Rising Tide
33 Insight.
Notas iniciais
Chapter Thirty Three.
Insight.
POV Hiccup.
Aproximei-me de Merida por trás, agarrando seus cachos e afundando meu nariz em seu pescoço. Sem delongas, dei um profundo suspiro.
Era um hábito sentir-me inebriado com seu cheiro. Lembrava maçãs, vinho branco e chuvas de outono. Uma combinação tão gostosa que chegava a ser um vício...
Ela deu uma risadinha, arrepiando-se sob meu toque.
— Boa noite, Sr. Haddock. – dizia com divertimento, um tom que sugeria cumplicidade por baixo da fachada de uma estrita formalidade no trabalho. – É bom vê-lo novamente.
— Boa noite, Srta. Cabelos em Chamas. Gostaria de tomar algo comigo hoje? – segurei seus cachos num ponto alto de sua nuca, dando um longo beijo na pele agora exposta daquela área. – Uma água? Um vinho? – uma risadinha maliciosa irrompeu de minha garganta. – Um banho juntinho?
— Com você, eu tomo até no cu (?). – não consegui evitar gargalhar.
Ela sorriu com doçura na minha direção. O jeito como me olhava era sempre desconcertante, de uma forma boa... Eu me sentia vulnerável, um frio me alastrava a barriga. Só ela me causava isso. E eu já estava acostumado.
Naquele momento, no entanto, percebi que havia algo a mais naquele olhar profundamente azul, feito o céu em sua pré-noite. O sorriso cúmplice ainda adornava os lábios rosados. E eu suspeitei estar a encarando todo bobo quando ela dera uma risadinha.
— É bom ver que está menos preocupado...
Logo compreendi do que se tratava. Compreendi também que suas piadinhas tinham justamente a intenção de me descontrair.
A teimosia de Kristoff quanto a sua situação me irritava em escalas inimagináveis.
Não era por falta de aviso, não era por falta de pessoas preocupadas com ele, era apenas por ele ser birrento e cabeça-dura o suficiente a ponto de se negar voltar com as sessões de terapia.
Não ocorria há muito, muito tempo.
Mas eu tinha quase certeza de que havia acontecido novamente, mesmo com seus esforços em esconder.
Kristoff estava agindo como antes, como nos primórdios de seu trauma – mais furtivo nas conversas, mais recluso em seu quarto, monossilábico ele sempre fora, mas parecia ainda pior. Com certeza havia acontecido...
E ele não nos contara nada. Não estou surpreso
Lembro do dia em que ele decidiu, em toda a sua pertinência, que passaria a visitar recorrentemente o local do incidente; como quem afronta o maior dos seus gatilhos, fortifica seu controle, limita seus medos e torna-se imune a perda de “equilíbrio” diante daquele lugar novamente.
Eu achei a ideia mais abominável existente – tanto eu, quanto Jack e Flynn. Mas desde quando Kristoff dá ouvidos a alguém?
Para ele, sentir-se vulnerável ante qualquer situação, lugar ou pessoa, era o decreto de que não passava de um ser humano irrecusavelmente fraco. E fraqueza era um ultraje para o Bjorgman, principalmente quando associado a si próprio.
No entanto... Minha opinião sobre sua rebeldia mudava a todo instante.
Por um motivo certamente extraordinário, as visitas recorrentes à ponte pareciam tê-lo ajudado.
Mas minhas suspeitas sobre ele estar enfrentando um novo tipo de medo se concretizava a cada atitude dele. Na verdade, um medo bem familiar, mas há muito adormecido e que agora viera a aflorar de uma maneira intensa.
Ele está se isolando, de novo. Temendo o surgimento de um novo gatilho. Que, na verdade, desconfio que já exista... E obtém um nome próprio.
Contudo, é preciso ser estritamente minucioso quando se trata de Kristoff. Não existe ninguém capaz de mascarar sua real situação tão bem quanto ele.
Nunca se sabe quando ele está bem. Nunca se sabe quando ele está mal.
Ele não permite que percebam.
Ainda mais nessa época do ano, somando os motivos que eu desconfio, é comum que ele se sinta absurdamente sob pressão, logo mais, logo menos, tudo pode vir à tona...
Nesse momento, ele é como uma bomba relógio.
Isso me preocupa. É difícil manter-se a par das reais circunstâncias de alguém tão fechado e meticuloso quanto ele. E isso me deixa ridiculamente estressado...
Até Merida entrar em cena, trazendo seu sorriso doce, seus atos carinhosos e seu humor fácil – passo de “ridiculamente estressado” para “ridiculamente bobo apaixonado”.
