Rodovia para o Inferno
1 Prólogo - A caçada Começa
Sam Winchester
– Sam... – eu ouvi uma voz próxima me chamar – Vamos... Acorde! – ela insistiu.
Abri os olhos e olhei confirmando minha dúvida: era mesmo Ruby. Desde algum tempo eu a esperava todos os dias, às vezes ele aparecia para me ver, eu acredito que ela é diferente dos outros demônios.
– Bom dia... – ela sorriu.
– Bom dia... – eu respondi com meio sorriso.
Ruby levantou-se da beira da cama e caminhou até “cozinha” daquele quarto de Motel.
– Cadê o Dean? – eu perguntei.
– Ele foi ver o Bobby... – ela respondeu enquanto pegava duas xícaras de café.
– Ver o Bobby? O que houve com o Bobby? – perguntei assustado.
Desde a morte de meu Pai, Bobby vem sendo um pai para nós. Não penso nem na hipótese de perdê-lo agora.
– Não foi nada demais, Sam... – Ruby caminhou até mim e entregou-me a xícara de café. Em seguida, ela sentou-se atrás de mim, senti suas mãos tocando meu ombro e massageando-o com delicadeza – Você esta tenso...
– O que houve com o Bobby? – insisti perguntando novamente.
– Ele... Ele esta sumido, Sam... – ela disse levantando-se – Dean pediu que não contasse a você...
– Por que Dean não quer que eu saiba? – perguntei irritado.
– Sam...
Antes que Ruby pudesse concluir o que queria dizer, a porta foi abruptamente escancarada. Era Dean.
– O bom de eu mesmo ir ao supermercado é que eu não me esqueço da torta, Sammy. – Dean disse como se nada houvesse acontecido.
– O que houve com o Bobby? – perguntei com um pouco de raiva.
– Ah, o Bobby... – Dean começou a falar com naturalidade – Ele estava numa caçada no norte do Texas... Um lobisomem detonou o celular dele...
Fitei Dean com seriedade.
– Quer torta? – Dean perguntou enquanto abria uma embalagem barulhenta.
Não o respondi.
– Dean, você não pode esconder coisas sobre o Bobby de mim... Eu não sou mais o menino de dez anos que você matinha em casa... – eu disse argumentando.
– Sammy, eu não escondo nada de você. Bobby esta bem. Não posso confiar a vida dele nas mãos dela... – Dean disse com tom prepotente enquanto fitava Ruby.
Os olhos tornaram-se negros rapidamente.
– Que interesse eu teria em matar um velho bêbado? – ela interrogou Dean, ainda com os olhos negros.
– Bobby é nossa fraqueza... E você sabe disso, vadia.
Ruby deu um passo à frente, Dean permaneceu com a cabeça levantada. Com um curto solavanco das mãos, ela fez com que a garganta de Dean se fechasse enquanto ela diz:
– Eu estou aqui para ajudar o Sam. Não quero que você goste de mim, mas...
– Ruby! – eu tentei interrompê-la.
– Não fique tentando encher a cabeça dele de besteiras. – ela concluiu como se eu nem sequer tivesse dito nada – Eu não sou como os outros. – ela afirmou, mas ainda continuou a sufocar Dean.
Agilmente retirei a faca (que eu havia pegado de Ruby mais cedo) de meu bolso, segurei-a com firmeza e fui em direção de Ruby.
– Sam. – ela berrou com decepção. No momento que sua voz parou de soar, o curso da respiração de Dean voltou ao normal.
Ruby me fitou com um misto de raiva e ilusão, em seguida, ela soltou meu braço e andou até a saída do quarto, retirou-se do ambiente e bateu a porta com força.
Ruby devia me entender, eu estava apenas defendo o Dean.
– Eu disse para não confiar naquela vadia de olhos negros, Sammy. – Dean disse com um pouco de razão.
Eu o olhei para ele e não respondi. Não demos mais nem uma sequer palavra até o fim da noite.
Passamos a noite naquele mesmo motel, na manhã seguinte fui acordado pelo barulho que Dean fazia do outro lado do quarto.
– Cadê a Ruby? – perguntei olhando para o outro lado.
– Cadê a Ruby? Por que a Ruby não tá aqui? Não Dean, a Ruby não é como os outros demônios... – ele me respondeu tentando imitar minha voz.
Uma risada meio que presa escapou de mim.
