Rika to Hayato

25 Promessa de um filho


Parte 1

No escritório, uma lousa de madeira com moldura escura e fixadores metálicos ocupava o canto da sala. Duas linhas horizontais a atravessavam, dividindo o quadro em três partes de forma precisa. Logo abaixo, uma pequena escrivaninha apoiava uma maleta fechada, como se guardasse segredos prestes a ser revelados.

Um pouco afastado dali, vestindo apenas uma camisa social branca e calça preta, Sakuya Hirotaka observava em silêncio uma pequena fotografia entre os dedos.

A imagem era inconfundível — mostrava um garoto de dezessete anos, cabelos negros levemente desalinhados que caíam sobre a testa, quase tocando as sobrancelhas. Seus olhos âmbar profundos, às vezes dourados sob a luz do entardecer, transmitiam um olhar sereno, porém distante.

“Kazumi Hayato...” — murmurou, quase sem voz.

Aproximando-se da lousa, retirou cuidadosamente um dos três fixadores disponíveis. Com precisão quase ritual, prendeu a fotografia na linha divisória do meio, como se ali não fosse apenas uma imagem, mas também um segredo — e um aviso que não podia ser ignorado.

Em seguida, abriu a maleta, preparando-se para revelar outros segredos. As fotografias iam muito além de Kazumi Hayato; mostravam membros da família de Yuzuka Raiden e de Kazumi Hayato — Yuzuka Onodera, Yuzuka Haru, Yuzuka Akatsuki, Sakuya Marisa, Sakuya Mizuno e Yuzuka Raiden.

Uma a uma, ele posicionava as imagens na lousa, transformando o quadro em algo quase ritualístico, organizado segundo critérios que apenas ele conhecia.

Pegou a foto de sua esposa e de sua filha e a posicionou na linha do meio, logo abaixo de Kazumi Hayato, que ocupava a parte superior. Em seguida, pegou a fotografia de Yuzuka Onodera e a colocou na divisória esquerda, alinhada com precisão a Hayato.

Quando chegou à imagem de Yuzuka Raiden, não houve hesitação. Simplesmente a colocou ao lado de Kazumi Hayato, como se cada posição fosse inevitável, determinada por algo além de sua própria vontade.

Então, finalmente, em suas mãos estava o homem por trás de tudo — Yuzuka Akatsuki.

Estranhamente, houve uma hesitação. Seus critérios vacilavam diante da figura do líder da família Yuzuka. A fotografia mostrava um homem de cerca de 60 anos, marcado pelo tempo. Seu cabelo curto e bem penteado exibia mechas grisalhas nas têmporas, enquanto os olhos negros, penetrantes e atentos, transmitiam seriedade, autoridade e percepção aguçada.

Para Sakuya Hirotaka, o mais correto seria posicioná-lo à direita, pois, inicialmente, havia sido contra a existência de Kazumi Hayato. No entanto, naquele momento, não sabia exatamente de que lado seria certo colocá-lo.

Por um instante, posicionou a fotografia na divisa esquerda, reconhecendo que estava neutro em relação ao neto. Mas, antes mesmo de prendê-la, parou e contemplou a imagem de Kazumi Hayato.

Em silêncio, questionou novamente seus próprios critérios. Talvez fosse errado colocá-lo ao lado de Yuzuka Onodera, já que, naquele momento, não estava neutro em relação ao filho ilegítimo de Yuzuka Raiden.

Então, na divisa central e direita, posicionou a fotografia, entendendo que, naquele instante, o mais justo seria deixá-la ali. Por mais que estivesse em harmonia com o neto, sabia que muitas coisas poderiam fazê-lo mudar de ideia.

No fundo da maleta, duas fotografias permaneciam viradas para o teto. Ele conhecia exatamente quem eram aquelas pessoas e os laços que as conectavam a Kazumi Hayato, mas, mesmo com toda a verdade em mente, o peso delas era inegável.

As duas imagens permaneceriam presas no lado direito, pois iam contra a existência de Kazumi Hayato.

