Rise of Jedi
13 Em Dantroix
Notas iniciais

Sentadas ao redor da bem-vinda fogueira que, como Asala dissera, mantinha-as secas e aquecidas no frio e úmido vento noturno, as duas humanas e a Togruta dividiam uma refeição simples de pão e frutas reidratadas, sentadas nos respectivos sacos de dormir.
— E então, Rey? – começou Brenwen, com um sorriso satisfeito, maravilhada por estar ao ar livre novamente, após anos de verdadeiro confinamento – você é a mais velha, e a mestra. É mais do que justo que seja a primeira a nos contar sua história. Quer dizer, graças a Asala, já sabemos tudo sobre como você fugiu de Jakku e se juntou à Resistência, mas e antes disso?
— Não tenho muito que falar sobre antes – explicou Rey, de boca cheia. Para quem nunca tivera comida suficiente, cada refeição parecia um banquete saboroso; terminou de engolir o que estava em sua boca e prosseguiu – quer dizer, eu sei que alguém, provavelmente meus pais, deixou-me em Jakku quando eu tinha cinco anos. Aprendi a catar peças nas naves perdidas no deserto, abandonadas depois da Batalha de Jakku, e era assim que me mantinha. Foi o que eu fiz, até BB-8 aparecer em minha vida, e o resto vocês conhecem. Base Starkiller, duelo com Kylo Ren, viagem até Luke Skywalker... E retorno para a Supremacy.
— Nunca tinha manifestado a Força, antes de ser capturada? – é claro que Brenwen soubera, através dos boatos que corriam, como uma simples menina do deserto demonstrara-se forte o bastante para controlar a mente de um stormtrooper e obriga-lo a libertá-la.
Rey precisou de longos momentos ponderando o assinto, antes de enfim responder:
— na verdade, eu creio que sim. Não sabia o que era, então, mas sempre houve... Alguma coisa. Quando eu estava com fome demais, há dias sem achar alguma coisa que valesse à pena, de repente sabia aonde ir, e encontrava algo que me dava alimento para uma semana ou mais. Quando não conseguia água o bastante no entreposto, sabia onde cavar para obter um pouco mais... Sentia quando devia evitar algum lugar, e quase sempre acertava, pois geralmente alguma “corporação” estava no caminho. Então, sim... Acho que sempre tive a Força, mesmo sem perceber. Mas despertar, de fato... Apenas quando me vi totalmente sem saída. – ela retornou mentalmente àquele dia – eu deveria estar desesperada: Kylo Ren havia me torturado, tentado entrar em minha mente e, por algum motivo, eu não apenas lhe resistira, mas invertera a situação. Achava que ia morrer, mas então, em vez de entrar em pânico, eu simplesmente soube o que fazer. Como manipular o stormtrooper. Como manusear o sabre de luz, quando precisei lutar. – ela meneou a cabeça para se livrar daquelas memórias – foi bastante confuso, até que Mestre Skywalker me ajudasse compreender o que acontecia comigo.
— Como ele fez isso? – os olhos escuros de Asala brilhavam.
— Ele me fez sentir. – respondeu a Jedi – como faremos aqui. Sentir a Força, e o modo como age, como É tudo o que existe, como move tudo o que existe... E como há um firme equilíbrio que dá propósito e perpetua a existência. – ela espetou outro pãozinho num graveto e começou a tostá-lo na fogueira – foi o que aconteceu. Foi de onde vim.
— Mas ainda se pergunta quem eram seus pais, e por que a abandonaram – às vezes a diplomacia de Brenwen desaparecia completamente, quando sentia as emoções alheias...
— É uma pergunta que me faço, com certeza. – os olhos castanhos estavam mergulhados nas chamas, contemplativos – mas já não me perturba tanto quanto antes. Quer dizer, não importa muito quem eles tenham sido: estou encontrando meu caminho. Gostaria de, um dia, poder entender o que os fez me deixar para trás, mas já aceitei a pior hipótese.
— Que pior hipótese? – insistiu a loira.
— Que eram sucateiros, e me venderam por alguns créditos ou porções. – falar em voz alta pareceu diminuir a dor que aquela ideia lhe trazia. Ela não sabia dizer se por uma intuição da Força ou apenas seu desejo pessoal, mas algo lhe dizia que essa história era apenas parcialmente certa. – de um modo ou de outro, se não tivessem feito isso, eu não estaria aqui, agora, com vocês, com Lena e os outros. – ela pensou também em Ben, mas os sentimentos entre ela e o esposo eram algo que não dizia respeito a mais ninguém — E querem saber mais? – ela sorriu para as duas – eu não trocaria isso por outra vida.
As palavras dela arrancaram enormes sorrisos de ambas as padawans, e enquanto pegava o pão já quente até demais, a Jedi perguntou:
— E vocês? De onde vieram, como descobriram a Força? Quais suas histórias? Também sou curiosa.
