Rise of Jedi
16 Rakata Prime
Notas iniciais
Rakata Prime foi uma completa surpresa para Rey: esperara muitas coisas, mas não um planeta tão... Vivo! Não sabia ao certo o que esperara, mas talvez algo parecido com a primeira visão que tivera, ao tocar o sabre de luz de Anakin Skywalker pela primeira vez: um lugar cinzento e coberto de cinzas e sombras, desprovido de vida. Nem de longe a descrição do planeta à sua frente. Rakata Prime era o lugar mais ambíguo e confuso que já sentira: emanava uma Força poderosa e radiante, como a maioria dos planetas, porém esta oscilava tanto quanto um gerador de plasma alternado: estável em alguns pontos, potente em outros... Obscura em vastas regiões, porém não menos viva e intensa por isso. Mas havia pontos onde havia... Nada. Ou melhor, algo que se assemelhava a um buraco negro, não irradiando, mas contraindo-se e fechando-se de modo intenso, a ponto de nada escapar daquelas delimitações. E tudo isso ela pudera sentir antes mesmo de pousar os olhos em seu destino.
— Zonas mortas – a voz de Brenwen chegou a Rey, arrancando-a de seus pensamentos; a Jedi ergueu os olhos, confusa, e a padawan repetiu – o que você sentiu. Esses vazios de onde nada escapa. Ali não há vida, nem mesmo adaptada ao Lado Sombrio. São pontos em que a Sombra cobriu tudo, nada resistiu.
— Estava tão óbvio assim em que eu pensava? – sorriu Rey.
— É difícil ler seus pensamentos, Rey – disse a moça, impecavelmente vestida em trajes cinza-claros e brancos, com o símbolo do serviço de diplomacia no ombro – mas suas emoções... Você é um livro aberto.
— Ou você é uma leitora perspicaz – rebateu a outra, com um sorriso para a mais moça, que o devolveu timidamente.
— Desculpe-me por meu comportamento, ontem. Não lidei bem com a frustração.
— Eu entendo, Brenwen; sei como é frustrante a sensação de ter falhado, mas... Fico preocupada que cobre tanto de si mesma... Que sinta essa necessidade de competir com os outros, mas acredito que você vai se encontrar. E não vou desistir de você.
— Obrigada – sorriu a moça de pele morena e cabelos dourados. Abraçando o próprio corpo, respirou fundo – nunca me acostumo a vir para cá. Como você me disse, existe luz até mesmo nos lugares mais sombrios, desde que saibamos como enxergar, mas... Aqui, tudo parece encoberto por uma sombra.
— Não é tão ruim quanto pensei. – respondeu Rey – a maior parte deste mundo não está coberta por trevas.
— Não, mas Snoke sempre garantiu que ficássemos em regiões que estivessem. Para se fortalecer, eu imagino.
— Tudo está diferente, Bren. – a mão da Jedi buscou confortadoramente a da padawan – encontraremos um modo de fazer as coisas do jeito certo. De fazer tudo dar certo.
— eu queria ter metade de sua fé e esperança, isso é fato. – após alguns momentos silenciosos, durante os quais as duas humanas permaneceram observando o planeta do qual se aproximavam, a mais jovem concluiu – melhor seguir para a ponte, Primeira Dama. A hierarquia sempre é obedecida no desembarque, e você deve estar ao lado de seu esposo.
— Eu sei. – Rey segurou a outra pelo pulso, impedindo-a de se afastar – os Cavaleiros de Ren seguem junto do Imperador. Você e Asala seguem comigo.
— Não somos graduadas – disse a garota, surpresa.
— Nem eu. Mas seguimos a luz juntas, e eu quero deixar claro a cada um em Rakata Prime que encostar em uma de vocês é o mesmo que me ter como inimiga.
— Está começando a falar como Lorde Ren, mestra – riu a voz de Asala, juntando-se às outras; a menina usava trajes de seu mundo: uma blusa justa e curta com gola V, em tons de ferrugem e castanho, calças marrons, túnica vermelho-escura por cima, amarrada com um fio dourado, e botas do mesmo tom das calças, com faixas cor de areia enroladas nas canelas. Seu sabre de luz estava no cinto, e um adorno metálico pousava na base de seus montrais, como pétalas de flor, prendendo-se embaixo do lekku das costas. O símbolo da Ordem Jedi fora bordado por ela mesma no peito da túnica, em dourado. – Vai partir ao meio quem nos machucar?
— Não. – riu Rey, divertindo-se ao perceber que soara um pouco parecida com Ben – Prefiro resolver tudo com diplomacia, mas se for preciso – ela se abaixou para ficar com os olhos no nível dos da menina – impedirei qualquer um que as queira ferir, antes que tenha a chance de fazer isso. E se tiver de usar meu bastão, usarei, mas vocês estarão seguras.
