Notas iniciais
Depois de muitos anos, finalmente voltei a escrever uma história grande de RockMan X. Espero que gostem!

A cidade estava em ruínas. As grandes construções, antes prédios imponentes que alcançavam as nuvens e grandes viadutos igualmente altos, agora eram escombros irreconhecíveis, exceto por uma construção, que apesar de muito danificada, ainda se mantinha em pé e habitada. Nas ruas, corpos se espalhavam por todos os cantos. Sangue humano e fluído reploid se misturavam, pintando as calçadas de preto e vermelho. No centro da cidade, onde antes havia o grande centro de convenções, agora havia uma cratera gigantesca, como se a superfície lunar tivesse um pedacinho dela na Terra. Uma nuvem escura pairava sobre o local. Uma nuvem radioativa, herança de uma bomba nuclear.

Dentro do prédio que sobrevivera ao ataque, reploids corriam de um lado para o outro, carregando tanques de energia, peças sobressalentes e alguns até humanos nas costas, os poucos humanos sobreviventes do cataclismo ocorrido na cidade, em torno de trezentos ou quatrocentos humanos. Reploids médicos tratavam de socorrer rapidamente os humanos, enquanto outros reploids, de combate, entravam e saíam da base praticamente o tempo todo. Os que retornavam quase sempre estavam em um número menor que o inicial, e os restantes estavam danificados.

Num andar mais alto, dois reploids estavam parados em uma sacada, observando a devastação. O primeiro, de armadura azul, com nuanças de azul claro na skin e no peitoral, olhava fixamente para a cidade. Focos de incêndio consumiam o que a bomba em si não havia devorado. O reploid ao seu lado trajava uma armadura vermelha e branca, com duas gemas esverdeadas no peito, e por trás de seu capacete caiam longos cabelos loiros, até a altura dos joelhos. Ele carregava um sabre desativado nas mãos.

-Onde nós erramos, Zero? – O azul suspirou, olhando para fora, melancólico.

-Sigma sempre está um passo a frente. Não se lembra da primeira vez que ele nos atacou?

X, o reploid azul, entrelaçou os dedos das mãos e olhou para Zero. Parecia ter sido ontem que a rebelião Maverick estourara. Tudo teve início quando Sigma começou a agir estranhamente. Depois, veio o alerta dos mísseis nucleares. X e Zero lutaram bravamente contra Sigma, mas foram derrotados. A cidade fora destruída, e Sigma fugira. Agora, anos depois, a mesma cena se repetia. Uma grande bomba veio do céu, e a cidade que nunca dormia, Nova Utopia, havia fechado os olhos para o sono eterno. O ataque foi assinado pelo próprio Sigma, em uma transmissão para a base dos Maverick Hunters. O Dia de Sigma, como era chamada a primeira rebelião, se repetira.

ROCKMAN X

GUERRA DECLARADA

As atenções de X e Zero foram desviadas pelas luzes. Eles voltaram os olhos para um ponto onde antes era o centro comercial da cidade. Algo muito grande se movia rapidamente nas ruas, e traços de luz explodiam para todos os lados. De repente, a máquina endireitou-se, revelando ser uma serpente robótica gigantesca. Sua boca abriu-se, e lançou um raio energético que clareou a noite que estava em completo breu. Um traço azul, seguido de pequenos tiros amarelos explodiu na cabeça da serpente, que cambaleou, desnorteada. Os reploids que a combatiam saltaram sobre os escombros, e lançaram redes elétricas, que paralisaram o colossal robô. Por fim um reploid de armadura negra atirou dentro da boca da serpente, que tremeu. O grupo correu rapidamente, enquanto o monstro explodia, fazendo uma nuvem de fogo subir. X e Zero tomaram as escadarias e foram ao encontro do batalhão.