— Minha história não é muito interessante – respondeu Brenwen, sabendo que Asala tinha um passado mais difícil, de modo que a pequena tivesse mais algum tempo para se preparar – filha mais nova de uma das Casas Reais em Corellia, cresci cercada de mimos, tutores, professores, amas e luxos... – ela revirou os olhos, como se fosse tudo um aborrecimento – eu queria entrar para a política como Senadora, mas o cargo já seria de meu irmão... Então, entrei para o treinamento de serviço diplomático, aos doze anos. Foi na época em que Snoke começou as “negociações” com Corellia e, bom... Ele precisava de um refém, e eu era o membro descartável da família. Aquele cuja presença não faria muita falta. – Rey sentiu mais do que viu o tremor no corpo de Brenwen, e a lágrima que tentou escorrer – depois de algumas... Perguntas... Snoke ficou satisfeito, e firmou um acordo sigiloso com os Corellianos. Já eram centristas, não foi uma grande mudança, e causar o caos na Nova República... Bem, já havia caos suficiente. Precisaram apenas fechar os olhos e tentar boicotar os que ainda tinham coragem de lutar e fazer algo para tentar remediar a situação. – ela deu um sorriso amargo – como se isso fosse possível. Então, há quase um ano ele explodiu Hosnian Prime, junto com metade de minha família ali presente, para um evento patético do Senado. Não posso dizer que lamentei terrivelmente o fato, mas... Ainda eram meus parentes, por mais corruptos que se houvessem tornado. – espantou a Jedi o modo gélido como a menina falava da morte de seus parentes, mas podia compreender, de certa forma... Não devia nutrir muito amor por quem a entregara para Snoke... Tendo experimentado a crueldade da criatura em sua própria pele, imaginava o quão traumático não fora para uma criança de doze anos. Num gesto de reconforto, segurou a mão de Brenwen:
— Sinto muito, Bren. Mas agora não está mais sozinha, e nós não vamos abandoná-la. EU não vou abandoná-la.
— Nem eu – disse Asala, aninhando-se contra a menina que se tornara sua família mais próxima.
— Eu sei. – ela abraçou ambas e beijou a cabeça da Togruta – consegui uma família muito melhor, onde menos esperava. Para estar completa, falta apenas Eilenia com um datapod, ditando nossas tarefas. – as três riram alto, e Brenwen provocou a Jedi para desconversar, ao vê-la colocar mais uma fruta desidratada na boca – Rey, como é que cabe tanta coisa no seu estômago? Mais ainda: como consegue continuar magra?!
— Com licença, eu estou compensando quatorze anos de atraso. – riu a moça, terminando enfim a refeição – Lena também ri, mas acha que um pouco mais de corpo me faria bem, SE eu conseguir engordar.
— Hm, garanto que o Líder Supremo também aprovaria muito ver um pouco mais de carne nesses ossos. – a cotovelada de Rey a fez cair na gargalhada – pela sua saúde, oras!
— Não se faça de desentendida, Brenwen Lisin! – Rey tinha o rosto vermelho até a raiz dos cabelos, e Asala riu baixinho. Não entendera exatamente de que modo Brenwen provocara a mestra, mas sabia que fora algo pessoal; esta era Bren, de língua afiada e humor rápido, sempre pronta para algum comentário que pusesse os outros em xeque.
— E você, Asie? – perguntou Rey, depois de dar mais um peteleco na orelha de Brenwen, que gostava de provoca-la do modo como uma irmã caçula faria – quer contar sua história? – ela viu o olhar da menina, e completou – não precisa, se não quiser.
— Não, eu quero. – a Togruta deu um sorriso um pouco triste, inesperado em alguém de sua idade – como Bren disse, achamos uma nova família, mesmo na Supremacy. Eu confio em você, Mestra Rey, e quero contar.
— Ouvirei cada palavra com atenção, pequena – prometeu a Jedi, aproximando-se da criança. A duas humanas agora estavam sentadas de cada lado da menina, que começou a contar:
— Minha raça é de caçadores. Mesmo nas cidades, como a que eu nasci, mantemos as tradições, pelo menos em sua maioria: os mais fortes e vigorosos têm maior prestígio, e em muitos lugares, a passagem para a vida adulta é marcada por uma caçada perigosa, com instrumentos simples... Nosso planeta é quase todo em tons de vermelho, laranja, castanho e verde, e a pele da maioria dos nossos se mistura nesses padrões; é o que permite aos caçadores sobreviverem a presas que os matariam facilmente. Mas eu... – ela estendeu os braços do mais puro tom de branco – tenho uma espécie de albinismo. Não é algo inédito, mas é raro, e minha família ficou bastante desgostosa comigo. Minha avó, mãe de minha mãe, percebeu que eu seria sempre excluída de tudo, e escolheu me criar. – ela deu um sorrisinho sonhador e orgulhoso – acho que já ouviu o nome dela, mestra, em lendas ou livros.
— Quem é sua avó?
— Ahsoka Tano. – respondeu a pequena, de repente cheia de orgulho e amor – Ao contrário do que todos pensaram, Darth Vader não conseguiu matar a antiga padawan, mas a feriu gravemente e ordenou que desaparecesse. Aleijada pelos ferimentos, foi o que ela fez. Voltou para seu planeta, sob outro nome, e viveu no isolamento, dentro das florestas... Um braço inutilizado podia ser letal para qualquer um, mas ela havia sido um Jedi, e uma rebelde... Soube viver muito bem, e só sua filha, nascida pouco antes do confronto com Vader, conhecia seu nome verdadeiro. Assim que eu tive idade para ser desmamada, vovó me levou para morar na floresta... Ensinou a me camuflar, usando terra para cobrir minha cor, a andar sem fazer barulho, contou-me as histórias e lendas dos Jedi, suas aventuras durante as Guerras Clônicas e na Rebelião. – havia um sorriso enorme no rosto da menina – mas um dia, meu pai foi nos visitar, fora da época em que costumava aparecer. Explicou que nosso planeta estava sendo ameaçado, e que... Snoke exigia um refém de cada família real. Vovó o confrontou, disse que não permitiria, que lutaria até a morte para não permitir... – os olhos da garota se encheram de lágrimas que ela repeliu como se espantasse moscas irritantes – eu sabia que, se não fosse dado um refém, nosso planeta sofreria. Minha avó iria lutar, porque era de sua natureza, e iria morrer. Eu sabia que, de todos os filhos de nossa casa real, eu era a menos importante... Meu quase-albinismo era um estigma, pelo menos na minha tribo, então... Aceitei. Disse a minha avó que queria ir. – agora ela chorava – nunca mais a vi, depois disso, mas às vezes... De noite, quando tudo está quieto, posso sentir como se ela estivesse deitada do meu lado, do jeito como dormíamos em nossa cabana... E ouço sua voz, cantando para mim. – Num gesto inconsciente, a pequena deitou a cabeça no colo de Rey, buscando aconchego e proteção.
