Ricordare è Vivere
1 São Francisco
Notas iniciais
Fevereiro de 1998 – Universidade da Califórnia, Berkeley
O ano mal havia começado e as universidades dos Estados Unidos já promoviam ciclos de palestras com renomados profissionais da área forense, tanto nacionais quanto internacionais. Em Berkeley, o destaque ficava por conta de um evento voltado especialmente à Ciência Forense, atraindo criminalistas de várias partes do país.
Entre os participantes estava Sara Sidle, uma jovem de 26 anos, CSI nível 1 no laboratório criminal de San Francisco. Sara estava radiante: as palestras estavam sendo realizadas justamente na universidade onde ela cursava sua pós-graduação. Isso permitiria que acompanhasse tudo de perto, sem comprometer sua rotina de estudos — e com o benefício extra de enriquecer seu conhecimento técnico para aplicar no trabalho.
Sem hesitar, ela se inscreveu em várias apresentações. Uma delas chamou especialmente sua atenção: "Entomologia Aplicada à Ciência Forense", ministrada por Gilbert Arthur Grissom, entomologista de 41 anos, licenciado em Biologia pela UCLA, com mestrado e doutorado na área, autor de diversos artigos científicos e CSI sênior no Laboratório Criminal de Las Vegas.
Sara dividia um apartamento simples, mas aconchegante, com sua colega de trabalho Paola, analista da área de DNA do laboratório de São Francisco. As duas se conheceram durante a graduação e desde então cultivavam uma amizade sólida, regada a cumplicidade, ironias e muitas risadas.
Ao entrar em casa, Sara largou a mochila no sofá e anunciou:
Sara: Paola, chegueeei!
Paola (do quarto): Oi, mulher! E aí? Se inscreveu nas palestras? Excluiu aquela que eu te falei, né?
Sara entrou na cozinha e pegou uma maçã na fruteira, sorrindo com a pergunta.
Sara: Sim, me inscrevi... e não, não excluí a palestra do Dr. Grissom.
Paola (surgindo no corredor com uma sobrancelha arqueada): Sério, Sara? Aquele cara? Já te falei que a palestra dele é um sonífero em forma de PowerPoint...
Sara: Eu prefiro tirar minhas próprias conclusões. Li vários artigos dele e, pra ser sincera, estou bem curiosa. Pode até ser que seja monótono, mas ele parece brilhante.
Paola: Brilhante ou não, pra mim palestra de professor idoso é igual sessão de meditação. Boa pra dar uma cochilada.
Sara: Idoso? Como você sabe quantos anos ele tem? Já viu alguma foto?
Paola: Não vi, mas a vibe é de velho ranzinza.
Sara (sorrindo, com um leve deboche): Pois fique sabendo que ele tem 41 anos. E não, não achei nenhuma foto dele. Mas isso só aumentou minha curiosidade.
Paola (cruzando os braços): Uau. Alguém andou fazendo o dever de casa... Tá empolgadinha pra ver o Dr. Mistério ao vivo, hein?
Sem dizer nada, Sara pegou uma almofada do sofá e lançou direto na amiga. As duas caíram na gargalhada, como sempre acontecia quando uma cutucava a outra demais.
Enquanto isso, em Las Vegas...
Gil Grissom mergulhava de cabeça em mais um caso complexo. Já estava em seu segundo turno consecutivo, movido por aquela obstinação típica de quem não descansava até encontrar todas as respostas. O cansaço se acumulava nos ombros, mas ele ignorava — como sempre fazia. Sua vida girava em torno do laboratório, dos insetos, dos cadáveres e das evidências. Nunca fora de sair, socializar ou tirar férias, apesar dos constantes apelos de sua amiga e colega, Catherine Willows, para que vivesse um pouco além das paredes frias do laboratório.
Naquele dia, enquanto analisava amostras no microscópio, ouviu passos conhecidos. Catherine entrou na sala, acompanhada do capitão Jim Brass.
Grissom (sem tirar os olhos da lâmina): Posso saber o motivo da visita em dupla? Isso tem cara de conspiração.
Catherine (sorrindo com sarcasmo): Conspiração? Imagina, Gil. Estamos apenas... ajudando.
Brass (cruzando os braços): É. Ajudando você a fazer as malas. Não aceitamos mais desculpas. Está tudo certo pra sua viagem a San Francisco, e nós dois vamos assumir o caso por aqui. Fim de papo.
Grissom (erguendo os olhos e ajustando os óculos): Sinto que essa "ajuda" de vocês vem com segundas intenções.
