Rise of Jedi

18 Conciliação


Notas iniciais
Meus amores, enfim estou de volta! Céus, meses sem postar, sou uma criminosa, mas não me odeiem por isso, por favor! A vida ficou muito complicada, com mudanças, faculdade, fique doente de novo... Pensem em meses conturbados, foram os dois últimos! Mas agora retornei, e espero que as tentativas de acabar com a minha sanidade tenham terminado, pelo menos pelos próximos meses. Nesse capítulo quero agradecer muito especialmente e dar créditos à diva e maravilhosa senhora-solo, meu anjo da guarda das fanfics, que inclusive escreveu boa parte da conversa entre Rey e Kylo, para me arrancar do travamento em que me encontrava. O capítulo deveria ter ficado com 9000 palavras, mas não gostei do modo como seria concluído, no caso, então encurtei este e passei o trecho final para o próximo, a fim de fazer a cena completa. De um modo geral, espero que me perdoem a ausência e que este retorno não seja tão desapontador.

Fora uma manhã cheia: Kylo enviara holos dirigidas às principais organizações e famílias apoiadoras da Primeira Ordem, esclarecendo o que acontecera com Armitage Hux, e depois fora ocupado pela negociação com Sibera Nutt, no que Rey tomara parte; como ela própria dissera, lidar com saqueadores, contrabandistas e traficantes era algo que aprendera muito bem. Eilenia estivera presente, assim como Krunt – Pau’ano chefe do setor financeiro – e Amira – Chagriana responsável pelo comando da atividade comercial. Tanar Kahso participara como conselheiro de guerra, uma vez que Nutt era o principal fornecedor de armamentos não produzidos pelo Novo Império.

O Nautolano exigira ressarcimento pelas perdas dos cinco cargueiros – dois de armamentos, três de carregamentos de escravos de Riosa, Ryloth e Tatooine – na forma de créditos e naves. Após longo debate, no qual Rey fora extremamente proativa na argumentação, fora decidida uma compensação na forma de cinco cargueiros novos, recém-chegados ao hangar de Rakata Prime e providos de armamento potente, mais uma transferência em créditos como pagamento pelos escravos perdidos; bem menos do que o inicialmente exigido, mas ainda um modo de evitar rompimentos com o valioso fornecedor. Rey se voluntariara para levar as naves pessoalmente, e acabara por convencer a todos – mesmo ante a franca oposição de Kylo – quanto a ser a mais indicada para a tarefa, acompanhada por Eilenia Shan e Niaka, a Mirialan que outrora fora uma agente especial a serviço de Snoke, e agora servia unicamente ao Imperador, assim como a misteriosa Mara Jade o fizera em relação a Palpatine, tantos anos no passado. Um grupo singular, mas claramente capaz de lidar com a situação e retornar a salvo em poucos dias.

Os preparativos foram ordenados para decolagem na manhã seguinte: o trio de mulheres escolheu pessoalmente cada membro da tripulação que conduziria os cargueiros – o mínimo necessário, dois ou três para cada nave – até o entreposto espacial combinado como ponto de encontro, do qual retornariam todos na nave pessoal de Rey, a reconstruída White Comand, e de Niaka, uma nave-comando T-Y que ela reservava unicamente para missões oficiais. Uma vez dadas as ordens, Rey subiu em um speeder e apenas disse que retornaria ao pôr do sol, para checar as naves e tripulação.

Enquanto isso, Kylo Ren dispensara a todos da estação de comando secundária – utilizada enquanto a principal, destruída no dia anterior, era consertada. Desejava ficar a sós para pensar, mas uma voz frustrou seu intento:

— Lorde Ren, permissão para lhe falar não como subordinada, mas como alguém que o conhece há muitos anos. – Shalya não deixaria o lugar antes de ter a oportunidade de falar com Kylo. Conhecendo a obstinação da Cavaleira, ele respondeu:

— Permissão concedida, Asajj Ren.

— Nem sempre você me chamou assim – a Dathomiriana se colocou ao lado do homem a quem conhecera mais de uma década no passado, agora não como sua Cavaleira, mas como o mais próximo de uma amiga que poderia ser – Algo o perturba.

— São os fardos do governo. Eu sabia o que assumia, quando os aceitei – respondeu Kylo, mantendo suas barreiras erguidas, mas a mulher o conhecia bem demais:

— Acho que é um motivo com um rosto bem mais bonito e temperamento teimoso do que o governo. – ela o encarou – Lady Solo não aceitou bem o ocorrido de ontem, eu suponho.

— Não lhe diz respeito. – respondeu Kylo, ríspido.