A criança sorriu e encarou sua mestra: ela usava o traje Jedi completo, desde a túnica inferior até as calças e botas, tudo em matizes claros de cinza, a túnica superior e a estola cruzada no peito do mais puro tom branco, faixas enroladas dos punhos até acima dos cotovelos, e dos tornozelos até abaixo dos joelhos. O símbolo da Ordem Jedi estava estampado em seu ombro num azul-claro; seu bastão desativado estava dobrado ao meio, na forma de duas empunhaduras de sabre, e preso à cintura da mulher. Faltava-lhe apenas o manto castanho, o qual a moça ainda não se considerava merecedora de usar.
— Vamos ficar juntas, não é? – perguntou a criança. Rey sentiu o leve medo na voz dela, mas a pequena disfarçou com um sorriso atrevido – afinal, alguém tem que tomar conta de você, já que nunca esteve aqui. Sem falar que, até onde sabemos, as encrencas parecem segui-la, mestra.
— Hm, desse jeito vou roubar o apelido de sua avó para usá-lo em você, Abusada neta. – aquilo fez a pequena rir, e Rey se sentiu um pouco melhor ao ver o medo dela se aliviar. Levantou-se e falou com ambas as padawans – fiquemos juntas. Ficaremos bem.
— Juntas – concordaram as mais jovens, cada uma entrelaçando os dedos a uma das mãos da mestra. Estavam tensas e ansiosas, mas não deixariam que isso as derrubasse; enfrentariam como haviam dito: juntas. E juntas seguiram para a ponte de comando, onde o Líder Supremo e seus Cavaleiros de Ren já estavam reunidos.
Olhares surpresos e/ou hostis pousaram sobre o trio, sendo sumariamente ignorados pela humana mais velha. Tomando a dianteira, esta caminhou até seu esposo, o qual se paramentara com os próprios trajes oficiais; com gestos frios e formais, ela curvou a cabeça e saudou:
— Imperador Kylo Ren.
— Minha rainha – ele lhe segurou a mão e levou os dedos da esposa aos lábios, de um modo tão frio que o formigamento nos dedos dela bem poderia ser por congelamento! Seus olhares não se encontraram por mais do que uma fração de segundo, após a qual Kylo Ren se afastou e fixou os olhos no planeta adiante; os oficiais e Cavaleiros encontravam-se em seus respectivos lugares quando ordenou – preparar para o pouso, oficiais. Estamos em casa.
*
O cheiro levemente ferruginoso da cidade-santuário invadiu as narinas de Kylo Ren como a memória de um tempo muito distante; ele estivera ali por muitas vezes, e ainda assim era como se agora pusesse os pés pela primeira vez no planeta. Tudo estava igual: as construções elevadas e pinaculares em materiais ricos em ferro – as lendas diziam que a cidade fora pintada com o respingar do sangue de incontáveis sacrifícios, mas a verdade menos fantástica era que os metais e minérios usados nas edificações apenas se tornavam vermelhos pela exposição ao oxigênio, resultando nos laivos rubros sobre as cores mais claras como cinza, azul, marfim... – os domos das praças de palmeiras, os túneis de transparesteel... O movimento de vai e vem da população, hoje reunida para receber o novo Líder Supremo... E ainda assim, tudo parecia mudado. Ele não era um Cavaleiro de Ren postado atrás de um Líder, um garoto assustado e perdido, um jovem torturado retornando de mais uma missão para seu impiedoso e insaciável mentor... Ele era Kylo Ren, Imperador, Líder Supremo da Primeira Ordem, e aquela multidão estava reunida unicamente para vê-lo, saudá-lo e reverenciá-lo.
Um lado seu saboreava a sensação de poder e invencibilidade enquanto subia no podium circular, com Rey caminhando ao seu lado, recusando-se a ser vista como imperatriz; o restante do cortejo seguia a pé alguns metros atrás, a guarda preparada para defender o imperador e sua dama, todo o aparato outrora dirigido a Snoke agora servindo ao novo Líder Supremo... Por que não se satisfazia com aquilo? Em vez disso, sentia como se aquele poder consistisse num terrível peso em seus ombros, em suas costas, ameaçando esmaga-lo a cada respiração. Sua expressão podia mentir para todos – e não estava fingindo ao agir como se não se importasse com qualquer um dos observadores, pois fato era que não o fazia – mas sentia-se, na verdade, oprimido. Como se suportasse uma carga pela qual jamais pedira, com um alvo pintado em suas costas. Imaginava se não estaria se tornando paranoico, mas a pouca confiança que tinha em qualquer pessoa desaparecera. Pelo menos até que, num gesto formal, ofereceu o braço a Rey e sentiu a mão dela pousar sobre a sua enquanto o podium começava a deslizar, flutuando a apenas alguns centímetros do chão, através da grande avenida branca que levava à Fortaleza Vermelha... Ainda restava uma pessoa em quem confiava, ao menos. Entretanto, até quando poderia se manter daquele modo?! Por pior que houvesse sido, Snoke sempre lhe dissera o que fazer, e ver-se subitamente senhor de um vasto império o atordoava... Tinha se saído bem até agora, mas e depois?
