Notas iniciais
Olá! Esta é minha primeira fic de Star Wars, e começa na última meia hora de The Last Jedi, quando Kylo Ren pede a Rey que se junte a ele. Espero que gostem: boa leitura! Agradecimentos à senhora solo e à Sherazade, que me incentivaram a postar essa fanfic!

— Deixemos tudo isso morrer – disse Ben, mão estendida para Rey – venha comigo. Deixemos o passado morrer: os Jedi, os Sith, a Rebelião... – Rey meneava a cabeça, desesperada, implorando com os olhos para que ele não terminasse a frase como sabia que o faria...

— Ben, não... Não tem de ser assim, por favor...

— Governe a galáxia comigo. Façamos nosso próprio império, criemos uma nova ordem. Você e eu, Rey. Ninguém jamais se importou com você, seus próprios pais a venderam, não é importante para ninguém... Mas é, para mim. – as palavras dele doíam como punhais no coração da jovem, que via os disparos da nave passarem raspando nas cápsulas de evacuação restantes... Já havia apenas 10 delas... Logo não restaria nenhuma! Seus amigos estavam morrendo, e ela se sentia um monstro por, no fundo de sua alma, desejar de algum modo poder fazer o que Ben dizia... Seria um crime tão grande assim? Procurar seu lugar no mundo? Um lugar onde a amassem, onde ela fosse relevante, de algum modo? E estando ao lado de Ren, não poderia ela trazê-lo de volta à luz? Todos esses pensamentos se misturavam num turbilhão na mente da moça, que apenas conseguia sentir as mortes dos amigos, mesmo à distância.

— Por favor, Rey. – pediu Kylo – venha comigo. Fique comigo. Mate o passado, deixe nosso futuro existir.

Ela olhou uma última vez para as naves, e então fitou os escuros e perturbados olhos de Ben:

— Ordene o cessar fogo, e serei sua. Menos de duzentas pessoas em dez cápsulas de fuga não são uma rebelião, muito menos uma ameaça a você, mas são os únicos amigos que já tive, independente do que você diga. Ordene cessar fogo, poupe essas pessoas, e ficarei ao seu lado, como quer que eu faça. – ela viu a desconfiança no olhar dele, e finalizou – tem a minha palavra. Olhe em minha mente, se quiser, mas, por favor, poupe-os! Eu juro aceitar o que me pede, se os poupar. – os olhos de Rey eram pura súplica, mas sua mente trabalhava depressa. Passara por seus pensamentos a ideia de enfrentar Kylo Ren, mas a verdade é que não conseguiria mata-lo... Não depois de ter tocado sua mente e visto que ainda havia luz nele. E fugir para fazer o que? Mesmo que conseguisse embarcar imediatamente na Falcon, seria impossível proteger todos os rebeldes. Eles morreriam antes de chegar ao planetoide. Não... Uma troca com Kylo era a única chance de dar aos seus amigos uma fuga. E ele claramente considerava a possibilidade. Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, ele declarou:

— Temos um acordo. – levou o comunicador perto do rosto e falou – O Líder Supremo ordena o cessar fogo. Deixem as naves alcançarem o planetoide. – ele olhou para Rey, cujos olhos estavam fechados num alívio que a deixara levemente trêmula. Com expressão séria, ele viu os disparos se interromperem e aproximou-se da jovem Jedi – considere isto como um presente de núpcias.

— Núpcias? – os olhos dela se abriram, estupefatos e confusos.

— O que pensou que eu lhe propunha, ao pedir que governasse ao meu lado, Rey? – ele acariciou o rosto da garota com as costas da mão enluvada. Como era jovem! Teria mais de 20 anos? Ele duvidava, apostando antes em 18, 19... E ainda assim, sem treinamento nem orientação, as habilidades dela se equiparavam às suas; suspeitava que a moça não tinha a menor ideia do quão poderosa era, do que tamanho domínio sobre a Força significava, e desejava muito ser a pessoa que lhe mostraria todo o seu potencial. Talvez, enfim, ela compreendesse e se desapegasse da escravidão à qual se submetia em relação aos tolos ideais plantados em sua mente pela Rebelião. Ah, sim: ele via todo o potencial latente, e ansiava por ter ao seu lado a mulher que a sucateira se tornaria, um dia.

