Notas iniciais
Sara cuida de Grissom pós o trauma de assistir o suicídio de Ernie Dell.

Grissom tomou um susto enorme, e o que já estava ruim, piorou. Há dias ele vinha disperso, pensativo, e com essa cena, parecia que algo errado dentro dele havia se modificado. O supervisor ficou em choque: respiração acelerada, sudorese, e permaneceu como se estivesse catatônico.

Sara foi até a sala do namorado para verificar se ele havia ido embora. Encontrou-o ali, perdido, tentando processar o que tinha acontecido. Percebeu que ele estava em choque — devagar, pálido, imóvel — e, com uma calma que ela mesma não sabia que possuía naquele momento, falou suavemente:

SS: Amor, vem... levanta.

No piloto automático, ele a acompanhou até o sofá. Sara ofereceu um copo d’água, que ele prontamente aceitou. Sentou-se ao lado dele, fazendo carinho em sua mão, sem se importar se seriam vistos naquela situação. A perita apenas queria acalmá-lo, esperando que, quando estivesse pronto, ele falasse.

SS: Gil, está tudo bem agora. Fica calmo... respira pausadamente. Quando quiser falar, eu estou aqui. Mas, se não quiser e preferir ir pra casa, nós vamos.

Alguns minutos se passaram.

GG: Sara... Eu estava aqui e ouvi o som de recebimento de e-mail. Fui verificar... era do Ernie Dell. Começou um vídeo... ele falava sobre si mesmo... e sobre as mortes... e, de repente, pegou uma arma e... ele... atirou na ca... cabeça.

SS: Meu Deus...

GG: Está ali!!!

Sara se levantou, verificou o e-mail, e enquanto fazia isso, Brass e Catherine entraram. Logo notaram o estado do supervisor. Diante da preocupação imediata dos dois, Sara explicou o que havia acontecido — e então, todos assistiram ao vídeo.

CW: Que coisa doida! Brass, Sara… acho melhor vocês levarem o Gil para casa. Eu vou arquivar esse vídeo e encerrar o relatório.

JB: Doido mesmo… Quando entramos, pensei que teria que prendê-lo, mas tudo o que vi foi ele atirando em si mesmo, sem nem termos tempo de agir.

CW: Nick ainda está tentando processar tudo. Vamos, Sara… leve o Gil.

Gil foi no carro com Sara; Jim os seguiu logo atrás. Chegaram ao apartamento em silêncio. A morena conduziu o namorado diretamente para o banho, enquanto Brass se ofereceu para preparar um chá para todos.

Sara ajudou em tudo — e durante todo o tempo, Grissom permaneceu calado. Ele tomou o chá em silêncio, depois se despediu dos dois e foi direto para o quarto.

JB: Sara, acho melhor você tirar uma dúvida com seu irmão. Ver se ele vai precisar de alguma medicação.

SS: Sim, vou ligar agora.

Sara pegou o celular e se afastou até a varanda, tentando não deixar que a voz embargada denunciasse seu estado. Discou rapidamente para James, que atendeu no segundo toque.

Mario: Alô?

Sara: Oi, é… sou eu.

A pausa longa fez com que ele imediatamente se alertasse.

Mario: O que aconteceu? Tá tudo bem com você?

Sara: Comigo sim. Mas… é o Gil. Ele… passou por uma situação complicada hoje no trabalho. Ele recebeu um video de um homem se suicidando. Foi praticamente ao vivo.

Do outro lado da linha, o irmão ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a gravidade.

Mario: Nossa! Ele está com você agora?

Sara: Sim. Tá em casa. Calado. Não fala nada desde que saímos do laboratório. Eu consegui dar banho nele, o Jim preparou um chá… mas ele só… tá em silêncio. Foi muito pesado, Mario.

Mario: Imagino. O cérebro dele ainda deve estar em choque. Ele tem histórico de episódios de ansiedade ou dissociação?

Sara: Não que eu saiba… mas você sabe como ele é, né? Se fecha. Guarda tudo.

Mario: Conheço esse tipo. Ele vai precisar de tempo, mas também de acolhimento profissional. A reação dele é mais do que normal, mas é importante monitorar.

Sara encostou no parapeito da varanda, cruzando os braços enquanto olhava a cidade escura à sua frente.

Sara: Você acha que ele vai precisar de medicação?

