Rise of Jedi
23 Treinamento Jedi
Notas iniciais
Leia se levantou, imitada no gesto pelos demais à mesa, e estendeu a mão para Rey; a Jedi estava muito desconfortável – ainda não se acostumara a ser o centro das atenções e, no momento, TODOS olhavam para ela! Quando segurou a mão da General com dedos trêmulos, a mulher mais velha a puxou delicadamente para seu lado e se voltou para os presentes:
— Boa noite a todos. Creio que já saibam sobre a chegada de nossa jovem Jedi, uma agente da liberdade infiltrada na própria Primeira Ordem – não passou despercebido a Rey como Leia a chamara de agente da liberdade, não da Resistência, e agradeceu de coração à mulher por compreender sua posição. Leia era sábia, forte e perspicaz, e de algum modo, a serenidade dela contagiou a garota, que respirou profundamente e relaxou – alguns a taxam de traidora, outros questionam sua lealdade, e outros ainda lembram-se apenas de se tratar da esposa de Kylo Ren. Pois bem, permitam-me sanar quaisquer julgamentos equivocados, e apresentar apropriadamente a pessoa que recebemos, hoje: esta é Rey Organa Solo, minha nora, a última Jedi comprometida com o Código, na galáxia. Seu casamento com o novo Líder Supremo foi uma barganha para que os remanescentes da Resistência pudessem chegar a Crait e, de lá, encontrar pouso seguro na Orla exterior, contatar os aliados que nos restam, e sobreviver. Portanto, tudo o que conseguimos, e ainda conseguiremos, deve-se a suas ações. Assim, espero que isso silencie a inquietação geral e os tranquilize: eu confio em Rey, assim como Mestre Skywalker e a General Tano. – voltou-se para a moça e perguntou – quer dizer algo, minha jovem?
Rey anuiu, a boca seca ao fitar a multidão. Não eram tantas pessoas assim, mas odiava falar em público; desesperada, procurou por Finn e focou nele seu olhar, enquanto uma sensação de calma a invadia, claramente projetada pelo homem que, muito dicretamente, pusera a mão em seu ombro: Skywalker.
— Sei que a maioria de vocês tem motivos para pensar que sou uma traidora, que me aliei ao Império, que sou uma inimiga. A todos vocês, eu peço desculpas por passar essa impressão. – mordeu os lábios – não sou sua inimiga. Não sou uma heroína, nem tenho a sabedoria de pessoas como Mestre Luke, ou as Generais Tano e Organa, mas não sou uma traidora, nem sirvo a Kylo Ren – ela sentiu que poderia desmaiar naquele momento, sabendo que a palavra errada poria tudo a perder, e segurou-se à borda da mesa, sentindo Gea apoiar a cabeça contra suas costas, para firmá-la. Droga, por que estava tão enjoada e tonta? – não têm motivo para confiar em mim, mas a General Tano e Mesre Skywalker podem entrar em minha mente e confirmar que digo a verdade: tudo o que desejo é a paz e a liberdade. E alcançar isso com o menor custo possível, em vidas e sofrimento para pessoas que têm sofrido por tantas décadas, com todas as guerras. Aos que perguntam a qual lado estou filiada, respondo outra vez: meu compromisso é para com paz e liberdade. – ela fitou Luke com um esboço de sorriso. O ancião inclinou levemente a cabeça, indicando que ela deveria finalizar, e só a muito custo ela conseguiu dizer as palavras finais – agradeço por me ouvirem.
A moça não soube dizer se havia se sentado ou desabado na cadeira, mas suava frio e sussurrou baixinho para Leia:
— por favor, não faça mais isso. Jogue-me numa jaula com um Rancor, mas não faça isso, outra vez.
— Uma imperatriz deve se acostumar – sussurrou Luke, o que fez Rey o fitar com zanga:
— Mestre! Eu sou uma Jedi, não uma...
— Você é uma Jedi. – ele começou a comer, despreocupado – e também É a imperatriz consorte. Melhor se acostumar a falar em público, menina. Os Jedi também agiam como consulares e, embora não fosse comum discursarem, como você espera ser ouvida por toda uma galáxia se falar apenas para uma ou duas pessoas por vez? – ele a encarou – terá de falar com vilas inteiras, às vezes cortes reais em alguns sistemas, chefes de cidades. Acredite, eu sei o que está tentando fazer.
— Foi por isso que me chamou?
— Pela Força, garota – ele resmungou – podemos jantar, e depois você me cobre com a cachoeira de perguntas?
Leia riu baixinho à direita de Rey:
— você ficou velho e ranzinza, Luke. Ainda bem que Ahsoka vai ajuda-lo, ou estaria com pena de Rey, por ter de aturá-lo.
— Apenas mais um dia em minha rotina. Eu já lido com o mau humor do meu marido, que resmunga como um wookie, e com as reclamações matinais de duas adolescentes. – brincou a moça, ainda em sussurros, para os irmãos ouvirem. Leia deu um sorriso triste, mas havia esperança. Se Rey falava com tanta leveza em seu filho... Ainda havia esperanças para Ben.
— E para isso eu saí de Ach-To. – o mestre revirou os olhos com alguma diversão. Foi após o jantar que todos se levantaram, permanecendo no refeitório apenas o grupo que se sentara à mesa principal; Leia tomou a palavra:
— Rey, permita-me lhe apresentar o restante dos oficiais da base: Almirante Hera Syndulla – a twi’lek idosa curvou levemente a cabeça, gesto que Rey imitou – Jacen Syndulla, ou Spectro 7. – o homem de cabelos verdes sorriu para a Jedi:
— um prazer conhecê-la. Spectro 7, a sua disposição para o que precisar.
— Ah, obrigada. É um prazer, ingualmente. – ela hesitou – como devo chama-lo? Não sei sua patente.
— Não a tenho. Spectro. Não existo oficialmente; mas se isso a deixa mais confortável, sou o capitão de minha nave. – Kena Jarrus se aproximou por detrás e lhe deu um tapa no pescoço, censurando:
— pare de flertar com ela, Syndulla! A menina já está desconfortável o bastante.
Jacen pareceu que iria protestar, quando Ahsoka interveio:
— Resolvam suas pendências lá fora, se não conseguem agir como adultos. E Jacen, é melhor ouvir sua irmã – olhou de canto de olho para Rey, com um sorriso levemente travesso, idêntico ao de Asala – o último homem que flertou com ela ganhou uma bela cicatriz no rosto. – Rey tinha certeza de estar mais vermelha do que o por do sol de Jakku, e Leia parecia a ponto de enxotar todos os demais dali.
— Se já terminaram de agir feito desregrados insanos, poderiam tentar passar uma boa impressão a Rey, por favor? – pediu uma mulher alta e elegante, os cabelos tingidos de roxo, antes de estender a mão para Rey e a apertar com deferência – Vice-almirante Amilyn Holdo. Ouvi falar muito de você, e gostaria de agradecer pelo que fez. Salvou muitas vidas, minha jovem.
— Gostaria de ter podido fazer mais, Vice-Almirante. É uma honra conhece-la pessoalmente. A General Organa me falou sobre a senhora.
Holdo deu um breve sorriso, e apresentou Poe Dameron, que sorriu de modo charmoso:
— Já tive o prazer de ser apresentado a Rey, por Finn. – e piscou um olho de modo cúmplice – não declinará da corrida de X-Wings, certo?