Essas fotografias ocultas pareciam desafiar a luz, como se se recusassem a se revelar. Mesmo conhecendo a realidade por trás delas, ele sentia o peso silencioso de segredos que não precisavam ser pronunciados. Cada imagem virada era um lembrete sombrio de que a verdade nem sempre alivia; às vezes, apenas intensifica a tensão que paira no ar.

Aquelas pessoas na fotografia não possuíam uma conexão qualquer com Kazumi Hayato — ao contrário, uma delas tinha ligação de sangue.

Sakuya Hirotaka conhecia seus nomes, por isso olhou com desdém.

Ele pegou a fotografia da figura masculina e a posicionou no lado direito, sem hesitar, perfeitamente alinhada a Kazumi Hayato e Yuzuka Onodera. Não havia outro lugar senão aquele. A aparência do homem era comum — comum até demais — mas carregava grande poder nas empresas de Yuzuka Akatsuki.

A segunda fotografia mostrava um garoto de 17 anos. Sua aparência jovem transmitia autonomia e confiança, totalmente oposta à de Kazumi Hayato. Apesar de ter cabelos levemente castanhos, bem tratados, seus olhos negros profundos revelavam um conhecimento que ia além da idade, sugerindo uma maturidade que não podia ser ignorada.

O garoto possuía certas semelhanças com Kazumi Hayato, mas não na personalidade — apenas na aparência.

Cuidadosamente, Sakuya Hirotaka examinou a fotografia do garoto. Na parte de trás, havia uma data de nascimento: ele era, por quase duas semanas, mais novo que Hayato.

Havia motivos para tal semelhança, motivos que provocavam tumultos internos. Não havia como negar: aquele garoto era neto legítimo de Yuzuka Akatsuki. Em outras palavras, filho de Yuzuka Raiden e irmão de Kazumi Hayato.

Hirotaka colocou a fotografia do garoto no lado direito e, em seguida, voltou seu olhar para o fundo da maleta. Apesar de não estarem visíveis à primeira vista, havia outras fotos ali, discretamente escondidas.

Pegou a imagem de si mesmo e a observou atentamente.

Ao contrário das fotografias de sua esposa e filha, ele poderia facilmente posicionar a própria foto no lado direito. No entanto, algo o fez hesitar. Com a fotografia em mãos, sentou-se na poltrona, encostando a cabeça no encosto, perdido em pensamentos.

Ele estendeu a mão direita, mantendo a foto diante de si, e a direcionou ao lado direito do quadro. Pensou. Repensou. A cada novo pensamento, a posição da fotografia mudava em sua mente. Às vezes a via no lado direito, outras vezes centralizada, ao lado de Hayato, e, por fim, até a imaginava na esquerda.

Com a doença do próprio pai, a disputa familiar estava prestes a acontecer. Ele poderia colocar a si mesmo à direita, indo contra os desejos de seu irmão. No entanto, respeitar os desejos dos mortos seria o certo?

Por serem uma família tradicional, os Yuzuka possuíam pequenas divisões em seu nome, quase como classes. Somente aqueles dignos de portar o nome “Yuzuka” poderiam disputar a liderança da corporação. Antes de morrer, Yuzuka Akatsuki teria que escolher seu sucessor.

Infelizmente, Hirotaka não pôde herdar o nome do pai e, por isso, recebeu o sobrenome Sakuya.

As divisões da família eram tão claras quanto vinho: Yuzuka, Sakuya e Kazumi. Todas possuíam, de certo modo, linhagem, mas com níveis diferentes de prestígio e autoridade.

Quando uma criança nascia na família, era realizado um exame de DNA para determinar a proximidade do sangue em relação ao patriarca. Quanto mais próximo de 100%, maior a chance de herdar o nome Yuzuka e, com ele, o direito de disputar a liderança da corporação.

Raiden sabia disso, mas era contra as tradições da própria família. Acreditava que essas regras deveriam permanecer no passado. Por mais glorioso que fosse o legado, era necessário evoluir; caso contrário, a família estaria fadada ao fracasso.

Parte 2

Hirotaka permaneceu sentado, a fotografia em mãos, olhando para a lousa como se cada imagem ali tivesse vida própria. O silêncio do escritório parecia amplificar a pressão sobre ele. Cada posição, cada alinhamento, carregava mais do que simples critérios — carregava observações acumuladas ao longo dos anos.