Catherine (sem disfarçar o deboche): Que isso, Grissom! Só queremos garantir que você vá tranquilo, sem pendências. A palestra em Berkeley já está marcada, lembra?
Grissom: Se eu não terminar esse caso a tempo, cancelo a viagem ou, no mínimo, adio minha chegada...
Brass (interrompendo com firmeza): Nem pensar. Você vai, com ou sem caso resolvido. Está virando um zumbi, Gil. Precisa se desconectar de Vegas de vez em quando. E nem tente discutir — essa é uma ordem, e você sabe que estou falando sério.
Grissom suspirou, vencido — ainda que relutante.
Grissom: Tudo bem... Vocês venceram. Mas se até o dia da viagem isso aqui não tiver solução, prometem me manter atualizado?
Catherine e Brass (em uníssono e com um meio sorriso): Ok, Bugman.
Grissom balançou a cabeça com um leve sorriso, já prevendo que essa viagem podia lhe trazer mais do que algumas noites de descanso… embora ele ainda não soubesse disso.
Chega o dia da viagem. O caso em que Grissom vinha trabalhando estava praticamente resolvido. As evidências convergiam para um único suspeito, e as diligências finais estavam sendo conduzidas por Catherine e Brass. Aliviado — embora nunca admitisse —, ele sabia que poderia viajar sem grandes preocupações.
Jim Brass, satisfeito, cruzou os braços à porta da sala de Grissom e lançou:
Brass:
— Viu, Gil? Tudo deu certo. Agora pode ir tranquilo... e, por favor, se desligue desse laboratório. Aproveite São Francisco.
Grissom (sem levantar os olhos dos papéis):
— Você fala como se eu estivesse indo de férias. Estou indo a trabalho, lembra?
Brass (sorrindo, já esperando a resposta):
— Claro que lembro. Mas convenhamos: é um trabalho mais leve, com horários flexíveis... ideal pra aproveitar a cidade, os museus, a paisagem... e, quem sabe, as pessoas.
Grissom (franzindo o cenho):
— Brass... chega.
(pausa)
Vou pra casa, arrumar minhas coisas, dormir um pouco e ir pro aeroporto. Até a volta.
Nesse momento, Catherine Willows surge apressada no corredor, com um sorriso malicioso no rosto.
Catherine:
— Cheguei a tempo? Não podia deixar de me despedir! Aproveite muuuuito a viagem, meu amigo!
(Ela dá ênfase nas palavras, rindo abertamente.)
Grissom (revirando os olhos e bufando com leve irritação):
— Tchau pra você também, Cath...
Catherine e Brass (em coro, divertidos):
— TIRE O ATRASO EM SF!!!
(Seguidos de gargalhadas)
Sem dar o gostinho da resposta, Grissom nem olha para trás. Apenas pega seu casaco, atravessa o corredor em passos firmes e some pela porta.
Mais tarde, em casa, arruma suas coisas de forma metódica, como de costume. Camisas dobradas com precisão, materiais da palestra organizados por ordem de apresentação. Deitou-se por algumas horas e, ao amanhecer, partiu rumo ao aeroporto. Chegaria em San Francisco com um dia de antecedência — tempo suficiente para descansar... ou pelo menos tentar.
A semana tinha sido exaustiva. Casos complexos, turnos duplos e pressão por resultados. Quando Grissom finalmente chegou ao hotel em San Francisco, tudo o que queria era um banho quente e um pouco de silêncio. Jogou a mala sobre a cama, tirou os óculos e se espreguiçou. Mas mal teve tempo de respirar — o telefone do quarto tocou.
Ele atendeu, automático:
Grissom: Grissom...
Do outro lado, uma voz familiar:
Brass: Oi, Gil! Como foi a viagem?
Grissom (sem esconder a ironia):
— Brass, não faz nem oito horas que te vi. Já está com saudades?
(Deu uma risadinha discreta)
— A viagem foi tranquila, sim.
Brass: Nossa, foi boa mesmo... já está até brincando. Mas, falando sério, só te liguei pra saber: você trouxe aquela nécessaire que estava no seu armário no vestiário?
Grissom (estranhando): Sim, claro. Por quê?
Brass: Dá uma olhada nela, vai...
Curioso, Grissom abriu a nécessaire. No meio dos itens de higiene pessoal, duas embalagens discretas — mas inconfundíveis — chamaram sua atenção: dois pacotes de preservativos.