— Ben... – começou a moça, olhando para os cadáveres de Snoke e sua guarda – o que faremos? Vão nos matar quando souberem que...

— Não – ele a puxou levemente para si e, quando a mulher não resistiu, envolveu-a num abraço possessivo, os olhos tão insondáveis quanto sempre, a mesma muralha de impassibilidade na expressão – tentarão desertar. Mas existe um novo Líder Supremo, agora.

— Ben... Não precisa fazer isso. – ainda havia esperança nela: esperança de que ele percebesse o quão vazia e desprovida de sentido era a que vinha experimentando, pautada unicamente em medo e poder, desprovida de alegria ou esperança — Como você disse, podemos deixar tudo para trás, matar o passado – ela tomou a liberdade de tocar seu rosto, ansiando por fazê-lo enxergar — podemos fugir para o recanto mais distante da galáxia, onde nunca nos encontrem, e vivermos em paz! Por favor, Ben. Eu prometi que ficaria ao seu lado, e o farei, mas... Não tem de ser assim. Não tem de ser aqui. Podemos trazer a paz, para nós mesmos e para a galáxia.

Ele deu um sorriso carregado de emoções obscuras: tanta ingenuidade e determinação combinadas! Ela realmente cria em suas palavras, com o simplismo da mente de alguém que crescera por conta própria, sobrevivendo, alheia ao mundo do poder, política e comando. Conhecia as trapaças de um comerciante, de um salteador, podia ver más intenções à distância e compreender em segundos as complexas engrenagens de uma nave, mas não possuía qualquer entendimento de como a galáxia realmente funcionava. Mas ele a faria ver... Faria com que compreendesse que as pessoas eram os algozes de si próprias, que poder e dominação eram o que comandava tudo, que a paz da qual Rey falava não era senão um sonho utópico plantado em sua mente pela Resistência e alimentado pelos próprios anseios da garota.

— Você não compreende, Rey? Não existe paz. Todas as criaturas são ambiciosas e possuem potencial para o mal. – ele suspirou e se virou para ela, o semblante levemente suavizado — Suponha que eu faça como me pede, e fuja com você para longe de tudo. O que acha que aconteceria? Que a República seria magicamente restaurada, e tudo voltaria à paz? – ele acariciou o rosto dela com o polegar, percorrendo a bochecha, a linha do maxilar, parando sobre os lábios – menina tola. Os comandantes e generais se digladiariam pelo controle da força militar da Primeira Ordem, criando caos e guerra civil. O mais forte, que angariasse mais aliados, eliminaria todos os demais e reinaria sobre a galáxia como imperador. E sabe qual seria a primeira ação de todos, antes mesmo de se voltarem uns contra os outros? Destruir os remanescentes dos rebeldes. Matar até seu último amigo, e qualquer um que houvesse travado contato com a Rebelião; sistemas solares inteiros arrasados. Isso é o que aconteceria. E nós dois seríamos caçados até os confins do Universo, sem piedade. Lutaríamos por nossas vidas até o último suspiro. Não haveria paz, para nós ou para todo e qualquer planeta até os limites da Orla Exterior.

— Poderíamos lutar ao lado dos Rebeldes... – parecia difícil lutar contra os argumentos dele de modo racional, embora ela sentisse em seu âmago que era apenas uma verdade parcial. Sempre havia um meio. Sempre havia um modo de fazer o que era correto.