— Se você não ficar com medo demais para voar – provocou a moça de volta; gostara de Poe, quando o conhecera, e a impressão continuava agradável. Aliás, até o momento tivera apenas ótimas impressões sobre todos. Leia apresentou um Bothano, então:
— Almirante Targon, também lidera nossa equipe de inteligência e espionagem.
Trocaram cumprimentos polidos, e a próxima mulher, humana, tinha cabelos azuis com pontas verdes, idade aparentemente próxima à de Leia, e se apresentou sozinha:
— Sabine Wren. Em tese sou Almirante, mas faço o que for necessário, por aqui: reparos, manutenção, espionagem... – deu um sorrisinho — Decoração... Enfim, Sabine basta. – o modo como Hera Syndulla e Ahsoka Tano reviraram os olhos demonstrou que as opiniões eram bem divergentes, e Leia riu baixinho antes de complementar:
— Sabine é Mandaloriana. Mente brilhante, habilidades combativas e um gosto peculiar para arte. Além de um senso de humor bastante irritante. Tentamos não a deixar muito tempo sozinha, ou desocupada.
— Disponha, general. – sorriu a mulher. As apresentações estavam feitas e, ao contrário de tudo o que esperava, Rey não se sentia deslocada. Ao contrário, tinha vontade de rir, e se sentia tão... Leve! O constrangimento desaparecera ao sentir, mais do que ver, que o grupo se tratava como a uma família. Mais relaxada, perguntou a Leia:
— O corpo de oficiais está desfalcado, não é?
— Estamos espalhados pela Orla Exterior. Nos apegamos menos a patentes do que a habilidades necessárias em cada lugar, a experiência e capacidade. Aqui está o núcleo da Resistência, de fato: essas pessoas são os sobreviventes que lutaram desde a época do Império e, depois, se juntaram à Resistência. – havia enorme carinho no olhar da General para o grupo – aqui está entre amigos, menina.
Um momento de burburinhos se seguiu enquanto alguns membros do grupo falavam descontraidamente uns com os outros, quando Luke se aproximou com um semblante quase divertido e declarou:
— Certo, tudo muito divertido e bonito. Agora, se não se importam, todos têm coisas a fazer, e eu tenho duas Padawans com quem conversar. Ahsoka, importa-se?
A Togruta deu de ombros e olhou para Asala, que estivera apenas observando; já fora apresentada a todos pela avó, e até mesmo ganhara de sabine um spray de tinta que mudava de cor. Ainda não encontrara um uso para ele, mas a Almirante lhe dera sugestões interessantes; ao ver o olhar de Ahsoka sobre si, anuiu e seguiu a guerreira e o Mestre Jedi, que conduziram ambas as jovens para o campo de treinamento atrás do complexo. Rey estava apreensiva, e encarava Luke com postura tensa. O mestre a fitou longamente, antes de declarar com paciência:
— pode relaxar sua postura, menina. Parece que está enfrentando o carrasco! – ele encarou para Gea – ou está esperando o que tenho a dizer sobre... Esse vínculo?
— Eu sinceramente não sei o que esperar, Mestre Skywalker. Isso é o que me assusta; tenho tentado fazer a coisa certa, mas não sei até onde obtive sucesso. E de repente o senhor surge e me chama, e sequer sei o que o fez mudar de ideia. Então, realmente estou confusa e preocupada.
O homem fixou seus olhos no horizonte, e Ahsoka tomou a palavra:
— se não houvesse feito nada mais de bom, arrancou esse menino de onde se entocava. – ela parecia irritada com o silêncio de Luke – ande logo, Skywalker. Trouxe Rey até aqui, agora continue o que começou.
Após um olhar severo para a mulher togruta, ele se voltou para a Jedi e pediu:
— mostre-me seu sabre.
Rey não hesitou em desembainhar seu bastão e o acionar, ainda sentindo-se tensa sob o escrutínio de Luke, o qual parecia bastante intrigado com a cor da arma; Gea estava a alguma distância, caminhando de um lado para outro, sentindo o nervosismo de sua Jedi e não sabendo como reagir a isso. Se o velho a atacasse, a Tuk’ata a protegeria, é claro, mas não parecia o caso.
— violeta. Nada comum, mas eu não esperaria menos – foi a primeira vez que uma expressão satisfeita se fez notar no rosto de Skywalker, antes que prosseguisse – quero ver suas habilidades com o sabre. Tive a oportunidade de ver um pouco de seu treino solitário, em Ach-To, mas agora quero vê-la em confronto com outra pessoa. – olhou para Ahsoka, que pegou seus sabres duplos, olhou para ambos e guardou um deles na cintura. Rey quase protestou, mas considerou a própria inexperiência, e soube que seria difícil vencer a guerreira mesmo com a vantagem no número de lâminas. Ouviu o zumbido do sabre branco sendo acionado, e ouviu a voz de Asala ao seu lado:
— relaxe, Rey. Você consegue. É só mostrar o seu melhor, lembra? Como faz comigo. Não se trata de vencer ou perder, porque vovó é muito mais experiente: é só mostrar o seu melhor.
— obrigada, Atrevida – sorriu a Jedi, respirando fundo e se concentrando no fluxo de energia que corria entre seu corpo e o sabre de luz duplo. Ela, o cristal e a espada, os três tornados uma coisa só através da Força, e de repente sentiu-se calma. Calma o bastante para dar passos lentos em círculos, imitando como um espelho as ações de Ahsoka Tano, sem se enervar com o rodear uma à outra, qual dois predadores se medindo. Não falou, não se distraiu: sentia Ahsoka através da Força, e sabia que era sentida. Bloqueou sua mente, para que seus pensamentos não fossem expostos e revelassem suas intenções, e apenas deixou-se fluir. Viu quando a outra propositadamente abriu uma brecha na própria guarda, mas não atacou: era um simulacro que a teria derrotado rapidamente, caso perdesse o foco e investisse. Continuaram, até que Rey percebeu estar numa posição perfeita: os holofotes estavam às suas costas, e ela podia ver claramente a outra, enquanto tudo o que Ahsoka podia era divisar a silhueta de Rey contra a luz branca. Foi o momento em que a mais jovem atacou, golpeando com uma estocada da qual a togruta se desviou, e da estocada a humana fluiu para um movimento horizontal, num corte veloz que o sabre branco aparou. Sem brechas ali, recuou e tornou a procurar falhas na impenetrável defesa da experiente rebelde.
— Você é paciente – disse Luke, numa tentativa de desconcentrar Rey – isso é bom. Mas se acha que terá sempre todo este tempo para medir o oponente e encontrar a situação perfeita, está enganada. Precisa criar sua situação, Padawan. Precisa criar a vantagem.
Ela ouviu as palavras do mestre e as assimilou, mas de fato aquilo a desconcentrou levemente, e Ahsoka usou a vantagem para atacar de cima para baixo. Rey quase não teve tempo de se defender, pois outro golpe veio de sua direita, e então girou por sobre sua cabeça, surgindo pela esquerda. Por instinto, abaixou-se quando a rebelde saltou por sobre sua cabeça e a atacou usando a Força, empurrando-a para trás; disso Rey se defendeu, revidando, e por um segundo foi a togruta quem perdeu terreno e equilíbrio, sem esperar por uma retaliação tão poderosa da parte da jovem. O bastão estocou contra suas pernas, fazendo-a saltar, e logo a outra extremidade vinha de encontro a seu ombro, mas foi defendido.
