Rigorosamente proibido, ligeiramente permitido
30 Desabafo
Notas iniciais
Superman – Boyce Avenue
Quando o resgate chegou, Tom já estava pálido e frio e Stiles e Derek em cantos opostos semiconscientes. Derek quase não conseguia acompanhar o que acontecia ao seu redor, usou todas as suas forças para tentar se recuperar das feridas feitas a prata e acabou desmaiando antes de chegar na ambulância. Stiles estava alerta, mesmo quieto e fingindo estar aéreo, ele prestava atenção em cada coisa que era dita, a movimentação e a forma como o socorreram, mas logo seu cérebro foi ficando mais lento, a vista pesada, ele piscava tentando afastar aquele torpor repentino e encarou a quantidade de agulhas em sua veia, teve consciência de que estava sendo sedado e quando deu por si, tinha apagado.
Derek foi liberado depois que fizeram seus curativos, ele se fez de forte e deixou Laura assinar o termo de responsabilidade pela sua alta, ele queria ver o Stiles, mas foi impedido pela irmã e aceitou ir para casa sem grandes transtornos, Cora estava muito debilitada ainda, mas em grande parte tinha se recuperado. Ficou no hospital, estava controlada e recebendo por debaixo dos panos cuidados extras da irmã. Derek quem andava piorando, passaram vinte e quatro horas desde que eles foram resgatados e o lobo tinha febres e nenhuma das técnicas de Laura o ajudava a ficar bom.
– Derek, eu não sei mais oque fazer, isso está cada vez pior. — ela trocou mais uma vez o curativo do irmão que rosnou com o contato doloroso.
– Vai melhorar. Você procurou saber do Stiles? — Derek tinha um olhar esperançoso, não tinha recebido nenhuma notícia desde então.
– Parece que ele vai ser indiciado pelo Estado. — ela comentou terminando de guardar as coisas.
– Indiciado? Ele é só uma criança Laura e só fez aquilo para me defender. — a exaltação de Derek era compreensível.
– É normal em casos assim haver um processo, o juiz provavelmente vai inocentá-lo, é só para constar nos autos. — Derek deitou novamente na cama, mal conseguia ficar de pé de tão fraco que estava.
– Ele está bem? Sabe... já foi para casa? — o jeito frágil do irmão deixada Laura vulnerável, ela nunca o tinha visto desse jeito.
– Eu não sei muita coisa, mas ele ainda estava no hospital quando eu fui ver a Cora. — Derek suspirou, queria poder ver sua irmã, ajudar seu namorado e se possível voltar no tempo para que Stiles e Cora não passassem por nada daquilo.
Stiles acordou no meio de um pesadelo e se viu em uma quarto de hospital, não estava mais no soro, apenas com o monitorador cardíaco, olhou ao redor do quarto branco e não viu ninguém, sentiu seu corpo todo doer, podia se lembrar de cada marca sendo provocada em meio a dores devastadoras e então se deu conta de que não fazia ideia de onde Derek estava, se desligou daquele monitorador e levantou, estava um pouco zonzo e quase caiu algumas vezes, o chão frio lhe trouxe uma sensação ruim na espinha e a boca estava amarga, entrou no banheiro e viu seu reflexo, ele estava todo machucado, seu pescoço tinha sido maltratado de muitas formas e explodia em diversas cores em uma faixa intensa e ferida, ouviu alguém entrar no quarto e voltou para a cama, viu o pai parado por algum tempo sem saber o que dizer.
– Eu to bem. — Stiles conseguiu dizer vendo o pai com os olhos cheios d'água.
– Eu sei que não está. — o xerife manteve o tom baixo, a voz embargada ajudava a deixar Stiles confuso.
– Estou bem pai, não se preocupe. — ele insistiu, queria perguntar de Derek.
– O exame de corpo de delito, ele foi... inconclusivo. — Stiles suspirou, porque ele e o pai estavam tão distantes? — Vão precisar do seu depoimento. — o pai olhou para o chão.
– Agora? — o garoto hesitou, não queria falar a respeito, não naquele momento.
– Quando você estiver pronto. — John concluiu e Stiles relaxou.
– Pai. — o menino chamou John que manteve o silêncio por muitos minutos. — Cora e Derek, eles estão bem? — o xerife sorriu.
– Derek está em casa, mal ficou no hospital. Cora está se recuperando bem, mas ainda está internada. — Stiles pegou a mão do pai.
– Quando eu vou receber alta? — ele perguntou deitando nas coxas do pai, não aguentava mais aquela falta de contato.