— Para que? Vivermos com medo, escondidos ou nos privando de tudo, para que a paz durasse outros trinta anos, antes de outro tirano assumir? Não, Rey. Se tem de haver um único governante na galáxia, prefiro ser eu este governante, e não rastejar no pó, com medo e dúvidas, seja em que lado for. – ele a fez erguer o rosto – você sabe o que é viver sem medo, Rey? Sem ter de agradar a ninguém além de si mesma?

Ela não respondeu: essa seria uma discussão infrutífera, ao menos por hora. Entretanto, não esperava pelas próximas palavras e ações de Ben Solo:

— Tão forte, intrépida, inteligente... Já ouviu isso de outros, antes. Mas já ouviu o quão bela é? Atraente, intrigante, um enigma instigante... No dia em que nossas mãos se tocaram pela primeira vez, sabe o que fez? Você me libertou, Rey. Libertou-me do medo que tinha de Snoke. Libertou-me para ser eu mesmo, e não a sombra de Darth Vader. Foi por você que consegui matar o Líder Supremo. Apenas por você. – a mão dele subiu por suas costas e segurou levemente sua nuca, a mão pousada no rosto da Jedi enquanto seu próprio rosto se aproximava do dela. Sentia a respiração acelerada, o coração palpitante, as dúvidas e medos na mente da moça... Sentiu-a estremecer em antecipação, pousar a mão em seu peito na intenção de empurrá-lo, e falhar miseravelmente quando seus braços pareceram pesados demais para impedir o que se seguiria. Seus lábios tocaram os dela, e as mãos pequenas se seguraram aos ombros de Kylo enquanto a garota se perdia em seu primeiro beijo. Um beijo que desejava nunca interromper... Um beijo que lhe provocou a mais perigosa das sensações: a de estar segura nos braços daquele homem. Era loucura, a mais completa insanidade, mas já estava tão cansada de ser racional! Fizera tudo o que a razão lhe exigia, e recebera nada em troca senão perdas. Não podia ser um crime deixar-se guiar pelo coração, uma vez na vida! Afinal, fora em nome de seu coração que viera até Ben, e fora o único resultado positivo que obtivera, até agora: a sobrevivência de seus amigos e morte de Snoke. Entretanto, parte de sua mente gritava que ela estava apenas se deixando enredar pela sedução de Kylo, que tudo não passava de uma mentira para ganhar uma aliada forte que, pela vontade do no Líder, seria dobrada à escuridão... E ela sabia que este aviso não era totalmente descabido.

Seus lábios se afastaram, e a catadora estava extremamente pálida. Kylo a segurou um pouco mais firmemente, com medo de que as pernas de Rey vacilassem – apenas naquele dia ela fora torturada até a beira da inconsciência, mentalmente violada, passara várias vezes a milissegundos da morte e vira seus amigos serem mortos... – e estendeu a mente em direção à dela, tocando apenas a superfície para não fazê-la se sentir agredida outra vez. E sentiu-a tão machucada, nas emoções e na mente, que imaginou como ainda conseguia andar; foi uma surpresa constatar que estava DE FATO preocupado com o bem estar da moça, mas uma coisa o surpreendeu acima de tudo:

— Está com medo de mim? – ele a fitou, suavizando o próprio olhar – Não... Está com medo de si mesma. De nós. Do que acabou de acontecer.

— Estou confusa, Ben. Tudo mudou rápido demais, e ainda há muito a ser resolvido. Eu... – ela sentiu algo – Finn! – olhou para Ben – está aqui! Vão mata-lo! – e como um raio, disparou para fora dos outrora aposentos de Snoke, esquecendo-se mesmo do próprio sabre de luz. Ren revirou os olhos, sabendo que tentar usar a Força para trazê-la de volta seria inútil, e apenas foi atrás da moça, falando em seu comunicador:

— General Hux, Phasma, comandantes, quero todos reunidos na ponte. Tenho ordens do Líder Supremo a lhes passar, agora.