— Você é agressiva, não é? – perguntou a ex-Jedi, pulando para evitar o golpe seguinte, mirando seus pés, e então iniciando uma série de esquivas para fugir aos ataques alternados; contudo, ainda não precisava do sabre de luz para tanto. Rey girava com velocidade surpreendente, e a própria Asala se espantou ao ver a mestra dar tudo de si. Nunca presenciara um treinamento de Rey com Lorde Ren, apenas com a capitã Nehaen, e nesses não usavam sabres de luz, mas trabalhavam o combate desarmado. E quando lutava com as Padawans, a Jedi sempre tinha claramente a vantagem, não exibindo todo aquele potencial. Agora, era a situação inversa, e a garota de Jakku dava tudo de si para conseguir ao menos uma falha na técnica impecável da General Tano. – vamos lá, Rey. Sei que pode fazer melhor do que isso. – Ahsoka se defendeu com o sabre, segurou a empunhadura do bastão de Rey, travando os movimentos da outra e passando-lhe uma rasteira.
Movida por puro instinto, a humana rolou para trás sobre si mesma e, nesse mesmo gesto, desengatou as empunhaduras das lâminas, convertendo o bastão nos dois sabres. Por um momento, viu um brilho estranho de satisfação e aprovação no olhar da Togruta, antes que a lâmina branca a atacasse.
— Não a deixe desconcentrá-la, menina. Use a Força. – corrigiu Skywalker – e preste atenção na lâmina inimiga, ou vai ser cortada em dois!
Imediatamente a aprendiz mudou sua tática, passando das rotações laterais com o bastão para movimentos alternados de ataque e defesa com os dois sabres, onde um tentava manter sua guarda protegida – falhando de modo relativamente visível — e outro atacava o lado menos guarnecido da adversária – nisso ela era realmente boa.
— Rey, você não está focando em se defender! Vencer só é importante se você sair VIVA da luta! – Luke se preocupava, vendo no estilo da aprendiz muito da agressividade que havia no combate de Kylo. Porém, que outro exemplo ela tivera?
Ela ouviu o mestre, e tentou corrigir aquilo, mas em sua grande parte não eram movimentos pensados: a Força parecia guiá-la, e foi nesse ritmo que, pela primeira vez, executou uma acrobacia durante um combate, pulando por cima de Ahsoka numa cambalhota para atacá-la pelas costas. O mesmo truque que fora usado contra si há pouco. A ex-jedi, porém, conhecia bem demais aquele movimento, e se defendeu chutando a mão de Rey, cujo sabre voou longe. Faltavam a ela bases importantes, jogo de pés e postura, e talento não substituía prática ou técnica, especialmente na técnica de luta com dois sabres, uma das mais complexas que havia.
— Não se aventure. Está abrindo sua guarda quando tenta o que não domina! Eu quero ver o que você sabe, não o que está tentando aprender. – censurou Luke – feche sua guarda: Ahsoka poderia tê-la partido ao meio uma dúzia de vezes!
Rey procurou prestar atenção, e não se aventurar em terreno desconhecido; agora era um sabre contra um sabre, apenas, e por segundos as lutadoras se encararam; a Padawan tinha os olhos semicerrados em profunda concentração, um estado quase de transe, e de súbito usou a técnica do Empurrão para desestabilizar a outra, avançando com golpes agressivos e sequenciais: sua técnica, agora, envolvia cansar o oponente com os ataques fortes e seguidos, até desarmar ou conseguir abrir as defesas. Inútil contra uma lutadora de tantos anos, mas não menos admirável pelo esforço e dedicação; com mais tempo de treinamento, e a correção das falhas, ela poderia se tornar uma espadachim ao nível da própria Ahsoka. Agora, porém, mudara para uma técnica bem mais agressiva ao sentir a outra recuar, o que desguarnecia suas defesas: era bom para encerrar uma luta rápida, não para sustentar um combate com um adversário de mesma força ou mesmo superior; seria fácil demais desarmá-la e encerrar tudo, mas a mais velha queria ver até onde a menina conseguia ir, então apenas suportou os ataques, defendendo-os velozmente, antes de ver Rey subitamente se desequilibrar e ser arremessada de costas com um grito de surpresa.
Ofegante e espantada, a moça procurou o que fora que a acertara: ela estivera consciente de cada movimento da General, portanto não poderia ser ela... E então, levantando-se e chamando seus sabres com a Força, ela viu Luke arquear uma sobrancelha, claramente o responsável por ataca-la e derrubá-la.
— Mestre?
— Sua concentração é realmente admirável, mas se não for capaz de senir TUDO ao seu redor, menina, não durará muito num combate. E quantas vezes terei de repetir para você procurar se defender, além de atacar? – ele se aproximou de Rey, assim como Ahsoka, que começou a falar:
— Ela é habilidosa. Mais do que qualquer Padawan que conheci, se considerar que não teve nenhum treinamento formal. Mas o jogo de pés é sofrível, e o uso da técnica de lâminas duplas devia ser deixado para um estágio mais avançado, quando souber usar as posturas e defesas dos estilos um e dois, ao menos. – a togruta estava intrigada – ainda assim... Como consegue lutar desse jeito?
— Eu... Não sei. Na primeira vez, eu senti a Força fluir. Vieram a mim como memórias de movimentos, como se eu já houvesse feito aquilo antes... Memórias que não eram minhas, mas meu corpo as seguiu. E a partir disso, comecei a treinar com Ben.
— E o menino estúpido não pensou em lhe ensinar estilos iniciais, antes de partir para um duelo de verdade? – Luke revirou os olhos – Ahsoka, faça-me um favor: quando vir aquele garoto, bata nele com um cajado até algo entrar naquela cabeça oca!
— Não se preocupe, Mestre Luke, eu mesma faço... – parando no meio da frase, Rey processou as palavras do mestre — espere um pouco! Como assim?! Ahsoka virá conosco?!
Asala também parecia perplexa, mas de um modo positivo, especialmente quando a Togruta mais velha anuiu:
— Você precisa de treinamento adequado, mais do que pode obter apenas com os Mestres da Força. Luke Skywalker não seria exatamente bem-vindo, mas eu... Bom, estive trabalhando sob outro nome durante toda a Nova República, e passei muitos anos isolada. Não me verão como uma ameaça.
— Não verão?! Você é uma heroína da Guerras Clônicas, e uma rebelde extremamente procurada! É loucura!
— Ahsoka Tano fez essas coisas. Ashla não.
— Ashla?
— Não achou que eu faria isso sob meu nome real, achou? — Sorriu a ex-Jedi – Mas você precisa de alguém para acompanhá-la de perto, ajudar não apenas no treinamento, mas com as Padawans, e na busca por outros sensitivos.
Rey não sabia o que dizer: parecia algo já combinado entre Luke e Ahsoka, e seria maravilhoso ter uma mentora que realmente passara por todo o treinamento Jedi... Mas o risco...
— Acalme-se, Rey. — Pediu Luke – Não é algo que a General Tano não esteja preparada para fazer, ou cujos riscos desconheça. Mas falaremos melhor sobre isso amanhã. Agora... — ele se ergueu e fitou Asala — certa Youngling deve mostrar do que ela é capaz.
Asala se levantou timidamente e acionou o sabre, arrancando uma exclamação surpresa e agradada de Skywalker:
— Outro sabre pouco comum! – ele sorriu para a menina — Um começo promissor para uma nova Ordem Jedi. — Asala sorriu, mas ele continuou — não deixe que isso a torne arrogante, criança. Tem muito a aprender, e um espírito incomum é apenas potencial. Precisa ser explorado e trabalhado para atingir sua plenitude. — A pequena anuiu firmemente, e Luke acionou seu sabre — mostre seu melhor. Não como Rey, que estava tentando vencer: apenas o que realmente sabe fazer. – a mais velha cerrou os olhos, envergonhada, e Ahsoka sussurrou-lhe:
— Não se constranja tanto. Ainda é uma Padawan. Amanhã fará melhor, e não cometerá o mesmo erro.