– Hoje mesmo, mas você ainda está muito machucado e foi encaminhado para um psicólogo. — John alisou os cabelos do filho se perguntando como ele lidaria com as informações que poderiam surgir no depoimento.
– Eu não preciso de psicólogo. — o garoto torceu o nariz.
– Stiles, você passou por muita coisa. — John não queria pressionar o filho.
– Eu posso ir ver o Derek? — o garoto pediu com os lábios comprimidos.
– Ele te salvou, manteve você e Cora vivos, mas eu ainda não gosto dessa coisa que você tem com o Hale. — Stiles se afastou e voltou para o seu canto da cama.
– Eu não sei se eu tenho alguma coisa com qualquer pessoa pai, não sei se isso é possível mais. — o garoto abraçou os próprios joelhos, se sentia tão sujo, Derek o tinha visto tão debilitado e fraco, o que estaria pensando dele? Será que queria vê-lo? Se estava bem, por que não o procurou?
– O que aquele desgraçado fez com você realmente Stiles? — o garoto encarou o pai.
– Eu não quero falar sobre isso. — as bochechas coradas, o corpo encolhido em um abraço solitário e os olhos sem brilho, tristes, mais uma forma de John confirmar que Tom havia destruído seu filho para sempre.
– Eu vou acertar sua alta. — o garoto assentiu.
Derek estava ardendo em febre e sozinho em casa, Laura estava no hospital com Cora e ele tinha jurado que ficaria bem na sua ausência, mas estava longe disso. Teve a impressão de que a campainha estava tocando e se obrigou primeiro a sentar na cama, sentindo o mundo girar depressa demais, depois se obrigou a caminhar aos trancos e tropeços até a porta, dificultosamente ele conseguiu destrancar a porta de metal e dar de cara com uma visita inesperada.
Stiles decidiu que precisava ver Derek, estava há seis dias em casa trancado e fora obrigado naquela manhã a depor detalhe por detalhe de tudo o que passou nas mãos de Tom Build e depois disso ele só queria abraçar o moreno e encontrar um pouco de abrigo, coisa que ele não andava conseguindo com os pais ou amigos. Scott era um ótimo melhor amigo e estava sempre por perto, mas eles não conseguiam conversar sobre o que aconteceu, Stiles tinha vergonha demais para falar sobre o que passou, sobre como se sentia fraco e derrotado, mas Derek estava lá e Derek lhe devia um monte de explicação, porque ele lembrava, lembrava da forma transfigurada de Cora e depois da mesma transformação acontecer com seu namorado e ele queria respostas e se não as conseguisse ele só queria estar ali e receber um abraço que ele estava precisando há muito tempo.
Nenhum dos dois conseguiu dizer uma só palavra, Stiles estava fisicamente melhor ao contrário de Derek, mesmo que o mais novo esbanjasse cicatrizes e hematomas, ele estava com muito menos dor e muito menos abatido o que deixava ele na frente do lobo que estava pálido, abatido e fraco, quase derrotado. Stiles encarou o maior e apertou os lábios, sentiu eles tremerem, ele não queria chorar mesmo que já estivesse com o nó crescendo dentro da garganta desde que pisou naquele prédio e agora, diante de um Derek abatido daquele jeito ele não conseguiu se segurar.
– Por que você está chorando? — o lobo perguntou finalmente dando passagem para o mais novo.
Stiles não conseguia responder, não fazia ideia de por onde começar e Derek podia sentir a angústia do garoto. Trancou a porta e sentiu as pernas trêmulas, estava surpreso em ver o garoto, mas seu corpo não esta ajudando para que ele se mantivesse de pé. Ele se encostou na porta de metal e se deixou ceder, quase escorreu direto para o chão se Stiles não o tivesse apoiado em seu pescoço e o sustentado até chegarem na cama do quarto.
– Eu pensei que você estivesse melhor, meu pai disse que você estava bem. — o garoto recostou Derek nos travesseiros e viu o sangue manchando as gazes que cobriam parte das costas. — Você está todo sujo. — Stiles nunca foi fresco, mas olhar o ferimento o fez lembrar exatamente como ele foi feito e o que ele foi obrigado a fazer, estremeceu e se assustou ao sentir o pulso agarrado por Derek.
– Você tá com medo. — Derek instantaneamente largou o garoto que desviou o olhar e buscou pelo quarto a caixa de primeiros socorros depois voltou para limpar o ferimento.