Mario: Talvez algo leve, só pra ajudá-lo a dormir, se ele estiver com insônia ou agitação noturna. Mas só com avaliação. Eu passo mais aí e levo uma Psicóloga amiga minha. Pode ser?

Sara: Se puder… seria ótimo.

Mario: Claro. Vou estar aí logo, logo. Enquanto isso, fica com ele. Deixa o silêncio acontecer, mas fica por perto. Ele vai sentir que não está sozinho, mesmo que não consiga falar.

Sara (em tom baixo): Obrigada, Mario. De verdade.

Mario: Eu tô aqui, maninha. Sempre.

Jim e Sara conversaram sobre o relacionamento dos peritos e o capitão afirmou que estaria sempre apoiando eles.

Assim que Mario chegou, Jim saiu.

Mario avaliou brevemente Grissom, que já estava acordado, mas ainda visivelmente introspectivo.

A Psicóloga, amiga do médico, é alguém acostumada a lidar com traumas em profissionais da linha de frente. Grissom aceitou — mais por consideração a Sara do que por vontade própria — mas ao final da conversa, algo dentro dele pareceu se abrir.

A terapeuta, uma mulher de fala serena e olhar acolhedor, escutou atentamente cada pausa, cada silêncio prolongado e cada frase entrecortada dele. Ela não o forçou a reviver o ocorrido. Em vez disso, sugeriu alternativas práticas para ajudá-lo a sair daquele estado de torpor emocional.

Psicóloga: O exercício físico é uma forma poderosa de autorregulação. Uma simples caminhada, por exemplo, pode ajudar seu corpo a liberar endorfinas — e isso afeta diretamente sua sensação de bem-estar.

GG (olhando o chão): Caminhar… soa simples demais.

Psicóloga (sorrindo de leve): Às vezes, as coisas mais simples são as mais eficazes. Além disso, a caminhada não é só física. Ela dá uma pausa à mente. Você pode respirar… se reconectar com o agora.

Grissom assentiu lentamente. E, em dado momento da conversa, sentiu necessidade de compartilhar algo que até então havia guardado só para si.

GG: Me fizeram uma proposta. Uma universidade em Massachusetts. Querem que eu lecione por um mês… talvez mais.

Psicóloga: Isso soa como uma excelente oportunidade. E não só profissionalmente.

GG (com hesitação): Eu não contei pra ninguém ainda.

Psicóloga: E não precisa contar agora. Apenas pense com carinho. Estar fora da cidade por um tempo pode ser benéfico. Um novo ambiente… menos gatilhos.

GG: É… pode ser.

A conversa chegou ao fim de forma tranquila. Grissom agradeceu com um aperto de mão firme. Ao voltar ao quarto, sentou-se por alguns minutos à beira da cama. Retirou os sapatos, se deitou e, sem que percebesse, o sono veio rápido e profundo — como se, pela primeira vez em dias, sua mente tivesse baixado a guarda.

Ela foi até a sala onde os irmãos esperavam e explicou a Sara uma coisa:

Psicóloga: Não é incomum que o trauma nos faça reviver o evento em nossos sonhos, enquanto estamos dormindo, então é possível que Grissom tenha pesadelos. Aparentemente ele me parece bem e com cuidados vai ficar tudo certo. Ele conseguiu pegar no sono.

MS: Sara acho melhor de momento que ele não tome nenhum remédio já que com o chá ele controlou, então vamos ficar assim. Vá descansar e qualquer coisa me chame.

SS: Obrigada vocês dois pela ajuda e pode deixar que qualquer coisa eu chamo mesmo.

de vir aqui porque me dá paz. Relaxa.

Ele a olhou de lado, com um meio sorriso travesso.

GG: Bom… eu tenho umas ideias mais interessantes de como relaxar.

SS (arqueando a sobrancelha): Ah é? Posso saber quais?

Ele não respondeu — ao invés disso, puxou a namorada para si e a beijou com ternura, deixando-se levar pelo momento, pela brisa leve e pela presença dela. Ficaram ali abraçados, trocando carícias e palavras baixas.

Quando o sol começou a se pôr, Sara sorriu de forma misteriosa.

SS: Tenho uma surpresa pra você.

GG: Posso saber qual?

SS: Não. Surpresa é surpresa!

