Notas iniciais
Eu sei que esse capítulo ta BEM pequeno. Mas, vejam bem, ele se passa durante uma viagem, então, não existe muito a se mostrar, e eu apresentei tudo o que queria apresentar nessas ~pouquíssimas~ palavras. Sei que, seu eu ficasse enrolando e colocasse mais um POV, por exemplo, o capítulo ficaria confuso e perderia a qualidade. Mas, para compensar, vou postar outro capítulo ao longo da semana, além do de domingo.

Sua cabeça latejava, seu corpo se movimentando nada elegantemente sobre o cavalo de areia. Respirou fundo, tentando manter-se ereta sobre a montaria. Honestamente, ela tinha vontade de esmurrar a irmã todas as vezes que fazia aquilo. A irmã mais nova batera o pé firmemente durante quase todo a manhã, forçando a comitiva a seguir durante o dia; sob o sol infernal e sobre a areia quente. Não entrava da cabeça da outra que seguir durante a noite seria melhor para todos- cavalos, soldados, aias e sua crianças.

Ariella sabia porque Ameera havia feito aquilo; mesmo assim, não conseguia entender a razão disso. Ariella era a mais velha, mas havia aberto mão do direito de herdar antes mesmo dos treze anos. Governar não era o forte da Martell, e poder não estava em sua lista de prioridades; principalmente depois do nascimento de sua primeira filha. Porém, Ameera não parecia ter assimilado isso por completo.

A mais nova precisava mostrar constantemente sua superioridade em relação a mais velha, frequentemente dando ordens contrárias às de Ella. Aquele era mais um exemplo. Às vezes, pensava que sua irmã tinha a mesma mentalidade de Layla, sua terceira filha.

—Mamãe, quando vamos parar?- Uma voz manhosa chamou, atrás dela. Ella virou apenas a cabeça, sorrindo para a segunda filha.

Se não estivesse estado presente na hora do parto, não diria que Saenys havia nascido dela. Ela havia preservado todas as características do pai, um nobre lyseno, e se portava exatamente como uma dama da Cidade Livre. Calma e sensata, frequentemente era a voz da razão, tanto para as irmãs quanto para a mãe. Apesar das queixas do pai, Ariella insistira em leva-la consigo para Porto Real. Sabia que a pequena iria encantar a todos, e isso, por mais que o pai negasse piamente, era uma arma.

Que o Senhor da Luz me perdoe, pensou, lembrando-se de que não havia prestado seu dever naquele dia. Teria que conversar com Elire, sua sacerdotisa, mas não pensava que a punição seria tão grave.

—Logo, meu amor.- Respondeu. Saenys sorriu de volta e Ariella sentiu orgulho da filha.

Ella não era sedenta por poder, mas sua garganta queimava por vingança. Os Targaryen- principalmente a maldita Elaena Sangrenta- haviam feito sua casa, seu reino e seu povo sofrerem- sangrarem. Os dorneses haviam sido obrigados a baixarem a cabeça e se curvarem aos odiosos dragões; mas ela sabia que o povo estava apenas esperando por alguém que os guiasse para longe da rainha. Ariella não podia evitar que seu sangue fervesse. Naqueles momentos, pensava em liderar uma rebelião, em declarar independência e se vingar dos dragões vermelhos.

Mas, também naqueles momentos, ela se lembrava de tudo o que custaria; se perdessem, sua família e seu povo seriam massacrados; se vencessem, seu povo morreria e seu tesouro seria gasto na guerra. Eles seriam obrigados a se dobrar novamente para garantir alimento o suficiente.

Respirou fundo. Não seria capaz disso, afinal, seu mais profundo desejo sempre seria a paz. Viver com suas filhas em um castelo em Dorne ou uma mansão em Lys, desfrutando da calma, longe de todos aqueles jogos e guerras; longe dos dragões vermelhos e de Elaena Sangrenta.

Tudo seria mais fácil se eu tivesse aceitado a proposta de Rogare. Mas as coisas não poderiam ser fáceis para ela; nunca haviam sido. Tudo seria melhor se Elaena Sangrenta e seu rei capacho nunca tivessem subido ao trono.