Tais eram os pensamentos na mente do Lorde Sombrio enquanto o cortejo avançava em ritmo lento, ladeado pela guarda pessoal do novo senhor. Os Cavaleiros de Ren não mais se disfarçavam, ostentando seus sabres de luz nos cintos por sobre as vestes negras, e era sabido que um atentado ali seria virtualmente impossível. A área fora revistada por batedores pelo menos uma dúzia de vezes, e todos sabiam muito bem o quão capaz era não apenas a guarda pessoal – agora renovada – mas os oito Cavaleiros de Ren; o fato de haver uma Jedi com suas padawans aumentava a tensão e a certeza de que um ataque não resultaria em mais do que a morte dos responsáveis: a segurança era absoluta.
Ao lado do esposo, Rey tentava seguir a orientação de Eilenia e não demonstrar emoções: olhava para frente, para o forte da cor das areias de uma praia – indo desde o branco até cinza-azulado e marfim — em cujos patamares cresciam jardins mais verdejantes do que pudera imaginar; não entendera o nome de Fortaleza Vermelha até ver mais cedo os raios de sol da manhã incidirem diretamente sobre o conjunto de materiais, os quais subitamente brilharam como sangue. Agora, porém, o ângulo dos raios luminosos era diferente, e havia aquela desagradável névoa seca pairando no ar e obscurecendo a luz, permitindo-se ver a cor verdadeira da construção. O volume massivo assomava-se sobre a cidade como um zigurate, piramidal, dominando todo o entorno com sua presença; os portões abertos eram tão intimidadores quanto a enorme pirâmide escalonada – cuja altura devia ser próxima a 800 metros, ou mesmo superior – e a Força dali oriunda mostrava-se inegavelmente hostil. A Jedi não demonstrou hesitação, mas estendeu sua percepção em direção às padawans, fazendo-as sentir sua presença mais nitidamente, surpresa em vê-las tão calmas. Então repreendeu a si mesma: é claro que estariam calmas. Já haviam passado por isso antes. Ela era a única estranha ali. A única que experimentava aquele horrível desconforto, desejando poder sumir na multidão em ambos os lados da avenida; se havia algo com o qual nunca sonhara, que nunca desejara para si, era aquele tipo de poder. Não se comprazia nem um pouco, e sentia-se antes intimidada e sufocada do que realmente poderosa ou segura de si. Aquilo lhe parecia errado de mais modos do que podia dizer, em mais níveis do que seria possível explicar...
Kylo percebia nitidamente a relutância e desconforto da esposa, e isso o confundia: ela não compreendia o que tudo aquilo significava? Serem os senhores da galáxia significava poder moldar aquele império de acordo com sua vontade! Não queria ela a paz? E como poderia realizar seus objetivos de modo mais eficaz? Haviam chegado a um acordo enquanto na Supremacy, mas agora a situação parecia diferente... A confirmação daquele poder a ele conferido – o qual poderia se estender a ela, se não fosse tão teimosa – a assustava (e a ele também, ainda que por motivos diversos), e trazia dúvidas ao coração da Jedi sobre os próximos atos de Kyo Ren. Isso o irritou de vários modos, mas dois motivos se mostraram mais nítidos: o primeiro era que Rey receava a influência do Lado Sombrio sobre o imperador, e o modo como esse receio recordava aquilo que todos haviam nutrido por sua pessoa ao longo da vida inflamava sua raiva; o segundo falava antes a seu ego do que a seus sentimentos, e o tocava devido às dúvidas dela fazerem eco às dele. Precisava estabilizar seu império. Mas e depois? O que fazer com aquele poder? O que QUERIA fazer? A verdade é que não parara para pensar no assunto, até agora, e não queria ser confrontado por essa pergunta, ao menos por enquanto. Assim sendo, afastou essas questões de sua mente e sustentou o olhar pétreo enquanto era levado até o grande portão no topo das escadas.
O cortejo se abriu enquanto se virava para a multidão, afastando-se respeitosamente, do modo como fora feito tantas vezes para o Líder Supremo anterior; aguardavam pelas palavras do novo senhor, a expectativa pairando no ar. O que diria agora seria mais significativo do que qualquer outra coisa, dando aos ouvintes uma percepção acerca do novo governante, dos tempos que viriam sob seu comando... Snoke costumava fazer longos discursos e demonstrações de poder, deliciado com a plateia. Nem um pouco similar a Kylo: ele não era um demagogo, um político ou alguém que gostasse de adulações e exibições; era um soldado, um homem de ações diretas e poucas palavras; sua boca pareceu momentaneamente seca demais para falar o que fosse, mas algo inesperado ocorreu: o leve roçar dos dedos de Rey nos seus, entrelaçando suas mãos discretamente numa mensagem clara de que estava ao seu lado.
“Não tenha medo.” Ele ouviu a voz feminina em sua mente “eu também sinto.”