***

— Se tocarem nesta jovem, estarão mortos em segundos – disse a voz de Kylo Ren, quando as armas laser estavam a centímetros do pescoço de Finn, Rose e Rey, os quais jaziam de joelhos no chão; a Jedi, como era de se esperar, precisava ser contida por três soldados – Ela está sob a proteção do Líder Supremo, Phasma.

A comandante de tropas ergueu a mão, ordenando que a execução fosse interrompida, e explicou:

— Comandante Ren, veja o caos que ela provocou – Kylo não conseguia contar o número de stormtroopers mortos e máquinas destruídas. Aquela garota conseguira fazer tudo aquilo SOZINHA, antes de ser capturada?!

— Ordens são ordens, Phasma. Liberte-a. – ele olhou para os dois rebeldes em cujo socorro sua noiva viera – sigam para a ponte. Eu cuido de lidar com os três. – e ante a hesitação da comandante e do general Hux, aplicou maior tom de ameaça à própria voz – não ouviram as ordens?

Os oficiais, mesmo a contragosto, deixaram o convés; Kylo encarou os stormtroopers e deu suas ordens:

— soltem-nos. Isso não é um pedido.

Armas laser desligadas, os soldados se afastando e soltando os prisioneiros de sua contenção; Finn e Rose se entreolhavam com confusão... O que estava havendo, ali? Ben parou diante de Rey, braços cruzados e uma expressão de “o que faço com você”:

— Destruiu cinco naves e meia tropa de Stormtroopers com uma arma laser simples? – ele lhe estendeu o sabre de luz – acho que não precisa disso para causar estragos, mas ainda assim, lhe pertence.

Ela pegou o sabre e o guardou na cintura, agradecida. Finn e Rose, porém, olhavam confusos para aquilo, e o rebelde perguntou:

— Rey, o que está acontecendo? – o tom incrédulo e perplexo de sua voz deixava claro que ele suspeitava de traição da parte dela, e isso o dilacerava internamente – você não se venderia a ele... Não aceitaria!

— Fiz o que tinha de fazer para manter vocês vivos, Finn – respondeu a moça, coração doendo ao ver a decepção no rosto do amigo – caso não tenha reparado em meio convés destruído, o que me importa é proteger vocês. – ela encarou Ren, que tinha no rosto traços endurecidos ao ver, ou melhor, sentir a forte ligação entre a Jedi e seu amigo stormtrooper desertor. Ela sentiu a hostilidade em seu “noivo” – acho que o estão esperando na ponte...

— Estão, e a quero bem longe daqui quando souberem da morte de Snoke. Haverá mortes, certamente, e você não gostaria da visão – ele encarou os rebeldes – pegue uma nave e leve-os ao planetoide. Avise à general Leia que estão banidos dos territórios da Primeira Ordem. – ela anuiu, e ia se voltando para uma das naves inteiras quando a mão de Ben se fechou em seu braço – Rey: não me desaponte. – ele lhe entregou um comunicador – enviarei um sinal quando for seguro retornar. Não me traia, ou eu a perseguirei até os confins da Orla Exterior por descumprir sua palavra. Você é minha, agora.

— Eu lhe dei a minha palavra – disse ela, sustentando firmemente o olhar de Solo – minha palavra é minha garantia.

Kylo, porém, achou por bem deixar uma imagem bastante nítida na mente dos rebeldes, que não a aceitariam mais entre si: puxou a moça para si e a beijou suavemente. Não durou mais do que um segundo, mas a perplexidade e raiva de Finn disseram a ele que alcançara seu objetivo com sucesso. Ela se afastou com as faces coradas e, sem nada dizer, sinalizou para Finn e Rose a seguirem. Enviou o sinal a Chewbacca, e viu a Milenium Falcon pousar no convés.

— Chewie! – era bom ver um rosto que não se mostrava hostil a ela, no momento, ou o qual não teria dificuldades em encarar – vamos lá, amigo. Temos passageiros. – Nesse instante, uma bolinha branca e laranja chegou perto de si – ah, BB-8! Imaginava onde você estaria! – ela encarou Finn da rampa que levava para dentro da Falcon – Finn... Temos de embarcar...