– Não. — ele retrucou ao comentário de Derek e começou a limpar a ferida, estava infeccionando. — Você deveria procurar um médico. — ele comentou. — Precisa de pontos. — ele buscou dentro do kit alguma força de fechar aquele ferimento. — Se tivesse aqui, eu poderia ajudar. — ele tremia, só de ver todo aquele sangue, o pus em volta da carne, tudo o fazia lembrar de Tom e isso não era bom.
– Por que você está com medo de mim? — Derek insistiu, não estava aguentando o cheiro do medo do garoto, o alto grau de estresse.
– Eu não estou com medo de você. — Stiles acabou encontrando uma agulha e o fio de ponto cirúrgico. — Isso vai doer. — ele comentou jogando álcool iodado sobre os ferimentos, Derek rosnou.
Os rosnados cada vez mais ferozes eram literalmente ignorados por Stiles, o garoto tinha entrado em um modo automático desde que viu o ferimento em estado de decomposição, estava de luvas, esfregando os cortes profundos com álcool iodado, vendo a pele queimar, o sangue e o pus se desfazerem até se tornar um local limpo o suficiente, jogou um pouco de oxigenada e mesmo trêmulo conseguiu preparar a agulha começando a costurar. Derek cravou as garras no colchão e rosnou cada vez mais alto, os olhos em um azul tão gélido quanto um iceberg, assim como as presas expostas deveriam assustar ou chamar atenção do garoto que só se concentrava em terminar de costurá-lo e quando acabou o lobo estava tão cansado que mal conseguia reagir aos toques das mãos de Stiles em seus ferimentos recém costurados.
– O-O... — Stiles ficou sem fala por um momento. — O que você é? — ele perguntou de uma vez, estava distante o suficiente e Derek suspirou, toda a dor ainda passando por seu corpo, atingindo suas terminações nervosas.
– Um lobisomem, por isso, meu ferimento não está curando. De alguma forma eu estou fraco demais para me curar e a prata é um veneno para nós lobisomens. Eu sei que parece loucura, mas eu não pedi para ser assim, eu nasci dessa forma. — Stiles ficou estático, as luvas cheias de sangue, a agulha e a linha nas mãos, o rosto pálido encarando o nada, o olhar sem brilho e a mente tentando processar tudo o que ouviu, tudo o que ele não queria acreditar.
– Mas isso não existe. — Stiles conseguiu dizer, Derek se recostou na cama, a dor estava passando aos poucos, mas a reação do garoto foi suficiente para fazer algo se quebrar dentro dele. — Você não pode ser um... — ele não conseguia dizer. — Por que você escondeu isso de mim por tanto tempo? — a cabeça do garoto doía, estava latejando com tantas informações, ele só queria entender. — Por que não confiou em mim? Por que ninguém nunca confia? Por que todos mentem e escondem as coisas importantes de mim? — ele estava chorando, uma avalanche de sentimentos guardados desde a infância, um turbilhão de sensações que o deixava atordoado e vulnerável.
– É claro que eu confio em você, mas eu não queria que você se afastasse assim. — Derek se aproximou e viu o menino recuar, a agulha cair no chão junto com as gazes sujas. — Por isso eu não contei nada antes, você não conseguiria processar, você teria medo de mim. — Derek se abaixou e mesmo um pouco zonzo colocou aquele monte de coisas no lixo. — Não queria que você tivesse raiva de mim. — o lobo voltou a encarar o menino, Stiles arrancou as luvas e as jogou no lixo.
– Eu não estou com raiva. — ele fungou, queria desesperadamente parar de chorar. — Eu vim aqui porque eu achava que você estava me evitando, que você estava com nojo de mim, porque eu estou. — Derek soltou o ar devagar e puxou o menino contra o peito, não ligava se tudo nele ainda doía e fraquejava, ver Stiles assim era muito pior.
– Stiles, eu não tenho nojo de você, nunca vou ter. O que quer que tenha acontecido naquele cativeiro, não foi sua culpa. Eu não me importo se ele te tocou, isso não muda o que eu sinto por você. — o garoto soluçou.
– Eu ainda posso sentir as mãos dele, tão nojento... — o garoto se agarrou ao corpo do maior.
– Ele não pode mais te tocar. — Derek sentou na cama, trazendo o garoto junto, o impacto o fez grunhir com a dor, mas ele não permitiu que Stiles se afastasse quando tentou. — Você pode confiar em mim Stiles, eu sempre vou estar com você. — Stiles fungou algumas vezes e se ajeitou nos braços do maior, estavam deitados agora e ele não queria machucar Derek.