Aquele toque tão simples acalmou as dúvidas de Kylo: fora por ela e com ela que havia destruído o antigo Líder Supremo. Por Rey, e com Rey, aquela história começara, e do mesmo modo continuariam. Encontrariam a resposta para suas dúvidas sobre o amanhã, e o fariam juntos. A ideia perfeita do que dizer, então, lhe ocorreu: o que Darth Vader teria dito, se houvesse vivido para desfrutar da própria vitória? A ideia o encorajou e satisfez, fazendo-o inspirar profundamente e, conectando-se a todo o poder que aflorava em si, nutrido pela Força obscura daquele planeta, começou:
— Um novo dia raia para a Primeira Ordem. Por anos fomos uma facção pequena, estendendo lentamente seu poder e influência pela galáxia, fortalecendo-se para um tempo futuro de glória e supremacia. Este dia chegou – cada palavra era cuidadosamente pesada e medida: não gostar de perder tempo com palavras não significava que não soubesse o efeito devastador inerente a elas – Regozijem-se: começa hoje uma nova era, quando este governo se torna o Novo Império Galáctico. As derrotas do passado serão eclipsadas, e mesmo o glorioso poderio de Darth Sidious e Vader será eclipsado pelos tempos de ordem e crescimento vindouros. Eu os guiarei através destes novos tempos, e afastarei todas as memórias dos dias decadentes do vergonhoso passado desta galáxia. – os droides transmissores garantiam que a voz do novo imperador chegasse inalterada a todos os ouvintes, seu tom firme e seguro transmitindo a mais pura certeza no que dizia. Seguiu-se um momento de silêncio tenso, no qual todos esperaram para se certificar de o Imperador ter finalizado, antes que Tanar Kahso erguesse sua voz em saudação:
— Vida longa ao Novo Império! Vida longa a Lorde Ren!
A saudação ecoou por toda a multidão, ensurdecedora; os olhos do homem se encheram de satisfação, mas a sensação de triunfo durou apenas um segundo, antes de perceber que Rey mantinha os lábios firmemente trancados numa linha dura, a expressão indecifrável enquanto fitava algum ponto no horizonte distante com os mais puros sentimentos de hostilidade em relação a tudo aquilo. Bom, se a Jedi se recusava a partilhar daquele instante, a decisão cabia unicamente a ela; este era o SEU triunfo, SUA vitória. Não a conquistara sozinho, sabia muito bem disso, mas se a esposa se recusava a reivindicar a parte de realização que lhe cabia, Kylo não insistiria, e tampouco se deixaria influenciar – sabia muito bem o quão inútil era tentar demover a mulher, e não se importava com isso, agora. Bastava-lhe saber que ela estava ali, e o breve toque de mãos anterior fora tudo o que precisava para saber que ao seu lado ela continuaria, mesmo que posteriormente suas diferenças fossem resolvidas em particular.
Quando a ovação enfim se abrandou, o Imperador se voltou para o interior da fortaleza com um movimento rígido e imponente, ainda que quase marcial, ordenando então à Conselheira Puuan, tratando-a por seu nome de Cavaleira:
— Ania Ren, ordene a suspensão do toque de recolher, hoje: permita o início dos festejos. – aquela era, definitivamente, a parte que mais odiava em todo o protocolo das chegadas triunfais de Snoke: as celebrações populares, às quais o velho Líder Supremo assistia de suas tribunas protegidas, ou do alto do zigurate, sua imagem projetada em holografias para todos os presentes. Não seria assim com Kylo Ren, contudo. – Não confirme minha presença, Conselheira. Isto é uma mobilização oficial, não um espetáculo; amanhã bem cedo começaremos a trabalhar.
— Sim, Lorde Ren. – a Umbarana nem mesmo pensou em discutir; o costume era que o governante assistisse a todos os folguedos em sua homenagem, mas o humano não toleraria questionamentos. De fato, nem mesmo a Cavaleira já vira seu mestre tão seguro e inflexível quanto naquele momento, o suficiente para fazê-la sentir medo. Snoke era poderoso, de fato, mas Kylo Ren não precisava de demonstrações para mostrar sua força, naquele dia. Era quase possível ver a aura de poder que o circundava, mais intensa do que nunca... E até mesmo um cego poderia ver o indubitável: aparentemente estagnado em seu treinamento como aprendiz, após ser derrotado pela Jedi, o novo Líder Supremo sofrera uma radical mudança e tornava-se cada dia mais poderoso, desde a queda do antigo mestre; a Umbarana não precisava entrar na mente de ninguém para saber duas coisas: a primeira, que a relutante Jedi era de algum modo responsável pelo fato, e a segunda... Quando o novo Imperador alcançasse todo o controle sobre a Força dentro de si, não haveria quem lhe pudesse fazer frente. Enquanto acompanhava a entrada dos oficiais, seguindo passo a passo os movimentos por ela já decorados, a Cavaleira tentava imaginar o que esperar para o futuro.