Ele riu e revirou os olhos de leve, já curioso. Mas, naquele instante, estava feliz só por estar ali, com ela, longe de tudo, e sentindo pela primeira vez em dias que estava realmente começando a respirar de novo.

Sabendo da paixão do namorado por montanhas-russas, Sara preparou tudo em segredo. Reservou um quarto no Hotel New York-New York, em Las Vegas, para que eles pudessem aproveitar tudo de um jeito diferente. A montanha-russa do hotel era famosa: contornava todo o edifício e passava por réplicas icônicas de Nova York, incluindo uma Estátua da Liberdade e prédios que imitavam o skyline da cidade. O mais curioso? Os assentos tinham o formato dos típicos táxis amarelos nova-iorquinos.

Assim que chegaram ao local e Grissom reconheceu onde estavam, os olhos dele brilharam de imediato.

GG: Isso é sério...?

SS (sorrindo): Muito sério.

Ele ficou alguns segundos parado, absorvendo o momento — emocionado por ela ter se lembrado desse detalhe.

SS: Pelo seu jeito… acho que você gostou!

GG (ainda em choque): Gostei? Amei! Eu estava mesmo precisando disso…

(pausa, empolgado) Você vai comigo???

SS: Posso ficar te esperando aqui embaixo? Eu morro de medo dessas coisas!

Ela fez uma careta adorável, segurando o riso — e foi o suficiente para Grissom cair na gargalhada.

Enquanto riam, um casal ao lado discutia exatamente o mesmo dilema. O rapaz parecia ansioso para ir, e a namorada visivelmente apavorada.

GG (para o rapaz): Que tal irmos juntos e deixarmos as corajosas esperando?

Os dois homens trocaram um olhar cúmplice e em segundos já estavam na fila. Sara e a outra garota ficaram conversando, observando os dois embarcarem.

Na volta, Grissom desceu com um sorriso largo de alguém que havia reencontrado uma parte de si.

SS: E aí?

GG: Você um dia ainda vai comigo.

SS (rindo): Ok… não vou dizer que nunca irei, mas no momento… é um “não” bem firme!

Ele deu uma piscadela, ainda rindo, e passou o braço ao redor dela enquanto voltavam para o hotel. Grissom se sentia leve — e Sara sabia que, por mais simples que fosse aquela surpresa, ela havia feito a escolha certa.

No outro dia Gil amanheceu bem, mas a folga foi interrompida pelo chamado de Eckley para Grissom comparecer numa reunião.

Os dias foram passando e, à primeira vista, tudo parecia mais calmo. Grissom seguia a rotina, caminhava com Sara e Hank, voltava ao laboratório em ritmo leve… mas por dentro, os sintomas de estresse continuavam latentes. Dores de cabeça silenciosas, insônia disfarçada, suspiros profundos quando ninguém estava olhando.

Sentado à mesa de seu pequeno escritório em casa, olhou mais uma vez o convite impresso que havia recebido da Universidade de Massachusetts. Como se o pensamento tivesse sido captado pelo universo, o celular tocou. Era o reitor da instituição.

A conversa foi breve, mas definitiva. A gentileza do reitor, o tom respeitoso e o reconhecimento à sua carreira o convenceram. Grissom aceitou. Trinta e cinco dias longe de Las Vegas. Do sangue. Dos laudos. Da violência.

Desligou e ficou por alguns segundos olhando para o nada, sentindo um misto de alívio e culpa. Não sabia como contaria a Sara. Uma parte de si achava que ela entenderia. A outra… temia decepcioná-la.

Mais tarde, procurou Conrad Ecklie em seu gabinete e explicou, de forma prática, a decisão tomada.

CE (espantado): Gil… como vamos ficar trinta dias sem você aqui?

GG: Na verdade… são trinta e cinco.

(deu um leve sorriso, tentando aliviar o clima)

E vocês vão sobreviver.

GG (tom mais sério): Olha, Conrad, de verdade… eu preciso ir. Sinto falta de dar aula. E, mais do que isso… estou precisando ficar longe da violência de Vegas por um tempo. Respirar outros ares.

Ecklie cruzou os braços, avaliando a expressão do supervisor.

CE: Bom… por coincidência, já tinham me oferecido um rapaz para substituir temporariamente alguém aqui. Vou aproveitar e trazê-lo.

Grissom assentiu, aliviado por não ter encontrado resistência.

