Ride
2 Capítulo 1 - A Vida de uma Lolita
Notas iniciais
A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas — impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore; pouco a pouco vai fabricando uma provisão de ensinamentos para a vida.
Juliusz Slowacki
Arizona, Phoenix, 1982
Eu não tinha nenhum lugar para ir, eu não tinha outra opção a não ser resgatada por este lugar; eu estou sozinha e triste comigo mesma, triste com minha vida e o rumo que ela tomou; estou triste comigo por ser uma fraca e por me sentir incapaz de fugir das coisas perigosas.
Eu ergui meu rosto e me fitei diante do espelho.
Quem é você Bonnie McCullough? Porquê a vida quis isso para você? O que eu fiz para merecer isto?
São perguntas tão tolas, porém eu sempre as questiono.
Admito que agora minha vida melhorou questionavelmente. Antes eu vivia numa casa que assombra meus sonhos toda noite. Nenhuma criança ou adolescente deveria viver do modo que eu vivia, sem amor e afeto dos pais. Uma mãe não deveria deixar o pai abusar da filha com seu consentimento, ela não deveria desviar os olhos e fechar a cara, das as costas e fechar à porta deixando a criança sozinha com seu padrasto.
Se você está pensando que a criança sou eu, acertou em cheio.
Oh, a pequena Bonnie, com sua pele branca feito neve, macia e calorosa; uma porcelana. Cachos ruivos e volumosos, rosto em forma de coração. Tão doce, tão ingênua, tão boba...
Tudo começou quando eu tinha onze anos, quando minha mãe separou-se do meu verdadeiro pai e abandonou sua casa, levando-me junto. Ela apenas me levou, pois nem mesmo meu pai me queria, ela me levou embora junto com ela com desprezo.
Lembro-me até hoje.
Ela descia as escadas da varanda para a rua apressadamente, enquanto carregava suas malas. Eu estava encolhida num canto da varanda, apertando meu pequeno Buggy contra meu peito — meu urso -, assustada com tudo que estava acontecendo. Mamãe carregava as malas até seu carro estacionado ali na frente, colocando as malas com violência no porta-malas, dizendo palavras que eu não entendia, mas sabia que eram feias, porque na escola eles repreendia os alunos que as diziam.
A porta de casa abriu-se num solavanco, lembro-me de ter me encolhido mais ainda com o susto. Era papai. Sua face era uma máscara de raiva e indignação.
– Você não pode fazer isso, Lisbeth! — vociferou ele, indo com passos pesados até mamãe, que se virou para ele furiosa.
– Eu quero que você vá se ferrar! — ela cuspiu as palavras nele.
Papai não gostou do que ela disse, ele a segurou fortemente em seu antebraço e a puxou, forçando-a para voltar a casa. Mamãe gritou, disse novamente várias daquelas palavras feias. Papai continuou dizendo que ela não podia fazer aquilo, que ela deveria entender que ele cometeu um erro, mas que não voltaria a faze-lo.
– Foda-se! — ela gritou, usando de toda a sua força para se soltar. — Não me importo com você, quero mais é que você fique mesmo com aquela vadia, acho que ela é muito melhor de cama do que eu, não é mesmo? — disse mamãe, ela sorriu; no entanto, não fora um sorriso amigável, fora cruel, frio, assustador. — Até porque, se ela não fosse, você não teria comido o rabo dela dentro da nossa casa!
Papai a encarou.
– Além do mais — prosseguiu mamãe, tão friamente que eu me arrepiei e seu olhar era tão afiado quanto um facão de caça. — Eu nunca te amei, seu estúpido machista. Nunca.
E cuspiu nele, literalmente.
Papai parecia perplexo, mas como eu disse, apenas parecia. Seu maxilar estava rígido e seu rosto era uma mistura de nojo e ódio. Ele limpou o rosto com a outra mão e depois soltou mamãe, que se afastou dele num único passo.
Papai girou-se e voltou para casa, ele subiu as escadas e só naquele momento ele pareceu me ver, quando virou o rosto e me fitou. Aqueles segundos parecerem intermináveis, eu me senti fraca, senti medo, porém não chorei. Papai caminhou até mim e eu arregalei os olhos, ele agarrou-me pelo braço e tirou-me da varanda, descendo as pequenas escadas e depois soltou-me. Eu me desequilibrei e cai de joelhos no chão, Buggy caiu de minhas mãos e rolou pela grama.
– Já que vai embora, leve-a consigo — disse papai, com uma voz ácida. — Ela é sua filha e como mulher, você é obrigada a ficar com ela; seu dever de mãe.
Eu ergui meu rosto e olhei para mamãe, e foi naquele segundo que eu percebi que ela me desprezava. Ainda assim, ela não relutou, aproximou-se de mim e me puxou para cima.
– Vamos. — disse ela.
– Espera, o Buggy! — eu disse.
Ela teria ignorado, porém foi sua chance de encarar papai novamente e lhe lançar um olhar duro e repugnante. Pegou Buggy e deu as costas para a casa em que vivíamos, a casa que, por mais que eu não tivesse passado bons momentos, ainda sim era a melhor. Onde eu pelo menos tinha a minha família reunida. Contudo, eu tinha.
Mamãe abriu a porta do carro e entrou.
Eu virei-me para papai e o olhei, uma lágrima salgada escorreu pelo meu rosto.
Oh, papai, você não tem ideia do quanto o amo e sentirei sua falta. Pensei.
Mas papai não devolveu o meu olhar, ele apenas virou as costas e fechou à porta atrás de si.
Fora como uma facada no peito.
– Vamos, Bonnie! Não tenho o dia todo. — rosnou mamãe e eu me apressei para entrar no carro e sentar no banco do motorista.