Surpresa, sem saber ao certo como reagir, a Jedi abraçou a menina, que começou a cantarolar baixinho uma canção Togruta. Rey não entendia os sons, mas quando cessou a melodia, Brenwen traduziu:
— O sol desce no horizonte,
Trazendo o manto da noite escura.
O vento uiva nas planícies,
Mas juntas iremos ficar.
E enquanto no céu as luas se lançam,
E as feras nas sombras espreitam,
Eu serei seu fogo, a te proteger e iluminar.
Você será minha coragem e força,
E na noite, juntas nós vamos estar.
Sou a chama que te guarda e afasta todo o mal,
Você é o chamado imortal que não me deixa temer
E quando o alvorecer subir acima das matas,
Teremos vencido mais este combate
Pois juntas estamos, e sempre haveremos de estar. – ela fitou Rey, que ainda abraçava a menina, e explicou – uma canção que as mulheres cantavam para as crianças, dos tempos em que a tribo dela ainda era nômade, e dependia do fogo para manter os predadores afastados.
— Nossa cultura é forte – disse Asala, no colo de Rey – selvagem como a terra que nos gerou. Não acreditamos na fraqueza, nem a aceitamos. Mas não torna mais fácil de aceitar, quando você é o elemento fraco a ser deixado para trás. – a dor em sua voz não parecia a de uma menina tão pequena, e as humanas a embalaram juntas, apiedadas da criança.
— Você não é fraca, Asala – disse Rey, fazendo-a se sentar e olhar em seus olhos – é extremamente forte. Sacrificou-se por seu povo e sua avó quando mal entendia o que poderia lhe acontecer. Sobreviveu, mesmo sendo uma refém. Nunca abandonou os sonhos, nem as esperanças. ISSO é força. É coragem. – ela acariciou o rosto da menina com ambas as mãos, fazendo-a sentir um pouco do quanto a admirava – Você é muito mais corajosa do que qualquer guerreiro de sua tribo. – ergueu os olhos para Brenwen – vocês duas são. Têm a coragem, a esperança e a força de verdadeiras Jedi. – os olhos da mais nova brilharam:
— Temos?
— Têm. – Rey se sentia muito desajeitada, tentando ser amiga, mestra e irmã de duas meninas cujas idades não divergiam tanto da sua, mas sabia que ambas precisavam dela desesperadamente. Assim, fez o que pôde, o que teria gostado que fizessem por ela, quando se sentia sozinha e abandonada, e aninhou a cabeça de Brenwen em seu ombro, e Asala contra seu peito – e eu juro que vou derramar minha última gota de sangue, se for preciso, para que alcancem o destino de vocês. Estamos juntas, agora: ninguém mais vai machuca-las. Eu prometo.
Ficaram algum tempo em silêncio, sentindo-se mutuamente através da Força que fluía através delas e as conectava, até a voz de Brenwen sussurrar baixinho:
— Rey... Obrigada. – ela se empertigou e olhou para Asie, que adormecera. Com cuidado, as duas adolescentes deitaram a criança em seu saco de dormir e se ajeitaram elas próprias nos seus, após alimentarem o fogo com mais lenha úmida, que demoraria mais a ser queimada. Antes de dormirem, a Jedi respondeu:
— Não, Bren. Eu agradeço. Vocês têm me ensinado tanto ou mais do que ensino a vocês, e por isso eu lhes sou grata... Minha irmã.
Trocaram um sorriso cúmplice e adormeceram tranquilamente. Nem o sabre de luz de Rey, nem os blasteres de Asala e Brenwen se fizeram necessários, pois criatura alguma se aproximou do trio, adormecido sob as estrelas.
*
Brenwen lacrimejou de emoção ao despertar da meditação; era a primeira vez que conseguia travar contato com tanta vida, ao mesmo tempo, sentir as coisas daquela forma! Sentira o Equilíbrio, a luz, a sombra, vida e morte num bailado eterno, num fluxo de energia constante, garantido pela Força. Assim como “energia”, a Força não podia ser realmente definida, mas uma descrição aproximada seria: o que move e conecta tudo o que existe, tornando tudo uma só coisa, e todos os seres células de um único e complexo organismo.