GG: Peço, por favor, que não divulgue ainda meu sabático. Quero contar eu mesmo. No tempo certo.

CE (num tom mais leve): Ok. Mas não demore. Você sabe como as paredes aqui escutam tudo.

Grissom esboçou um sorriso discreto e saiu da sala com o peso um pouco mais leve. Agora, só faltava a parte mais difícil: contar para Sara.

Os dias passaram rápido demais, e Grissom seguia adiando a conversa com Sara. Toda vez que ensaiava contar sobre a viagem, algo o impedia — uma mudança de humor dela, uma interrupção, ou simplesmente o medo do impacto.

O problema era que o tempo estava acabando. Faltavam apenas 48 horas para o embarque e ele ainda não havia dito nada.

Numa tarde comum, estavam sentados na sala, cada um com uma xícara de chá. Sara mexia no celular quando percebeu que ele a encarava em silêncio há um bom tempo.

SS (arqueando uma sobrancelha): Aconteceu alguma coisa? Você tá me olhando tão sério…

GG (desviando o olhar): Nada. Só… te admirando. E me perguntando como fui tão idiota com você no passado.

Ela soltou um suspiro, sorrindo de leve.

SS: Hei, hei… já passou, Grissom. A gente superou isso. Agora vem, vamos praquele banho… aquela banheira enorme tá te esperando.

Ela se levantou, mas antes de ir, voltou-se para ele.

SS: Ah! Amanhã vou pra Henderson. Preciso reavaliar um caso que vai a julgamento. O juiz pediu mais detalhes e vou acabar dormindo lá. Volto no outro dia.

Era a deixa perfeita. Ele respirou fundo.

GG: Sara… eu preciso falar com você.

SS (parando na porta do banheiro): Fala?

GG (nervoso): Então… ééé… eu… quer dizer… o que eu tenho pra te dizer é…

Nesse exato momento, o telefone de Sara tocou. Ela olhou o visor e atendeu com um olhar de desculpas.

SS: É o Ecklie. Um segundo…

Grissom fechou os olhos por um instante, como se estivesse pedindo força ao universo.

Ela conversou por alguns minutos. Era apenas para reforçar a viagem e solicitar mais detalhes sobre o laudo.

SS (desligando): Desculpa, Gil. Era importante. Então… o que você queria me falar?

GG (forçando um sorriso): Que… é melhor irmos praquela banheira antes que a água esfrie.

SS (suspeitando): Tem certeza?

GG: Vamos, Sara… por favor.

Ela assentiu, mesmo com uma pontinha de desconfiança nos olhos. Foram juntos para o banho, onde trocaram carícias e palavras doces, mas ele continuava calado por dentro, lutando com o próprio silêncio.

Grissom jurou a si mesmo que contaria depois, que esperaria o momento certo — quando ela estivesse descansada, quando a cabeça estivesse mais leve.

Mas o banho terminou. A noite caiu. E a coragem… não voltou.

Agora, só restavam 48 horas para a viagem. E o peso do segredo estava ficando cada vez mais difícil de carregar.

Trabalharam mais um turno e Grissom avisou Sara que chegaria tarde. Chegando ao prédio Sara lembrou que o porteiro havia pedido para quando um deles fosse em Henderson se podiam levar uma encomenda para a irmã.

SS: Bom dia Bruno!!! Então mais tarde vou para Henderson, você quer que eu leve a encomenda para sua irmã?

Bruno: Bom dia dona Sara!! Poxa quero sim, muito obrigado!! Ahh ela vai mandar também uma coisa e acho que a senhora vai gostar.

SS: Primeiro: Bruno você não precisa me chamar de senhora, pode ser só Sara e segundo já estou curiosa.

A conversa é interrompida pela chegada de um funcionário a serviço do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Funcionário (sorridente): Bom dia! Tenho uma entrega para Gilbert Grissom.

Bruno: Bom dia!! Ele não esta, mas essa é a namorada dele.

O homem virou-se educadamente para Sara, segurando uma caixa retangular, envolta em plástico de proteção e com etiquetas do Massachusetts Institute of Technology bem visíveis.

Funcionário: Bom, posso deixar com a senhora e explicar? É importante que ele receba essa documentação em mãos, mas creio que a senhora possa repassar.

SS (ainda surpresa): Claro, pode sim.

Notas finais
No próximo: A viagem de Grissom