Cada membro da família parecia já ter escolhido, de algum modo, quem deveria ser o próximo sucessor. E Hirotaka sabia que a posição de sua própria fotografia não era apenas simbólica. Colocá-la à direita seria um desafio explícito às expectativas de seu irmão, uma declaração silenciosa de poder. Ao mesmo tempo, desejava seguir a própria família — sua esposa e filha — e respeitar a vontade do irmão. Mas parecia que não seria tão simples assim.

Respirou fundo. Seus dedos ainda seguravam a foto, como se o peso do papel refletisse a responsabilidade que carregava. Imaginou os olhares das pessoas que viriam a ver aquele quadro. O que entenderiam sobre a família? Sobre ele? Sobre a delicada divisão de forças que se escondia por trás de sorrisos e alianças?

Seu pai estava doente, e, mesmo assim, a maior preocupação permanecia: quem seria o próximo herdeiro?

Ele lembrou-se de seu irmão, Raiden, que já havia percebido os efeitos nocivos de como a tradição se transformara ao longo do tempo. Lentamente, sua mente viajou ao passado, trazendo à tona discussões sobre a necessidade de romper tradições e promover a evolução da família. Cada palavra do irmão ecoava agora, misturando-se com a voz do próprio pai, ainda presente em sua memória, impondo regras silenciosas e limites invisíveis.

A maleta, ainda aberta sobre a escrivaninha, parecia pulsar sob seus olhos. As fotos ocultas continuavam ali, como sombras, lembrando que ainda existiam membros da família em jogo.

No momento, apenas três membros poderiam herdar o trono, mas entre eles havia um que poderia ser ilegítimo, fruto de um erro cometido não por Yuzuka Onodera, mas pelo próprio Yuzuka Akatsuki.

O passado estava presente naquela maleta — uma verdade que deveria permanecer oculta, mas cujo peso pairava silenciosamente sobre todos.

Hirotaka se recostou, observando o quadro inteiro. Cada rosto, cada olhar, cada fotografia contava uma história de poder, lealdade e segredos. Aquele simples ato de organização era mais do que uma tarefa — era uma forma de compreender a complexa rede de relações que definia a família Yuzuka.

Ele olhou para a figura do pai e do irmão e compreendeu: naquele momento, era incapaz de escolher um lado, mas não queria abandonar a fé de Raiden em seu filho. Suavemente, com a fotografia em mãos, caminhou até a lousa e, com um suspiro, colocou a própria foto.

Não foi à direita, desafiando seu irmão, nem à esquerda, submisso. Colocou-a na linha central, entre Kazumi Hayato e Yuzuka Onodera. Um equilíbrio precário, uma posição neutra que refletia tanto respeito quanto cautela.

No final, Hirotaka percebeu que, apesar de tudo, a verdadeira batalha ainda estava por vir. A disputa pela liderança, pelos nomes, pelos direitos de sangue e pelos segredos familiares seria apenas o início de uma guerra silenciosa que definiria o destino de todos.

Parte 3

Kazumi Hayato permanecia em silêncio, sentado na pequena varanda, o luar refletindo suavemente sobre seus cabelos negros. Em suas mãos, segurava uma xícara de chá, hábito que cultivava sempre que podia, como se aquele simples gesto lhe trouxesse algum conforto.

Ele vestia roupas casuais: uma camisa branca, calção preto, e os pés descalços, sentindo o toque frio do chão sob a pele.

Mal percebeu que, no quarto de luzes apagadas, através de uma pequena fresta da cortina vermelha, alguém o observava. A presença silenciosa da mulher era quase imperceptível, mas cada gesto seu parecia ser analisado com atenção contida, como se cada movimento de Hayato fosse estudado minuciosamente.

O vento leve balançava a cortina, e por um instante, a sombra que espiava parecia se fundir com a noite, tão discreta quanto o próprio luar que iluminava Hayato.

Yuzuka Onodera segurava uma fotografia que, em consequência da pouca iluminação, permanecia oculta. Talvez a segurasse para se lembrar de outras épocas, talvez como forma de se punir por tudo que havia acontecido.