Sorri com compreensão para a minha linda garota, inclinando-me e beijando seus lábios rapidamente num gesto de agradecimento, por seus esforços em manter-me distraído do que tanto me afligia.
Ela sempre obtinha sucesso. Mas, lamentavelmente, tudo vinha à tona em alguma hora, de qualquer forma.
— Ainda estou preocupado com você. – deixei claro, sem me afastar.
Merida dá um sorriso nervoso.
— Ah, não precisa se preocupar com isso. – estapeando o vento, ela muda de assunto com evidente urgência.
Faz menção de voltar ao trabalho para fugir da questão iminente, mas impeço ao apoiar as mãos no balcão atrás dela, prendendo-a no espaço entre meus braços.
Vendo-se confinada entre a superfície de madeira e o meu corpo, Merida não vê alternativa a não ser virar-se para me encarar.
Concentro um esforço imenso para não sorrir com a imagem de suas bochechas enrubescidas – talvez pela proximidade, talvez pelo modo como a interceptei, de qualquer forma... Era adorável seu olhar inocente de quem via-se sem escapatória.
— Ainda não quer me falar, hm? – meu tom de voz era firme. Minha feição era de absoluta seriedade.
Merida engoliu em seco. – Não me olha assim, Hic.
— O que ela queria, afinal?
— Já disse. Assunto de mulheres.
Revirei os olhos, com um suspiro. O fato de Astrid tê-la abordado no meio do campus para conversar, não só me intrigava como era outra coisa que me preocupava em demasia.
Eu não me preocupava com Merida. Me preocupava com Astrid. Na verdade, temia por ela.
Haviam atitudes que eu esperava da Hofferson, coisas que já haviam cruzado minha mente em variados momentos, coisas que eu já imaginava, já previa.
Agora, Merida? Ri internamente. Eu percebi, por fatídica experiência própria, que a mulher a minha frente era imprevisível.
— Ela te afrontou? – indaguei com paciência e ela riu.
— É claro que não, Hic.
— Então, você afrontou ela?
Merida negou com a cabeça, dando uma risada incrédula. – Você espera isso de mim?
— Eu realmente não sei. Você me deixa maluco. – admiti com plena sinceridade e tive como resposta outra risada gostosa, dessa vez mais intensa a ponto de ela precisar se inclinar.
Os olhos fechando-se sobre as bochechas cheinhas durante toda a risada, uma alegria irreprimida. Sem nem perceber, eu estava sorrindo. Ela se apoiou nos meus ombros, um sorriso sendo o finzinho de sua risada sincera.
— Nós nos entendemos da melhor forma possível, Sr. Haddock. Não somos inimigas. Nunca fomos.
Minha feição mudara consideravelmente e agora era ela quem me observava com um sorriso compreensivo.
Uma camada de alívio recaíra sobre mim, senti-me relaxar parcialmente de forma momentânea. Ao menos alguma coisa estava fluindo de uma boa forma...
Me doía saber que Merida havia perdido uma de suas amigas por minha causa. Eu não me importava muito que Astrid não quisesse falar comigo, mas Merida preza pelas amizades que faz com a intensidade de uma criança.
Se desentender com a loira havia a afetado, embora ela tenha se esforçado para esconder este fato de mim.
Então, saber que elas se entenderam, enfim... Era um alívio imenso.
Fui pego de surpresa ao sentir um selinho em meus lábios antes de ouvi-la dizer. – Preciso voltar ao trabalho. – perpassou por baixo de um dos meus braços. – Até mais tarde, Sr. Haddock. – dissera com um sorriso antes de voltar a servir as bebidas.
E quando me dou conta, um dos clientes sentados próximo me observa com um sorrisinho sugestivo, lançando olhares a ocupada Merida ao longe no balcão como quem diz “cara, tu tá muito gamado”.
Foda-se, eu tava mesmo.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ao enxerido, minha atenção é totalmente tomada com a imagem de cabelos loiros e peculiares irrompendo sobre o mar de gente próximo a portaria.
O cara alto se aproxima conforme o tumulto abre passagem e só então percebo Toothiana que, embora esteja muito bem vestida, era ofuscada pela incomum visão de uma Anna em trajes de... Festa? Balada? Qualquer coisa que não indique o cotidiano corrido da menina?
É a primeira vez que a vejo sem que esteja trajando uma calça jeans ou um short confortável em conjunto com um simples par de tênis.