— Para você levar seu namorado até a Resistência? – havia veneno nos olhos do rebelde. Pela amizade que tinha com a moça, sentia-se traído de todas as formas possíveis por ela.

— Para eu salvar vocês de serem destruídos pelo louco do Hux! – ela meneou a cabeça: compreendia a decepção de Finn, ao mesmo tempo em que queria lhe dar um soco por não ver que ela abrira mão da única coisa que possuía, sua liberdade, em prol da Resistência! – olhe, não há tempo para explicar. Eu fiz uma troca: minha liberdade pela vida dos “rebeldes”. Kylo Ren cumprirá sua palavra, mas eu preciso tirar vocês daqui, e logo. Por favor, discutimos na Falcon!

Rose se irritou, pois compreendia o que a jovem fizera, e o que isso lhe custaria; ela e BB-8 empurraram Finn pela rampa, que logo se fechou atrás de todos. Rey se sentou na cabine do comandante ao lado de Chewbacca, dando instruções:

— Para o planetoide mineral, Chewie. Para junto da Resistência. – e por todo o percurso tentou evitar o olhar dos outros. Sentia que deveria ter lutado mais, resistido de alguma forma, encontrado um meio de salvar os amigos que não envolvesse a rendição... Mas sua própria fraqueza, seu desejo de salvar Ben Solo de si mesmo, sua ânsia por ser amada (algo que ela não estava certa de que ocorreria, com o Lorde Sith) haviam ajudado a restringir suas opções em uma direção perigosa. Talvez Luke estivesse certo ao repreendê-la, adverti-la, mas agora já não havia retorno... E em seu íntimo, acreditava com sinceridade, ou melhor, sentia que fizera a escolha certa. Contudo, rezava para ser uma sensação legítima, e não apenas fruto de seus anseios.

****

Leia recebeu Rey com um abraço apertado; ao se afastarem, seus olhos se encontraram, e a Jedi soube que a general estava ciente de tudo o que acontecera. Afinal, não apenas tinha o dom da Força, mas era a mãe de Kylo Ren; seu olhar era de afeto, orgulho e admiração.

— Foi de uma coragem sem-igual, Rey. – Disse a mulher, serena e firme – Eu sei que isso lhe custou muito. Que pode lhe custar ainda mais.

— E mesmo assim, metade das pessoas aqui me odeia. Dificilmente vão entender o que fiz... – ela fitou as próprias mãos – acha que fiz a escolha errada?

— Rey... Não se preocupe tanto com o que eles pensarão. Farei com que saibam que estamos vivos por sua causa – a princesa suspirou, e fez a pergunta final, resposta à indagação da própria jovem – mas não fez isso apenas por nós, não é? Não foi até lá por nós, pois nem sabia que estávamos sob ataque. Existe algo mais.

— Sim. – concordou a moça, sentando-se de frente para a mulher a quem encarava como algo similar a uma mãe – Leia, ele ainda não está perdido. Eu o senti, eu o toquei... E senti que ainda havia luz naquele coração. – ela cerrou os punhos – mesmo com tudo o que ele fez, senti tanta solidão e dor em seu interior... Mas ainda havia brasas de bondade em seu interior, então, como podia desistir dele?

— Você... O viu? – Leia não compreendia exatamente como isso poderia ter ocorrido.

— Quando estava na ilha, com Luke... – a menina suspirou – uma ligação se formou entre nossas mentes. Snoke disse ter sido ele quem a arquitetou, mas não acredito, porque já havia sentido isso, antes. Seja como for, nós podíamos ver um ao outro, e nos falamos algumas vezes... Na última vez, ele me contou o que o levou a se aliar a Snoke.

— Foi aquela víbora que o atraiu com falsas promessas. – disse Leia, determinada a não pensar na alternativa, simplesmente por ser dolorosa demais para alguém com tantas perdas quanto a princesa.