Ela havia falhado como mulher, como esposa e como mãe. Viu, inúmeras vezes, seu filho à beira de um colapso, impotente, como uma espectadora diante de um destino que não podia mudar. Cada lembrança pesava em seu peito, um lembrete constante de erros que não poderiam ser desfeitos.

Havia ainda tempo para mudar? Será que qualquer gesto agora poderia reparar aquilo que o passado havia marcado tão profundamente? A dúvida corroía sua mente, misturando arrependimento e medo, enquanto a fotografia em suas mãos permanecia silenciosa, testemunha de tudo que ela temia enfrentar.

Por ordens, ela era proibida de demonstrar amor. Mesmo quando seu coração insistia em contrariar, nunca ousou desobedecer. Sentia-se fraca.

Onodera caminhou até a cama e colocou a fotografia virada sobre o colchão. Em seguida, dirigiu-se ao interruptor próximo à porta e acendeu a luz do quarto, sem saber que aquele simples ato havia despertado a atenção de Hayato, que a observava de longe, em silêncio.

O brilho suave iluminou o ambiente, revelando detalhes que antes permaneciam escondidos nas sombras.

Hayato permaneceu imóvel na varanda, os olhos fixos no quarto, mas sem se mover. Ele podia observar a silhueta se mover através da janela, sem conseguir decifrar os motivos, mas sentia uma distância dolorida entre eles.

Algo estranho percorreu Hayato. Não era raiva, nem compaixão, mas uma mistura estranha de tristeza e curiosidade. Ele não entendia os motivos pelos quais nunca havia recebido amor de sua mãe; mesmo quando tentava agradá-la, encontrava desdém e ódio.

Talvez tudo estivesse ligado aos vícios do passado, mas por um momento ele percebeu que ela havia mudado — parou de beber e começara a sair mais de seu quarto.

Hayato respirou lentamente, consciente de que não poderia se aproximar, por mais curiosidade e vontade que sentisse. O silêncio da varanda se tornou um espaço de observação e reflexão, onde ele aprendia, aos poucos, a lidar com a complexidade da mulher que era sua mãe.

Ele não era o mesmo de meses atrás; não se aproximaria de sua mãe sem um motivo plausível. No entanto, em seu interior, uma parte de si gritava por uma nova oportunidade — talvez ainda desejasse, secretamente, o amor materno.

Em silêncio, Hayato apenas ouvia os passos que se aproximavam, notando, aos poucos, que se dirigiam em sua direção. Cada movimento carregava um peso no ar, tornando o ambiente sufocante. Ele não estava preparado; faltava-lhe coragem.

Cada passo parecia um tormento para sua mente, trazendo à tona lembranças que ele preferia esquecer. O coração acelerava, o peito apertava, e, por mais que tentasse manter a compostura, a proximidade de sua mãe despertava uma mistura de medo, desejo e expectativa que não sabia como lidar.

Quando chegou à porta, os passos cessaram. Hayato permaneceu imóvel, mas apertou com força a xícara de chá que segurava, como se aquilo pudesse ancorá-lo à realidade. Ele não teve coragem de virar o rosto, mas sentiu, com precisão agonizante, que todo seu corpo estava sendo observado. Não era exagero; realmente estava sendo.

Não soube dizer quanto tempo durou aquela sensação — parecia uma eternidade comprimida em segundos.

Questionou-se mentalmente sobre o que estava acontecendo. Não havia motivo para diálogo, nenhuma razão clara para aquele confronto silencioso. E, ainda assim, lentamente, ouviu um passo. Um único passo. O terror percorreu seu corpo como um choque.

Outro passo veio em seguida, depois mais um. Cada movimento era calculado, pesado, como se o tempo desacelerasse para amplificar o medo. Ela estava cada vez mais próxima, e a tensão parecia fazer o ar ao redor pesar. Cada fibra do corpo de Hayato vibrava em alerta, preso entre a curiosidade, o medo e algo que ele ainda não sabia nomear.

Não havia como escapar daquela situação, então Hayato se preparou para o pior. Mas quando a figura chegou ao seu lado, nada foi dito. Yuzuka Onodera não parou; enquanto seus passos permaneciam firmes, continuava caminhando em direção à saída da casa.