Na verdade... Anna está vestindo saia, e isso em si já é de um espanto enorme. E embora pareça desconfortável com a mini-peça – toda hora a abaixando com receio de que vejam, érr, mais do que o permitido –, uma saia vermelha de veludo nunca caíra tão bem em um pequeno corpo. O busto é coberto por uma curta camiseta com o emblema da Mulher-Maravilha orgulhosamente estampado no meio. Como quem faz alusão à heroína homenageada em seu peito, ambos os pulsos estão adornados com braceletes de acabamento dourado, marcados por uma faixa vermelha. Peguei-me profundamente impressionado ao fitar seus pés e ver ali uma sandália plataforma de saltos e fitas grossas.
Vê-la de salto foi apenas uma pequena parte do meu espanto, o que me admirou mesmo foi perceber que mesmo sob uns 10cm de sandália, ela ainda era a mais baixa do grupo.
Anna estava inegavelmente linda. E eu peguei-me sorrindo ao imaginar a reação de Kristoff ao vê-la assim.
Falando nele, volto a encarar o primeiro que fui capaz de identificar pela altura. Kristoff parece extremamente confortável dentro das suas vestes comumente obscuras – camiseta de tecido preto, exibindo o emblema do Batman em seu tórax, calça jeans escura, um pesado Rolex de armação preta em um pulso e um bracelete da mesma cor no outro, tudo tão negro que por um momento ele parece o próprio Cavaleiro das Trevas, Kristoff Wayne (???). Minha nossa, eu ando passando muito tempo com a Merida.
É quando percebo que, por mais confortável em seus trajes dark ele possa aparentar estar, em seus olhos cruza uma rápida e ínfima sombra da desorientação. Estava desconfortável em meio a tantas pessoas.
Fazia tanto tempo que ele não saía que, evidentemente, havia perdido o seu jeito de lidar com multidões.
Só então noto que quem o guiava naquela noite, e nas outras demais ocasiões com cada vez mais frequência, era Anna.
Os olhos âmbar de meu amigo tomam algum foco quando ele nota alguém o encarando – eu. Kristoff revira os olhos ao ler a mensagem no meu olhar. Está sendo observado. Ele deixa as meninas no balcão e se aproxima, arqueando a sobrancelha ao notar meu sorriso babaca.
— Porra... – falei admirado. – Quem conseguiu a proeza de te tirar de casa? – olho brevemente para um ponto no balcão onde Tooth e Anna conversavam com Merida. – É claro. Só poderia ser ela.
— Cala a boca. – irritou-se ele.
— É bom saber que você vem tentando, mesmo depois do que aconteceu.
Deu um longo e profundo suspiro cansado, deixando claro que sabia exatamente ao que eu me referia.
— Não aconteceu nada.
— É claro que aconteceu. Consegue esconder do Jack e do Flynn, mas não de mim. – desviou o olhar, massageando entre os olhos com o cenho franzido. – Haverão recaídas, Kristoff, mas não para sempre. Veja pelo lado bom, não acontecia há quase um ano...
— Haverão recaídas. – repetiu com veemência.
— Foi grave, como das outras vezes? – arrisquei perguntar e, depois de longos segundos, ele negou com a cabeça.
— Foi ínfimo, mas ainda assim, foi alguma coisa. – ainda negava com a cabeça quando fitou Anna ao longe, de relance.
— Afasta-la não vai dar em nada quando tudo o que ela quer é te ajudar. – deixei claro.
Kristoff deu uma risada irritada. – Ela não faz ideia do que tá acontecendo. Como caralhos pode me ajudar?
— Conte a ela. – sugeri com tranquilidade e ele resmungou.
— Aí eu não vou precisar mais afasta-la. Porque ela mesma irá se afastar…
— É claro que não.
— É claro que sim! Talvez ela seja o motivo.
Neguei com a cabeça. – Talvez ela seja a cura. – ele grunhiu exasperado, sempre irritando-se quando refuto seus argumentos. Apenas suspirei antes de dizer. – Reveja, cara. – me encarou pelo canto dos olhos quando apontei na direção das meninas. – Tem alguém esperando por você. – completei com a frase que trazia um mundo de sentidos nas entrelinhas.
Quando ele fitou a direção em que apontei, percebeu Anna com seus cabelos soltos observando de longe e sorrindo quando ele olhou, aproveitando para me lançar um tchauzinho. Sorri em resposta, acenando com a cabeça.
— Aproveite a noite, parceiro. – dei dois tapas firmes em seu ombro antes de finalmente seguir para longe dali, sem olhar pra trás... Por ora.
Furtivamente, espiei as minhas costas depois de vários passos adiante; apenas para presenciar Kristoff caminhando até suas prezadas acompanhantes. Seu semblante sobrecarregado em notória oposição aos sorrisos afetuosos que tanto Tooth quanto Anna lhe lançava.