— Perfeito, Brenwen – parabenizou Rey, ainda sentada de olhos fechados ao lado da moça. Não precisava deixar de sentir o mundo ao seu redor para poder saber o que a menina fazia. A Jedi estava muito mais sensível à Força, e podia diferenciar acontecimentos distintos simultaneamente, diferenciando pessoas de animais, emoções de seres distintos... Os pensamentos e a Força fluindo através da humana ao seu lado, que lhe diziam exatamente o que ela via e sentia – tem grande sensibilidade. Agora, expanda-a. Vá além dos limites dessa floresta, e tente abarcar o máximo que puder, até alcançar todo o planeta.
Brenwen impacientou-se levemente: não importava o que conseguisse fazer, sempre havia algo a progredir, sempre tinha de ir além... Era exaustivo e mesmo um pouco tedioso, especialmente para sua personalidade impaciente! Ver Asala abrir um enorme sorriso ao conseguir expandir sua percepção até as charnecas, porém, incentivou-a: se uma criança de dez anos podia ser paciente e dedicada, ela também poderia. Assim, retomou a meditação. Quando começava a sentir o mundo em redor, já não era tão aborrecido, pois imagens, sons e sensações a invadiam com força, atraindo sua atenção. Mas não conseguia, ainda, tornar-se uma com tudo aquilo, como Rey descrevia... Como Rey se tornava. Não conseguia obliterar o “ego”, abrir mão do controle e fluir. Sua mente racional lutava contra isso como lutaria contra a ideia de abandonar-se às águas de um rio caudaloso.
— Precisa confiar, Brenwen. Sem confiança na Força, não conseguirá fluir, e não evoluirá além do que já conseguiu. – declarou a Jedi, focada em sua própria meditação, a qual abarcava claramente as duas padawans – Asala, seu foco não são os anfíbios do pântano. Expanda e sinta tudo, não importa o quão interessante algo possa parecer; sua percepção deve alcançar tudo o que a Força toca, e não apenas o que lhe interessa.
Em dois dias, a Jedi progredira incrivelmente em suas capacidades de conexão: conseguia estender sua mente em direção a todo o planeta, sentir cada ecossistema, cada tipo de ambiente... Dos pântanos úmidos e charnecas até os vales congelados dos polos, dos profundos oceanos de água doce às cavernas no interior das montanhas. Estava conectada a tudo isso, e não tentava reter em sua mente toda a informação, pois sabia ser humanamente impossível reter tudo o que se podia aprender com infindáveis formas de vida explodindo como luzes em sua mente... Tentara raciocinar, uma vez ou duas, mas então a conexão se fechava, e tinha de recomeçar; agora já aprendera: sentir através da Força era um conhecimento não-racional, algo que se intuía, não questionava ou processava mentalmente. E era algo tão maravilhoso, que poderia perder-se ali por semanas, sem mover um único músculo: sentia-se ir muito além do próprio corpo, a ponto de quase esquecer-se de possuir um, todos os sentidos extrapolados a um limite não físico, em que ver, ouvir, tocar, cheirar... Tudo se tornava uma coisa só. Reconhecendo o momento de parar, respirou fundo e retomou o controle de si mesma; o modo como continuava sentindo o entorno, mesmo dona de suas faculdades mentais e pensando claramente, era algo novo e agradável, uma antecipação a qualquer coisa que pudesse lhe acontecer.
— Brenwen, Asala – chamou para despertar as meninas – é o bastante, por hoje.
— Consegui chegar até os limites da floresta, e sentir toda a charneca, mestra! – celebrou a menina Togruta, satisfeita com o próprio desenvolvimento.
— Cheguei aos desfiladeiros rochosos das zonas médias – disse Brenwen, desejando ter ido além.
— Eu sei – respondeu a Jedi, com um sorriso. Treinar duas meninas ainda era uma perspectiva assustadora, mas ela recebera bons conselhos de Anakin Skywalker e de outro Mestre, o qual se identificara como Obi-Wan Kenobi. Mais uma voz a sussurrar em seus ouvidos, e mais uma gentil pressão da Força a lhe dar as intuições corretas, o que diminuía a insegurança, embora ela soubesse bem que sentir-se segura demais era o caminho para o fracasso, por torna-la descuidada. – saíram-se muito bem. Muito melhor do que esperado, com tão pouco tempo disponível. – fitou Asala – precisa melhorar sua habilidade de concentração, mas sua ligação com a vida e a curiosidade que demonstra são características maravilhosas. – voltou-se para a humana – Brenwen... Você tem um potencial enorme, muito maior do que imagina, mas a pressa em alcança-lo a está retardando. Não pode pular etapas, e precisa parar de se comparar a mim: não existem dois seres que reajam do mesmo jeito à Força, como não existem duas criaturas com genes absolutamente idênticos, no universo. Está bloqueando a si mesma com pensamentos e vaidade, Bren... Vaidade, pressa e arrogância são sentimentos que nos desequilibram e afastam do controle. Seu único problema, seu único inimigo é seu desejo de progredir sem esforço, de nunca sentir que fez o bastante. – segurou o ombro da amiga e aprendiz – você progride de modo assustadoramente rápido, especialmente com tão pouco tempo! Reconheça seus próprios méritos, e aceite seu tempo. Lutar contra o ritmo das coisas só as tornará mais lentas.
— Sim, mestra. – Brenwen sabia o quanto Rey odiava aquele tratamento, quando não vindo de Asala, e o usava apenas para demonstrar que, embora reconhecesse a verdade nas palavras da mestra, isso não a agradava nem um pouco.