— Não. Mas eu sei quando algo o atormenta, Kylo; e está atormentado por ela ter visto seu pior lado, com medo de que isso possa de algum modo ter mudado os sentimentos dela, e adia o momento de falar com Rey por não querer ver as consequências do ocorrido, ontem. Mas em algum lugar lá fora, a Jedi espera que a siga, que vá até ela para conversarem.

— E isso importa, para você? – maldição! Shalya era a única a não temê-lo, e o fato de conhecê-lo tão bem preocupava o imperador profundamente.

— Importa para você. – respondeu a Cavaleira, e teria continuado se o imperador não se voltasse para ela com um olhar capaz de assustar o mais bravo dos guerreiros:

— Não ouse tentar me tratar como o menino assustado que conheceu, Asajj! – ele estava colérico, e voltou-se para ela com um alerta no olhar. Um alerta para medir bem as próximas palavras.

— Ao menos uma vez em doze anos, escute meu conselho, Kylo! O que digo tem a ver com sua necessidade de destruir tudo de bom que possa existir em sua vida. – ela não precisava falar muito mais, sabia que acertara o alvo – Aquela garota foi a melhor coisa que lhe aconteceu desde que se tornou seguidor do Lado Sombrio. Talvez mesmo em toda sua vida. Não desperdice isso. – a mulher retomou a postura fria de Cavaleira de Ren e executou uma reverência – com sua licença, Mestre, tenho deveres a cumprir. – não esperou por uma resposta, deixando o lugar antes que alguma consequência desagradável se abatesse sobre ela. Dizer a Kylo Ren as verdades que o homem carecia escutar era algo perigoso, que fizera apenas poucas vezes. Tomara que hoje fosse ouvida. Odiava ver o modo como o Cavaleiro parecia empenhado em fazer todas as escolhas que mais o ferissem, como se punindo a si mesmo pelas coisas que fazia.

Sem ninguém sobre quem despejar na forma de raiva o turbilhão de emoções que se agitava em seu interior, Ben Solo sentia as palavras de Asajj como facas cortantes em seu coração; ela estava certa. Rey era, de fato, a coisa mais pura, maravilhosa e verdadeira que surgira em sua vida miserável, e sua mera presença era como bacta sobre as feridas que carregava na alma. Mas o orgulho era algo difícil de engolir, e maior ainda era o medo de ouvir dela palavras de rejeição. Perdera coisas demais, mas Rey não podia ser uma delas; temia ficar, e fazê-la desistir de si; temia ir até ela e ouvir a confirmação da última coisa que desejava ouvir. Precisava ir até a moça e fazê-la, ao menos, escutar o que tinha a dizer, mas seus pés pareciam pregados ao chão, por não saber o que fazer em caso de negativa. Optou finalmente pelo caminho intermediário, estendendo sua mente à procura da jovem, seguindo o laço que os unia tão profundamente; o vínculo continuava forte, e não sentia através dele nada além de preocupação, talvez um pouco de decepção, mas acima de tudo havia a vontade de entender. E nenhum sinal de raiva, ou rupturas... Apenas o desejo de que ele viesse ao seu encontro. Um chamado ao qual ele definitivamente não queria resistir.

*

Paciente não era um termo que pudesse ser aplicado a Rey naquele momento. Suas tentativas de meditar eram incomumente falhas, enquanto esperava que Ben viesse ao seu encontro. Sentia que viria, mas isso a deixava apreensiva: ele não possuía um gênio fácil, e ela tampouco era dócil e suave. Queria ajudá-lo, entender a personalidade do homem, o motivo do ódio descontrolado que testemunhara. Queria acreditar que havia uma razão, que o homem a quem amava não era cruel por natureza, que não se enganara sobre ele... Contudo, receava que o que deveria ser uma conversa se tornasse em um novo conflito. Tentava então repassar em sua mente o roteiro que traçara, apertando a todo instante a empunhadura do sabre de luz azul, como se para se certificar de que estava ali, junto com o caderninho que vinha guardando como um tesouro valioso.

Ansiosa não apenas pela conversa iminente, mas pela missão que a aguardava – e para a qual estipulara objetivos próprios – desistiu da meditação em que esvaziava sua mente e seu coração, e passou a apenas contemplar seus pensamentos e sentimentos, deixando-os fluir sem agarrar-se a nenhum. Não lutou contra frustração, expectativa, esperança, diferentes tipos de amor nutridos por diferentes pessoas... Apenas os sentiu, recebeu-os sem julgamentos, sendo honesta consigo quanto ao que originava cada emoção. Não foi capaz de encontrar todas as respostas, mas o exercício se mostrou uma atividade de autoconhecimento interessante, e acabou por fazer o que a meditação tradicional não conseguira: acalmá-la. Ajudá-la a entrar em contato com a Força e, finalmente, centrar-se o bastante para controlar a si mesma, mesmo numa conversa com Kylo. Ou numa negociação delicada como a do dia que se seguiria. De um modo que não esperava, encontrou alguma paz durante sua solidão, e alguma compreensão para consigo mesma.