Toothiana propunha um brinde no exato instante em que ele chegara, sentando sob um dos bancos altos do balcão. Kristoff, ainda distraído com os próprios pensamentos, sem delongas, bebeu do copo servido à sua frente num único gole, deixando as meninas boquiabertas, atônitas e ainda com seus copos erguidos aguardando pelo brinde arruinado.
Ele olhou em volta, certamente confuso e estranhando as feições embasbacadas das duas. Merida só sabia rir. Logo, Anna começara a rir também, incitada pela feição confusa de Kristoff.
Não demorou para o óbvio acontecer – fora atingido por um tapa direto em seu braço que, mesmo eu assistindo de longe, pareceu doer. Um tapa vindo de Anna, que ainda gargalhava. Um tapa inocente, porém doloroso. Ele fitara o próprio braço com o cenho franzido, esfregando o local com uma careta de dor e irritação, mas ao encara-la seu olhar mudara drasticamente...
Anna percebeu estar sendo observada e o fitou com o fim de um sorriso. Kristoff não desviou o olhar.
Eles se encaravam com profunda intensidade. E embora Tooth ainda estivesse perto, bem ao lado deles, e Merida servindo seus copos, sem desviar o olhar da cena... Eles não pareciam enxergar nada além de um ao outro.
Por um momento, eu mesmo peguei-me surpreso de ainda estar os acompanhando com o olhar... Aquilo tudo era tão... Evidente.
Surpreendendo até a mim, Kristoff sorriu para ela. Pegou o copo recém-servido novamente à sua frente e Anna pareceu extremamente satisfeita ao vê-lo, dessa vez, brindar.
Eu sorri com a cena, tão satisfeito quanto ela ao assistir Kristoff se distraindo de seu tormento.
Logo virei-me para enfim voltar ao trabalho, ainda com um sorriso no rosto, que logo sumira ao ser duramente surpreendido com um puta esbarrão.
— Ei! Vai com calma! – ralhei com o cidadão que quase me levara junto de seu ombro.
Mas ele não parecia ter me dado ouvidos, mesmo quando virei-me, cambaleante, para fitar-lhe o rosto. Ele já seguia a passos pesados em direção a pista.
O fato de o sujeito ter os cabelos em tons tão peculiares quanto os do meu melhor amigo me fez estranhar, cabreiro. Por um segundo, inclinei o rosto, observando o dono dos cabelos alvos cada vez mais longe... Logo voltei a si.
É claro que era o Jack.
Não se encontra um jovem adulto de cabelos prateados e habitualmente bagunçados todos os dias.
Uma nota mental firmou-se em minha mente quando pontuei a forma com a qual ele passara por mim, quase me levando junto dele, com uma revolta que agitara até o ar a sua volta.
Por que?
Mal percebi, já estava o seguindo, esbarrando nos transeuntes tão rudemente quanto ele – perguntei-me se Jack estava tão compenetrado quanto eu a ponto de não se envergonhar da própria grosseria.
Preocupado, é claro que eu estava. Ele não agia daquela forma feito o Kristoff ou Flynn. Alguma coisa havia acontecido.
Decidi que o questionaria eu mesmo quando me vi perto o suficiente para intercepta-lo.
— Ei... – puxei-o pelo ombro com uma firmeza absurda, só assim para fazê-lo virar-se para me encarar, tamanha a raiva que o guiava.
Dito e feito, ele me encara com os olhos semicerrados em irritação – mas sua feição abrandou-se logo que percebera ser eu, dando lugar a expressão levemente desorientada.
Passou as mãos nos cabelos. – O que é, Hiccup?!
— Wow... – ergui as mãos para sua rispidez. – O que houve, cara?
— Nada. – dizia entredentes, deixando claro que havia muita coisa. – Não houve nada. – seu olhar focou-se num ponto ao longe. – Ainda. – seu murmuro era quase uma promessa.
Virei-me para fitar o ponto de sua atenção e encontrei uma Elsa com o olhar perdido. Tensa, ela varria toda a pista com os olhos, parecendo buscar incessantemente por alguém.
Aquilo me deixou ainda mais confuso. Só voltei minha atenção para Jack quando ele tornou a dizer, num estado nervoso que chegara a me afligir:
— Ela quer um babaca, não quer? Então agora ela vai conhecer o babaca. Agora ela vai conhecer. Só agora. Porque de todas as vezes que estive perto dessa mulher, eu juro por Deus, eu fui incapaz de ser esse cara. E não foi por falta de tentativa, admito. Foi porque eu não consegui! Não com ela! – parou subitamente, ofegante, e apertou a junção entre seus olhos. – Mas se mesmo com isso, ela ainda me vê como um cara assim, então é esse cara que eu serei. Não faz sentido tentar ser outra pessoa. Vamos agir conforme a música manda... – então sem delongas, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Jack partiu para o meio das mulheres.