*
O dia enfim terminara – e quão longo parecera! No alto da Fortaleza Vermelha, debruçada no peitoril de um dos terraços ajardinados dos últimos pavimentos, Rey contemplava a cidade encravada entre as praias ao norte e a densa floresta, ao sul, pensando sobre tudo o que acontecera: o desembarque, o percurso do hangar ao forte, a sensação de estar no único lugar ao qual definitivamente não pertencia, arrastada por uma onda forte demais para se lutar contra. Lembrou-se de sentir a insegurança de Kylo, similar à sua em natureza, mas oposta quanto à origem, e de como entrelaçara os dedos ao dele para acalmar a ambos. Recordou-se do choque ao ser atendida e acompanhada por duas escravas Twi’lek – fora tolice pensar que não se defrontaria com algo assim – e da indignação que aquilo lhe despertara. Se não entrara em furiosa argumentação com o “imperador”, fora apenas porque ambos pareciam igualmente tensos, desconfortáveis e perdidos com toda aquela movimentação, mas o assunto viria à tona, e ela tinha MUITO a dizer a respeito!
Ao lado da Jedi, silenciosa por mais tempo do que lhe era habitual, Asala se sentava calmamente entre alguns arbustos, girando a empunhadura de seu sabre de luz entre os dedos; Brenwen estava apenas um pouco mais adiante, as costas contra o tronco de uma árvore baixa e os olhos fechados, de longe a menos tensa e desconfortável das três. Finalmente, encarou sua mentora e se levantou:
— Ainda perturbada, Rey?
— Foram coisas demais para um dia só. – a mais velha suspirou, expandindo sua percepção para além dos muros onde o Lado Sombrio fizera sua morada: embora o planeta possuísse lugares profundamente obscuros, santuários para o caos, a morte e as trevas, a Jedi podia sentir também um fluxo neutro de energia, a Força em sua forma mais bruta e selvagem; a luz fora quase totalmente banida, mas havia um limite para o que as trevas podiam corromper sem consumirem a si mesmas. Embora experimentar a ligação a esta energia não fosse o mesmo que nutrir seu espírito da luz, aquele poder selvagem parecia-se muito com o que, sem nunca ter percebido, experimentava em Jakku. – pelo menos o planeta não é tão ruim quanto pensei. Seria pior estar cercada de trevas, depois de todo esse circo desagradável.
— Não foi um circo, Rey, apenas a realocação de alguns milhões de pessoas, particularmente agitada pela presença de uma Jedi. – Rey revirou os olhos, lembrada dos sussurros e boatos que não tardaram a se espalhar sobre a esposa do imperador. – fique contente por não ter presenciado os retornos de Snoke. AQUILO, sim, era um circo. – a própria Brenwen parecia desagradada – dias de festejos, homenagens, pompa... Era enlouquecedor. E, como “princesas de planetas aliados”, Asie e eu tínhamos de estar nas tribunas... Às vezes na mesma que aquele monstro. – ela bufou ante as memórias desagradáveis – era o inferno. Fico feliz por Lorde Ren ser uma pessoa mais sensata e um líder mais adequado.
Rey franziu o cenho: para alguém definir Ben como “pessoa mais sensata”, os parâmetros de comparação eram, no mínimo, questionáveis. Mas o que sabia ela sobre Snoke, além da monstruosidade daquele que fora seu algoz, e de seu esposo? Sabia um pouco sobre as estratégias que adotara para minar uma República fragilizada; experimentara na pele o poder que possuía com o Lado Sombrio, e via nas cicatrizes e pesadelos de Kylo o quão terrível fora, como mestre. Mas suas motivações reais? Quem era, e o que o movia? Isso era uma incógnita que pessoa alguma parecia sequer perto de saber. Se avaliasse unicamente as ações, sem ter em vista o panorama completo, diria que o outrora Líder Supremo era um agente do caos, uma criatura cujos objetivos envolviam causar o máximo de dor e devastação possível, com finalidade incompreensível.
— Vai dizer algo, ou apenas ficar o resto da tarde com essa expressão de quem engoliu algo azedo? – perguntou Brenwen, estranhando o silêncio da mestra.
— Não sei o que dizer. – a humana deu de ombros – e menos ainda o que fazer. – ela virou de costas para o peitoril e se sentou na grama; Asala engatinhou até ela e se sentou de pernas cruzadas defronte à humana:
— Hoje não é um bom dia para planos, mestra. Lorde Ren só terá condições de tomar qualquer decisão amanhã, quando toda a transferência de pessoal, maquinário e recursos houver se completado. E você só poderá tomar alguma decisão se souber o que ele vai fazer, não é?
Rey lançou um sorriso grato para a criança, deixando escapar um breve riso a responder:
— Hm, vocês me ensinam tanto ou mais do que eu a vocês, Asie. – levantou-se outra vez e fitou o horizonte onde o sol declinava – já vai anoitecer. É melhor vocês voltarem para dentro.
— E você? – indagou Bren – não deveria estar lá dentro, com o imperador, fazendo alguma coisa?
— Não quando ele convocou seus Cavaleiros de Ren.
— Festinha no clube das trevas? Eles vão canibalizar alguém? – a adolescente provocou, o que arrancou risos da mais velha, a despeito da tensão, cansaço e preocupação:
— Eu realmente espero que não, Brenwen. – a Jedi respirou fundo, ainda sorrindo levemente – tem mais a ver com a reestruturação do Pequeno Conselho, mas você pode imaginar o quanto um seguidor da luz seria bem-vindo.