— Eu entendo sua pressa. – disse a mais velha – acha que eu não queria ter todas as respostas? Conhecer todo o caminho, e ter experiência até mesmo para ensiná-las melhor? Mas experiência é algo que apenas o tempo traz, Bren. Nem mesmo lendo todos os livros da galáxia você poderá substituir o que apenas o passar do tempo pode trazer. Não é menos frustrante saber disso, mas lutar contra o fato é uma batalha inútil.
A moça de cabelos loiros anuiu, enquanto a morena esfregava a tez com ambas as mãos, preocupada... Era mais fácil lidar com uma criança do que com uma moça de sua idade, pois Brenwen constantemente “rivalizava” com Rey, comparava-se a ela e tentava ser melhor do que a mestra. A Jedi ficaria muito feliz se sua padawan o conseguisse, mas não sabia como fazer a outra compreender que não se tratava de ser melhor ou pior, mais forte ou mais fraco... Não era uma competição. Era uma jornada de autoconhecimento e descobertas, mas a Corelliana parecia não compreender aquilo.
“Onde estou errando, mestres?” pensou consigo mesma, não se assustando com a inesperada, porém bem-vnda resposta na voz de Obi-Wan:
“Por vezes, precisamos deixar que padawans cometam os próprios erros. Você mesma disse: a teoria não substitui a experiência. Ela compreenderá, com o tempo.”
“Tenho medo de estar fazendo algo que não compreendo, Mestre Kenobi...”
“E sempre irá ter. No dia em que deixar de temer cometer erros, causará grandes danos a seus padawans; mas parece se sair muito bem, até o momento.”
“Não me deixe sozinha, por favor” Pediu ela, referindo-se ao treinamento das garotas.
“Estamos com você o tempo inteiro, padawan.” Foi a resposta do homem mais velho, antes de sua voz silenciar. Pouco à frente da Jedi, as duas meninas falavam sobre suas experiências e o que haviam visto.
— Certo, depois disso, merecemos uma pausa – disse Rey, em tom satisfeito – Corrida de volta até o acampamento?
As duas mais jovens entreolharam-se e, como se num sinal combinado, dispararam pela floresta. Rey imaginara que isso aconteceria, e conseguiu sair ao mesmo tempo que as duas; corriam em relativo silêncio e usando a Força para sentir o caminho adiante – essas corridas e brincadeiras não deixavam de ser um excelente treinamento. Assim, sabiam quando saltar para evitar pequenos canais pantanosos, desviar de troncos ocultos pela grama, pisar apenas nas pedras mais firmes. Uma vez ou outra ocorria um tropeção, do qual logo se recuperavam e continuavam adiante.
A última etapa da “corrida” era a mais difícil, e a que mais exigia em termos de habilidade: uma parede vertical de rochas com mais de trinta metros. Brenwen tinha dificuldades na escalada, e a fazia em ritmo apenas pouco acima do normal a uma pessoa não dotada da Força; Rey saltava com habilidade, premeditando cada movimento e deixando-se guiar pela Força... Mas Asala? Asala parecia um pequeno símio, saltando de rocha em rocha, usando tufos de grama e arbustos para se impulsionar em saltos perigosos, encontrava instintivamente fendas nas quais encaixar suas mãos e pés pequenos. Mais uma vez, venceu a corrida e desceu novamente para ajudar Brenwen; não escapou a Rey a irritação da mais velha por precisar ser ajudada, e começou a se preocupar. A arrogância era a fraqueza da humana, e isso ficava cada vez mais evidente, assim como o excessivo entusiasmo com suas próprias habilidades podia se tornar uma fraqueza para a Togruta...
Quando galgaram juntas o topo, sentaram-se suadas e levemente ofegantes no abrigo construído com galhos e folhas – uma barraca improvisada que se mostrara muito eficaz em bloquear a chuva. Rey e Asie riam dos eventuais esfolados e arranhões, mas Bren... A Jedi se aproximou e falou:
— você é mais habilidosa com os aspectos mentais da Força. Tem as características de uma consular; nunca teve treinamento desse tipo, Brenwen, e precisará de um pouco de autoconfiança, antes de conseguir fazer estes saltos com perfeição. Nós duas precisaremos ganhar autoconfiança e fé.
— Eu recebi treinamento em defesa pessoal e combate – respondeu a humana, com irritação – devia estar melhor preparada.
— Não tem a ver com condicionamento físico. Mais uma vez, digo a você que sua pressa e perfeccionismo a atrapalham. Enquanto está tentando, não deixa que a Força flua. Precisa entender que é a Força quem age, e você apenas a canaliza. Quando parar de tentar fazer por si mesma, conseguirá fazer de tudo; mas é claro que será mais habilidosa em alguns aspectos, do que em outros. – ela olhou para Asala – e você, mocinha, entre suas habilidades físicas e curiosidade eterna por absolutamente tudo, não sei dizer se tende a ser uma Sentinela ou Guardiã! – ela riu baixinho – é muita pretensão minha, tentar imaginar o que serão, não é?
— Acho que não – Brenwen sorriu também – quer dizer... Mostra que está empolgada com nossa evolução, e tem fé em que teremos sucesso nessa jornada. Imagina-nos já como verdadeiras padawans, e não apenas iniciandas, mas também como Jedi. – a moça parecia mais serena – é um voto de confiança tranquilizador.
— Que bom que o vê assim, Bren. – Ela fitou Asala – e você, baixinha? Feliz?
— Feliz é muito pouco para descrever. – a menina vasculhou sua mochila e procurou algo para comer – mas o treinamento dá uma fome!