Ele arregalou os olhos, franzindo a testa, e levou o pacote mais próximo do rosto como se estivesse analisando uma evidência de crime.
Grissom (chocado): Brass?!?
Do outro lado da linha, já rindo:
Brass: Kkkkk... aproveite com segurança, amigo!
E click. A ligação foi encerrada.
Grissom ficou ali, parado, olhando para o telefone com a expressão mais incrédula possível. Respirou fundo... e acabou soltando uma risada abafada, balançando a cabeça.
Grissom (para si mesmo, ainda meio indignado):
— Ousado, capitão... bem ousado.
Dia da Palestra – Universidade da Califórnia, Berkeley
Gil Grissom chegou cedo ao auditório. Sempre meticuloso, arrumou a mesa com seus materiais: computador, projetor, alguns frascos entomológicos, e uma pilha de fichas com anotações. Na noite anterior, havia jantado com o reitor da universidade — um encontro cordial e até mais agradável do que ele esperava. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se quase... leve. Começava a dar razão a Brass e Catherine: talvez esses dias em San Francisco realmente fizessem bem.
Checou os slides uma última vez e observou o relógio: faltavam 20 minutos para o início da palestra. O auditório ainda estava vazio, apenas alguns alunos dispersos entrando timidamente. Foi então que ouviu o som da porta se abrindo com um estalo suave.
Levantou o olhar, distraído — mas, no instante seguinte, ficou completamente imóvel.
Ela entrou.
Sara Sidle havia se preparado com cuidado — mas não demais. Escolheu um jeans escuro, uma blusa social branca de mangas curtas e deixou os cabelos presos em rabo de cavalo prático. A maquiagem era sutil, o suficiente para disfarçar o cansaço da semana. Queria apenas chegar cedo, garantir um bom lugar e absorver tudo daquela palestra que tanto aguardava.
Na sala do apartamento, Paola não deixou passar a chance de comentar:
Paola (assoviando): Nossaaaaa... você está arrasando, amiga! É só uma palestra ou um encontro?
Sara (rindo, mas tentando parecer indiferente):
— Para com isso. Estou vestida normal, nada demais.
Paola (cruzando os braços com um sorriso matreiro):
— Ok... você que acha.
Sara pegou a bolsa e já ia saindo.
Sara: Deixa eu ir, senão me atraso e perco o lugar na frente.
Paola (em tom debochado): Tenha uma óóóótima palestra, doutora Sidle!
Sara (pegando a almofada e jogando nela): Terei!
Riram juntas como sempre. E então Sara saiu, sem saber que seus próximos passos iriam marcá-la para sempre — e também a um certo entomologista.
Foi de taxi e chegou como queria, com 20 min de antecedência.
Quando entrou, Sara não prestou atenção que havia uma pessoa no palco. Se concentrou em fechar a porta e assim encontrar o melhor lugar.
Grissom observava com atenção. Quando seus olhos encontraram os dela, por um momento, o tempo pareceu desacelerar.
Ela olhava em direção à frente do auditório, sem saber que estava sendo observada com intensidade. Não havia nada de espetacular em seu visual — e, ainda assim, ela exalava uma força silenciosa, um olhar curioso, uma presença que fez Grissom endireitar a postura sem perceber.
Grissom (pensando, surpreso): "Interessante..."
Enquanto procurava um lugar próximo ao palco, Sara Sidle examinava o auditório com atenção, tentando encontrar a melhor posição para acompanhar cada detalhe da palestra. O ambiente estava mais cheio do que esperava, e precisou caminhar com calma entre os bancos. Em meio à busca, ergueu os olhos em direção ao palco — e então seu olhar encontrou o dele.
Por um instante, tudo ao redor pareceu ficar em segundo plano.
Ele a observava com uma expressão serena, curiosa — e uma intensidade silenciosa que fez seu coração dar um leve salto.
Era ele. Dr. Gilbert Grissom. O homem por trás de tantos artigos brilhantes, o entomologista renomado, o CSI respeitado… e ainda assim, completamente diferente do que imaginara.
Sara não soube explicar ao certo o que a surpreendeu mais: se foi o ar tranquilo e ao mesmo tempo atento com que ele a olhava, ou o fato de ele ser — sim, ela admitia mentalmente — muito mais atraente do que qualquer descrição que já lera.
Seu cabelo era de um tom cinza escuro elegante, meio desalinhado, mas de um jeito que combinava perfeitamente com seu estilo reservado. Ela tentou disfarçar a forma como o examinava, mas seus olhos insistiam em buscar detalhes. A cor exata dos olhos dele era difícil de identificar à distância, mas ela apostava em um tom entre azul e cinza, frio e cativante. O olhar dele era firme, mas sem ser invasivo. Parecia mais curioso do que julgador.