— Não devia ter errado. Deixei-me levar pela vontade de me provar, e cometi vários erros que teriam me matado, num combate real.
— Para isso servem os padawans, menina. Cometer erros, quando há alguém para corrigi-los. O que importa é aprender com eles. – Era surpreendente a gentileza e compreensão da mulher mais velha, especialmente após constatar suas habilidades em combate. Como alguém podia ser uma guerreira tão temível, e uma pessoa de coração tão sereno, firme e compassivo? Pela primeira vez, o peso que a jovem sentia em seus ombros desde que tocara o sabre de Anakin (provavelmente até mesmo antes disso) parecia se aliviar. Pela primeira vez ela não estava sozinha ante a enorme missão da qual se incumbira, e isso lhe dava um grande conforto.
Mas seus pensamentos foram interrompidos ao ver Asala começar a manusear seu sabre. A pequena estava tímida, a princípio, e claramente hesitava em atacar o Mestre Jedi; simplesmente não lhe parecia certo.
— Vamos, Asala – incentivou a avó – Acredite, você não conseguiria machucar Luke, mesmo que quisesse, e mostrar suas habilidades não será um desrespeito. Faça.
A criança anuiu e empunhou o sabre com ambas as mãos, do modo como mais firmeza sentia; respirou fundo e, sabendo que não possuía bases técnicas, mas apenas seus reflexos rápidos, foi o que demonstrou. Atacou rápido, apenas para que o mestre executasse um movimento, e então colocou-se na defensiva; Luke percebeu a mudança de postura, e aprovou mentalmente – a pequena era bastante madura e sensata, e isso se refletia mesmo na forma como lidava com a situação de combate. Ele próprio atacou várias vezes, aumentando gradativamente a velocidade; era uma satisfação ver que a Padawan possuía reflexos tão rápidos e uma interação tão harmônica com o próprio sabre. Defendia-se e tinha a guarda melhor protegida do que Rey, mas não se arriscava a tentar golpes contra Skywalker.
— Vamos, Asie! – interveio Ahsoka – ataque! Se ficar apenas se defendendo, acabará acuada e perderá vantagem. Ataque qundo vir a oportunidade.
Ante as palavras da avó, a menina adotou uma postura mais firme e, quando Luke propositadamente tornou seus moimentos mais lentos, golpeou num arco de baixo para cima, seu sabre aparado pela lãina verde do mestre Jedi. Abaixou-se e rolou, como se lembrava de ter aprendido nos tempos em que caçava com a avó e usava uma lança, não um sabre de luz, girando sua arma paralelamente ao chão em direção aos tornozelos do ancião, o qual escapou numa passada larga e rápida para trás. Seu corpo podia aparentar a idade que tinha, mas a agilidade e força não o haviam abandonado, e aquele treinamento com Asala sequer o fazia ofegar. A criança era, de fato, rápida e habilidosa, e sua luta demonstrava até mesmo alguma técnica, adaptada dos movimentos de caçadora. Nada mau, realmente. O modo como ela se levantava e abaixava, usava o terreno para fugir aos golpes de Luke e procurava sempre estar em locais vantajosos mostrava a mente estratégica e raciocínio rápido herdados da avó. Porém, ainda era apenas uma criança, e em meio à troca de golpes, sua atenção se focou demais na luta, e de menos no ambiente, o que a fez tropeçar numa depressão e cair. Luke apontou o sabre para ela, mas não havia desaprovação.
— Não está lutando com um Akul, menina. É inteligente usar os movimentos de uma caçada durante a luta, mas aqui, não se trata de emboscada, nem de enfrentar um animal; seu oponente também raciocina e traça estratégias. – estendeu-lhe a mão e a ajudou a se levantar – é só uma criança, mas tempo e treinamento a farão progredir depressa, se nisso se empenhar.
— Eu o farei, Mestre Skywalker. – assegurou a jovem, sentindo o corpo cansado após enfrentar o Cavaleiro. Finalmente, os dois mais velhos trocaram um rápido olhar e se sentaram juntos no chão, sinalizando para que as padawans também o fizessem. Antes que percebessem, Gea estava deitada atrás de ambas, o corpo maciço dando apoio a elas, a cabeça virada e pousada no colo de Rey, ocultando as pernas cruzadas da Jedi com o crânio. Não foram necessárias palavras para que o instinto protetor presente nesse ato ficasse muito claro, ainda mais quando a cauda longa se enrolou e pousou no colo de Asala, de modo a deixar ambas as Padawans envoltas num círculo formado pelo corpo da Tuk’ata.
“Calma, Gea”. Disse Rey, acariciando os pelos negros da loba. “Não há inimigos, aqui”.
Em resposta, a cauda negra relaxou e deslizou para o chão, assim como a enorme cabeça, que repousou sobre as patas fortes. Luke observou o ato com alguma preocupação:
— Desde quando fala a língua Sith, Rey? – as palavras gelaram a espinha da jovem, que temeu as consequências ao dizer:
— Não falo, na verdade. Apenas quando me dirijo a Gea, e sequer percebo o que estou fazendo. – o Jedi franziu cenho, não exatamente feliz ao dizer:
— Seu vínculo com uma criatura por tanto tempo exposta às sombras me preocupa; sua atração pelas sombras é tão forte quanto a luz que brilha em você, padawan.
— Não sei responder a isso, Mestre Luke. – declarou a humana – a única coisa que sei é que todos possuem um lado obscuro, mas são nossas ações e escolhas que ditam o que somos, realmente. Em minhas escolhas, sempre pertenci à luz, e assim continuarei a fazer.
— Pertenceu à luz? – ele parecia duvidar – não foi luz o que vi, em nossa luta em Ach-To, mas raiva. Foi luz o que a levou a Kylo Ren? O que a fez se render a ele? O que a fez adotar tanta agressividade em seu modo de combate?
Rey permaneceu firme: era um teste. Sentiu a inquietação de Gea ante a angústia que a tocou com aquelas palavras, mas acalmou o lobo com um afago e, respirando fundo, serenou sua mente e coração, procurando não se defender, mas dizer apenas a verdade:
— Eu estava com raiva, quando lutamos em Ach-To. Com raiva porque havia escondido parte da verdade de mim, e em parte, sentia a raiva de Ben. Mas não foi a sombra que me levou até ele. Eu realmente acreditava que poderia trazê-lo de volta à luz. Eu o vi se voltar contra Snoke, como realmente o fez, e pensei significar que poderia salvá-lo. Quando me rendi... Uma parte minha o fez por saber que era o único modo de salvar o que restava da Resistência.
— E a parte restante? – ele estreitou os olhos. A moça desviou o rosto e não respondeu; Luke sabia a resposta. – eu sei a resposta, Rey. Mas e você? Tem sido sincera consigo mesma? Sabe realmente por que ficou ao lado dele?
— Sei. – ela o fitou – queria salvá-lo de si mesmo.
— Mais um motivo. Mas não o maior deles. Diga, Rey, de lugar nenhum: o que a fez ficar?
— Eu precisava.
— O que a fez ficar, padawan? – havia ainda mais insistência, quase urgência na voz masculina.
— Foi necessário – ela fechou os olhos, sem querer admitir em voz alta. Luke já sabia, por que estava fazendo aquilo?!