Demorou um pouco mais do que imaginara, mas enfim sentiu a aproximação pela qual esperava; conflito, as trevas, o bruxulear da luz em seu interior, sufocada, mas escapando ao controle à medida que se aproximavam. Uma luz que o machucava por trazer consigo a culpa de seus atos cruéis. Para quem enxergava por detrás da persona de Kylo Ren, era possível ver o enorme conflito e sofrimento dentro de Ben, e isso não a machucou menos do que todas as vezes em que o sentia. A Jedi esperou até seu esposo estar perto de si, e só então voltou-se para ele:

— Ben – ela o fitou com seriedade, mas não de modo hostil; respirou fundo e estendeu a mão, num pedido mudo para que se juntasse a ela; para sua surpresa, os dedos enluvados se fecharam sobre os seus. Ele deu um passo para dentro do círculo de pedras, e sua expressão se desanuviou com um súbito alívio ao sentir a luz que Rey fazia florescer em meio a um ambiente tão hostil! Fechou os olhos, desfrutando daquela sensação nova e agradável por alguns segundos, antes de fitar outra vez a esposa:

— Imagino que espere uma explicação para o que fiz ontem.

— Eu só gostaria de entender. – Ela suspirou e se sentou na pedra maior, pernas cruzadas, ainda séria. – Eu realmente quero ajudá-lo, Ben. Quero conseguir entender, aliviar sua dor, encontrar um caminho para nós... Mas não posso fazer isso sozinha. Preciso que também esteja disposto a isso. Não posso obrigá-lo a aceitar minha ajuda e meu amor.

Ele cerrou os punhos e baixou o rosto. Entendia muito bem o que a esposa dizia: ficaria ao seu lado enquanto houvesse esperança; se ele destruísse isso, ela não teria alternativa senão se afastar. E pela primeira vez não era a Força quem a afastava, a luz ou o Lado Sombrio, mas ele próprio. As SUAS trevas. E a menos que estivesse disposto a ser honesto com ela, a dizer de onde vinha tamanha raiva, tanto ódio, estaria erguendo mais barreiras entre eles. Abrir-se com alguém não era de sua natureza... Não conseguiria contar tudo... Mas não podia ser o responsável por criar ainda mais empecilhos naquela já difícil união. Não conseguiria contar tudo... Talvez jamais pudesse fazer isso... Mas podia ao menos explicar o ódio por Hux, a satisfação em fazê-lo sofrer. Pelo menos para ela, não queria ser o monstro; desejava ser apenas Ben, o Ben que pensara ter matado, o qual respirava com nova força quando a tinha consigo.

— Rey... São tantas coisas que... – ele ergueu os olhos, e neles a jovem viu muito mais do que Ben poderia dizer com palavras: a necessidade de ser forte, e as dúvidas por não saber exatamente como fazer aquilo, a divisão entre sua real natureza e aquela que construíra para ser sua máscara.... O olhar da moça se abrandou, assim como seu julgamento, e ela tocou o rosto do esposo:

— Está tudo bem. Você pode me contar.

— Hux me odiou desde que pisei pela primeira vez na Supremacy. – disse ele, a voz inexpressiva, os olhos perturbados e cheios de memórias dolorosas – tinha medo e inveja, e isso foi se tornando pior. Eu o desprezava, e ele retribuía fazendo missões a meu encargo falharem... Sabotava-me, fazia com que eu parecesse incapaz ou descuidado ante Snoke. – nesse momento ele cerrou os olhos e os dentes, como se revivesse a dor. Já não sentia a luz do círculo enquanto as memórias das torturas o invadiam violentamente, despertando aquela raiva que o assolava como uma onda poderosa, tornando o mundo um oceano negro e vermelho! – Por causa dele, fui punido mais vezes do que conseguia contar! E não era apenas a dor... Dor física não me atinge... Mas o que fazia em meus pensamentos... – ele segurou os lados da cabeça, abafando um grito – Rasgava minha mente até eu ser incapaz de lembrar sequer meu nome... Até que vagasse num vácuo gelado de sombras... – Não conseguia escapar daquilo. De olhos fechados, estava de volta ao lugar escuro onde existia apenas sofrimento e tormento, a voz sombria de Snoke em sua cabeça, e frio... Tanto frio, que tremia incontrolavelmente.