— Bom, você acionar os sabres e cortar algumas cabeças certamente iria tornar este planeta menos monótono – era visível o esforço da mais moça para animar a outra humana; sabia bem o efeito depressivo de Rakata Prime sobre as pessoas, e queria ajudar de alguma forma. Sentiu suas tentativas surtirem efeito, e então assumiu tom sério – Não quer se juntar a nós, na ala de diplomacia?
— Obrigada, mas quero ficar um pouco mais aqui fora. Depois de dois meses ivendo na Supremacy, sinto-me um pouco enclausurada por toda aquela multidão. Consegue ser pior do que o entreposto de Niima.
— Se mudar de ideia, sabe onde nos encontrar. – terminou a adolescente, voltando-se para a Togruta – vamos, Asie.
— A alternativa de ficar aqui fora é válida para mim, também?
— Se quiser que Lena venha te buscar por um lekku por lhe causar problemas num dia de transferência, fique à vontade. – foi suficiente para a criança bufar e se juntar à mais velha – cuidado, Rey.
— Vocês também. E não deixem de fazer o treinamento noturno de meditação. – advertiu a Jedi, vendo as garotas se dirigirem para o elevador. Sozinha outra vez, certificou-se de não haver ninguém a observá-la e pegou o comunicador dado a ela por Leia; não faria uma chamada, mas enviar uma mensagem gravada parecia importante, por menos que tivesse a dizer – General Organa, Jedi Rey Solo se reportando – aguardou um segundo para organizar melhor as ideias – Estamos em terra, em algum lugar do sistema de Lothal; já deve ter ouvido boatos sobre o Novo Império, a esta altura, mas tudo o que sei seguramente é que os problemas internos concentram toda a atenção de Kylo Ren; vocês estão seguros, e não há ameaça de guerra. – pensou um pouco mais – eu nem sei por que estou contando isso, mas talvez goste de saber que construí meu primeiro sabre de luz... E as padawans parecem progredir bem. Não tenho muito a contar, a mobilização criou um caos horrível do qual me escondi, mas não desejava passar mais tempo sem lhe dar notícias. Continuo cumprindo minha parte do acordo, e espero que tudo esteja correndo bem com os Sistemas Independentes. E... – ela hesitou muito antes de terminar sua mensagem – Não perca as esperanças; na luz, na liberdade... Em Ben Solo. – não era conversa para uma transmissão gravada... Só diria mais do que aquilo sobre Ben quando pudesse fazê-lo olhando nos olhos de Leia – câmbio. Desligo.
Encerrou a mensagem, guardou o comunicador e apoiou a cabeça nos braços cruzados; os últimos raios solares brilharam no horizonte, ao passo que uma brisa fresca começou a soprar do mar; a cidade permanecia iluminada e ativa, e os sons de comemorações distantes chegava a ela. Cada vez mais sentia-se confusa pelas percepções que tinha do mundo: até BB-8 aparecer em sua vida, arrastando consigo o turbilhão de eventos posteriores, tudo sempre fora muito claro... Trabalhar, sobreviver, defender-se de agressores, ajudar aqueles a quem pudesse... Não pensava em conceitos de bem e mal, mas em termos do que era certo ou não, dentro de suas condições no limite da sobrevivência. Roubar um cadáver não era bom ou mau, mas um ato de sobrevivência. Roubar de outros catadores era mau. Roubar de Unkar era perigoso, mas chegava a ser justo. Matar alguém era ruim, mas não se defender era estupidez – o bastão metálico fora um recurso precioso, que permitia atender à necessidade de defesa sem roubar uma vida. Hoje, porém, tudo parecia muito mais confuso, com infinitas variáveis a mais... A Primeira Ordem – ou o Novo Império – era, por tudo o que aprendera, ruim. Oprimia pessoas, matava, cerceava a liberdade. Mantinha ESCRAVOS. Contudo, depois de estudar apenas um pouco de história, a República não fora diferente: as Guerras Clônicas haviam sido em nome da manutenção da ordem, ao menos em teoria, mas também se tratava de uma repressão a sistemas que desejavam um governo próprio. Poderia culpa-los por isso, ante a inépcia dos senadores da época? Os Jedi não haviam sido muito diferentes, lutando por aquele governo, deixando que seu compromisso para com a República se tornasse maior do que para com a liberdade. A Aliança Rebelde lutara contra um governo verdadeiramente tirânico e despótico, responsável por aniquilar bilhões, escravizar e destruir a vida de outros bilhões... Mas em suas ações combativas, também havia matado pessoas inocentes, que simplesmente viviam sob aquele comando. E finalmente, via uma cidade em constante lei marcial celebrar a ascensão de Kylo Ren como imperador.... Seu coração nunca estivera tão dividido! Por um lado comprometida com a Resistência, a liberdade e a luz. Por outro, descobrindo que a linha entre bem e mal era muito menos nítida do que jamais imaginara.
— Estou tão confusa – sussurrou para a escuridão, seus olhos fixos nas estrelas acima – preciso de orientação. Onde manter minha fidelidade, nessa galáxia tão complicada? O que é certo?