— Nisso concordamos todas – disse a humana loira, buscando alimento em sua mochila. Misturou as porções com água, obtendo aqueles deliciosos pãezinhos crocantes, feitos de modo a ter os nutrientes necessários para uma pessoa adulta, e começou a devorá-los. Depois daquela corrida, do treino físico pela manhã e das horas de meditação, as três pareciam competir quem sentia mais fome!
O almoço tardio foi muito bem-vindo, preenchendo os estômagos vazios das moças enquanto conversavam sobre amenidades. O assunto do momento eram seus planetas natais, costumes, características... Rey foi a menos interessada em falar sobre Jakku, descrevendo apenas como “um cemitério de naves de batalha encravado em dunas de areia cortante”. Falou pouco do lugar, e ficou claro que detestava o mundo de onde viera. Brenwen falou com orgulho sobre Corellia, suas cidades magníficas, naturea exuberante, condições perfeitas à vida humana e recursos que pareciam quase infinitos. Mas também falou pesar sobre a guerra civil que dividia seu mundo, após a “aliança” com a Primeira Ordem. Sua família fazia parte dos centristas que haviam ajudado a sabotar a Nova República, como ela já contara, mas a família Solo, descendente da primeira dinastia, opunha-se fortemente, criando uma cisão no planeta, que ora contava com duas realezas distintas.
Asala tinha apenas carinho e boas lembranças de sua terra natal, os anos em que vivera com sua avó. Contou sobre as tribos nômades, sobre a conexão com a natureza e o respeito aos ritmos naturais; narrou com alguma censura que, entre os clãs ainda nômades, a fraqueza era desprezada a ponto de os incapazes serem abandonados, pois tal era a lei da vida. Mas também contou sobre o modo como uma situação de perigo podia fazer um clã inteiro se comunicar sem palavras, seus montrais desenvolvidos lendo não apenas o espaço circundante, mas servindo para perceber vibrações recebidas de alguém próximo... Falou da terra vermelha, das chuvas torrenciais, das florestas cerradas e espinhentas, das caçadas... Finalmente concluiu:
— Mestra, eu queria lhe pedir algo.
— O quê? – Rey estava a cada momento mais encantada por suas iniciadas, e tinha um sorriso no rosto.
— Eu gostaria de cumprir o rito de passagem para a vida adulta, quando chegar aos doze anos – ela suspirou fundo – não quero tirar a vida de ser algum, mas o ato da caçada é muito importante, para nós. Bastar-me-ia alcançar um Akul, e fazê-lo permitir-me subir em suas costas. – Rey entendeu o sentimento da menina: recusada por todos por seu tom de pele, queria retornar ao lugar de onde saíra e pôr um fim àquela história. Passar no teste que julgavam-na incapaz de realizar, e com ainda maior capacidade, por não tirar a vida da enorme fera, mas conectar-se a ela. Resolver o que deixara para trás. Cumprir a tradição e, a Jedi tinha certeza, dar orgulho a Ahsoka Tano com o fato. Pensou a respeito por um bom tempo e, concluindo que havia mais de um ano pela frente, concordou:
— Eu a acompanharei a Shili, seu planeta, e você cumprirá o rito, quando completar doze anos. – anui a Jedi – é uma promessa.
A pequena abriu um enorme sorriso e abraçou com força sua mentora:
— Obrigada!
— Todo temos assuntos pendentes para resolver, não é, pequena Agitada? – sorriu a Jedi.
— Agitada? Gostei! – brincou a criança – já que Mestre Skywalker chamava minha avó de Abusada.
Rey riu, mas procurou manter sua voz séria:
— Asala, você é a neta de Ahsoka Tano, não ela própria. Vai traçar seu próprio caminho, não imitar o dela.
— Eu sei. – ela lançou para Rey um olhar pidão – mas quando quiser me chamar de Agitada, não irei me opor!
Rey revirou os olhos com divertimento e, uma vez que ameaçava começar a chover, disse às meninas:
— juntem mais lenha seca, por favor. Quero andar um pouco pelos arredores e ver com meus próprios olhos o que senti pela Força. – certificou-se de ter o sabre de luz no cinto – estão ambas com os blasteres carregados? — Em confirmação, as duas jovens puxaram suas armas das bolsas. – certo. Não pretendo demorar, mas não fiquem desarmadas. Se pretenderem caminhar, sejam cuidadosas.
Com a anuência das moças, Rey deixou o abrigo e começou a escalar a montanha em cujos pés haviam feito sua “cabana”; era uma subida íngreme, quase vertical em alguns pontos, mas já não tinha dificuldades em fazê-la: saltava o tronco de uma árvore para outro, usando suas bases como degraus para impedir os pés de escorregarem nas folhas úmidas, o que provavelmente lhe causaria uma queda feia. Não sabia ao certo aonde ia, mas sabia bem o que procurava: em sua mente havia um som diferente de todo o que já ouvira, não o zumbido costumeiro da Força, quando a “escutava”, mas algo além... Uma canção harmoniosa, oriunda de um ponto onde pura luz se acumulava. Era isso o que procurava. Algo que parecia chama-la, atraí-la como um imã atrairia metal... Um chamado forte demais para resistir, de modo que ela sequer tentou: continuou a escalada até as árvores darem lugar à rocha nua, à qual ela se agarrou firmemente com ambas as mãos e prosseguiu.