Sara se sentiu hipnotizada. Uma estranha sensação de familiaridade, admiração e algo que ela não saberia nomear percorreu sua espinha.
Ela desviou o olhar rapidamente, sentindo o rosto esquentar.
Mas por dentro, algo já tinha mudado.
Grissom abriu ligeiramente a boca, pego de surpresa pela troca de olhares com a jovem que acabara de entrar no auditório. Ele não era do tipo que se deixava impressionar facilmente — muito menos de forma imediata —, mas havia algo nela que o atingiu de forma inesperada, quase instintiva.
Seus olhos a analisaram em silêncio. O cabelo preso em um rabo de cavalo simples, o jeans justo que delineava sua silhueta com naturalidade, e a blusa social branca que realçava sua postura elegante e segura. Nada exagerado. Tudo nela parecia equilibrado — e, ainda assim, chamava atenção como se houvesse uma luz sutil acompanhando seus movimentos.
Foi quando o olhar dele voltou ao rosto dela que percebeu: ela havia estagnado no caminho, parada, como se também tivesse sentido aquele choque momentâneo. Foi o suficiente para trazê-lo de volta à realidade. Resolveu agir.
Grissom (descendo um degrau do palco, tentando parecer casual):
— Bom dia! Ah... chegou cedo, hein?
Sara (despertando do transe, envergonhada):
— Oh! Bom dia, Dr. Grissom! Sim... eu queria pegar um bom lugar, então achei melhor chegar com antecedência.
Grissom sorriu brevemente e desceu mais alguns degraus do palco. Ela também avançou, como se respondendo ao gesto inconscientemente.
Grissom (com voz mais suave):
— Vamos deixar o “doutor” de lado. Pode me chamar só de Grissom. E... qual o seu nome?
Sara (tentando manter a compostura):
— Sidle. Sara Sidle. Mas... pode me chamar só de Sara.
Ele estendeu a mão com um leve sorriso no canto dos lábios.
Grissom: Prazer, Sara. É aluna aqui da universidade?
Sara: Sim e não... Estou finalizando a pós-graduação e começando a estruturar meu mestrado. Na verdade, estou aqui pelas palestras. Quero aprimorar meu trabalho. Sou CSI em São Francisco.
Grissom (sinceramente surpreso):
— Ah, então somos colegas de profissão! Que ótimo. E em que nível você está?
Sara (com um leve encolher de ombros):
— Nível 01. Recém-chegada, praticamente.
Grissom fez menção de continuar a conversa, mas outros alunos começaram a entrar no auditório, enchendo as fileiras aos poucos. O momento de privacidade se dissipava.
Grissom (com um olhar quase... relutante):
— Bom, Sara... acho melhor garantir seu lugar. Mas... podemos continuar essa conversa depois?
Sara (um tanto nervosa, mas sorrindo):
Claro... po–podemos, sim.
Ela se virou, buscando um assento, mas seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir. Ele era mais do que ela esperava. Muito mais.
E Grissom, observando-a se afastar, sabia que aquele encontro havia sido qualquer coisa, menos comum.
Logo o teatro estava lotado. Um burburinho animado tomou conta do ambiente pouco antes da palestra começar. Quando Grissom subiu ao palco, o silêncio foi imediato — o tipo de respeito que ele despertava apenas por sua presença tranquila e autoridade discreta.
Sara conseguiu exatamente o lugar que queria: segunda fileira, lado esquerdo, com uma visão privilegiada do palco e do palestrante. Estava com o caderno no colo, caneta em mãos e olhos atentos.
Desde os primeiros minutos, percebeu que os temas abordados não eram exatamente simples — entomologia forense não era um terreno confortável para muitos. Mas, apesar da complexidade, Sara estava fascinada. Não só pelos insetos, pelas aplicações nos casos, mas pela forma como Grissom falava: com paixão técnica, precisão, e uma calma que cativava.
Durante a apresentação, ela fez várias perguntas. Algumas ousadas, outras específicas, o tipo que só quem realmente entende — ou quer entender — faz. Grissom respondia com clareza, sempre olhando diretamente para ela, com uma leveza quase rara em sua postura normalmente reservada.
E cada resposta só aumentava o brilho nos olhos dela.