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Ela sabia que estava errada, mas recuar já não era uma opção. Se recuasse, seria uma perdedora, e não seu orgulho dornês não poderia suportar isso de maneira alguma. Era a herdeira, a princesa herdeira de Dorne, mesmo que “princesa” equivalesse a “senhora”, segundo as leis dos Targaryen. Não importava, seria senhora em seu próprio direito, não a esposa de um lorde qualquer.

Franziu o cenho, tentando enxergar em frente, em busca de um castelo. Haviam seguido para o sul, para o Sangueverde, atrás de uma viagem mais confortável, para depois seguir o rio em direção as marcas. Porém os últimos resquícios do Sangueverde haviam ficado mais de duas milhas atrás deles. O deserto deveria ter acabado dois dias antes, e Ameera poderia dizer, sem medo de errar, que eles estavam perdidos. Não havia sinal algum de Paloferro, sinal algum das Marcas.

Patético, pensou, dorneses perdidos em Dorne. O deserto, que tantas vezes os salvara de invasores pregando peças em seus próprios senhores.

—Ninguém é senhor dos desertos, princesa.- Lembrava-se de seu falecido marido dizer. Como se ele soubesse algo do deserto, o maldito.

Lembrar de Will fazia o estômago da princesa se revirar e seu sangue ferver. Trazia a tona todos os sentimentos que ela mais queria esquecer, e a terrível imagem de seu amado se contorcendo de dor. Ele está morto, Ameera, suspirou, São apenas fantasmas, e fantasmas não podem te machucar. Pensar em Will e em Daemon Sand a deixava sentimental, Ameera odiava isso.

—Princesa Ameera!- Alguém se aproximou dela, a princesa virou-se para encarar um cavaleiro, que arfava.- Princesa Ameera, uma carta para a senhora.

—Obrigado, sor.- Estendeu a mão para pegar o bilhete.

Observou a carta, percebendo que não continha o selo Martell, ou qualquer selo, e nem identificação como vinda do príncipe. Não conseguia pensar em nenhuma outra pessoa que quisesse tão urgentemente se comunicar com ela. Rompeu o lacre branco lentamente, temerosa em danificar a mensagem misteriosa.

“Ameera,

Notícias chegaram do outro lado do mar, enviadas pelo pai de sua sobrinha- Ariella, obviamente. Tudo era sobre Ariella-. Os Blackfyre se movem, querida. Já estão aliados aos Corvos Tormentosos e a outras companhias; nobres de Lys estão jurando-lhes lealdade, cedendo-lhes soldados-escravos. Temo que algo esteja se aproximando e que o reinado dos dragões vermelhos esteja perto do fim.

Nos juntamos aos domínios deles, você sabe disso. E suponho que não esteja cega ao ódio que o povo alimenta por eles; também creio que saiba que, se formos a guerra ao lado deles…bem, nós cairemos. Se ficarmos neutros, o povo irá nos massacrar; não iriam suportar ficar fora da guerra que derrubaria os Targaryen. Só nos resta uma opção filha.

Amee, algo ruim está se aproximando. Não podemos nos manter imóveis.

Com amor,

sua mãe"

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—Senhora Obella da Casa Allyrion- Anunciou o arauto-, sobrinha do príncipe Maron de Dorne.

Mesmo depois de anos vivendo na Fortaleza Vermelha, ela ainda tinha medo daqueles malditos dragões.

Obella Allyrion havia visto catorze dias de seu nome, e, em breve, veria seu décimo quinto e residia na Fortaleza Vermelha, como protegida da rainha Elaena- uma refém, na verdade-, desde os seis anos de idade. Todavia, ela nunca conseguira se acostumar com os crânios de dragões dispostos na sala do trono.