— Não. Não foi. – Rey encarou fixamente a amiga – você também tem a Força, Leia. Acho que não precisa que eu lhe conte... Creio que sempre soube.

O rosto da general exprimiu toda a sua decepção e exaustão ao reconhecer o que negara para si mesma por tantos anos:

— Luke. – sim, ela sabia. Mas como condenar seu irmão? Como o culpar por tentar impedir algo e, precipitando-se no medo, acabar por ser o responsável pela consumação do que temia? Afinal, em fria análise ela era tão culpada quanto Luke, pois confiara o filho ao irmão quando percebera não apenas a Força, mas as trevas em seu interior — Por isso ele se isolou.

— Sim... Mas eu consegui sentir que Ben ainda estava em conflito, que podia ser salvo, e por isso fui até ele. E... Ele me salvou! – havia emoção nos olhos de ambas – Ele matou Snoke, Leia, para me salvar!

— Mas tomou o lugar de Snoke. E teria deixado que fôssemos mortos, se não fosse por você. – mesmo com seu coração ansiando por acatar a possibilidade de ter seu filho de volta, ela procurava ser realista.

— Sim... – o pesar se manifestou na voz e no rosto de Rey – Ele ainda está em conflito. Mas existe alguma verdade nas coisas que me falou... A morte de Snoke não significaria nada, além de lançar a galáxia numa guerra civil, e propiciar o extermínio da Resistência. Talvez, de algum modo, a ambição dele possa ser um mal menor, ou até algo benéfico. Se eu puder fazê-lo enxergar...

— Não exagere suas esperanças, Rey, ou suas ambições. Você é uma menina, alheia às perversidades dos jogos políticos que ditam as regras em qualquer governo, seja ele despótico ou democrático; não será fácil como imagina, e ele provavelmente não será o aliado que espera. Eu espero com todas as minhas forças que ainda haja algo do menino doce a quem amei, mas Kylo Ren é um homem sombrio e perigoso. Eu lhe advertiria a fugir, se não soubesse que seria um alerta inútil.

— Você me conhece bem. – sorriu Rey, deixando que Leia visse em eu rosto a mescla de apreensão, vontade, determinação, medo... Sentimentos demais para ter, de uma só vez, e nem todos conseguia reconhecer.

— Conheço sua fidelidade a uma promessa, e conheço o olhar de uma mulher apaixonada. – disse a general, fazendo uma leve carícia no rosto da menina que podia bem ser sua filha – cuidado, Rey. Ele pode ser encantador e sedutor, como o próprio lado sombrio, mas também muito perigoso. Casar-se com ele não será algo fácil, e pode e tornar mesmo perigoso.

— Não tenho dúvidas disso, mas preciso tentar. Mesmo se não houvesse prometido... Eu vi o quão só e perdido ele se sente e... Preciso tentar. Não sei explicar, mas sinto que desistir dele seria como desistir do que acredito. – ela esfregou o rosto – é ilógico, mas ele me faz sentir diferente. Segura. Como se houvesse um lugar para mim, no mundo. Não me sentiria assim se ele fosse todo escuridão, sentiria?

General Organa sorriu tristemente: ah, as paixões da juventude. Via em Rey a mocinha que ela própria fora, apaixonada pelo contrabandista e trapaceiro Han Solo, cheia de esperanças acerca de um mundo livre, imaginando que o amor podia mudar o que um homem era, como agia e se sentia.

— Apenas não se desaponte, se tudo não correr como deseja. – orientou a mulher mais velha, lembrando com saudades do esposo a quem tanto amara, e do qual fora tão impiedosamente separada pelas contingências do fado – raramente a vida se importa com nossos planos.