Quando a palestra chegou ao fim, o público levantou-se em aplausos entusiasmados. Grissom, pouco acostumado com manifestações tão calorosas, ficou visivelmente desconcertado. Um leve rubor subiu em seu rosto, e ele coçou o pescoço, sem saber bem o que fazer com tanto entusiasmo.
Logo depois, foi cercado por um grupo de estudantes — ávidos por tirar dúvidas, fazer perguntas, estender o debate.
Mas os olhos dele estavam em outra direção.
Mesmo envolto em alunos, ele não conseguia parar de observar Sara, que agora conversava tranquilamente com um colega de classe, ainda perto da segunda fileira. Ela não demonstrava pressa em sair — o que Grissom interpretou como um sinal. Um sinal que ele não queria desperdiçar.
Quando os últimos alunos se dispersaram, ele desceu do palco e, sem hesitar, se aproximou dela.
Grissom (com a voz um pouco mais suave, mas ainda firme):
— Seria abuso da minha parte... convidar minha colega de profissão para me acompanhar num café?
Sara (sorrindo com naturalidade e um leve tom de ironia afetuosa):
— Kkkk... abuso nenhum, Grissom. Vamos!
E foram. Dois cientistas, dois mundos que se cruzaram por acaso — ou talvez, como diria o próprio Grissom, por causa de uma sequência lógica de eventos inevitáveis.
Os dois seguiram para a lanchonete da Universidade, uma cafeteria discreta, frequentada por alunos e professores entre uma aula e outra. Escolheram uma mesa mais afastada, perto da janela, onde a luz suave do fim da tarde atravessava o vidro e criava uma atmosfera quase íntima.
Grissom pediu um café preto. Sara, um chá gelado com limão.
A conversa fluiu com facilidade. Falaram sobre os pontos altos da palestra, sobre a complexidade dos casos envolvendo entomologia forense, e logo migraram para temas mais pessoais — como funcionava o laboratório de São Francisco, as dinâmicas da equipe, e as experiências iniciais de Sara como CSI nível 1. Ela falava com brilho nos olhos, paixão genuína pelo que fazia.
Grissom ouvia atentamente, com aquela postura calma e envolvente, como se cada palavra dela realmente importasse. Ele raramente se abria para conversas casuais com desconhecidos — mas com Sara, não parecia esforço algum.
Até que, de repente, o celular dela vibrou. Um chamado.
Sara (olhando a tela com um suspiro):
— Tenho que ir... Chamado do laboratório.
Ela se levantou com certa pressa, mas sem perder o sorriso. Reuniu suas coisas rapidamente, e antes de partir, se virou para ele.
Sara: Até amanhã, Grissom.
E saiu.
Grissom ficou olhando em silêncio, sentindo o coração bater mais rápido do que estava acostumado. Era só uma conversa. Apenas um café. Mas havia algo naquela mulher — algo que o deixava inquieto de um jeito novo.
Ele não sabia por quê, mas já estava ansiando pelo amanhã.
Do lado de fora, enquanto atravessava o campus, Sara também sentia algo diferente. Estava leve, estranhamente sorridente. E mesmo com o celular apitando notificações sobre o novo caso, sua mente não parava de voltar para o auditório, para o café, para aqueles olhos atentos e aquela voz calma.
Ela pensava consigo mesma:
"Nunca me aconteceu isso. Não no primeiro olhar. Não desse jeito."
O que aquele homem tinha, ela não sabia. Mas sabia de uma coisa: não conseguia tirá-lo da cabeça.
Ao chegar no laboratório, Sara mal teve tempo de tirar o casaco quando Paola apareceu no corredor, com aquele olhar de quem já sabe mais do que deveria.
Paola (com um sorriso malicioso):
— Ei! Que cara é essa? Parece que viu passarinho verde!
Sara (confusa, levantando uma sobrancelha):
— Oi? Do que você está falando?
Paola (cruzando os braços, perspicaz):
— Da sua cara distraída, de quem está pensando em algo... ou em alguém.
Sara (tentando disfarçar e rir):
— Impressão sua. Não é nada demais.
Paola (curiosa): E então? Como foi a palestra?
Sara saiu com um risinho maroto, que só deixou Paola ainda mais intrigada.
Sara: Melhor impossível.
Paola (com um brilho nos olhos, divertida):
— Então é isso... O passarinho verde estava na palestra, hein?
Sara não respondeu, só sorriu de lado.
Mais tarde, ao término do turno, Sara foi direto para casa. Queria descansar um pouco antes de se preparar para mais um dia intenso de palestras e descobertas.
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