A rocha era cristalina, como nos afloramentos no sopé da montanha... Mas não era normal. Era de baixo das pedras que vinha aquela energia... Aquela Força pura e luminosa... Uma caverna. Uma caverna, bem abaixo dela. E se não estivesse procurando muito atentamente, ela jamais teria visto o brilho que escapava por uma fenda estreita; seguindo-a, encontrou enfim um lugar onde a abertura se tornava grande o bastante para espremer seu corpo esguio através dela. Fez, saltando para um chão irregular três metros abaixo, e mal acreditou no que seus olhos viam! Uma caverna, como imaginara, mas não uma qualquer... Uma galeria de túneis recobertos por cristais branco-azulados repletos de luz! Ela sentia a Força passar através das gemas, que tornavam o baixo e agradável zumbido da neutralidade em um canto cristalino e puro enquanto irradiavam aquela luminosidade magnífica! Não precisou de um segundo que fosse para identificar: cristais kyber. A caverna chamara por ela...
Fascinada com tanta luz, tanta beleza e paz, ela caminhou pelas galerias com o espírito preenchido de reverente admiração. Cristais eram a forma de energia mais pura que havia... Destinados à Luz, a ponto de “sangrarem” e se tornarem vermelhos por sofrimento ao serem forçados a canalizar o Lado Sombrio.
Abaixou-se, tocando aquela superfície cintilante, e sentiu-se revigorada, plena, forte e segura como não se lembrava de já ter sentido, alguma vez... Seu desejo era o de permanecer ali pelo restante de sua vida, cercada daquela luz agradável, da pureza e inocência... E neste momento ela compreendeu como, ao seu modo, a Luz pura podia ser uma terrível tentação e um desequilíbrio. Pois incitava-a a permanecer ali e desfrutar da quietude, esquecer-se da guerra, abandonar a luta e deixar que florescesse tudo o que havia de mais sereno e de melhor em seu ser...
Respirando fundo, ela sentiu profundamente a Força luminosa fluindo, envolvendo-a, revigorando-a e curando-a física e mentalmente, inebriando seus sentidos. E foi só depois de algum tempo que, enfim, sentiu um chamado mais intenso: olhou para frente, onde um dos cristais parecia brilhar mais do que os outros... Parecia chamar por ela. E sem relutância a garota seguiu, até ajoelhar-se diante da joia: uma ponta de crista transparente, carregando em seu interior o brilho de todas as cores. Chamava por ela... Chamava com uma intensidade impossível de ignorar e, cheia de reverência, compreendendo o momento que vivia, Rey estendeu a mão; a pedra se soltou da parede e levitou até a palma da moça, começando então a brilhar com ainda mais força! Todas as suas cores brilharam intensamente, e aos poucos um tom violeta predominou sobre os demais, progredindo até que toda a joia exibisse aquele tom puro, cuja cor parecia se sintonizar particularmente à alma da mulher, que fechou os olhos e, emocionada, sussurrou:
— Obrigada. – sussurrou ela, não apenas dirigindo-se à Força, mas honrando o cristal que a escolhera. Era uma dádiva, e jurava a si e à Força fazer-se merecedora de construir, enfim, seu próprio sabre de luz.
Quando abriu os olhos, viu diante de si claramente a imagem de Anakin Skywalker; nunca havia visto senão em “sonhos”, mas a presença dele lhe trouxe... Paz.
— Estou sonhando, Mestre? – perguntou ela, ainda que duvidasse disso.
— Não, Rey. Você me vê porque eu assim desejo, e este lugar fortalece meu espírito – ele tomou as mãos da moça ajoelhada entre as suas, o cristal seguro entre as palmas da garota – agora você é, de fato, uma padawan. É tempo de construir seu próprio sabre de luz, o qual canalizará a Força do modo como ela flui através de sua alma. Este sabre não será apenas uma arma: será uma extensão de si mesma, de sua alma. Trate-o com respeito e use-o com honra e sabedoria.
— Assim eu farei, Mestre Anakin – jurou a moça, sustentando o olhar azul de seu mentor antes de baixar a cabeça e fechar os olhos, desfrutando daquele momento único que a preenchia de felicidade!
— Você deveria ter uma Cerimônia do Cristal adequada, mas isso não é possível, nesses dias. Então, guarde aquilo que me foi dito, e para meu mestre antes de mim, e para todo Jedi que recebeu seu cristal:
“O cristal é o coração da lâmina.
O coração é o cristal do Jedi.
O Jedi é o cristal da Força.
A Força é a lâmina do coração.
Todos estão entrelaçados: o cristal, a lâmina, o Jedi.
Você é um.”
O poder e sabedoria que as palavras evocavam fizeram o corpo da garota se arrepiar. Ela sentia a mudança em si, a confirmação de sua posição como aprendi e, ao mesmo tempo, mestra... Fitou o mestre que a encarava com orgulho e algo que lhe parecia carinho, e respondeu:
— Tudo é um. A Força me faz uma com o Universo.
— Jamais se esqueça disso. – respondeu Anakin, levantando-se e fazendo a garota se erguer, também. Seu toque era surpreendentemente sólido, como se ela tocasse um ser vivo, mas provavelmente isso se devia apenas a estarem na Caverna de Cristal. Os olhos azuis se perderam em algum ponto distante, antes de continuar – faça suas padawans caminharem por esta montanha. Se um destes cristais se sintonizar a elas, encontrarão a entrada; passe a elas as palavras que lhe disse, e não se esqueça de meditar sempre a respeito delas: precisará de tempo para conhecer seu sabre, uma vez que o monte, e meditar com ele é o modo mais fácil de compreendê-lo. Compreendendo-o, alcançará maior compreensão de si mesma e de sua missão.