O grupo de seis batedores vinha correndo para dentro da base. Cinco reploids armados com bazucas lançadoras de redes, um reploid médico, que carregava tanques e peças, e o líder dos batedores, que vinha à frente. Sua armadura negra era rajada por traços alaranjados, uma grande pedra redonda e azul no peito, e outra idêntica no capacete, que na parte de trás saltava o cabelo ruivo arrepiado. Ele sorriu, fazendo a marca entre os olhos se estreitar, e cumprimentou X e Zero com a mão espalmada.

-Foi fácil pra caramba! Voltamos todos sãos e salvos! – Ele vangloriou-se, e sua voz não soava como a da maioria dos Hunters, de um adulto preocupado. Tinha a voz de um jovem, e sempre que falava algo, era uma piada para tentar aliviar as tensões da guerra.

-Ótimo trabalho, Axl. – Zero disse, dando dois tapinhas nas costas do reploid. – Você parece inteiro. Muito bom.

-É, só estou um pouco cansado. Nada que um tanque de energia não resolva.

-Vá aproveitar seu tanque, Axl. Você merece. – X comentou, aprovando a ação de sucesso do grupo de batedores.

Axl abriu a porta do estoque, e procurou por um tanque. Achou uma lata bem pequena com a letra E gravada. Sorriu, pegando a lata e a abrindo. Reploids, assim como os humanos, necessitavam de um líquido para continuar sobrevivendo. O dos humanos era a água, e o dos reploids, o fluído energético. Ele tomou um gole do fluído, e seus sinais de alerta apitaram. Rapidamente ele colocou a lata sobre uma mesa e sacou as pistolas, girando sobre os calcanhares em busca da ameaça. Mas a sala estava vazia. Ele checou em torno de si mesmo mais uma vez, mas o alerta já havia cessado. Assim que guardou as pistolas, o alerta soou novamente. O radar dizia que o inimigo estava atrás dele, e quando ele se virava, o alerta indicava que estava à sua frente, porém, não havia ninguém na sala. Foi então que ele percebeu uma distorção energética logo abaixo dele. Sua sombra tremulava, como se fosse líquida. Ele se abaixou, e tocou a sombra com a ponta do dedo. Ela estava pegajosa, e grudou-se no dedo como cola. Ele chacoalhou a mão, e a sombra soltou-se. Olhou um pouco mais perto, e a sombra de sua cabeça ganhou um par de vívidos olhos vermelhos como o sangue. Antes que Axl pudesse reagir, um braço negro, de garras afiadas emergiu da sombra, e o agarrou pelo braço. Axl gritou e chutou a sombra, mas sua perna afundou no líquido viscoso. Outro braço emergiu da sombra, e outro, e mais outro. Eram no total quatro braços, dois braços grossos de reploid e outros dois finos, como braços humanos.

Axl conseguiu tirar a perna da massa de sombras, e os braços se apoiavam no chão para erguer o restante do corpo. O reploid copiador havia se livrado do aperto da mão do estranho, e estava encolhido ao lado de uma caixa de madeira, observando o espetáculo macabro. Um buraco negro feito de líquido negro girava no chão como um redemoinho, e o corpo se e erguia dele. Primeiro veio a cabeça, depois o tórax e por fim o ser estava deitado no chão da sala, completamente seco. O líquido desaparecera. Era um reploid de armadura roxo escuro, com poucos detalhes. A skin era negra, e no peito havia um cristal triangular verde, embutido dentro do metal da armadura. A face do reploid era alva, e duas listras negras saíam das laterais de seus olhos. Do lado de trás do capacete o cabelo azul se destacava na escuridão da armadura.

Um reploid havia saído de dentro da sombra de Axl, e nem ele sabia explicar aquilo.

HOOZUKI-4

Axl correu esbaforido para onde X e Zero estavam. Os dois conversavam com um comandante de um grupo de batedores que havia acabado de derrubar uma nave Maverick, quando Axl entrometeu-se na conversa, puxando X e Zero pelo ombro.

-Axl! – Zero ralhou – O que deu em você, garoto?

-Tem um reploid lá na salinha de suprimentos! – O reploid copiador disse, balançando os braços e apontando para o corredor de onde viera.