— Diga em voz alta. Pare de fugir da verdade. Por que ficou? – havia veemência no tom do Mestre, e até mesmo Ahsoka estava preocupada, especialmente quando a Tuk’ata começou a arreganhar os dentes ao sentir todo o conflito interno de sua humana. Rey se obrigou ao controle, e disse num sussurro:
— Eu me apaixonei...
— Eu disse para falar em voz alta. – insistiu Luke, o que lhe rendeu um olhar cheio de emoções múltiplas da parte de Rey, um olhar dentro do qual parecia haver dois sóis quando ela firmou a voz, admitindo não tanto para o mestre, mas para si mesma, aquilo que nunca pusera em palavras:
— Eu me apaixonei por ele. Ao longo de nossos encontros através da Força, à medida que entrava em seus pensamentos e enxergava além da máscara de Kylo Ren. E quando nossas mãos se tocaram, eu o SENTI por completo, todos os medos, as dores... As sombras e a luz tímida em seu interior. Senti tudo. – ela ofegou, revivendo aquela sensação, quando Kylo viera a ela no momento em que estava mais exposta e fragilizada, após a caverna – não há como mergulhar numa alma do modo como fiz, e não a amar. Eu o amei. Acreditei nele. Acreditei na luz que havia ali, e que poderia inflamá-la – ela começara, e agora diria tudo – e quando aceitei, foi para salvar a Resistência, mas não apenas por isso. Eu queria estar com ele. Pensei que poderia encontrar respostas. Encontrar meu lugar... Encontrar amor. Foi um instante, que deu lugar a outros sentimentos, quando percebi o que havia feito, mas foi o que senti, por pelo menos alguns momentos.
Luke não disse nada por alguns segundos, mas Ahsoka e sua neta encaravam Rey fixamente, cada uma com expressão diferente: a avó, com espanto, e a neta, com compaixão. A menina sabia dos sentimentos mútuos entre o Líder Supremo e sua esposa: já enxergara isso nos olhos de ambos. Mas Ahsoka não podia saber, e ouvir que alguém podia amar um ser como Kylo Ren...
— Agora, podemos começar. – disse Luke. Não havia censura em sua voz – não estava realmente pronta, até assumir sua fraqueza. Não para mim, mas para si mesma.
— Fraqueza? – havia espanto na voz da aprendiz – amor é fraqueza?
— Amor não é fraqueza; é força. Mas a necessidade de ser amada, desejos egoístas de pertencimento, dúvida e a busca de respostas na escuridão, quando a luz não as fornece, isso sim são fraquezas. Kylo Ren é sua fraqueza, e seu maior teste; se o superar, pode se tornar sua maior força, e um grande aprendizado. – Rey estremeceu àquelas palavras, receosa do que poderiam significar.
— O que quer dizer com isso, Mestre?
— Ele é sua porta de passagem para o Lado Sombrio. Você é a luz de Ben Solo. Mas Kylo Ren é sua sombra e escuridão. A agressividade que aprendeu pelo contato entre seus pensamentos flui através de você, quando combate. – ele a fitou – você se liga facilmente ao Lado Sombrio, e Gea é a prova disso. Contudo, não foi tragada por ele. O que é você, Rey, de lugar nenhum?
A padawan mais velha cerrou os olhos e tentou encontrar uma resposta; tentava pensar, quando sentiu um puxão vindo da mente de Gea, um sinal sem palavras, apenas sensações que a fizeram compreender: não podia simplesmente buscar a resposta de modo racional. Precisava sabe-la. Deixar que a Força lhe respondesse, manter a serenidade; a mente era enganadora, mentia e distorcia; a Força era pura e verdadeira, dar-lhe-ia o que buscava.
— Eu sou uma Jedi – disse, enfim, abrindo seus olhos – com muito a aprender, erros a consertar, dúvidas a sanar... Mas ainda assim, sou uma Jedi.
Luke assentiu, e nesse momento pareceu-se tanto com Obi-Wan, sereno e sábio, que a moça se espantou. Mais espantada ficou quando a mão áspera tocou levemente seu rosto de modo quase... Paternal? E a voz do mestre soou paciente e reconfortante como nunca antes:
— quando a Sombra se ergue, a Luz vai ao seu encontro, não porque seja fraca, mas para tentar clarear os caminhos e salvar os que se afogam nas trevas. Sua luz é forte, mas não se esqueça, criança: toda luz projeta uma sombra. Todos temos um lado obscuro. Jamais permita que ele a controle – ele pareceu hesitar antes de prosseguir – eu não concordo com tais palavras, mas alguém mais experiente do que eu, há pouco, disse que tampouco devemos temer este lado: apenas conhece-lo, domá-lo como a uma fera selvagem, e aprender com ele, para transformar a fraqueza em força, e as falhas em aprendizado. – ele respirou fundo – não deixe apagar a flama que há em seus olhos. Não perca essa vontade, sua determinação... Sua fé. Acima de tudo sua fé. Uma esperança que me tirou de meu exílio e fez com que me conectasse à Força, novamente, essa certeza pura que, talvez, possa salvar um garoto perdido na escuridão. – ele se afastou, e era novamente o Mestre Jedi rígido e distante, embora sua mente enxergasse na fé de Rey o garoto que ele um dia fora, com a mesma certeza e entrega, disposto a salvar alguém tão ou mais perdido na escuridão do que Kylo Ren – foi o bastante, por uma noite. Descansem, ambas. Temos pouco tempo, e muito a fazer: começaremos cedo, pela manhã. – ele se levantou e dispensou as moças com um gesto de braço.
Rey e Asala se levantaram, imitadas por Ahsoka; a humana ainda estava um tanto confusa com tudo o que acabara de acontecer, imaginando se o mestre realmente tivera aquele gesto tão gentil e confortador, se realmente a elogiara, quando Gea enfiou a cabeça sob seu braço no que pareceu um gesto de carinho. A Jedi aprendiz sorriu e acariciou a Tuk’ata, enquanto Ahsoka acompanhava o trio até seus aposentos.
— Espero que não se ressinta do que foi feito, Padawan – disse a ex-Jedi, enquanto andavam pelo longo corredor.
— Eu compreendo. Até dizer em voz alta, eu não havia realmente assumido os sentimentos que me moveram, bons ou ruins. Certas ou erradas, essas emoções são parte do que sou, e não poderei estar inteira até que as aceite. – a togruta mais velha sorriu com a compreensão da aprendiz, e voltou-se para a neta:
— Quanto a você, Asala: ainda é jovem, e por isso não há a mesma urgência e pressão impostas ao treinamento de Rey; mas meditar e conhecer a si mesma é a mais importante habilidade de um Jedi, aprendiz ou não. Aprenda a conhecer suas qualidades e defeitos, e a assumi-los todos como parte de si: saiba suas fraquezas, para poder aprender com elas e transcendê-las.
— Rey me tem feito praticar o autoconhecimento desde que nos conhecemos, vovó. – a pequena caminhava ao lado da enorme Tuk’ata, que parecia gostar da criança, cuja mão afagava seu pelo raso. Parou por um momento para poder fitar sua ancestral nos olhos, e foi serena, firme e direta ao falar – não tenha medo do amor de Mestra Rey por Lorde Ren. Nós não o conhecemos como ela, mas eu já pude ver ser um amor recíproco. Não irá puxá-la para as trevas, mas com certeza já o trouxe ao menos um pouco para a luz.