Rey jamais vira Kylo daquele modo! Ele parecia completamente fora de si, tremendo convulsivamente, de joelhos, abraçado ao próprio corpo numa tentativa de se aquecer, a despeito da temperatura relativamente alta daquele dia. A moça sentia a dor dele, a dor que estava apenas em sua mente, mas não menos nítida por isso, e se ajoelhou de frente para ele, desesperada apenas por tirá-lo daquele estado:

— Bem! Ben, olhe para mim! Eu estou aqui, eu sou real! São apenas lembranças! Por favor, olhe para mim! – num gesto instintivo, abraçou-o com força, até sentir o tremor diminuir. Nesse momento afastou-se o bastante para fitar seu rosto muito pálido, e toda a raiva e ressentimento que houvesse sentido foram substituídos por compaixão. Começava a entender o quão profunda fora a devastação causada por Snoke na mente e nas emoções de Ben, e só conseguia se lembrar do relato de Mestre Anakin, sobre como a morte de Padmé e a suposta morte do filho que ela esperava o haviam destruído a ponto de não restar nada além de dor e ódio. Ben lhe parecia igualmente destruído, ainda que de modo diverso.

Continuou abraçando-o até senti-lo se firmar novamente, afastar as memórias e a dor e empertigar-se, saindo de seus braços. Foi um alívio vê-lo melhor, mas uma frustração senti-lo envergar a máscara de frieza que, Rey sabia, não passava de uma farsa muito bem encenada; uma mentira contada e recontada tantas vezes, que ele mesmo quase podia acreditar no que dizia. Quase. Os olhos negros estavam fixos nos dela, e o homem parecia profundamente envergonhado e irritado consigo mesmo:

— Pelo menos você entende, agora. Já sabe minha fraqueza. – ele se afastou, mas Rey não podia deixar passar aquela oportunidade, e estendeu a mão para segurá-lo pelo pulso:

— Ben, por favor, fique! – Seus olhos se encontraram, e ele estava profundamente surpreso; não havia nela aquele olhar de pena, ou de raiva, tampouco culpa ou remorso; havia compreensão, cumplicidade, e uma súplica muda para que ele a ouvisse, também, como ela o ouvira. E contra tudo o que teria feito em outros tempos, ele relaxou os braços e esperou de frente para ela, enquanto a jovem lhe lançava um breve sorriso marejado de lágrimas. Sabia o que ele precisava ouvir, e não seria difícil dizer, pois se tratava apenas da verdade. – Você é tão forte, Ben Solo... Mais do que eu poderia ter sido em seu lugar, mais do que qualquer outro teria sido! Tudo o que suportou, as coisas às quais sobreviveu... Isso me faz te admirar ainda mais. – Ouvi-la dizer que o via como alguém forte e que o admirava, ainda mais depois de perder daquele modo o controle... Kylo não sabia como reagir. Era tudo, menos o que esperara! Poucas palavras, que o atingiram com a força de um canhão! Quando ouvira elogios e, mais ainda, quando lhe haviam dito que era forte, que inspirava admiração? Não se lembrava se algum dia ocorrera.

— Não importa mais. – Outra vez aquela muralha impassível, mas Rey agora enxergava um pouco mais o interior daqueles muros, e via o quanto suas palavras o haviam abalado.

— Importa para mim – respondeu a moça, firme. – Porque sei que não imaginei nada. – Ela entrelaçou seus dedos aos dele; acabara de ter todas as provas que poderia desejar de que não estava errada. Não fora imaginação o que enxergara na alma de Ben, e agora sua determinação era dobrada. – Não está sozinho.

Kylo ainda não conseguia lidar com as emoções que a esposa lhe causava; diante dela sentia-se exposto e desarmado, como se aqueles olhos esverdeados enxergassem em sua alma de modo mais claro e profundo do que qualquer outra pessoa seria capaz – e o faziam. Ela não precisava entrar em sua mente para fazê-lo... Que loucura... Para fazê-lo desejar se revelar, deixá-la ver... Coisas que escondia e negava a si mesmo, a Rey ele queria entregar! Desejava entregar todo o seu ser àquela luz cálida que completava tão perfeitamente sua escuridão, que sanava com sua mera presença as dores mais terríveis que latejavam dentro de sua alma, exatamente como aquele simples abraço fizera ao expulsar para longe o sofrimento que o dominava. Rey... Sua Rey... Amava-a tanto, e ainda assim assustava-se com o poder daquela mulher sobre sua pessoa. Como reagir? Tudo o que aprendera lhe dizia para afastá-la, para fugir àqueles sentimentos fracos e se refugiar nas trevas... Mas nunca se sentira tão forte quanto agora, ainda que de um modo estranho.

