Rivais
2 Cap.1- Acordo.
Notas iniciais
Como de costume, depois das aulas, lá estava eu na arquibancada do colégio, observando o jogo.
–Ai, ai... A defesa está um lixo. -murmurei.
–Falando sozinha novamente? -alguém atrás de mi colocou a mão em meu ombro.
–Oi Beto. -sorri para ele.
–Oi flor. Ainda olhando os bofes jogarem? Olhou para o pequeno caderno que eu tinha em mãos- e criticando-os também? -riu.
–São apenas anotações. -cruzei os braços.
–Olha Beto! -a Valentina, ou Vale como prefere ser chamada, chegou com uma revista em mãos.
–Que divos. Gamei. -o Beto se abanou. Eles provavelmente estavam vendo alguma revista de celebridades. Masculinas, é claro.
Alberto, ou Beto, é meu amigo desde que estávamos na 6ª série. Lembro que as garotas babavam nele, também né... alto, loiro, magrelo, pele branca -não tanto quanto a minha- e olhos cinzentos. Confesso que até eu babava nele, até que um belo dia percebi que nossos colegas tinham começado a evitá-lo, e como a boa garota que sou, fui atrás do motivo para tal mudança repentina. Não, eu não fiquei chocada quando descobri que ele era gay e nem tive preconceito por causa disso. Poxa! Ele é uma pessoa comum, tem apenas uma opção sexual diferente do normal e eu o amo do jeito que ele é.
–Catarine. -chamou o loiro.
–O que foi? -perguntei sem olhá-lo, pois estava ocupada fazendo mais uma anotação.
–O que acha desse? -apontou para uma foto na revista. Uma bela foto.
–Bem... gato. -falei rindo e eles tabém riram.
–Catarine, Catarine... Quem te vê, quem te diz mulher! -Valentina me deu um tapa nas costas, daqueles bem estralados.
Valentina é nossa amiga há uns 3 anos, assim como eu, ela não teve nenhum tipo de preconceito com o Beto. Muito pelo contrário... ela AMOU a idéia. Voltando: ela tem cabelos estranhamente cor de rosa e olhos castanhos bem escuros, quase pretos. Ela tem uma personalidade fortíssima, é resmungona e briguenta, mas mesmo assim ela está sempre com um sorriso no rosto -seja malicioso ou não-, já tem cara de tarada. É... a cara denunciou o resto, ela é uma completa tarada. Vê quase tudo com maus olhos, mas é uma boa amiga, a melhor para mim.
–Fim de treino! -o treinador gritou.
–vamos? -me levantei.
–Vamos comer! -eles começaram a me puxar por aí.
(...)
–O que desejam? -a garçonete perguntou, com um belo sorriso nos lábios.
–Eu quero um suco de maracujá bem forte e um x-burguer. -falei enquanto ela anotava tudo, rapidamente, em um bloquinho de papel.
–Eu também. -os outros dois falaram juntos e começamos a rir feito hienas loucas.
–Catarine. -a rosada me cutucou.
–O que? -a encarei.
–Quando pretende entrar no time? Ou pelo menos ter coragem de sair da arquibancada? -perguntou.
Gelei na hora, meus batimentos se aceleraram e eu suava feito um búfalo. Credo! Que comparação nojenta! Eu não sou nem um pouco exagerada, eu sei.
–Não sei. -suspirei.
–Que cara é essa, mon amour? -o loiro segurou meu rosto com as mãos, me forçando a encará-lo.
–Nada. -falei rapidamente.
–Aqui está. -a garçonete voltou co os pedidos.
–Obrigada. -falamos juntos e logo a garçonete saiu dali.
–Então... o que acha do capitão do time, Catarine? -Vale bebeu um pouco de seu suco.
–Ele é bom, devo admitir, mas ainda é muito ruim nos dribles. Mas tem chutes certeiros, pelo menos isso né. -os encarei.
–Argh. Você só fala de futebol, futebol... o tempo todo! Parece até que não quer mais ficar com a gente. -sussurrou a última parte.
–Vale... eu ouvi. -revirei os olhos- Vocês sabem que eu amo muito vocês, não é? -eles assentiram- mas é que... eu amo o futebol, sinto que posso ser eu mesma com ele, entendem? -os encarei.
–Credo. Você parece aquelas garotinhas apaixonadas que acham que encontraram seu príncipe encantado. -o loiro gargalhava sem dó.
–Seus olhos brilham quando fala de futebol, sabia? Nem esses seus óculos conseguem esconder isso. É hilário. -a coisa rosa se juntou ao outro.
–Seus chatos. -cruzei os braços- E parem de rir!
–Nós também te amamos, branquela. -cada um deu um beijo em minha bochecha, um de cada lado.
–Eu sei. -ri.
–Você está exagerando, querida. -o loiro colocou a mão no queixo e empinou o nariz.
–Comam logo para irmos para casa. -mostrei a língua para eles.
–A nerd precisa estudar. -Vale apoiou a cabeça em uma das mãos, enquanto comia.
–Haha. Gracinha. -falei.
–Você está assustadora. -o Beto apontou para meu rosto.
–Não estou não. -dei de ombros.
–Vamos logo seus feios. -a rosada se levantou.