Ahsoka não soube o que dizer, e tampouco Rey; as adultas se entreolharam, e a guerreira se abaixou, acariciando o rosto da neta:
— está tudo bem, meu raio de luar. Não julgo Rey mal por causa disso: ser capaz de amar é uma virtude. Não precisa defender sua mestra para mim: acredito nela, em sua luz e coração, ou não teria aceitado acompanha-la em seu treinamento... Ou confiaria você, meu tesouro mais precioso, novamente a suas mãos. – os olhos azuis se voltaram para Rey, e a mulher sorriu – Fez um bom trabalho, Rey Organa Solo. E sei que fará ainda melhor, com o tempo e conhecimento necessários.
— Obrigada, Ahsoka – a jovem mulher esboçou um sorriso, ainda desacostumada a ouvir elogios, pelo menos que não viessem de Ben ou Eilenia. – Mas... Não sei se está certo dizer que sou a mestra de Asala. Ainda sou uma Padawan, e agora que Mestre Luke e você se encarregaram de...
— Era bastante normal que Padawans supervisionassem o treinamento de younglings. – explicou Ahsoka – além disso, aprendizes nos ajudam a perceber aquilo em que precisamos ser melhores. Ajudam-nos a crescer, amadurecer, e mesmo aprender.
— Nem pense que vai se livrar de mim. – sentenciou a criança, cruzando os braços com um olhar atrevido – Vai continuar sendo minha mestra.
A jovem Jedi meneou a cabeça, esboçando um sorriso, e respondeu com divertida ironia na voz:
— Logo quando achei que ia conseguir me libertar... – e deu de ombros – o que posso fazer, afinal, além de me conformar? – e riu baixo – pelo menos sua avó não vai me deixar fazer mais nenhuma besteira – e fitou esperançosamente Ahsoka, que tinha um sorriso sereno e divertido no rosto ao confirmar:
— Farei o possível. Mas vocês fizeram um bom trabalho, sozinhas. – chegaram à porta do quarto das garotas, e a ex-Jedi se despediu:
— Descansem bem, padawans – ajoelhou-se e abraçou a neta, beijando-lhe a fronte – vai ficar bem, meu raio de luar?
— Vovó, eu fiquei bem por quase seis anos, sozinha. – respondeu a menina, acariciando o rosto de Ahsoka – Estou com Rey, e você está a apenas alguns corredores de distância. Além disso – ela fitou a Tuk’ata, que entrara no quarto e se enroscara ao lado da cama de Rey – Ninguém tentaria nos fazer mal, com Gea de guarda.
A guerreira assentiu e beijou a testa da criança, antes de se erguer e despedir:
— Durmam bem, meninas; vemo-nos pela manhã. Será um dia movimentado.
A porta se fechou, e pouco depois as jovens haviam se trocado e adormecido, exaustas após a tarde e início de noite intensos e tão cheios de emoções.
*
— Brenwen, pegue minha mão! – insistiu Rey, vendo a garota tentar firmar os pés no pântano de águas negras. A Jedi se segurava firmemente a um tronco de árvore inclinado sobre as águas, e tentava arrancar a mais moça da armadilha que era o lodo no fundo. A princesa corelliana, contudo, se recusou:
— Não! Eu consigo fazer isso sozinha. Já alcancei o fundo!
— Bren, por favor! Você vai se afogar! – implorou a mulher morena, enquanto a outra conseguia ficar em pé, a água na altura do peito, e se voltava para sua protetora:
— Consegui. Não sou uma menininha indefesa, ao contrário do que você pensa, Rey, de Jakku. – a água tornou-se um lodo negro, algo que parecia oscilar entre o estado sólido, líquido e plasmático, e já não era num lago que a garota estava, mas num poço escuro, parecendo que se mantinha suspensa no ar. As sombras avançavam sobre ela, mãos puxando-a para a escuridão, e a jovem loura se deixava conduzir, ignorando as tentativas de Rey em segurá-la e puxá-la para terreno seguro, para a luz que clareava a entrada da caverna.
Desesperada, a Jedi correu pelo caminho invisível e, embora as sombras se aproximassem perigosamente, não conseguiam tocá-la, barradas por uma claridade fraca emanada pela própria mulher. Lisin parou onde estava e se voltou, os olhos tornados alaranjados:
— eu não quero sua ajuda, Jedi. – e estendeu a mão, empurrando Rey para trás, enquanto as sombras se fechavam como uma parede entre ambas. Por mais que a moça usasse a Força para afastar as sombras, tudo o que conseguia era ver a aprendiz entrando mais e mais na caverna, até desaparecer por completo, engolida pelas trevas.
— NÃO!!! Brenwen! – de repente, uma mão pequena pousou em seu ombro e a sacudiu:
— Rey, acorde, por favor.
*
Rey se sentou bruscamente no colchão, ofegando, e viu Asala em pé ao seu lado, tendo Gea a esfregar a cabeça contra seu braço, a pata dobrada como se abraçasse a menina, confortando-a. Havia uma trilha de lágrimas no rosto da criança, o que fez Rey se levantar rapidamente:
— O que houve, Asie? Que aconteceu? Está machucada?
— Nada... – a criança fungou – tive um pesadelo. Acho que você também...
— Pesadelo? – a mais velha se sentou outra vez e puxou Asala consigo, fazendo-a se sentar ao seu lado e abraçando-a enquanto Gea deitava a cabeça junto às duas – o que sonhou?
— Com Bren. – choramingou a mais nova, secando uma lágrima – que ela se afogava numa gosma escura, e eu tentava ajuda-la a sair. No começo, ela não queria, achava que ia conseguir nadar, mas então começou a ser puxada para baixo e se desesperou... Ela me pedia ajuda, e por mais que eu tentasse segurar sua mão, faltavam sempre alguns centímetros, e havia uma voz rindo... E depois várias outras... – a criança começou a chorar – estou com medo por Brenwen. Medo de que o Lado Negro a esteja tomando, mestra!
— Shhh, está tudo bem. – a humana segurou seu rosto com ambas as mãos – assim que amanhecer, vou usar a Força para falar com Ben, e podemos usar o comunicador para chamar Lena na frequência da Resistência. Não se esqueça de que Eilenia está lá: Brenwen não está sozinha.
— Não, mas ela é teimosa, obstinada, e quando enfia algo na cabeça... – o rosto pálido se escondeu no peito de Rey – não quero perder minha amiga para as trevas!
— Eu sei, querida, eu sei – a padawan mais velha beijou a cabeça da youngling – vamos fazer tudo o que pudermos, está bem? E agora temos Mestre Skywalker e a General Tano. Eles saberão o que fazer. E pode ter sido apenas um sonho... – secou as lágrimas do rosto perolado – calma. Vai ficar tudo bem. Confie na Força, certo?
Anuindo, a criança sorriu ao sentir o nariz gelado de Gea cariciar seu rosto, e afagou o pescoço da enorme criatura:
— Obrigada por me acordar, Gea. – e beijou o focinho da loba Sith, antes de se voltar para Rey – posso dormir com você?
— É claro! – A Jedi arrumou os cobertores e se deitou de lado; era uma cama de solteiro, mas cabiam as duas ali. Deixou a pequena se aninhar em seu abraço e puxou as cobertas sobre ambas, sentindo Gea se estender ao lado da cama baixa, a cabeça pousada no colchão logo acima das cabeças das padawans. Mais do que ouvir os pensamentos da Tuk’ata, podia sentir seu cuidado e recebia dela a certeza: não fora apenas um sonho. Melhor falar com Eilenia e Kylo o mais breve possível, pois a jovem Brenwen corria um terrível perigo.
*
— Rey, Asie! – a voz de Eilenia chegou até ambas com uma exclamação de alegria – estão com a Resistência?