– Eu estou falando sério, Dean! – eu disse em tom bem humorado.
– Quando acordei, ela já tinha saído...
– O que você está fazendo? – perguntei olhando para alguns livros da mesa que Dean estava.
– Procurando sobre demônios e pactos...
– Demônios e pactos? Já não sabemos o suficiente? – eu disse com meia risada.
Dean não disse mais nada. Levantei-me e comi uma ou duas fatias de pão, quando eu estava indo ajudar Dean, ouvi alguém bater na porta:
– Dean... – a voz soou do outro lado.
Andei até a porta e abri, Ruby estava do outro lado.
–Onde você estava? – eu perguntei fitando seus olhos.
– Resolvendo uns problemas! – olhei para Ruby com expressão de quem não havia ficado satisfeito com a resposta – Coisa de demônio, Sam! – ela disse enquanto tocou meu peito e entrou no quarto.
Ruby caminhou até a cozinha, e ao tentar sair de lá pareceu presa por uma barreira invisível. Pude ver os olhos dela virando-se para cima e em seguida ela suspirando.
– Dean. – eu afirme irritado – O que você fez?
– Prendi a vadia, Sam! – ele respondeu com naturalidade – Ela tem que nos responder algumas coisas.
Os olhos de Ruby ficarem totalmente negros
– Dean, você não tem o direito de...
– Como se quebra um pacto? – Dean me interrompeu abruptamente.
– Como se quebra um pacto? Você esta me achando com cara de vendedora, Dean Winchester? – Ruby disse com um pouco de raiva e ironia.
– Você é um demônio, com certeza sabe como os outros agem, como tudo funciona lá embaixo. – ele disse apontando para o chão.
– Dean, por que você quer saber como se quebra um pacto? Não me diga que...
Eu pensei que Dean havia feito um contrato com um dos olhos negros por causa do Bobby, ele poderia ter morrido e o Dean o trazido de volta, mas ele interrompeu meu pensamento:
– Não, Sam. A quebra do contrato é não para mim. – os olhos de Dean murcharam brevemente.
– Agora solte a Ruby... – eu ordenei a Dean, ele me fitou com um pouco de raiva encubada no olhar.
– Desculpe, Sam! – eu ouvi uma voz grossa soar por trás de mim.
Era Bobby, ele me segurou, por mais que eu fosse maior que Bobby, não consegui me movimentar, ele algemou minhas mãos e em seguida me soltou. Quando tentei andar, percebi que a algema estava com uma corrente acoplada no pé da cama (que era presa ao chão).
– Bobby! – dei um grito um pouco abafado.
Bobby andou rapidamente até perto da armadilha de Ruby, fitou os olhos dela, – que ainda estavam negros – e retirou do bolso um pequeno tonel de prata com uma cruz na frente.
– Você vai falar tudo, sua vagabunda de olhos negros. – Bobby falou com raiva.
– Vocês acham mesmo que sou eu que guardo os contratos? Seus idiotas... O demônio que manda lá embaixo é muito mais forte que eu...
Dean olhou para mim um pouco assustado.
– E muito mais forte que a maioria dos outros demônios... Ele é quem guarda os contratos...
– Qual é o nome dele? – Dean perguntou com prepotência.
– E por que eu te diria?
Bobby subitamente abriu o tonel e jogou um pouco d’agua sobre Ruby. Ouvi-a gritando tentando abafar o som.
– Seu velho bêbado! – ela falou com tom de audácia.
– Parem! – eu gritei, forçando a algema.
Dean e Bobby fizeram como se não houvesse me ouvido.
– Quem guarda os contratos? – Dean tornou a perguntar.
– Imbecil! – Ruby respondeu, com um sorriso maldoso – Chega de brincadeira! – Ruby disse brevemente. Num instante seus olhos acentuaram-se num preto mais forte. O quarto do motel começou tremer lentamente e o teto, onde estava a Armadilha do Diabo, obteve uma pequena rachadura.
– Ruby! – eu berrei.
Ela levantou uma mão jogando Dean e Bobby na parede.
– Nunca brinquem com um demônio, rapazes!
– Ruby! – Eu gritei novamente.
Ela levantou a outra mão e com isso a algema se soltou de minhas mãos. Eu a fitei enquanto ela matinha Dean e Bobby na parede.
– Vamos! Mate-nos! – Bobby disse encorajando Ruby – E veja Sam a mantando logo em seguida...