Estava pronto para levantar as suas barreiras, as mesmas que sempre usara para se isolar e proteger, mas elas ruíram ante a percepção que o atingiu ao fitar os olhos esverdeados. Rey não o odiava, não sentia pena, tampouco repulsa. Ele até podia sentir confiança e respeito emanando dela, além de um amor quase incondicional! Mas isso estaria certo? Como poderia estar, com tudo o que fizera em sua vida torpe?

— Não está com raiva – disse ele, ainda perplexo. Ela fechou os olhos e meneou a cabeça, suspirando:

— Não estou mais. Eu tive, sim. Julguei-o com base no que sabia, e o que percebi após alguma meditação foi... Eu não sei nada sobre você. Tenho meus sentimentos, e os seus sentimentos, e é nisso que vou confiar. – ela segurou a mão de Ben – Todos lhe disseram por toda a vida quem você era, ou quem devia ser. Mas quem você realmente é, Ben Solo? Quem você sabe que é, no fundo de sua alma? – Ela sentiu um estremecimento tão sutil, que duvidou se teria acontecido. – Um dia eu gostaria que confiasse em mim para responder isso. Quando você mesmo tiver certeza da resposta.

— Já pensou que eu posso ter a mesma dúvida a seu respeito? – rebateu ele. – Quanto a quem é Rey Solo? – Ouvir aquela pergunta dela fora um eco aos próprios pensamentos, uma verbalização da dúvida que o perseguira por toda uma vida.

— Quando eu descobrir, prometo que será o primeiro a saber. – Ela segurou os objetos que trouxera consigo, nervosa, e o silêncio reinou por um longo tempo, nenhum dos dois sabendo como dar o próximo passo, receosos de falar ou fazer alguma besteira que ameaçasse aquele momento tão estranho que, de algum modo, parecia aproximá-los de um modo inédito. A quem ele queria enganar? Amava-a com todas as suas forças, reconhecia agora, ainda que não pudesse externar isso. Esta era sua força e sua maior vulnerabilidade, sua fraqueza no caminho ao qual entregara tudo, no qual penetrara fundo demais para voltar... Ao menos assim acreditava.

Estes eram os pensamentos que preocupavam o Imperador, quando a garota finalmente se manifestou, tirando-o daquele raciocínio:

— Partirei amanhã, bem cedo...

— Eu sei. Decidimos isso juntos – respondeu, sem emoção.

— Não sei quanto tempo iremos demorar. – Ela deu de ombros. – Ben? – Rey chamou. Ele correspondeu o olhar que da esposa e aguardou que ela prosseguisse. – Por favor, sente-se aqui, comigo... Quero ficar ao seu lado, um pouco, só nós dois. Sem império, sem missão, sem.... Apenas nós. Sinto sua falta.

Ele apertou mais ainda os seus dedos com os dela e aconchegou-se bem junto de Rey. Os braços, as pernas e os troncos estavam colados um ao outro. O corpo de ambos foi tomado por um calor reconfortante; não o calor sexual que os arrebatava sempre, mas apenas a certeza de que estavam juntos, um ao lado do outro, suficiente para se sentirem em paz e seguros em si mesmos e um com o outro.

Ela repousou a cabeça no ombro dele. Ele relaxou com o contato e mais ainda com o perfume do cabelo de sua amada tão perto de suas narinas. Kylo queria nunca mais sair daquela posição. Pareciam se encaixar perfeitamente daquela forma, e naquele momento tudo parecia certo.

— Ben... – Rey começou, afastando-se de leve após algum tempo. Kylo notou que nas mãos dela estava o sabre de luz que um dia pertenceu ao seu avô. O sabre de Anakin Skywalker, que escolheu o chamado dela na Base Starkiller, o mesmo que ela usou para ferir e marcar o seu rosto quando ainda eram inimigos. – Eu quero dar isto a você... Talvez o termo acertado seja “devolver”, pois era seu por direito. Escolheu a mim por algum tempo, entretanto, a sua missão para comigo se cumpriu. – Rey endireitou a postura e virou-se para ficar de frente para o marido. Imediatamente o corpo dele sentiu falta do contato e calor do corpo dela.

Rey gentilmente colocou o sabre de luz nas mãos dele, fez um leve afago nelas e aguardou, numa falsa paciência, pela resposta. Kylo Ren encarava a arma nas mãos com incredulidade, reverência e fascínio. Ele levantou os olhos para fitá-la. Rey ainda aguardava pela sua reação.