Como se numa resposta silenciosa às suas palavras, ouviu o elevador parar atrás de si e sentiu a nítida presença de Ben Solo. Não Kylo Ren, mas Ben Solo, o qual veio para seu lado e pousou a mão com firme delicadeza em seu ombro:
— Rey, está tudo bem? – ela endireitou o corpo e se voltou para o marido com um sorriso nos lábios; seu coração se acelerou levemente, e muito de seu ânimo retornara. Amor. Incompreensível, incontrolável, imprevisível, mas não menos real por causa disso. Era essa a resposta? Confiar no amor? Confiar em Ben Solo, e continuarem juntos aquilo que juntos haviam iniciado? Sentia que podia perfeitamente fazer isso, especialmente ao fitar o olhar negro sobre si, refletindo o mesmo alívio cansado em se afastar de toda a loucura nos pavimentos abaixo.
— Parece que sim. – respondeu – pelo menos, melhor do que você. Parece péssimo.
— Não foi um de meus melhores dias. – ele a beijou, e até mesmo nesse gesto seu cansaço estava claro: não era um dos impetuosos e famintos beijos que tomavam o fôlego da mulher até deixa-la ofegante, mas um gesto que buscava contato, proximidade... Ao seu modo, um beijo bem mais íntimo do que qualquer outro, pela carga emocional contida. Afastando-se dela, debruçou-se também no peitoril metálico – pousos são sempre uma tormenta desagradável.
Rey não respondeu; apenas ficou ali, debruçada junto a ele, seu ombro tocando o braço musculoso, ambos fitando o firmamento enquanto a noite caía. Afinal a Jedi se cansou de esperar que ele se manifestasse e pousou a cabeça no ombro do esposo:
— O que vamos fazer agora, Ben?
— Vamos? – ele se voltou com alguma surpresa – no cortejo, eu poderia jurar que você queria arrancar minha cabeça.
— Por elevar a Primeira Ordem à categoria de império? Sim, eu queria. Mas o nome é apenas um símbolo, uma ideologia que atrairá simpatizantes ou fará recear adversários... Isto já é um império, mesmo que não fosse chamado assim.
— Um Jedi iria querer minha cabeça em bandeja de prata por isso.
— Um Cavaleiro sombrio não se teria casado com uma seguidora da luz. – devolveu a Jedi, no mesmo tom, sustentando o olhar de Ben, nenhum dos dois aceitando ser o primeiro a desviar os olhos – talvez não sejamos o que esperavam de nós.
— É tão ruim assim? – perguntou ele, arqueando as sobrancelhas.
— Não sei. Diga-me você. – ops, péssima escolha de palavras! O modo como ele desviou os olhos apressadamente indicou que tocara numa ferida dolorida – não era o que eu queria dizer.
— E o que, exatamente, queria dizer? – havia alguma raiva na voz dele, e Rey não podia censurá-lo por isso.
— Por que está fazendo isso, Ben? O que está tentando provar? – ela sentia o medo dele, a incerteza quanto ao que fazia, as dúvidas acerca do amanhã, e não entendia por que se manter numa posição que claramente lhe causava enorme desconforto.
— Façamos um jogo – ele se empertigou – eu lhe faço uma pergunta e, se você responder com sinceridade, respondo a esta que me fez.
— Justo. – o que ele estava tramando para fugir de suas indagações? Que tipo de pergunta embaraçosa ou dolorosa pretendia lançar?
— Por que você está fazendo tudo isso, Rey? – golpe baixo! Ele sabia que ela não tinha resposta exata para tal questão! Filho-de-uma-mãe! Porém, se não respondesse, não ouviria a resposta à própria indagação, então... Quase cinco minutos se transcorreram antes que dissesse:
— Eu não sei. Tudo aconteceu muito rápido... No começo, pensei que ia ajudar algumas pessoas e voltar para minha vida em Jakku, mas então... Tantas coisas aconteceram, e de repente eu estava atrás de respostas para questões que nem sabia possuir. – ela encarou as próprias mãos – continuei porque queria saber quem eu era, e qual meu papel em tudo isso. Agora, tudo o que quero é fazer a coisa certa. E não tenho total certeza do que é o certo ou não. – o escrutínio a que Ben a submetia parecia revirar os cantos de sua alma, então ela tornou a fugir, olhos fixos nas estrelas – e você?
Outro longo tempo de silêncio, durante o qual o Cavaleiro praguejava consigo mesmo; não esperara que Rey fosse ser tão sincera e espontânea! Esperara que respondesse apenas parcialmente, ou que tentasse mentir para si mesma com algum falso pretexto, mas a mulher fora direta, clara e translúcida como um cristal transparente, sem lhe deixar qualquer margem para fugir à resposta. É claro, podia simplesmente recusar-se a responder, mas isso quebraria sua palavra e, com ela, o trato não-declarado de serem honestos um com o outro. Finalmente, sem saída, respondeu com relutância:
— Eu nunca sonhei com isso, Rey. Sonhei com o poder, sim, mas na Força, como Cavaleiro. Quando matei Snoke, porém... As coisas mudaram. Eu alcancei o que havia almejado por anos. – ele parou, incapaz de se expor mais.