Ruby recuou um pouco, olhei de relance para a faca, Dean havia a deixado na mesa.
– Idiotas. – ela disse bufando.
Ruby levou a mão para baixo novamente e com isso, Dean e Bobby despregaram-se da parede. Alguns dias depois, tentei forçar Dean a me dizer para quem era a informação que ele queria arrancar de Ruby, mas ele resistiu.
Depois de vários dias com Ruby e Dean encarando-se com feição de ódio, Dean resolveu pronunciar-se:
– Ruby.
Ela olhou em resposta, com desdém.
– Eu preciso mesmo saber quem guarda os contratos... – Dean disse embargando a voz.
– E por que eu te diria? – Ruby respondeu ainda durona.
– Você... Você já amou... – quando ele terminou dizer, senti que Ruby olhou brevemente em meus olhos, então, desviei o olhar. – Você sabe que família e amigos vêm na frente de tudo... – E nesse momento, uma velha amiga precisa de ajuda...
Após Dean concluir a frase, juntei os pontos e percebi que alguma amiga antiga dele provavelmente teria feito um pacto, e seu tempo estava acabando.
Vi que os olhos de Ruby murcharam-se rapidamente. Por mais que Ruby estivesse como demônio há muitos anos, ainda havia uma parte humana nela.
– Ela fez um pacto e o tempo dela está acabando? – ela indagou.
Dean concordou com a cabeça.
– O inferno está uma bagunça há meses, Dean. Agora, cada vendedor guarda seu contrato... – Ruby
– Você disse que o demônio que guarda os contratos era o que mandava lá embaixo... – Dean disse com um pouco de fúria.
– Eu menti. Não é isso que os demônios fazem? – Ruby disse provocando Dean.
– E como posso confiar em você? – Dean perguntou.
– Eu não preciso que confie em mim... – Ruby disse com certeza. – Já você...
– Leslie. – Dean disse interrompendo Ruby. – É o nome do demônio.
Ruby ficou imóvel.
– Ela não é só uma vendedora comum, Dean. Leslie é um dos Cavaleiros do Inferno.
O semblante de Dean encheu-se em decepção.
– Ela e mais alguns foram escolhidos a dedo por Lúcifer. Ela é mais forte que todos os demônios que vocês conheceram... Eu... Eu sinto muito, mas sua amiga já era. – Ruby concluiu enquanto curvava o olhar.
Dean socou a mesa.
– Tem que haver um jeito.
– E há. – ela disse encorajando Dean.
– Um novo pacto... – eu falei parecendo ter certeza – Isso é loucura.
– Não é um novo pacto, Sam. Leslie é esperta, não trocaria uma alma por outra qualquer. – Ruby olhou para Dean – Sam pode matar Leslie, e com ela... Bem, com ela todos os contratos dela vão junto.
Dean suspirou franziu a testa, como costumava fazer quando estava pensando em algo.
– É a única chance, Dean. – Ruby completou enquanto levantava uma faca.
Eu tinha certeza do que aquilo significava, devia tomar o sangue dela, com isso, meus poderes psíquicos se manifestariam mais intensamente e, assim, eu poderia destruir Leslie. E assim fizemos por alguns dias, Ruby me dava seu sangue, Dean catava alguns olhos negros pela rua, e eu os exorcizavas e às vezes os matava.
Uma ou duas semanas depois, Dean apareceu com a tal amiga no motel que estávamos:
– Sammy! Ruby! – ele disse nos chamando.
– Estamos na cozinha! – eu respondi.
Ouvi Dean e sua amiga caminhando até nós.
– Essa é Karen. – ele disse apontando para mulher ruiva, lotada de tatuagens, ao seu lado.
Ruby sorriu para ela.
– Você deve ser o Sam! – ela disse sorrindo, vindo me cumprimentar.
– Sorridente demais para quem vendeu a alma... – Ruby disse vendo-a beijando minha bochecha.
– E você... Ruby, o demônio que vai me ajudar a ficar livre... – ela disse jogando um beijo na direção de Ruby.
– E... Eu posso saber o porquê de ter feito um pacto, Karen? – Ruby indagou curiosa.
– Minha mãe. Ela foi assassinada, e bem... Eu não aguentava ficar sem tê-la por perto.
Ruby pediu que ela a contasse detalhes da história, as duas pareciam velhas amigas sentadas na cozinha conversando.