— Por que está fazendo isso? – foi o que ele perguntou.

Ela já esperava por isso, e respondeu com simplicidade:

— Esse sabre de luz pertence a você, a sua família. E como eu disse, ele já cumpriu sua missão comigo. A Força despertou em mim e esta arma – apontou para o sabre nas mãos do marido – desempenhou papel importante na minha ascensão como Jedi. Contudo, agora eu possuo o meu próprio. Por que razão eu continuaria com ele?

— Não posso aceitar... – Ele empurrou novamente o sabre para ela.

— Ben, não!

— Rey, você não entende...

— Então me explique, Ben.

— É tão complicado!... – No passado ele quis tanto aquela arma, e agora não se sentia digno de empunhá-la, por alguma razão que não compreendia. – Ele atendeu ao seu chamado, encontrou o caminho até você para...

— Para que eu pudesse achar o meu caminho para a Força – interpelou-o. Rey cerrou os dedos de Ben em torno da empunhadura do sabre de luz. – Eu o encontrei e o estou seguindo... Não tem sido fácil, mas eu não posso mais voltar atrás, nem se eu quisesse muito. É parte do que sou e, por isso mesmo, o sabre concluiu seu dever em minhas mãos.

Kylo estava calado, mas inquieto. Não sabia o que fazer, e por isso estava irritadíssimo consigo mesmo. Os argumentos de Rey eram bons, o que somado à sua insistência e teimosia naturais tornava ainda mais dificultoso rebater. Se seu ponto de vista estava correto, e ela perguntou porque continuaria com ele, então Kylo também tem o direito de indagar:

— Por que eu ficaria com este sabre? – Virou o rosto, fugindo do olhar dela. – Não passa de um artefato.

— Porque é importante para você – rebateu a Jedi. – É mais que somente um artefato. Possui uma história com a sua família. Esse sabre era de Anakin, depois foi de Luke, agora deve pertencer a você. É o legado de sangue.

— Que faria com essa arma, se também já possuo o meu próprio sabre de luz? – ele insistiu. Rey suspirou. É uma boa pergunta, mas não podia dar a resposta. Segurou gentilmente o braço do marido e disse:

— Essa pergunta você mesmo deve responder. – Ah, ótimo, estava começando a falar como Obi-Wan! Tentando não rir de si mesma, acariciou o rosto do homem com as costas da mão. – Por que não experimenta meditar com ele? Talvez ache as respostas que procura.

Ele notou que sua esposa usou “respostas”, no plural; ela soube que Kylo entendeu o recado pelo olhar que o esposo lhe deu, e isso a fez se recordar da outra coisa que tinha para entregar a Ben: o bloco de anotações onde passou a anotar suas prioridades, pensamentos, sentimentos e onde registrara todo o relato do mestre Anakin Skywalker sobre sua vida desde menino, o treinamento como Jedi, os sentimentos e percepções, a queda para o Lado Sombrio, o modo como a morte ou perda daqueles a quem mais amava o haviam destruído a ponto de não restar nada além de dor e ódio. O vagar pelas trevas, suas esperanças, dúvidas, crenças e, finalmente, o regresso à luz. Tudo.

— O que é isso? – Kylo inquiriu.

Rey encarou o caderninho antes de olhar para Kylo. As mãos apertaram o pequeno livro com mais força involuntariamente, enquanto respirava fundo e explicava:

— Isso é... Também é para você.

— Hoje é dia de entregar coisas? Sinto-me mal agora por não ter trazido nada para você. – Mesmo com a sua expressão habitualmente séria e carrancuda, Rey sentiu o tom de troça na fala dele. Ela revirou os olhos e ele quase riu.

— Voltemos ao principal – pediu Rey. Ben assentiu levemente. – Eu quero que você leia o que eu escrevi aqui. Não vou dizer o que é, mas não pare a leitura, por favor. É importante.

— Seu diário? – de novo aquela leve provocação que fez Rey querer acertar Kylo com um murro.

— Estamos engraçadinhos hoje, não? – devolveu ela, no mesmo tom – Não, são relatos e coisas que descobri. Por favor, não pergunte, apenas leia. – e com mais veemência – prometa!

Ele não se moveu, não esboçou a menor expressão, mas seus olhos mostraram alguma surpresa com a insistência da moça, antes que assentisse afinal:

— Eu lerei, Rey.

