Robin - Da Floresta de Sherwood
1 A princesa dos Ladrões
Notas iniciais

A floresta estava húmida devido a época de chuva que castigava a Inglaterra naquele fim primaveril. O sol aparecia tímido por entre as nuvens, mas logo o céu escurecia com o retorno da tempestade.
A carruagem de Lady Marian corria através da estrada lamacenta, conforme os cavalos conseguiam puxar todo o peso. O cocheiro gritava e estalava o chicote no ar, fazendo os animais aumentarem a velocidade. Estavam em um caminho perigoso, e aquela chuva atrapalhava a visibilidade. Havia rumores de que um bando de ladrões rondava a floresta, atrás de todos os tipos de riquezas. Portanto, eram praticamente um alvo fácil nas mãos dos malfeitores.
Lady Marian segurava-se dentro da carruagem, batendo as costas no estofado macio, não havia se machucado, mas não era também o tipo de situação que costumava lidar. Ela bateu na portinhola da lateral da carruagem, solicitando que o cocheiro fosse mais devagar.
Nesse momento, a roda bateu em algo e a fez saltar, levando um susto. Ao que parecia, haviam atropelado alguma coisa, pois o cocheiro parou a carruagem, enquanto os cavalos relinchavam.
— Meu senhor, o que houve? — Perguntou, ao se recompor no assento.
— Milady, acredito que eu tenha atropelado algum animal na estrada. — Após uma longa apresentação de seus erros e as desculpas finais, o cocheiro tentou arrumar a roda quebrada embaixo da chuva, porém, sem sucesso.
— O que faremos? — Ela perguntou, preocupada.
— Podemos caminhar até a próxima estalagem, fica algumas milhas daqui. — O cocheiro falou com inocência e depois olhou para o rosto pálido da mulher ainda dentro da carruagem. — Oh! Senhora, peço perdão, não quis ofendê-la.
— Não me ofendeu, não por isso. — Marian abriu a porta da carruagem e desceu, escorregando os sapatos de pelica na lama. Segurou com força na porta e depois pôs as mãos sobre a cabeça, cobrindo os olhos da fina chuva que caía naquele momento. — Eu tenho capacidade de caminhar algumas milhas.
Embora sua coragem fosse grande, caminhar pela lama com aquele longo vestido de camadas e sapatos apertados, não era uma tarefa fácil. Por sorte, não carregavam nada de muito valioso na carruagem, dessa forma, o cocheiro apenas levava um pequeno baú de madeira amarrado nas costas, dentro havia alguns mimos que Marian levava para a Condessa Beatrice, que acabara de ter gêmeos e ela bordou algumas toalhas para os pequenos. Era um presente entre primas, e já fazia algum tempo que não se viam. Por isso, Marian estava tão determinada de rever a prima.
Após uma hora de caminhada, eles pararam para descansar e seguiram a estrada. Mais a frente, a estrada se dividia em dois caminhos. Pegaram a direita, embora o cocheiro tivesse quase certeza de que pela esquerda fosse um caminho mais curto, mas também muito mais perigoso, pois ali era o ponto que seus conhecidos mais diziam terem sido atacados.
Lady Marian tinha certeza de que nenhum tipo de bando de ladrões iria ter coragem de pará-los, pois não tinham nada de valioso. E ela não poderia estar mais enganada.
— Alto lá. — A ordem fez os dois pararem. Marian olhou ao redor, encontrando apenas galhos de árvores e um vislumbre lúgubre da névoa que se formava. — Deixem o baú no chão e se afastem.
— Quem é? — Marian inflou o peito, sentindo uma corrente de audácia e coragem percorrer seu corpo. — Apareça, se tens a audácia de ofender uma Lady em seu percurso, roubando seus pertences, ao menos o faça diante de meus olhos. — Houve um silêncio, Marian olhou novamente ao redor, o cocheiro se sustentava em pernas bambas. — Covarde.
Uma gargalhada se alastrou pela floresta, fazendo a Lady pensar duas vezes se atiçar os ladrões, era um bom plano.
Uma silhueta saiu por detrás de uma árvore, era um homem alto e de porte atlético como um cavaleiro. Em seguida, um homem baixo e de cabelos longos saiu de trás de outra árvore. E assim foi até que Lady Marian e o cocheiro ficaram rodeados de homens mal-encarados e com todo tipo de arma em mãos. Arcos, espadas e maças.