Pode ter sido coincidência, mas, ao erguer a cabeça, Hayato teve a impressão de que ela o havia virado para olhá-lo. Por um breve instante, um sorriso surgiu em seu rosto. Um sorriso doloroso, impossível de decifrar.

Ele não entendeu o que havia acontecido. Talvez, de alguma forma, aquele gesto fosse uma espécie de cumprimento silencioso, ou talvez uma tentativa de o amedrontar. A ambiguidade do sorriso se alojou em sua mente, deixando uma marca inquietante que ele não conseguiria ignorar tão cedo.

A xícara que segurava com ambas as mãos escorregou lentamente pelos dedos. Por um instante, Hayato tentou segurá-la, mas foi em vão — o líquido quente derramou-se pelo chão, espalhando-se com um som súbito que quebrou o silêncio da varanda. O aroma do chá invadiu o ar, misturando-se ao gosto amargo do constrangimento e do medo.

A figura feminina, trajando um longo vestido preto, de olhos marrons e cabelos longos e escuros, abriu a porta e se retirou silenciosamente. Hayato permaneceu imóvel, com o olhar perdido e distante, incapaz de processar o que havia acontecido.

“Jovem mestre?” A voz surgiu ao fundo, doce e calma, trazendo Hayato de volta à realidade.

Na entrada da varanda, ele pôde ver Harui Natsuki, a empregada responsável por cuidar de Yuzuka Haru. Ela vestia uma camisa vermelha combinando com a saia que ia até os joelhos e segurava uma pequena bolsa de mão.

As roupas casuais mostravam que ela havia terminado suas tarefas e estava se preparando para se despedir.

Observou-o por um momento, inclinou a cabeça e se aproximou com cuidado.

Hayato permaneceu em silêncio, talvez ainda processando o que havia acontecido. Por isso, não percebeu quando a garota se sentou ao seu lado.

“O que houve?”

Hayato relaxou o corpo por um instante e, antes de responder, ergueu o olhar para o céu estrelado. Sentiu a brisa tocar sua pele e permaneceu em silêncio, incapaz de compreender plenamente o que sentia.

“Mamãe está diferente?” questionou, finalmente, com a voz baixa e hesitante.

Harui Natsuki engoliu em seco, talvez pela pergunta ou pelo olhar frio e distante de Hayato.

Ela temia a resposta que teria que dar. Sabia que ele sofria naquela casa, mas havia coisas que estavam além de seu conhecimento. Era apenas uma empregada, contratada para cuidar de Yuzuka Haru, mas, após tanto tempo na residência, já notara as movimentações estranhas de Yuzuka Onodera e o peso silencioso que pairava sobre todos.

Desde o início, Harui Natsuki havia achado estranhos os comportamentos da casa em relação a Kazumi Hayato, como se ele não fosse realmente bem-vindo. Ao mesmo tempo, sendo filho da família, carregava um sobrenome diferente.

Enquanto outros membros possuíam “Yuzuka” como sobrenome, ele carregava “Kazumi”. Essa diferença silenciosa, mas constante, parecia definir sua posição e o isolamento que sentia dentro do próprio lar.

“A verdade é que, quase todas as noites, nesse mesmo horário, ela sai... às vezes só volta no dia seguinte...” desabafou Harui, sua voz carregando um misto de preocupação e hesitação.

Ela segurou a borda vermelha da saia que chegava aos joelhos, talvez sentindo o peso de suas próprias palavras, como se não devesse ter revelado tanto sobre sua senhoria. Era como se, naquele instante, tivesse quebrado um sigilo que não lhe pertencia.

Ele percebeu, mesmo que apenas pelos cantos dos olhos, o medo e o receio estampados na garota a cada palavra dita.

“Não se preocupe. Não é como se tivesse cometido um crime” — disse Hayato, com uma calma quase inesperada.

Em seguida, levou a mão direita à cabeça de Harui e a afagou delicadamente, num gesto que transmitia mais compreensão do que palavras poderiam expressar.

Harui ficou surpresa, levantando-se imediatamente, com os olhos arregalados e as bochechas tingidas de vermelho.