A jovem sorriu e assentiu; sabia que ele o faria, assim como meditaria com o sabre que o perturbava tanto quanto a ela; não sabia exatamente o que pretendia com aquilo, mas sabia que era importante... Que a adoração de Kylo pelo avô merecia um relato completo de quem este fora, e como conhecer alguém melhor do que através do Kyber que um dia se ligou à alma daquele indivíduo? Ela sabia que isso implicaria, também, em revelar muito de si a ele, mas não se importou. Se havia um caminho para ambos, algum modo de aquela união confusa dar certo, era através da honestidade, e não tinha nada a esconder, verdadeiramente. Ficaram em silêncio por algum tempo, antes que ela quebrasse o silêncio:

— fiz este lugar para poder meditar sem influências externas deste planeta.

— Eu senti. – respondeu Kylo – deve tomar cuidado; poucos gostarão da ideia de um santuário como esses neste planeta. Cavaleiros do Lado Sombrio verão como sinal de traição, e outros Jedi, de heresia.

— Todos adoram nos dizer o que devemos fazer ou não, o que é certo ou errado – ela o fitou – mas carregar nossos fardos, ninguém irá. Não importa o que acharão: fazemos o que precisamos, e o que é certo, não importa como.

Ben cruzou os braços e fitou Rey com curiosidade:

— Não parece uma Jedi falando.

— Sou uma Jedi. Não preciso me tornar ortodoxa por isso, nem seguir tudo o que regras antigas me ditam. – deu de ombros com simplicidade e fitou o sol que se escondia atrás das nuvens, já na metade da tarde – temos de ir. Preciso inspecionar as naves antes.

— O dever nunca termina. – Ben parecia frustrado ao dizer isso, e mais uma vez Rey sentiu que o governo não o satisfazia; isso era exatamente o que o confundia e frustrava ainda mais.

— Não – concordou a Jedi – nunca termina. Mas vou recompensá-lo, quando voltarmos – Rey sorriu e o abraçou, beijando-o – obrigada por ter vindo, Ben.

— Eu lhe devia isso – respondeu o imperador. Já não conseguia manter a máscara de frieza, pelo menos ali, e decidiu falar o que jamais diria em qualquer outra ocasião – tive medo de perdê-la Rey. Não por causa de seu poder, não pela Força nem... Tive medo de que desistisse de mim porque amo você. – fitou-a nos olhos e viu perplexidade no rosto da moça – não é um jogo. Eu amo você. – ergueu o rosto e a trouxe com força contra o peito, num gesto possessivo e protetor — E isso é a coisa mais perigosa que poderia acontecer. Eu preciso proteger a nós dois, o mundo não pode suspeitar ainda mais desse sentimento que fica mais forte cada vez que olho para seu rosto!

Rey se afastou o bastante para encará-lo, segurou suas mãos e replicou com um sorriso, sussurrando:

— protegeremos um ao outro. Faremos o que for necessário, Ben, fingiremos e deixaremos que pensem sermos quase inimigos, mas nada disso importa. – abraçou-o com força – aqui, em Jakku, separados por um galáxia inteira, não estamos sozinhos; eu sei quem é o homem a quem amo, e você me conhece, isso é o que importa. – abraçou-o com força e fechou os olhos – encontraremos nosso caminho – ambos sentiam o modo como suas energias se fundiam e uniam em perfeito equilíbrio naquele instante, afastando o passado, as máscaras... Apenas eles, como eram de verdade, e nada mais, pelo tempo que puderam roubar para si.

*

— Essas naves já deviam estar prontas há vinte minutos! – disse Rey, andando para lá e para cá no hangar movimentado com os últimos preparativos para o embarque. Fechando o manto cinzento que usava por sobre as vestes cinzentas, puxou o capuz para se proteger dos ventos gerados pelas turbinas, acompanhada por Brenwen e Asala.

— Quero que cuidem uma da outra enquanto estou fora e, por tudo o que é sagrado, obedeçam Eilenia! – pediu a Jedi – devo levar uma semana a dez dias neste processo; continuem os exercícios, vão ao santuário, e sejam cuidadosas!

— Ainda não entendo por que não podemos ir! – protestou Brenwen – uma negociação...

— Uma negociação com um traficante – corrigiu Rey – Mesmo em bons termos com o império, duas princesas podem ser uma tentação grande demais para um pirata como ele resistir. E não queremos que algo teoricamente simples se desenrole em eventos desagradáveis. – A Jedi já aprendera a reconhecer quando as jovens começariam a protestar, e a interpelou – não estou duvidando das capacidades de ninguém, mas essa ação deve correr sem nenhum tipo de imprevistos.

— Como vamos treinar e melhorar se continua nos mantendo aqui, Rey? – desafiou a humana.