Mas a gargalhada ainda soava pela floresta e não era solta por nenhum daqueles homens. Marian apertou as mãos no tecido molhado do vestido sujo de lama, não era mestre em nenhum tipo de luta corpo a corpo, sabia no máximo se defender de algum tipo de ataque frontal, conforme aprendeu com seu pai, mas não poderia fazer nada com tantos homens.
— Ora, ora, uma Milady corajosa. — A voz era arregrada de sarcasmo. Marian procurou de onde a vinha. Até que olhou para cima, em pé no galho de uma árvore.
— O que quer de nós? — Marian sentiu-se tola por dizer aquilo.
— Eu quero esse baú, mas, pensando bem... — O corpo se movimentou de cima da árvore, e com um salto e acrobacias, aterrissou no chão sem escorregar na lama da estrada. — Acho que podemos trocar algumas palavras.
A forma daquela pessoa assustou Marian, ela era mais baixa do que imaginava ser possível, vestia um capuz e um pano encobrindo seu rosto. E assim que removeu ambos, ela não esperava ver uma mulher vestindo roupas masculinas e um olhar satírico que a irritou profundamente.
A mulher se aproximou, seus cabelos castanhos estavam presos, eram curtos, o que significava que deveria cortar com frequência. Ao contrário dos cabelos de Marian que iam até embaixo de sua cintura, e levava muito tempo para pentear.
As vestes que ela usava, eram de uma fazenda de baixíssima popularidade entre as mulheres, além da cor verde não combinar muito bem naquela estação. Uma calça apertada, e uma camisa verde de mangas, moldavam os seios em um decote humilde, as costuras feitas com cordões de couro, com alguns ranhos.
Lady Marian balançou a cabeça, era bobagem tais pensamentos naquele momento. Mas não podia negar de que estava surpresa em ver uma mulher comandar um grupo de bandidos, vestindo aqueles trajes. Não conseguia tirar os olhos dela, imaginando a sensação constrangedora que era andar pela rua com o tecido entre suas pernas, roçando sua pele. Parecia angustiante.
— Homens, vamos deixa-los mais a vontade. — A mulher falou, abrindo os braços e caminhando ao redor de Marian e o cocheiro. — Milady, o que posso fazer para transformar sua passagem por essa estrada, a mais inesquecível possível?
O tom zombeteiro fazia Marian ficar enjoada.
— Podem ir embora e nos deixar em paz, só para começar.
Aproximando-se dela, a mulher a encarou bem de frente.
— Posso fazer seus desejos se realizarem. — O olhar dela era feroz, mas ao mesmo tempo desdenhoso, causando um efeito estranho em Marian. — Qualquer coisa que puder pensar. — Sua voz era mais baixa, e então ela ergueu a mão e tocou uma mecha de seu cabelo.
— Não se atreva. — Lady Marian bateu em sua mão.
— Eu não poderia, mesmo se quisesse, não me atreveria. — Sussurrou. — Agora vamos aos negócios, o que tem no baú?
— Nada que te interessa.
A mulher gargalhou.
— Eu devo confessar que estou intrigada e instigada por Milady. — Ela se virou e tirou o arco das costas, apontando uma flecha na direção do cocheiro. — Mostre-me o conteúdo do baú.
Tremendo, ele tirou o baú das costas e abriu com certa dificuldade, afastando-se depois. Marian o amaldiçoou pela fraqueza, mas em certas circunstâncias ela faria a mesma coisa. E então o conteúdo foi revelado. As toalhas bordadas jaziam nas mãos dos ladrões e Marian queria ter a força de mil cavalos para derrubá-los no chão por profanarem o seu trabalho delicado e presente para os priminhos.
— Peço perdão pelos meus modos, Milady, essas toalhas são tão sedosas que não resisti em secar meu rosto nelas. — O sorriso nos lábios era trocista, despertando em Marian mais sensações. — Vamos não estamos a todos perdidos. Foi um prazer conhece-la, Milady.
A mulher afastou-se, fazendo uma mesura delicada, esticando as mãos e dobrando os joelhos. E quando ela corria para dentro da floresta, Marian gritou
— Quem é você?!
— Meus amigos me chamam de Robin, da floresta de Sherwood. — Ela respondeu, virando-se para vê-la mais uma vez. — Mas meus inimigos me chamam de Princesa dos Ladrões.
E a silhueta desapareceu em meio as árvores. Lady Marian apertou os lábios. Embora achasse intolerável aquela situação, não poderia negar que o estilo indomável daquela tal Robin, trazia mais curiosidade do que raiva.
Não esperava encontrá-la para abrasar sua curiosidade.
E, novamente, ela não poderia estar mais enganada.
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