— Não, Lena, chamamos dessa frequência, através de um aparelho sem registro, porque resolvemos parar num bar de Coruscant – ironizou Asala, rindo – é claro que estamos!
— fico feliz em saber disso. Saber que estão em algum lugar seguro – a voz dela parecia preocupada, e Rey percebeu:
— O que houve, Eilenia? Qual o problema?
— É Brenwen. Ela está... Estranha. Parece não conseguir controlar a Força, e tampouco o modo como esta se manifesta. Ontem tive de tirá-la de uma crise de terror durante a meditação, e depois... – a voz da twi’lek se tornou embargada – eu não sei o que aconteceu, realmente, mas ela parece... Magoada, frustrada. Esse planeta não lhe faz bem, definitivamente.
— Quão grave é a situação, Lena?
— Posso lidar com as coisas por aqui, Rey, ao menos até você voltar. Mantenha seu foco em seu papel e, Asie, aproveite tudo o que puder. A Resistência é um grupo de combatentes, mas encontrará bons amigos e belas memórias. E se encontrarem Poe Dameron... Dêem um chute na canela dele, por mim, e digam que é por parte da “azulzinha”. Ele vai entender.
— Relaxe, Lena, vou fazer bem melhor do que isso – sorriu Asala – mas... Por favor, cuide de Bren. Estamos preocupadas com ela.
— E também com você, minha amiga – continuou a Jedi – por favor, chame se houver qualquer problema. Iremos imediatamente.
— Eu o farei – soou a voz no comunicador – quanto tempo até estarem de volta?
— Uma semana, dez dias no máximo, contando o tempo de viagem.
— E eu vou ter que aturar o projeto de Darth Vader sem sua esposa? – Eilenia riu – Brincadeiras à parte, Rey, ele fica insuportável sem você. Embora esteja bem mais... Não sei se controlado é um termo forte demais, mas é o que me ocorre. E contemplativo. Não sei que tipo de manipulação Jedi você usou nele, mas parece ter enfiado algo naquela cabeça oca.
Rey suprimiu um sorriso, sabendo o motivo de seu esposo estar tão pensativo, mas nada disse a respeito, preferindo perguntar:
— Como está o império?
— Do modo como você o deixou. Tenho medo de dizer isso cedo demais, mas Kylo temtudo para ser um bom governante; melhor do que os impérios anteriores, ao menos, e melhor do que a Nova República conseguiu ser. Ele enviou os Cavaleiros de Ren para lidar com os insurgentes cujos nomes obteve da mente de Hux, e logo teremos uma lista de novos nomes. Enquanto isso, está terminando de formar seu Pequeno Conselho, e tem propostas inusitadas. Não vou dar mais detalhes e estragar a surpresa; uma boa surpresa, aenas para tranquiliza-la.
— Não sabe como ficamos aliviadas em saber disso. – suspirou a Jedi – Lena, precisamos desligar, antes que o sinal seja captado por alguém.
— Certo. Cuidem-se. Vou controlar Brenwen ao máximo, mas seria bom se conseguissem uma pista de como lidar com a menina.
— Teremos ajuda. É só o que podemos dizer – falou Asala – enquanto isso, não deixe Bren se perder de si mesma, por favor.
— Cuidarei de tudo. Façam o que quer que precisem, e voltem depressa. Espero ansiosamente.
— Cuide-se, Eilenia. – disseram ambas as padawans, enquanto o sinal era encerrado; trocaram um olhar cúmplice e preocupado, sabendo que seus sonhos não eram desmotivados. Precisavam resolver as coisas por ali, depressa, e voltar para a princesa corelliana.
— Vai falar com Lorde Ren, mestra? – perguntou a jovem Togruta.
— não agora. À noite, quando formo nos deitar; Luke e Ahsoka estão vindo.
— Como sabe?
Rey indicou com a cabeça a trilha que subia até a colina, e pouco depois ambos os mentores se aproximavam.
— A Força se agita com a proximidade de ambos.
— Droga, eu ainda me esqueço de manter atenção aos sinais da Força – praguejou a pequena consigo mesma. Ao ver a avó, contudo, abriu um sorriso e ficou em pé – Bom dia!
— Bom dia, meninas – saudou Ahsoka, jovial, enquanto Luke as cumprimentava com um aceno de cabeça. O sol estava apenas surgindo por trás das montanhas, e o mundo ainda era prateado quando se levantaram.
— Estamos prontas, mestre Skywalker, mestra Tano. – disse Rey, desembainhando seu bastão, mas sem o acionar.
— Muito bom, mas agora não usaremos armas, minha jovem. – Luke apontou para o terreno plano no topo da colina, repleto de pedras – você uma vez disse que a Força era sobre usar sabres de luz e levitar pedras. Bom, não estava certa, mas também não estava completamente errada; o que mencionou são apenas exercícios através dos quais atingimos domínio sobre a Força, através do controle sobre nossas próprias mentes. Pois bem: sei que suas habilidades telecinéticas são mais do que razoáveis, e que treina com frequência com pedras menores os movimentos mais ágeis. Agora, quero uma prova de concentração: erga as pedras neste cume, uma após a outra, e pouse-as delicadamente no chão, uma vez que as tenha todas no ar.
Executar o que lhe fora pedido não foi difícil; Rey treinara aquilo num planeta sombrio, sob a supervisão de Obi-Wan Kenobi. Fazê-lo num lugar onde a luz predominava era infinitamente mais fácil! Bastou-lhe um pouco de concentração enquanto sentia a Força que vivia em si, no ar à sua volta, nas rochas, no espaço entre estas e o solo... Respirou fundo e sentiu, iniciando então o movimento de cada um dos blocos maciços: era fácil quando se entendia que não era ela quem erguia as pedras, mas a Força, a qual o Jedi apenas canalizava e direcionava. E foi assim que onze blocos maiores do que um ser humano se ergueram um a um no ar, começando a se mover em padrões circulares uns em torno dos outros, numa dança fluída de espirais, até estacionarem no ar. Rey tinha o semblante relaxado e os olhos abertos, sem realizar qualquer movimento do corpo, igualmente relaxado enquanto mantinha mais de uma tonelada erguida no ar.
— desça-as. – ordenou Ahsoka, surpresa com o controle da garota – uma por vez.
Rey anuiu e fez como pedido. Uma a uma, as rochas desceram para seus respectivos lugares, pousando com a suavidade de uma pluma; quando a última peça repousou na grama, estava apenas levemente ofegante, e olhou para Luke a fim de saber como se saíra. Havia surpresa no rosto do ancião, que se voltou para Ahsoka:
— continue com Asala. Darei início ao próximo teste de Rey.
A Togruta anuiu e se sentou com a neta, pedindo-lhe que fizesse o mesmo; ainda que de modo vacilante, a criança ergueu a primeira rocha, demorando um pouco até estabilizá-la no ar; seguiu-se uma segunda, e depois uma terceira, sempre com um espaço até que ela conseguisse recuperar o equilíbrio dos corpos rochosos. A humana ainda a observava, quando Luke declarou:
— Olhe para mim, Rey. – sentou-se numa rocha, parecendo muito curioso, e pediu – diga-me: o que é a Força, para você? Como a sente. Como enxerga o mundo, através de seus sentidos?
A moça se ajoelhou na grama, mãos tocando a grama, olhos fechados em concentração e serenidade, sentindo, expandindo-se, deixando a Força permeá-la e atravessá-la, ligando-a a tudo o que vivia e morria em toda a galáxia.