— Você conseguiu se igualar a Darth Vader. – foi uma surpresa para o homem não ver nenhuma censura ou recriminação na voz dela.
— Sim. E agora posso continuar de onde ele parou. Do ponto ao qual não sobreviveu.
Rey tornou a contemplar o horizonte distante, medindo bem as próximas palavras antes de proferi-las:
— Você e eu somos parecidos, Ben. Sozinhos. Sem lar. Buscando por qualquer resposta, aceitando qualquer coisa que pudesse nos dizer quem somos e o que significa tudo o que nos aconteceu. – ela tangenciava uma zona muito perigosa de exposição, mas precisava confiar nele para que pudessem ir além e fazer seu laço sobreviver ao hostil ambiente de política e poder que os cercava; a Força fluía de um para outro como uma ponte de fios invisíveis, incentivando a aproximação – não faz muito tempo, disse-me para enterrar o passado, matá-lo se fosse preciso, a fim de cumprir meu destino. – Ela o encarou – e tinha razão. Não importa de onde eu vim, ou o que me aconteceu: o que eu sou é muito mais do que isso. Ainda não achei a resposta, mas pelo menos onde ela não está, e um desses lugares com certeza é o passado. Quem meus pais foram, tenham sido sucateiros bêbados ou membros da realeza, não define quem sou, ou serei. – a mão pequena pousou sobre a do Cavaleiro numa carícia gentil – mas eu não sou a única procurando respostas nos lugares errados. Talvez devesse ouvir seu próprio conselho, e parar de deixar que suas origens o definam. Você é muito mais do que o neto de Darth Vader, ou o filho de Han Solo e Leia Organa. – ele puxou a mão que a moça acariciava, fazendo-a repreender a si mesma, pronta para uma nova discussão, mas não foi o que ocorreu. Em vez disso, ele apenas a contemplou fixamente... Foi impossível para a Jedi reprimir um breve sorriso e sussurrar – não tenha medo. Eu sinto, também.
Por um instante, pareceu que o imperador iria toma-la nos braços e beijá-la até se esquecerem do mundo e de tudo o que não fossem eles dois; a tensão era palpável, mas um homem que passou a vida ocultando a si mesmo do mundo não se livra da própria máscara de uma só vez. Kylo Ren retornou na forma de um empertigar-se altivo e do brusco distanciamento, para frustração da garota. Por que ele tinha de ser tão... DAQUELE JEITO?! Por que tornar tudo mais difícil para ambos?!
— Ben, eu quero muito ajudar, mas não posso fazer nada se você não permitir. – declarou – por favor, deixe-me ajudar. Deixe-me... Deixe-me entrar. Não me tranque para fora de sua vida como se fosse apenas mais um estranho. Como se eu não o conhecesse.
— Você não me conhece, Rey. – respondeu o imperador, e havia tristeza em seus olhos ao dizer isso – não por completo e, se conhecer, tudo será diferente.
— Ou talvez não – ela pousou as mãos no rosto do esposo – Confie em mim, Ben. Confie no que existe entre nós! Eu não tenho medo de você!
Ele segurou os pulsos da Jedi, num primeiro momento tencionando afastá-la, antes de mudar de ideia e tomar seus lábios num beijo profundo, fazendo as mãos pequenas se cruzarem atrás de sua nuca. Não queria falar, não PODIA falar, e esperava que ela compreendesse isso; não era bom com palavras, então a Força e seus sentimentos teriam de falar por ele. Quando enfim se afastaram, respirações entrecortadas, testas pousadas uma contra a outra, sussurrou:
— Não me peça mais do que posso lhe dar... Ou do que você consegue receber. Eu lhe prometi minha honestidade, e isso sempre lhe darei; mas algumas coisas são apenas minhas, e assim continuarão sendo. – Ben a soltou e deu um passo atrás – a transferência continuará por toda a noite, mas não somos necessários no restante do processo. Melhor descansarmos: o dever começará muito cedo, amanhã.
Frustrada, a moça apenas assentiu e o seguiu; é claro que conseguira obter alguma coisa dele, mas sabia mal ter arranhado a superfície do oceano profundo na alma do esposo. Que estranho e contraditório: ela conhecia os sentimentos de Ben melhor do que qualquer um. Partilhava de boa parte deles e, ainda assim, as motivações de tais sentimentos eram profundas demais para se revelarem facilmente. Parecia um tanto injusto, uma vez que ela mesma não tinha muito a ser decifrado em sua história, ou ao menos assim pensava, mas Jakku lhe ensinara duas coisas melhor do que quaisquer outras: reconhecer/consertar coisas quebradas – como a alma e coração de Ben Solo -, e esperar. Sim, podia esperar. E enquanto isso, lidaria com o que fosse surgindo pelo caminho, aprendendo as lições dos Jedi, fortalecendo seu espírito e ganhando a confiança do imperador. Um dia ele confiaria o bastante para “deixa-la entrar”. Um dia...
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