E em menos de alguns minutos, apareceu com duas e já havia beijado quatro.
Involuntariamente, voltei a fitar o ponto onde a moça atordoada buscava por ele. Meu coração pesou com o que eu vira.
Percebi olhar de Elsa para a cena que se seguia. Mais frio e gélido que nunca.
O engraçado é que... Não me senti enganado por aquele rosto impassível.
Ela sentiu.
Mas não demonstrou nada.
Como sempre.
Uma irritação inconsciente me tomou por completo. Era hábito assistir Jack cometendo burrices, mas não uma estupidez tão grande quanto aquela! Que merda ele estava fazendo?!
Só percebi que seguia em sua direção quando me vi bem próximo a ele e a horda de mulheres que o rodeava.
— Jack... – tentei puxar seu pulso, mas ele se desvencilhou para agarrar os cabelos de uma ruiva.
Franzi o cenho, juntando a determinação que ruíra no momento em que uma delas viera para cima de mim.
Arqueei a sobrancelha para o sorriso sedutor da loira a minha frente, que segurava-me pelo colarinho de uma forma propositalmente sensual.
— Quer se juntar a nós? – indagara a mulher com os olhos verdes predatórios.
Odin, nesse momento te peço o mais sincero socorro (?).
— Êpa, êpa… (?????) – falei num tom claro de alerta, segurando seus pulsos longe do meu pescoço. – Não é querendo ser grosseiro, mas será que você poderia se afastar de mim, fazendo o favor? Sou comprometido. Obrigado.
— Ah, que isso, eu não sou ciumenta... – insistia ela, sorrindo a contragosto.
— Minha querida (?), você não vai querer conhecer minha mulher. Ela é imprevisível. Melhor ficar longe…
Sem aviso prévio, apoiei a palma da minha mão em seu rosto e a afastei de mim (?), seguindo até Jack novamente já bem fuzi da vida, orando em nórdico para que Merida não tenha visto nada, porque se esse showzinho gratuito me descolar um desentendimento com ela, eu vou ficar bem puto, namoralzinha.
— Jack, o que tá fazendo? – resolvo indagar rudemente.
— Não é evidente o que eu tô fazendo?
— Tá agindo feito um babaca. – sinceridade nível Rapunzel aflorando o meu ser.
Ele franziu o cenho, me fitando de relance, esforçando-se para não me dar atenção. – Se você não percebeu, esse é o meu normal.
— Você não é assim.
— Pelo amor de Deus, Hiccup, eu sempre fui assim!
— Não com ela! – exclamei firme e isso foi o suficiente para fazê-lo arregalar os olhos, me dando a devida atenção. – Não com ela. – repeti, de maneira mais branda ao vê-lo atordoado com a realidade.
O que eu dizia... Era a verdade mais fria e plena, sendo jogada bem na cara dele. Jack passou as mãos nos cabelos, exasperado, quando continuei.
— Eu não faço a menor ideia do que aconteceu entre vocês, mas agir assim não vai resolver nada, só agravar o problema. Pensa, porra!
De maneira drástica, ele mudara de atitude e de feição. Sua respiração pesada e olhar perdido por um momento me afligiu. Desorientado com os próprios pensamentos, ele se esquivava das carícias das mulheres que ainda o tentavam e, de maneira transtornada, afastou-se um pouco. As moças reclamaram, mas ele não pareceu se importar.
Era evidente o dilema severo que remoía o âmago do meu melhor amigo. Eu o segui, porém, recuei um passo ao vê-lo cerrar os punhos, fazendo menção de socar não especificamente a mim.
— Merda! – exclamou subitamente, quase socando o ar ao ter esse breve insight. Antes tarde do que nunca.
— Não cometa os mesmos erros que eu. – apontei na direção em que Elsa sumira, quase como uma ordem silenciosa.
Eu mal ergui o dedo para indicar seu caminho e ele já seguia em direção ao banheiro dos funcionários, atrás de quem ele não conseguia ficar longe... Eu o entendo perfeitamente.
Ainda tive tempo de vê-lo sumir no corredor, no tempo que a luzes da boate tomaram uma coloração rosa avermelhado, semelhante a cor de uma cereja.
Identifiquei então as primeiras notas de Cherry, da Lana Del Rey, reverberar por todo o estabelecimento, fazendo um calor doce encher o espaço.
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