Agarrei Buggy com mais força e fechei os olhos quando mamãe acelerou com o carro, eu não queria olhar para trás e ver a casa em que vivi, não queria olhar e não ver papai nos olhando do lado de fora com um olhar de dor. Fechei os olhos, impedindo que as lágrimas caíssem, mamãe odiava quando eu chorava.
Contudo, naquele instante, não foi eu que perdi a guerra contra as lágrimas.
Abri meus olhos lentamente e girei minha cabeça na direção de mamãe. Ela apertava com força o volante do carro, lágrimas e mais lágrimas desciam de seus olhos, molhando a gola de sua blusa. Ela soluçava forte, murmurava palavras, não palavras feias, mas palavras que me tocaram.
– Por quê, por quê... Seu burro, oh, seu idiota. Porquê fez isso comigo? — ela soluçou novamente. — Eu te amava... Oh, droga, eu te amo tanto...
Ela socou o volante com força, soltando um grito furioso. Eu apenas assistia a cena, ela parecia ter se esquecido de mim. Eu sentia pena de mamãe, sabia que ela estava sofrendo e que sabia esconder tudo muito bem. Mas ali no carro, a parede que sustentava sua forma fria, havia sido derrubada.
– Mamãe...
– CALE A BOCA! — Ela se virou para mim com os olhos ardendo em fúria, porém vermelhos por estar chorando. — Cale a boca, Bonnie, apenas cale a maldita da sua boca.
Diante do espelho, eu suspirei.
Relembrar este tipo de coisa nunca me fazia bem, não era nada nostálgico, é claro que não. Nada do que eu vivi depois daquele dia, era coisa para ser nostálgica. Não demorou muito tempo para mamãe encontrar outro homem, mais velho que ela uns dez anos. Nós fomos morar com ele, lembro-me que ambos sorriam um para o outro, sussurravam coisas em seus ouvidos; beijavam-se e depois saiam da sala em direção ao quarto.
Sai da frente do espelho quando ouvi meu nome sendo pronunciado.
– Está na hora do show! — disse Meredith, chamando-me. — Você está ótima hoje e como sempre, Bonnie.
– Você também. — sorri para ela.
– Espero que hoje estes infelizes nos deem uma boa grana, estou precisando. Quero comprar umas roupas novas naquela loja que vimos semana passada na Strip.
E caminhamos juntas em direção ao clube, saindo da sala onde eu e outras garotas arrumavam-se e vestiam-se. Essa era minha vida, monótona.
Eu fui constantemente abusada pelo namorado de mamãe, que acabou virando meu padrasto. Ele me pedia que o tocasse em suas partes íntimas e ele fazia o mesmo comigo, passando a mão em meu bumbum, subindo até meus seios que ainda estavam se formando. Mamãe não se importava. Acho que para ela, era melhor que o seu homem ficasse com sua filha do que com uma vadia por ai.
Nenhuma garota deveria perder a virgindade com seu padrasto.
Foi doloroso, é claro que me lembro, eu tinha treze anos. Ele havia me jogado na cama, neste dia mamãe não estava em casa, mas mesmo se estivesse, não ligaria do mesmo jeito.
Ele estava nu, sua barriga era saliente, seu peito era peludo, e sua barba estava a muito tempo para fazer. Não era a primeira vez que eu o via nu, ele fazia aquilo às vezes, pedindo que eu fizesse coisas nojentas com seu pênis. Mas a questão, fora que eu estava pelada também. Ele havia arrancado o vestido que eu usava, pedi que ele parasse, mas ele não parou. Tentei sair da cama, mas ele jogou-me nela novamente e pediu que se eu não ficasse quieta seria pior ainda.
Ele me mandou ficar de quatro, é claro que eu não fiz, mas ele me forçou.
Fora vergonhoso e nojento.
Senti-lo me penetrando fora pior ainda, eu soltei um grito, mas ele tampou minha boca e sussurrou em meu ouvido, senti seu hálito de álcool e cigarro soprando meus cabelos.
– Shh. — disse ele. — Você é apertada em, mas eu dou um jeito nisso sua ninfetinha.
Ele riu e penetrou-me com mais força e assim sucessivamente.
Eu chorei, e muito neste dia. Ele fez sexo comigo por mais duas horas em tantas posições que eu pensei que nunca fosse acabar. Eu não sentia nada além de nojo e dor.
Eu sofri por mais três anos, até o dia em que eu não aguentei mais. Fugi de casa e vim parar onde estou hoje.
Num clube de strip tease.
Meredith foi na minha frente pelo corredor, passamos pela porta num canto do clube e cada uma foi para a sua direção. As mesas ficavam dispostas ao redor de cada pole dance que tinha ali. Um bar estava do outro lado, com bebidas à vontade e um balconista secava os copos.
Este fora o único lugar que me resgatou, eu estava com dezesseis anos ao chegar aqui, hoje tenho dezessete. Não sou prostituta, nunca me prostitui, apesar de que há garotas aqui que fazem isto para ganhar mais dinheiro. Todavia, a única coisa que eu faço é dançar, mostrar o corpo para homens que não se sentem bem em suas próprias casas, homens que estão estressados e resolvem vir para cá a fim de amenizar o dia cansativo.
Eu subi em meu pequeno palco no meio de três mesas, a música que tocava era calma, ótima para este tipo de coisa. Logo eles foram chegando e logo a roupa que eu usava fora ficando no chão. Eles olhavam para mim fascinados, os olhos percorriam meu corpo lentamente enquanto eu rodava no pole dance e lançava olhares provocativos, enquanto mordia o lábio, como parte de meu trabalho.
Parte da minha mais nova vida.
Uma vida que eu pretendia que alguém me socorresse, e me levasse para um lugar muito melhor.
Alguém.
Fale com o autor