Notas iniciais
Esse capítulo vai parecer meio solto, mas leiam com atenção, ele vai ser importante mais tarde Bem, espero que gostem ♡

No fim, os Deuses não eram tão bons assim.

Aquela fora a primeira vez que caíra, seus joelhos já machucados chocando-se contra a terra batida fria, os gritos da multidão aumentando, sem nunca, é claro, sobrepujar o choro. Por alguns segundos, Rhaena considerou ficar ali, de joelhos, sentindo as pedras pontiagudas e frutas podres colidindo contra seu corpo seminu. Afinal, ela merecia.

—Levante-se.- A voz áspera de seu guarda despertou a rainha, juntamente com a mão coberta de calos segurando o braço magro de Rhaena e erguendo-a rudemente.

Os olhos, agora opacos, da rainha deslizaram pelo público, procurando um rosto conhecido, deparando-se com um mar de rostos raivosos, buscando prazer em torturar e humilhar sua rainha. Em meio ao caos de camponeses zombeteiros, Rhaena enfim reconheceu um rosto, presente nas tapeçarias decoradas da Fortaleza Vermelha. Alysanne Targaryen, a consorte de Jaehaerys I, escondida entre uma prostituta que chamava Rhaena de “fode-irmãos” e um homem rindo da situação da garota, observava Rhaena com aparente desgosto.

“Por que você não luta?” Guinchou a rainha Alysanne, “Eu lutei. Minha irmã lutou. Por que você não luta?”

Ah, sim. Lutar tinha sido uma opção, porém, durante o julgamento, o choro estava alto demais para que Rhaena pudesse pensar ou dizer qualquer coisa. Ela implorara para que fizessem com que aquilo parasse, mas ninguém a ouvira.

—O que você está olhando?- Seu guarda estalou a língua, empurrando-a para frente.- Ande logo, senão Vossa Graça vai matar nós dois.

Rhaena avançou, desta vez com a cabeça baixa, constatando que havia chovido nos dias anteriores. As ruas de barro esburacadas estavam cobertas de poças de água suja e urina. Rhaena nunca vira poças de água suja e urina em Fortaleza Vermelha, por mais que sua irmã Daena sempre reclamasse delas.

Daena, lágrimas vieram aos olhos da rainha, e o choro ecoou mais alto. Estaria Daena viva? Ou estaria em um dos Sete Paraísos, junto com Aegon? Será que ela escapou?

Mas qualquer pensamento sensato escapou de Rhaena, quando, imóvel sobre a sacada de um bordel, encarava-a a Rainha Que Nunca Foi. “Você é fraca.”, ela dizia, calma e ponderadamente. “Não pode ser do meu sangue”.

Sentiu algo frio e pastoso chocar-se contra suas costas nuas. Virou-se para encarar duas crianças magras e esfarrapadas. Elaena, seus olhos encheram-se de lágrimas novamente, Baelor.

Antes de tudo- do casamento, do incidente, das crianças e de Viserys, antes do choro- Rhaena fora devota. Quando era uma princesa sonhadora, frequentava o Septo da Memória todas as semanas, e rezava sob um pequena altar na Fortaleza Vermelha mais de uma vez por dia. Abandonara esse hábito pouco depois que seus deuses a haviam esquecido e deixado que seu casamento fosse consumado. Ela perdera a fé nos Sete quase que completamente pouco tempo depois, quando rezara por vinte e sete dias seguidos e jejuara por sete dias e noites, implorando para que a Mãe não permitisse que sua gravidez continuasse e para que a Velha lhe revelasse quem era o pai de sua criança.

Mas, quando pôs os olhos sobre as crianças esfarrapadas na rua, não pode deixar de rezar para que seus irmãos estivessem bem. Rezar para que nenhum mal lhes atingisse. Baelor queria ser septão, lembrou-se, e Elaena queria ser como Visenya, mas mamãe nunca permitiu nenhum dos dois.

Foi quando tropeçou pela segunda vez. Mas, diferente das outras, não doía. Nada doía. Nada, a não ser o maldito choro.

O guarda continuava a empurrando para frente, Rhaena conseguia ver os portões da Fortaleza Vermelha a sua frente, abrindo-se vagarosamente, cercado por guardas de manto dourado, armados com lanças curtas e espadas nas bainhas. Acima das escadas avermelhadas, Rhae conseguia distinguir duas cabeças prateadas, mas não saberia dizer quem era.

—Rhaena da Casa Targaryen!- Ela reconheceu a voz. Rhaena teria dado tudo o que lhe restara para não ter reconhecido.- De um passo à frente.

Mas a rainha não conseguia mover-se. Suas pernas não a obedeciam, era como se todo o seu corpo soubesse o que iria acontecer se se aproximasse. Fugia de sua lembrança quando a voz de seu tio deixará de ser reconfortante e tornara-se sinônimo de perigo.

—Rhaena, de um passo à frente.- Chamou outra voz, desta vez a seu lado. Rhaena suspirou, aliviada. Aemon, graças aos Sete. Rhaena avançou, ainda hesitante.

—Oh, querida prima!- Disse, em voz alta, Aegon. Rhaena conteve-se para controlar sua ânsia de vômito.- É uma pena que vá acabar assim. Mas é assim que deve acabar. Cometeu um crime, querida prima. Não importa que ele tenha sido apenas me amar.

A garota não respondeu. Não faria diferença. Não mais.

Sua mãe contava-lhe inúmeras histórias sobre seu nascimento; sobre o quão conturbado havia sido, sobre como ela quase morrera diversas vezes antes mesmo de nascer. Daenaera Velaryon também sempre destacava o quão guerreira era, e o quanto havia lutado para se manter viva.

Rhaena odiava-se por ter perdido todos aqueles títulos. Rhaena queria continuar; queria lutar; queria sobreviver. Mas suas esperanças, cada vez mas raras de surgirem, haviam se tornado pó. E Rhaena queria se juntar a elas.

—Rhaena da Casa Targaryen- Era a voz de seu tio.-, pelo poder poder investido a mim pelos Sete Deuses, eu, Viserys da Casa Targaryen, o Segundo de Meu Nome, pelos crimes de alta traição, fornicação e crimes contra a coroa, condeno-a a morte. Sor Mavor, traga-me a cabeça dela.

Empurraram ela para frente novamente. Ela caiu de joelhos novamente. Sentiu alguém se aproximando dela. Uma espada foi desembainhada. Baixou a cabeça, mesmo tendo jurado que não o faria.

Seu coração batia incontrolavelmente; gritos, choros e xingamentos ecoavam na multidão que a assistia; Aegon ria disfarçadamente; mas, na mente de Rhaena, o único barulho que podia ser ouvido, era incessante, alto, maldito, impossível de ser ignorado e, de certa forma, merecido choro.