— Não se preocupe, eu posso cuidar de mim e de Ben. Em verdade, ele terá problemas, caso se esqueça de que, num casamento, os votos são mútuos. – ela se levantou com determinação – Eu o farei me ouvir, de alguma forma. É com vocês que estou preocupada: Ben os baniu para longe dos sistemas controlados pela Primeira Ordem, e isso não é de todo ruim: possuem aliados, lá fora. Pessoas que começam a deixar de acreditar, mas cujo ânimo pode ser refeito, se a princesa Leia se apresentar! Precisam ir, e logo. Cuidem de suas feridas, refaçam suas forças... A Resistência perdeu coisas demais... Saiam do território, protejam os mais fracos que vocês, tentem trazer alguma paz a lugares esquecidos mesmo antes que Darth Sidious surgisse. – ela fitou a imagem do imenso cruzador de Kylo Ren – algo me diz que ele não será a maior ameaça. Os lordes... Estão hostis. Muitos tentarão derrubar Ben e se tornarem os líderes... Talvez atingindo primeiro locais distantes, onde possam conseguir recursos, armas e tropas. Talvez enfrentando Ben diretamente, ou até agindo como os mais fiéis escudeiros, apenas para estarem mais perto na hora de lhe enfiar uma faca nas costas. – seus sentidos lhe mostravam as coisas com uma clareza que sua instrução não lhe permitiria enxergar.

— Rey, você não pode lutar essa batalha sozinha. – declarou Leia, preocupada. A jovem assumia um encargo monstruoso, e riscos indizíveis!

— Não estarei sozinha – respondeu a menina. – lutem comigo: minem o poder desses oficiais e baronetes locais, reduzam sua opressão sobre os povos, e irão enfraquecer muitos dos parasitas que tomariam o lugar de Ben, se ele deixasse o poder. Faça com que não haja mais justificativa para ele se manter no poder, e eu sei que poderei demovê-lo!

Leia suspirou, vendo na jovem o tipo de determinação que ela mesma possuía:

— Que a Força permita seus instintos estarem corretos, criança – a princesa tirou do pescoço um colar, e o colocou ao redor da garganta de Rey – um comunicador unidirecional. Se algum dia precisar de mim, ative-o: o rastreador me levará até você.

Um comunicador? Mas por quê?! Como se lendo à pergunta muda da mais moça, a general respondeu:

— você estará sozinha num ninho de cobras. Ben é meu filho, mas eu não confio nele mais do que confiaria em Vader. Se a qualquer minuto você precisar de socorro, orientação ou ajuda de qualquer tipo, eu a protegerei.

A moça sorriu e abraçou a outra com força; ao se levantar, ergueu os olhos para o céu e, voltando-os para sua interlocutora, desejou:

— Que a Força esteja com você.

— E com você, Rey. – a princesa viu sua protegida deixar a sala de comando e marchar de cabeça erguida para o hangar. No caminho, alguns a fitavam com desprezo, decepção ou desconfiança, enquanto outros poucos lhe agradeciam com olhares ou palavras pelo que fizera. Finn e Rose haviam preparado um X-wing antigo, que poderia transportá-la sem problemas até o cruzador; ela se despediu de ambos com um abraço, e o rebelde falou:

— Por favor, Rey, não deixe que ele a torne outra coisa. Seja apenas Rey. A Rey que conheci em Jakku, e que está aqui, hoje.

— E quem mais eu poderia ser, Finn? – perguntou ela, com um sorriso que transmitia mais confiança do que sentia – cuide-se.

Abraçou Chewbacca com força e entrou no X-wing, pilotando de volta para junto de seu futuro esposo. Sua jornada estava apenas começando, e o medo a devorar sua alma era combatido apenas pela esperança. Esperança... Esse sentimento que jamais a abandonara, e agora se convertia em sua principal, talvez única força.

Notas finais
E então? Gostaram? O que esperam deste início de relacionamento tempestuoso? Rey certamente não vai aceitar tudo passivamente, mesmo sendo a refém de Kylo Ren. Mas o que pode advir disso? Deixem reviews!