Fomos conversando o caminho todo até em casa. Quer dizer... eu e o Beto, pois o mesmo morava a duas quadras da minha casa e a Valentina morava na parte sul da cidade, enquanto eu e o loiro morávamos na parte centro norte.
–Boa noite, flor. Até amanhã. -o loiro deu um beijo estalado em minha testa.
–Até amanhã. -acenei para ele.
Pra quem não sabe nosso colégio é em tempo integral, entramos às 8h da manhã e saímos, em geral, às 15h da tarde. De vez enquando eu e meus amigos vamos lanchar fora, já que eles sabem que meus pais dificilmente paravam em casa.
–Cuidado! -gritaram.
Virei-me rapidamente e vi algo único: uma bola de futebol vindo em minha direção e... ela ia me acertar e cheio. Em um reflexo rápido, girei meu corpo todo para um lado, afastando-me da bola, quando vi que a bola lá no chão, ao meu lado, me chamando... não resisti. Chutei a bola um pouco para cima, até que chegasse na altura de minha cintura, alguém gritou um joga aqui pra mim e eu nem me importei em olhar quem era. Chutei a bola para o lado de onde vinha a voz, acredito que usei bastante força no chute, mas mesmo assim a pessoa que a aparou não teve dificuldade ao parar a bola.
–Obrigado! -gritaram novamente e eu nem respondi, apenas corri para dentro de casa.
(...)
–Antes de irem para casa, vou dar-lhes um recado. -anunciou o último professor do dia.
–O que é? -algum engraçadinho gritou.
–Bom, como vocês sabem, o time de futebol do colégio é um dos melhores do estado -alguns alunos riram- Mas... é uma pena que não podemos dizer o mesmo de seus boletins.
–E daí? -gritaram novamente.
–E daí, engraçadinho, que o diretor finalmente resolveu tomar providências quanto a isso. -riu- De agora em diante, os jogadores do time de futebol do colégio que estiverem com as médias abaixo de 8,0 estará automaticamente expulso. -começou a gargalhar.
–Louco. -murmurei.
–Mas... como uma boa pessoa que é, o diretor resolveu dar-lhes um certo período de tempo para que consigam recuperar as notas.
–Quanto tempo? -perguntaram.
–Um mês. O último mês de aula. Junho. Vocês tem até lá.
A campa tocou. A sala de aula estava um fuzuê danado, todo mundo revoltado. Bando de idiotas.
–Vamos ver o treino. -me levantei- Isto é... se ainda tiver algum jogador.
Ao contrário do que eu havia pensado, todos os jogadores estavam ali, treinando, como se nada tivesse acontecido. Para minha infelicidade hoje o Beto e a Vale não haviam me esperado hoje, alegando estarem muito ocupados com o festival de sei lá o que. Eu havia ficado muito triste em saber que não teria a companhia dos dois hoje. Mas é como dizem... querer não é poder.
–Hoje eles estão piores que ontem. -suspirei e coloquei a caneta na boca.
Depois de alguns minutos, 20 pra ser mais exata, o técnico começou a reclamar de alguma coisa. Algo sobre a defesa estar aerta e os jogadores estarem muito violentos durante o treino.
–Vão para casa! Esfriem essas cabeças e vão estudar! -gritou o assistente do time.
Pouco a pouco os jogadores foram sumindo do campo, assim como os assistentes do time, o técnico, as garotas que vivem babando nos jogadores, as namoradas de poucos, o professor de educação física, as líderes de torcidas sem cérebro, patricinhas e mauricinhos, olheiros com vontade de entrar no time e por fim: eu, que preferi esperar até que todos saíssem da quadra pra que, enfim, pudesse ir para casa.
–Finalmente. -me levantei e me espreguicei.
–Você. -falou uma voz assustadoramente assustadora à minha frente.
–Eu? -levantei o olhar vagarosamente, temerosa.
–Precisamos conversar. Sério. -se sentou.
–Precisamos? -falei e ele bateu a mão no espaço livre ao seu lado, provavelmente me convidando à sentar ali ao seu lado.
–Catarine. -falou assim que eu sentei e me encarou.
–O que quer? -sustentei o olhar.
Ele nada falou, ficou apenas me observando com um olhar indecifrável, que já estava me deixando constrangida. O observei minuciosamente: queixo fino e com ralos pêlos, traços fortes no rosto, moreno claro -quase branco-, sobrancelhas perfeitas que aparentavam ser feitas com freqüência, olhos que pendiam entre o castanho médio e o dourado, cabelos negros arrepiados -mas que pareciam estar no lugar- que não era nem tão curtos nem longos. Tudo parecia se encaixar perfeitamente nele, dando um ar sério, sexy e misterioso ao mesmo tempo. Mesmo sentado, aparentava ser bem mais alto que eu.
–Terminou? -falou e eu fiquei vermelha.
–O que queria conversar? -respondi com outra pergunta.
–Você já sabe da nova regra não é mesmo?
–Sim. Mas ainda não entendi é o que eu tenho a ver com essa história toda. -falei rapidamente.
–Simples. Você irá me ajudar com os estudos e em troca... te ajudarei a entrar para o time.
–Como sabe que eu quero entrar para o time? -me levantei, chocada.
–Sou o capitão do time, Lucas. Mas creio que já me conhece, pois sou seu vizinho há tempos. e também sei sobre sua paixão secreta pelo futebol e de seu sonho de entrar para o time.
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