-Hã, Axl... – X tentou encontrar as palavras certas, e apontou para o lado. – Estamos na base dos Maverick Hunters. Aqui, tipo, tem reploid pra todo lado.

-Não é isso! Venham comigo!

Axl saiu correndo de volta para o corredor. X e Zero deram de ombros, e o seguiram.

Quando chegaram lá, se depararam com o reploid de armadura roxa, desacordado. Chamaram imediatamente uma unidade médica e o levaram para a sala de análise.

-De onde ele veio? – Zero disse, correndo ao lado de Axl e X, logo atrás da unidade médica que carregava o reploid. – Eu nunca vi esse cara por aqui.

-Eu já disse pra vocês! Ele pulou de dentro da minha sombra!

-Mas como? – X indagou. – Não existe no banco de dados nenhum reploid, seja ele Hunter, Maverick ou civil que tenha esse tipo de habilidade.

-Ei, será que esse é meio que um poder oculto dos reploids de nova geração? Sabe, invocar reploids!

X e Zero se entreolharam, e voltaram-se para Axl.

-Não viaja, Axl. – Ambos disseram.

-Ah, qualé! – Ele gritou, parando de correr. X e Zero continuaram seguindo, e o deixaram para trás. – Por que só vocês dois podem ser os poderosos da parada? Somos um trio, eu também mereço alguma coisa! – Ele tornou a correr, tentando alcançar o grupo. – Eu também posso ser o bonzão, tá? Só não sou melhor que vocês porquê sou um cara legal!

As portas da sala de análise se abriram automaticamente, e a unidade adentrou com o reploid misterioso, que foi deitado em uma cápsula. Ela se fechou e uma luz verde passou escaneando o corpo dele. Do outro lado da sala, apoiada em uma bancada teclando rapidamente em um computador estava uma reploid enfermeira, e ao lado dela, a operadora principal do trio: Alia, uma reploid muito inteligente, que sempre ajudava os Hunters durante as missões com informações importantes. X foi até a reploid loira, e apoiou a mão sobre o ombro dela.

-Alia, Axl disse que esse reploid saiu de dentro da sombra dele. Há algum registro de qualquer tipo de reploid que faça isso?

-Me dê só um segundo. – Ela teclou freneticamente, enquanto dezenas de janelas novas se abriam no monitor.

-E então? – Zero disse, se aproximando. – Algo sobre o cara que saiu da sombra do Axl?

-Não, nada. – Alia ergueu os olhos, decepcionada. – Não existem registros sobre esse reploid, e a única coisa que conseguimos foi a identificação da chapa de registro dele.

Alia virou o monitor para os Hunters.

Reploid 0031574 modelo Hoozuki-4

“BLIND"

-”Modelo Hoozuki-4”? – X olhou para o monitor. – Que modelo é esse? Algum dado?

-Um instante. – Alia virou o monitor para si novamente, e digitou no campo de pesquisa “Hoozuki-4”. – Só há um resultado.

Eles olharam para o monitor. Era a página de um jornal, datado de vinte anos atrás. A manchete era “Laboratório 6 do governo americano é lacrado, ninguém se pronuncia”, e a matéria dizia:

“O laboratório de pesquisas reploids na Área 51, nos Estados Unidos, conhecido como Laboratório 6, foi lacrado na manhã desta terça-feira. Há mais de dez anos o laboratório desenvolvia reploids para a guerra, quando apresentaram o 'modelo prodígio' do laboratório, o reploid assassino Hoozuki-1. Dentre as habilidades comuns de reploid, Hoozuki-1 também apresentava uma agilidade fora do comum e uma IA absorvente, que sugava os dados dos reploids vitimados e os usava nos próximos combates.

Depois de três anos, a nova versão surgiu, o Hoozuki-2, agora equipado para manejar dois sabres energéticos. Algum tempo depois os cientistas do Laboratório 6 apresentaram a terceira versão, Hoozuki-3, que se utilizava de sondas movidas à energia magnética para invadir áreas perigosas ou pequenas demais.