Algum tempo depois, Dean manifestou-se:
– Nós temos um demônio para matar, chega de cerveja... – ele disse retirando as garrafas da mesa.
Ruby levantou e continuou:
– Leslie é muito mais forte que os outros demônios, ela tem mais poderes que um demônio qualquer. A armadilha vai prendê-la por pouco tempo. Então, Sam, você deve estar preparado. – Ruby disse me fitando.
Ela caminhou até a pia, pegou um curto copo, com uma faca afiada abriu seu pulso e depositou seu sangue no objeto.
– Bebe! – ela falou entregando-me o copo.
Fiz como Ruby ordenou.
– Karen, vou precisar do seu sangue...
– Do sangue dela? – Dean perguntou.
– Eu vou ligar o contrato a Leslie, obrigando-a a destruir o contrato de Karen junto com sua morte.
Karen foi até Ruby e deu sua mão em direção a ela. Ruby cortou a mãe de Karen delicadamente e deixou o sangue escorrer para dentro de uma cúpula.
– Infernales spiritus, qui vendit contractus iungens praefuerat. – após Ruby terminar a frase, o sangue de Karen borbulhou por alguns segundos e em seguida secou-se. – Está feito.
Fomos para fora da cozinha, já havíamos desenhado armadilhas do diabo no teto de boa parte do quarto, e também, embaixo de todos os tapetes. Ruby passou com cautela, desviando-se de cada uma delas. Dean já havia acendido uma vela e posto alguns itens para invocar Leslie.
– Sam, concentre-se, você vai conseguir. – Ruby disse me encorajando, e em seguida me beijou suavemente.
– Hinc tibi dico, Leslie, apparere. – Dean disse concentrando o olhar na chama.
– Winchesters! – uma mulher sensual, com cabelos estranhamente loiros, surgiu na sala. – Por que estou aqui? – ela perguntou.
– Quero que anule um contrato. – Dean pediu, com a voz um pouco trêmula.
Por mais que o plano não fosse implorar a um demônio a anulação de um contrato, Dean tentou.
– Dean, – ela disse enquanto olhava para a armadilha desenhada no teto – demônios não fazem caridade, vocês deviam saber... – concluiu olhando estranhamente para Ruby.
Dean sacou a arma calibre 28 e atirou em direção de Leslie.
– Ow! – ela berrou – Bala banhada em água benta? – perguntou retoricamente – Achei que fossem mais espertos.
Abruptamente Leslie fez um gesto curto com a mão direita, em seguia armadilha se rompeu.
– Boo! – falou provocando-os – Pacto é pacto!
– Eu só tinha treze anos, sua vadia! – Karen gritou furiosa.
Leslie sorriu maliciosamente, levantou uma das mãos, lançou Dean contra um armário, fazendo-o desmaiar e, começou sufocar Karen de longe.
Ruby me olhou e balançou a cabeça, entrei entre a “linha de tiro” das duas e me concentrei em matar Leslie. O preto dos olhos dela ofuscou-se brevemente. Alguns gemidos de dor puderam ser ouvidos. Estava dando certo, eu realmente estava matando Leslie.
Com um curto solavanco de mãos, Leslie fez com que eu fosse lançado até a parede.
– Valeu à tentativa, Winchester! – ao terminar de dizer, ela olhou fixamente para Karen, em seguida caminhou até ela, que estava tremendo de desespero.
Leslie levou ambas as mãos até o pescoço de Karen e começou a apertá-lo de forma nada delicada. Olhei para o lado em busca de Ruby, inexplicavelmente não a vi. Ouvi alguns ruídos vindos da cozinha, eu já estava praticamente sem “bateria”, então, usei o restante para afastar Leslie de Karen, em seguida ouvi outros ruídos e, dessa vez vinham de dentro de Leslie, flashes brancos saindo de dentro do corpo da vendedora. Ruby estava atrás dela, havia cravado a faca no por trás da mulher.
O corpo que Leslie possuía caiu ao chão, após o barulho surdo se finalizar, Dean finalmente acordou. Karen estava assustada e desvairando-se em lágrimas, Dean caminhou até ela e a abraçou.
– Ruby!
Ela me respondeu com um meio sorriso.
– Eu sabia que você ia conseguir, Sam! – Ruby disse enquanto acariciava meu rosto.
Eu apenas a abracei e respirei com alívio. Aquele fora mais um dos casos que resolvemos, e desta vez, com a ajuda de um demônio.
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