– Ele me levou para uma sala, eu estava com tanto medo, ele tinha batido na Cora e eu pensei que ele me mataria, mas eu realmente desejei morrer depois, depois que ele me deixou... — o garoto engoliu a saliva e apertou os olhos, Derek o sentia tremer e a si mesmo tentando controlar a fúria que se acumulava. — eu pensei que ele fosse me estuprar. — o garoto soltou e Derek congelou. — Pensei que ele estava tentando me fazer de exemplo, ele me bateu tanto e então... — o garoto se afastou. — Eu não deveria falar sobre isso. — ele se encolheu olhando para o nada.
– Hey. — Derek ergueu seu dedo com o indicador, os olhos tom âmbar brilhando em lágrimas. — Não tem nada de errado em desabafar, você não precisa se importar com o que vai dizer, se isso te faz melhor, apenas fale. — o garoto assentiu e deitou nas pernas do maior, estava se sentindo envergonhado.
– Eu não pude me defender e ele fez questão de deixar claro que aquilo era para me humilhar, que eu não servia para nada, que eu era pior que uma de suas garotas. — ele estremeceu ao lembrar do tom áspero de Tom em seu ouvido enquanto se esfregava em seu corpo.
– Ele te violentou? — Derek não conseguiu frear as palavras e viu o garoto se encolher, abraçando os próprios joelhos.
– Não. — ele murmurou quase sem voz. — Mas ele queria me fazer pensar que sim. — Derek tocou a coluna do garoto que se empertigou. — Ele me deixou tão assustado que eu fiz xixi. — a risada amarga atingiu Derek de um jeito único. — Igual uma criança com medo do Bicho Papão, eu fiz xixi e ele me bateu por isso, logo depois de se esfregar na minha bunda até gozar. Repetindo que eu daria uma ótima garota, talvez ele me tornasse uma. — o garoto não chorava mais, estava perdido no excesso de lembranças ruins.
– Ele não pode fazer mais nada com você. Eu vou me odiar pelo resto da vida por não ter chegado antes, mas ele nunca mais vai poder te machucar e eu não vou deixar que ninguém mais o faça. — o lobo abraçou o menino que tentou se afastar.
– Eu me sinto imundo Der, por favor. — ele pediu tentando se afastar cada vez mais e Derek o prendeu em um abraço possessivo.
– Eu te amo Stiles, não me afaste, não me faça ir para longe. — o garoto relaxou aos poucos, era a primeira vez que ele estava ouvindo aquelas palavras do lobo, ele se virou lentamente até ficar de frente para o lupino.
– O que você disse? — ele perguntou ainda sem acreditar.
– Para não me afastar. — ele franziu o cenho.
– Não, antes. — ele pediu, Derek sorriu.
– Eu te amo. — ele repediu e o menino deu um sorriso triste.
– Que azar o seu amar alguém tão... — Derek tocou os lábios machucados do menino com os dedos.
– Que sorte a minha amar você e saber que é recíproco. — o garoto beijou os dedos do lobo e sentiu os mesmos deslizando pela mandíbula, indo para o pescoço e parando na curva da clavícula onde a blusa começava a tampar.
– Eu quero ser seu. — o menino sibilou tão baixo que só Derek com sua audição lupina poderia ouvir.
– Você já é meu menino morcego. — Derek roçou seu nariz no dele, um toque completamente infantil.
– Eu sei, mas eu quero mais. Você sabe... — ele desviou o olhar de Derek com o rosto queimando.
– Eu não quero te machucar e eu posso, você ainda está tão frágil. — Derek não se importou em ser extremamente sincero.
– Sabe, agora eu entendo porque eu vim até aqui, você foi o único que não mediu palavras comigo. Você não se fez de rogado ao perguntar o que realmente importava ou de deixar claro que não está tudo bem. — o garoto encarou o lobo nos olhos, Derek não sabia o que pensar.
– Você não é mais um bebê, não posso te proteger do mundo o tempo todo, não posso ser menos sincero com você se eu quiser estar do seu lado. — Stiles sorriu e afundou o nariz no pescoço do maior, sentir aquele cheiro amadeirado era tão bom.
– Eu quero ser seu, não me importo com os machucados, não quero mais me sentir usado. — Stiles encarou o lobo com tanta certeza que uma corrente elétrica passou por eles.
– Eu quero você também, mas não vamos apressar as coisas, tudo bem? — Derek deu um selinho no garoto. — Quero aproveitar você um pouco antes da Laura chegar. — ele deu uma leve mordidinha no ombro do menino.
– Eu posso gostar disso. — eles se beijaram.
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