior. Enfim, já chegamos. As ruínas do antigo castelo real.
Rodrigo saiu do carro. Ele caminhou para a base das grandes escadarias quando foi abordado por guardas geckos. Num instante os guardas foram derrotados.
— Não fique aí. Traz o carro pra cá.
— Droga, Nya. Qual é o teu plano? — indagou Eins ao dirigir o veículo com Rodrigo sobre o teto.
— Azuro vai resolver as coisas aqui. Mesmo na morte, ele tem condições de acabar com os capangas do mensageiro. Ele me disse por telepatia. Só basta confiar. E eu... bom, está na hora de voltarmos para a Terra.
— Não vamos ajudá-los, nya?
— Vamos sim. Já visitou a China?
— Hã? Nunca.
— Então prepare o seu mandarim. Vamos até lá arrancar os tentáculos daquele polvo nojento.
Rodrigo continuou, afirmando que havia falado com as Marias para abrirem um portal de volta à Terra num horário estipulado. O dito portal seria aberto perto de Rodrigo e, dependendo da localização, seria o local em que o mensageiro pisara pela primeira vez na Terra.
As ruínas do castelo eram enormes e bem maiores do que qualquer monumento terrestre.
Um portal se abriu para o Mar do Sul da China.
...
O Capitão Cthu preparou a execução de Kreuk. Amarrou a mulher num poste uns 100 metros do litoral. O mensageiro criou uma tromba d'água para executar a mulher.
Eins surgiu com o seu Chevette e acionou o turbo. O carro entrou na tempestade e girou no sentido contrário numa velocidade superior a dos ventos. A tromba d'água se desfez em seguida. Rodrigo aproveitou para voar e salvar a mãe de Hopper.
— O que houve ali? — Cthu tentou ver pela luneta, mas não viu mais nada. — Vão atrás!
— Sim, chefe.
Rodrigo pôs Kreuk no chão e perguntou se a mulher estava bem. A mãe de Hopper assentiu.
— Eu era para estar morta! Quem é você?
— Sou aquele que vai chutar a bunda daquele mensageiro. Rodrigo a seu dispor.
O Capitão Cthu e os seus capangas foram até a praia a fim de verem mais de perto o que ocorreu.
Chovia bastante.
Um leve tremor aconteceu momentos depois. Quando perceberam que o novíssimo palácio do mensageiro explodiu de dentro para fora. E o causador da destruição era o Rodrigo.
Continua...
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