Enquanto caminhava entre as pessoas da corte em direção a monstruosidade de ferro de Aegon, ela sentia seus olhos ocos queimando suas costas, juntamente com os das senhoras, lordes e sores da corte. Mesmo assim, a garota continuou avançando em direção ao Trono de Ferro com a cabeça erguida, ignorando os comentários e risos dos membros da corte de Jaehaerys.

—Vossa Graça.- Obella ajoelhou-se em frente ao trono, onde o Velho Rei observava-a com seus olhos purpúreos.

A garota dornesa sentia que apenas seus olhos queimavam da mesma intensidade que o fizeram um dia. Os cantores diziam que ele fora um cavaleiro, como os das canções, nobre, belo e galante. Mas tudo aquilo fora antes do incidente, e os cantores nunca falavam o incidente. Sua pele branca e manchada dobrava-se sobre os ossos quase aparentes, seus cabelos de prata não brilhavam, seu rosto queimado parecia não ser capaz de sorrir, e falar parecia um esforço grande demais. O rei não a respondeu, apenas assentiu e gesticulou para que ela tomasse seu lugar em meio as outras damas da corte.

Obella caminhou até o lado esquerdo do salão instalando-se entre Mariya Hayford e Alyssa Velaryon, percebendo um olhar de nojo da primeira garota. Ela não entendia o porquê daquele nojo. Os Hayford era uma casa pequena, que vira o auge de seu poder quando o Príncipe Exilado, Valerion, quase fora prometido a Elyna, irmã mais velha de Mariya; era uma honra para ela estar no mesmo ambiente que uma Allyrion, mesmo dadas as circunstâncias. E, no fim das contas, ela também era uma Martell, do sangue roinar. Sua mãe, Myriah Martell, sempre a lembrava disso, instigando-a a odiar os filhos de Valíria.

Porém, apesar de tudo que os Targaryen haviam feito sua família e seu povo sofrerem, ela não poderia deixar de admirá-los. Não apenas por causa dos dragões- estes já estavam mortos, mesmo que seus crânios estivessem dispostos a seu redor. Nem mesmo por sua aparência, afinal, os Dayne de Tombastela poderiam ter a mesma, sem ter o maldito sangue do dragão e qualquer prostituta lysena tinha os olhos violetas.

Não, o motivo de sua admiração pelos dragões vermelhos nunca poderia ser descoberto. Que os Sete a perdoassem, ela amava o fato de eles terem conquistado os Sete Reinos. Obella se sentia honrada em estar um sua presença- principalmente da rainha Elaena-; sentia como se encontrasse uma deusa, um ícone.

—Senhora Ysha de Myr.- Anunciou novamente o arauto. Obella se desligou de seus pensamentos proibidos para fitar a mulher morena que agora ia em direção ao trono, cercada de rendas e sedas alaranjadas e serpenteantes.

—Vossa Graça- Ela disse, com um sotaque forte, fazendo uma reverência breve.- Sinto-me honrada em ser recebida tão bem em sua corte.

Obella encarou a mulher, que parecia estar na casa dos vinte, boquiaberta. Ela conhecia uma Ysha de Myr, e não era aquela. A dornesa conhecia mercadores de Myr, e eles não tinham aquele sotaque. Obella conhecia aquela mulher.

A aparência não batia com nenhuma de algum conhecido; mas seus olhos não lhe eram estranhos, assim como sua voz. Seus cabelos, negros e ondulados, pareciam já terem sido vistos por Obella. Mas a característica que mais se sobressaia nela, eram seus lábios, pintados de vermelho. Estes eram os que mais se destacavam em suas memórias precárias. Porém, o nome daquela que se denominava Ysha de Myr não vinha-lhe à mente.

A mulher refez sua reverência, caminhando lenta, sensual e elegantemente em direção a um dos lugares vazios, atrás de Obella. Nesse caminho, ela sorriu sugestivamente para a senhora, e o real nome dela queimou em sua memória como um ferro escaldante queima a pele de um escravo.

Amaya.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado! Obrigado por terem lido e comentem, é sempre bom ver o que estão achando da estória. Criticas construtivas, opiniões e sugestões serão sempre bem vindos! Beijos!