Ela não sabia como processar aquilo; para ela, a atitude de Kazumi Hayato beirava a fofura. Mesmo sabendo que ele namorava Satsuki Rika, Harui ainda nutria por ele sentimentos platônicos, delicados e impossíveis de ignorar.

“Estou indo pra casa!” disse, tentando disfarçar o nervosismo.

Apertou a bolsa com força e começou a andar rapidamente, quase correndo. Kazumi sequer conseguiu ver a expressão que ela fazia, perdida no próprio turbilhão de emoções.

“Hein?” murmurou ele, confuso, sem entender o motivo de tal pressa.

Após ficar novamente sozinho, ele relaxou o corpo para trás e se deitou na varanda, deixando a mente trabalhar enquanto o corpo descansava.

Estranhamente, uma sensação incômoda o atravessava: parecia ter visto a figura masculina que havia aparecido na escola antes. Talvez, pela grande distância, tivesse se confundido, mas o desconforto insistia que não.

Ele negou para si mesmo a ideia de se mudar para Tóquio, recusou a possibilidade de deixar Rika para trás, mas havia algo nos bastidores que indicava que acontecimentos muito maiores se desenrolavam.

Um frio percorria sua espinha sempre que tentava se lembrar do rosto com clareza. Não era apenas familiar; havia uma sensação de aviso.

Ele tentou afastar os pensamentos, concentrando-se no som distante do vento e no leve farfalhar das folhas. Mas a sensação persistia: havia algo acontecendo nos bastidores, algo grande, algo que poderia mudar não apenas sua vida, mas a dinâmica de toda sua família.

E, no fundo, Hayato sabia que a calma da noite era apenas temporária. O mundo que ele conhecia — feito de rotinas, estudos e momentos com Rika — estava prestes a ser invadido por segredos e decisões que ele ainda não compreendia.

Inicialmente, ele acreditava que sua presença ali, ao lado do irmão, existia apenas para ajudá-lo a se tornar um verdadeiro líder — alguém digno de carregar o nome “Yuzuka”.

Mas, com o tempo, compreendeu algo diferente.

Se não podia ser um “Yuzuka”, então seria KazumiHayato — e viveria sob esse nome com todo o peso e orgulho que ele carregava.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar dos ensinamentos de seu pai, que o instruía com paciência e carinho em diversos assuntos — inclusive sobre administração e liderança.

Talvez, no fim, tudo aquilo tivesse como propósito preparar Yuzuka Haru.

Mas, independentemente disso, o conhecimento que adquiriu jamais seria perdido.

Ele o carregaria consigo, mesmo que, um dia, precisasse se afastar do irmão.

“Mesmo que eu não consiga mais ouvir sua voz... ainda assim, carregarei seus ensinamentos pelo resto da minha vida.”

Sussurrou as palavras como um desabafo silencioso, mas determinado — um juramento feito apenas ao vento e à memória de quem já não estava mais ali.

A brisa noturna soprou suavemente pela varanda, dissipando o vapor que restava na xícara e levando consigo o calor da bebida. O luar refletia em seus olhos, conferindo-lhes um brilho triste, quase nostálgico.

Por um instante, ele imaginou a figura do pai à sua frente — de pé, com aquele mesmo semblante calmo e a voz firme que sempre o guiava. Era quase possível ouvir suas palavras ecoando de algum ponto distante do tempo.

A lembrança, porém, se desfez tão rápido quanto veio, deixando apenas o som dos grilos e o farfalhar suave das árvores ao redor da casa.

Hayato respirou fundo, fechando os olhos.

A solidão daquela noite já não o assustava — apenas o lembrava do que precisava se tornar.

Notas finais
Creio que, com as informações deste capítulo, muitas coisas já ficaram expostas. Ainda há alguns personagens que precisam aparecer, mas não serão muitos — afinal, a história já se aproxima de seu ápice. Se eu tentasse expor toda a minha visão de uma só vez, o resultado acabaria sendo monótono. No entanto, com calma, tudo se encaixará naturalmente. Dependendo de como as próximas partes se desenvolverem, talvez eu até reescreva os primeiros capítulos, para que fiquem em harmonia com o estilo e a profundidade dos atuais.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.