— Mostre que tem habilidades para lidar com as coisas aqui, obedecer, manter a disciplina e dominar sua mente, para começar – merda, estava REALMENTE falando como Obi-Wan! – não se trata de glória, Brenwen, mas de fazer o que é certo. Estaremos em poucas pessoas, e não posso arriscar vocês duas desse modo, pois eu mesma não terei como prestar atenção a ambas do modo como devo. Por favor, fique e ajude Eilenia, oriente-nos à distância. Será muito mais útil assim.

Os olhos cinzentos da adolescente faiscaram de frustração, mas ela anuiu:

— como desejar, Mestra. – e segurou o ombro de Asala – vamos, Asie, logo as naves vão decolar.

A pequena tinha uma expressão frustrada e chateada, mas despediu-se da humana mais velha com um abraço:

— tome cuidado, Rey, por favor.

— Tomarei, pequena. E quando voltar, teremos coisas para fazer juntas. Eu prometo.

Um sorriso se esboçou no rosto da Togruta, que anuiu:

— é uma promessa. Iremos cobrar. – a criança parou, olhando para algum ponto atrás da Jedi – Mestra, suas companheiras de missão aguardam.

A Jedi cerro os olhos por um momento, suspirou e se ergueu, virando-se para encontrar Niaka e Shalya em seus trajes negros de Cavaleiras, o símbolo da Primeira Ordem brilhando em vermelho nas ombreiras, os cabelos brancos da Dathomiriana presos numa trança enrolada sobre si mesma e as feições parecendo ainda mais sérias com as tatuagens cinzentas acentuadas. Executaram uma breve reverência, gesto que incomodava profundamente a mais moça:

— Lady Solo, as naves estão prontas para zarpar. A White Command espera por sua capitã.

— Vamos partir – lançou um último olhar para as padawans, sorriu para ambas e caminhou em direção a sua nave; estava apreensiva e nervosa, essa era a verdade, mas ao mesmo tempo ansiosa por mais aquela atividade. Seus sentidos estavam todos em alerta, e sentia no fundo de seu coração que aquela viagem traria muito mais do que esperava.

Enquanto assumia seu lugar na cadeira de piloto, procurou esvaziar a mente e se abrir às múltiplas possibilidades, sensações e pensamentos que a envolviam. Não podia ser pega de surpresa, especialmente com duas Cavaleiras de Ren tomando parte na missão; confiava até certo ponto em Shalya, mas não diria o mesmo de Niaka, e pressentia algo sombrio à espreita. Certamente haveria imprevistos, e não era tola de achar que barganhar com um patife como Sibera Nutt seria fácil. Ele tentaria obter vantagem pelos meios que pudesse, mas com esse tipo de ser ela sabia lidar muito bem. A vida se encarregara de lhe dar as melhores e mais duras lições.

Não precisava prestar atenção aos protocolos de decolagem, extremamente habituada que era a executá-los, então repassava em sua mente todo o plano oficial... E as metas que estabelecera para si própria. Compreendia que faria um jogo perigoso, mas sabia algo sobre o comportamento de homens como o nautolano: nunca apostavam em um Fathier só, e sempre possuíam um plano B para se manterem a salvo. Precisaria olhar nos olhos dele para ter certeza, mas poderia apostar que aquele homem mantinha contato não apenas com os sistemas independentes, mas mesmo com a própria Resistência, ou seus remanescentes. Além disso, pesquisara muito, e era um colecionador de artefatos... Esperava que pudesse encontrar ali algo que vinha buscando rastrear há algumas semanas. Mas tudo dependeria de os planos apenas esboçados em sua mente encontrarem lugar para se encaixar no correr da situação. Caso não o fizessem, bem... Teria de improvisar. Assim como em relação à sensação de perigo que a rondava, não-identificada em sua origem.

Já prestes a sair da órbita de Rakata Prime, Rey se permitiu um último pensamento em Ben, um toque de mentes para se despedir, e então mergulhou completamente em seu atual objetivo. Hora de voltar aos tempos de catadora, e lidar com a escória do universo para ajudar a si mesma e a pessoas que precisavam dela. Discretamente, enviou um sinal para Leia Organa, que ficaria atenta a qualquer tentativa de comunicação.

Notas finais
E então? Espero que não tenham se desapontado, apenas, mas o próximo trará a ação que estava prevista para esse. Queria marcar uma data quinzenal, mas, com o final de semestre, posso garantir apenas que sairá um capítulo novo até dia 30 de junho, ok? Beijos enormes a todos que têm lido, participado, comentado, e acima de tudo agradeço de todo o coração por não me abandonarem!!! Seus comentários e respostas me fizeram chorar de emoção, vocês são incríveis!!!