— Mestre, sou apenas uma padawan. Como posso ser a mestre que elas precisam? O senhor e os demais Mestres não as poderiam tomar como pupilas?
— Elas são sensitivas, Rey... Mas Asala é apenas uma criança, e Brenwen não permite a si mesma uma abertura suficiente para que pudesse nos ver, mesmo que quiséssemos. – ele se tornou mais sério – diga-me: consegue imaginar Brenwen seguindo nossos conselhos? Ou tornando a ideia de ser aprendiz de um Mestre da Força um motivo de vaidade e orgulho?
Rey cerrou os olhos, receando pela garota humana. Receando que aquela vaidade fosse ser a ruína da moça...
— Como posso ajuda-la, Mestre?
— As escolhas devem ser dela. Mas, se realmente sentir que ela cai rumo ao lado sombrio... – um sorriso enigmático, com um toque de melancolia, surgiu no rosto do Jedi – leve-a a meu neto.
— O que? Desistir dela?
— Eu não disse isso. – ele sorriu e cruzou os braços às costas – mas a Força age de modo misterioso. Apenas confie, Rey. E continue fazendo o que puder: está se saindo muito melhor do que muitos mestres anteriores. – ele curvou a cabeça numa discreta saudação – bem vinda, de fato, à Ordem Jedi, Rey Solo. Mestre e padawan. – ele estendeu a mão em direção ao rosto da menina e deslizou a mão ao longo de um mecha castanha que caía pelo ombro, saída logo de trás da orelha esquerda: rapidamente a moça percebeu que a mecha se fizera numa fina trança, que ora caía por seu ombro, e seu coração bateu ainda mais forte com tanta emoção. Curvou a cabeça em reverência ao Mestre Jedi, que pousou a mão no topo da cabeça da garota, numa bênção, antes de sussurrar – que a Força esteja sempre com você, Rey Solo, de Jakku.
*
As garotas já haviam dormido, e Rey meditava sozinha, de costa para o fogo, sentada à beira do platô onde acampavam. Podia sentir todo o planeta, e ainda além dele, mas havia uma pessoa a quem realmente desejava ver... Deixando que seu coração a guiasse, encontrou aquele laço tão bem conhecido e o seguiu: sentiu-se cruzando o espaço, até ter perto de si aquela presença tão conhecida. Abriu os olhos, e Ben parecia confuso ao saltar do lugar onde estava sentado, qualquer que este fosse. Como antes, ela via apenas o homem, e não o entorno. Ele a encarou com surpresa:
— Rey?! Estou sonhando ou...
— Sou eu mesma, Ben. – sorriu ela – onde você está?
— Em nosso quarto, na Supremacy. – ele se aproximou, desejando ardentemente poder tocá-la; foi uma surpresa sentir a pele morna da jovem sob seus dedos, como se ela estivesse fisicamente ali! Mas sentiu-a diferente... Mais forte, mais segura... Havia sentido uma perturbação na Força, horas antes, e agora suspeitava que houvesse vindo da moça. Não precisou perguntar para saber o que ocorrera – recebeu seu próprio cristal Kyber.
— Foi uma experiência... Única. – sorriu ela – inesperada e maravilhosa. Quase como me casar com você, mas não trouxe tanta turbulência.
Ele escreveu um meio-sorriso, e perguntou:
— Azul ou verde? – e ante o olhar indagador dela – seu sabre.
— Violeta. – respondeu ela, e a informação pegou Kylo de surpresa: violeta... A cor entre o sabre azul e guardião, e o vermelho do Lado Sombrio. Um cristal poderoso... A cor mais equilibrada, entre os Jedi! Pouquíssimos o haviam portado! Foi difícil não demonstrar o quanto a informação o espantara!
— Isso é... Eu devia ter imaginado que não seria uma cor comum. – respondeu, continuando a acariciar o rosto dela – espero que não esteja com problemas.
— Nenhum. Mas queria vê-lo e saber se você não estava com problemas. Está num lugar mais perigoso do que eu, afinal.
— Nada de novo, nessa nave. – ele pareceu desconversar rápido demais, deixando Rey um pouco preocupada — Como conseguiu... Achei que a conexão fosse criada por... – ele bufou irritado – é claro que a velha cobra teria mentido. – meneou a cabeça e respirou fundo – é bom poder vê-la.
— Do modo como falou isso, eu diria que está sentindo minha falta – provocou a moça, esperando uma negativa, mas recebendo em resposta um beijo nos lábios. Não era físico, sabia, mas a sensação de alegria a preencheu do mesmo modo. Contudo, manter a conexão começava a exauri-la – Ben, não consigo manter por mais tempo. Voltaremos em breve à Supremacy.
— Fique segura. – pediu ele, e foi a última coisa que a Jedi ouviu, antes de tornar a ver apenas a floresta abaixo de si. Em seu interior havia a mais profunda paz e felicidade, e um pressentimento maravilhoso sobre os dias que estavam por vir. Talvez fosse apenas euforia, e não queria se precipitar, mas ao puxar para fora do bolso o cristal em forma de losango, pouco mais longo e grosso que seu polegar, não pôde impedir-se de sorrir. Padawan. Mestre. Jedi. Seu caminho havia, de fato, começado.
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