No final do ano passado os cientistas haviam anunciado que em poucos meses apresentariam a nova versão, mas então, nesta manhã, o laboratório foi lacrado. Nenhum dos cientistas ou dos reploids da série Hoozuki, que somavam no total 4, os três principais e o que iria ser apresentado, foram vistos. O governo não se pronunciou sobre o caso.”

Os reploids se entreolharam. Zero cruzou os braços, e olhou para o reploid na cápsula.

-Hoozuki-1, 2, e 3... Então... Esse seria o modelo que eles iriam apresentar?

-Eu creio que sim. – Alia olhou para Zero. – Mas... Por onde ele andou? Os quatro reploids da série Hoozuki estão desaparecidos há mais de vinte anos.

-Pois bem. Parece que as respostas estão no Laboratório 6.

-X, você está pensando em...

O reploid azul virou-se para Alia, e em seguida olhou para Axl.

-O suposto Hoozuki-4 não pode ter aparecido para nós por acaso, depois de vinte anos sumido. Eu irei ao Laboratório 6 investigar isso. Zero, deixo os batalhões ao seu comando, e Axl, você é o segundo-comandante.

-X, se Signas souber que você saiu do seu posto...

-Não se preocupe comigo, Alia. Se Signas perguntar sobre mim, diga a ele que me contate.

E assim X retirou-se do recinto.

Um outro dia raiava, fazendo o tom negro das nuvens de poeira se tornar cinza. Nova Utopia estava afundada em uma noite eterna. Zero colocou a mão para fora de uma janela, e capturou entre os dedos um floco branco, que a princípio parecia ser neve. O floco se desfez, sujando sua luva branca de cinza. Cinzas. Estava nevando cinzas da cidade.

Já no céu, X viajava em uma nave dos Hunters. Decidira que ia sozinho, pois não queria levantar suspeitas, nem atrair os Mavericks do ar com uma frota escoltada. Em poucas horas chegaria no Laboratório 6, e poderia investigar mais sobre o reploid.

Na base Hunter, uma explosão assustou a todos. O tiro vinha de cima de um prédio caído há alguns quarteirões da base. Axl movimentou todos os Hunters presentes, enquanto Zero estava parado sobre um tablado, ao lado de Alia.

-Atenção, Maverick Hunters! – Zero disse em voz alta, com os braços cruzados atrás das costas. – Acabamos de sofrer um ataque de um inimigo classe S – Ou seja, um reploid muito grande. – e os radares localizaram um grupo de pelo menos duzentos Mavericks vindo para cá. Nós entraremos em formação Flecha, e então...

-Senhor – Um Hunter ergueu o braço. – Onde está o comandante X?

Zero olhou para os lados, um pouco desconcertado.

-X não está... Disponível no momento. Estará fora de combate por tempo indeterminado.

Axl olhou para os soldados, que pareciam ter perdido a moral ao saber que não lutariam ao lado de X. Alia tomou a frente, e olhou para os presentes.

-X está numa missão especial que pode ajudar no sucesso dos Hunters. Ele conta com cada um de vocês para lutar até o fim por nossa causa.

Os Hunters ergueram suas armas, e gritaram animados.

-Obrigado, Alia. – Zero prosseguiu. – Entraremos em formação Flecha, cercando a primeira leva de Mavericks, e então os grupos seguintes cercarão os flancos dos restante dos oponentes. Axl seguirá com o esquadrão de longo alcance e alvejará os oponentes de áreas elevadas, e eu seguirei com a patrulha de choque. Estão todos prontos? Boa sorte, soldados.

O grupo gritou novamente, e Zero saltou do tablado, e seguiu com o esquadrão de choque, os soldados da primeira fileira. Axl correu para o grupo de longo alcance e o restante foi logo atrás.

A guerra mal começara. O exército dos Mavericks não era muito grande, mas os Mavericks são poderosos e têm poderes anormais. E o líder do grupo, X, não estava lá. Mas eles lutariam, pelo honra dos Maverick Hunters e pelos humanos que estavam protegendo.