— Uma névoa tênue, que permeia tudo ao meu redor, como o ar, através de tudo o que está vivo ou não, fluindo de uma coisa a outra, transformando-as, mantendo o Equilíbrio... Mantendo a própria vida, ao mesmo tempo em que É a própria existência. Se eu expando a percepção, contudo, consigo sentir pequenos fios, como um teia de aranha. Fios que interligam pessoas, destinos, vidas... Cada fio é único em sua natureza, textura, vibrações. Consigo dizer a quem pertence cada emanação, e guiar-me por elas até encontrar esta pessoa. Ahsoka. General Organa. O senhor, Mestre.
— E mais longe? – a percepção da Força era única para cada pessoa, e era muito interessante ver que Rey possuía duas formas de senti-la.
— Pessoas que não conheço. Fios brilhantes e vibrantes. Quanto mais espessos, maior a Força no interior do ser; sinto alguns dotados da Força... Alguns parecem dominá-la, outros são jovens demais... – ela fechava os olhos, concentrada. Nunca pensara em usar aquele método para encontrar outros Jedi! Agora percebia que poderia tê-lo feito! Ou talvez não... Mesmo agora, recantos distantes demais pareciam difusos, e os fios se dissipavam em névoa – é difícil alcançar mais longe. Alguns lugares brilham como fogueiras acesas em meio à bruma, lugares imbuídos da Força em forma muito pura... Outros são escuros como uma noite profunda, e frios. Cada facho de luz projeta uma sombra, e cada sombra é projetada por uma luz, uma correspondência perfeita.
— Muito bem. Agora... Encontre sua ligação com seres específicos. Siga-a.
— Sinto Gea. Está caçando nos bosques ao norte – Rey conseguia ver através dos olhos da Tuk’ata, sentir seu instinto predador, os cheiros, texturas, emanações de energia que a predadora experimentava. Sentia o chão da floresta em suas mãos e pés, os dentes à mostra podiam ser seus ou dela... Sentiu quando a loba saltou e cravou os dentes num animal aproximadamente do próprio tamanho, quebrando o pescoço da presa, a vida se extinguindo antes mesmo que pudesse descobrir a origem do ataque... A Jedi se afastou e procurou outra conexão – vejo Asala, treinando com as pedras. – ela podia enxergar a menina ali perto, agora com cinco rochas no ar, levemente trêmula com o esforço – Finn, dormindo em seu quarto, na base.
— Vá mais longe, Padawan.
— Eu sinto... Eilenia Shan – foi difícil, a imagem da outra era difusa, mas ainda conseguia percebê-la – trabalhando, sentada a um computador... – procurou por Brenwen, mas não conseguiu localizar a menina. Ou melhor, conseguia, mas sua mente estava bloqueada, sua energia firmemente protegida, e isso angustiou o coração da Jedi, cujas próprias barreiras mentais começaram a baixar sem que percebesse.
— E quanto a Kylo Ren? – Luke sentia as memórias da moça começarem a surgir ao alcance de seu toque – fale-me sobre ele.
— Eu o sinto... – Rey hesitou; Ben era uma ligação íntima e pessoal demais para que ela expusesse o agora – eu sinto o conflito em sua alma. A dor de todos os anos sendo condicionado por Snoke a buscar o poder e as trevas, mas há gentileza e bondade em si, e também compaixão – ela agora tinha os olhos abertos perdidos no horizonte, e um leve sorriso curvava seus lábios – todos o veem como um guerreiro impiedoso, sem misericórdia ou sentimentos, mas estão errados. Ele sente. Sente tanto, cada coisa! E isso o perturba tanto... Ainda está tentando saber quem realmente é... – seus pensamentos foram involuntariamente para os momentos em que ficavam sozinhos, fosse deitados juntos, pela manhã, ou observando o sol se por dos jardins no alto da Fortaleza – e é tão gentil... Pelo menos quando estamos juntos.
— E você deixou suas barreiras caírem estrondosamente, enquanto falava sobre ele. – declarou o mestre. Rey percebeu o que fizera, e rapidamente se recompôs, bloqueando os próprios pensamentos.
— Eu me distraí. – ela ficou terrivelmente vermelha, e queria morrer por ter se permitido expor os próprios sentimentos daquele modo!
— Tem de ser capaz de manter escondidos os seus pensamentos, mesmo enquanto fala sobre aquele assunto, não importa o quão pessoal ou quantas emoções o envolvam, Rey. Nós treinaremos todos os dias, até que seja capaz de falar mesmo sobre seu casamento sem que uma única emoção ou imagem escapem.
— Sim, Mestre Skywalker.
— Farei algo que, pelo que conheço de você, não lhe é novo; escolha algo nesta paisagem que nos cerca, uma informação, por menos relevante que seja, e proteja tal informação. Tentarei entrar em sua mente, e você irá me bloquear.
A ideia não agradou a Rey que, contudo, aceitou. Não era inocente de pensar que outros usuários da Força não tentariam arrancar algo de seus pensamentos pela força, então aceitou. E assim o treinamento da manhã continuou por mais uma longa hora.
Foi só quando o movimento denunciou que todo o restante da base despertara que, enfim, os dois mentores encerraram o treinamento. Asala ainda não tinha a disciplina mental forte o suficiente para impedir um Jedi de entrar em sua mente, mas utilizara outra técnica para proteger a “informação” escolhida: esvaziar a mente, ou pensar firmemente em uma parede de durasteel. Já Rey lutara com todas as suas forças para manter Luke fora de sua mente, e chegara mesmo a resistir por algum tempo aos esforços conjuntos de Skywalker e da general Tano, antes que o cansaço a vencesse. Contudo, quando conseguiram invadir seus pensamentos, depararam-se com uma confusão de informações, e era impossível saber qual Rey realmente escolhera. Ambos sentiram grande orgulho da jovem, e mais tarde perguntariam onde aprendeu aquele truque, simples, mas igualmente eficaz.
Estavam dispensadas, e as togrutas começaram a seguir para o complexo, mas Rey parou por alguns momentos e chamou:
— Mestre Skywalker? – ele se virou para a aprendiz – preciso de seus conselhos. – relatou o “sonho” com Brenwen, e suas preocupações acerca da garota, o que fez Luke se preocupar profundamente:
— Visões são algo complexo por nunca nos dizerem precisamente quando algo vai acontecer. Pelo que me contou, porém, eu imagino que seja em breve; não pode desistir dessa Padawan, Rey.
— Estou lutando com todas as minhas forças, mas ela se recusa a permitir que a ajude. Não sei o que fazer para imedi-la de mergulhar nas trevas.
O Mestre Jedi suspirou, e de repente pareceu vinte anos mais velho do que realmente era, ao dizer:
— Ahsoka estará ao seu lado para ver a situação com os próprios olhos, e ajudar a encontrar uma solução. Podemos lutar com todos os nossos recursos, menina... Mas ainda assim, nem sempre vencemos a batalha, porque não depende apenas de nós, mas da pessoa a quem tentamos salvar. – seu semblante era indecifrável para além do pesar evidente, mas a moça entendeu muito bem a que ele se referia, e assentiu:
— Compreendo. Obrigada por me ouvir.
— Não, Rey... Eu é que tenho de agradecer. – e sem mais palavra, seguiu para o refeitório. A moça tentaria lhe fazer mais perguntas, se não soubesse que aquela postura era o sinal “Luke Skywalker” de que a conversa terminara. Não havia muito mais a falar, então ela apenas o seguiu, percebendo de repente que o treinamento a deixara faminta. Continuariam a conversa em outra hora.
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