Ribelle Amato
38 Capítulo 35 – Curandeira
Notas iniciais
Capítulo 35 – Curandeira
SE EU TIVESSE TEMPO A PERDER, PERDERIA congelando no lugar, mesmo sentindo as veias queimando no meu corpo. Mas como eu odiava perder tempo, eu quase voei para fora da sala dos funcionários. Quase, porque Matt me segurou por um braço e Jared por outro.
– Me soltem! — implorei. — Preciso encontrá-lo.
– E você vai. — garantiu-me Matt, mas mesmo assim não me soltou. E ele sabia que se me soltasse ninguém mais me seguraria.
– Precisamos saber exatamente o que fazer, Rocker. — disse Jared, afrouxando um pouco o aperto em meu braço.
– Tudo bem, ok, vocês venceram. — dei-me por vencida, sentando-me no banco que havia ali perto, enquanto Jared colocava as lentes e Matt os óculos.
– O que pretende, Jared? — perguntou Matt.
– Como assim Jared? — perguntei, revoltada. — O plano é meu, poxa!
Jared riu e Matt fez uma careta.
– Tudo bem, mana, o que pretende? — ele refez a pergunta, enfatizando bem o mana. Sorte a dele.
– Pensei em chegarmos lá e dizer que houve uma substituição de Curandeiros. — eu disse, começando a sentir meu estômago se revirando. O que eu estava fazendo?
– Acha mesmo que vai funcionar? — perguntou Matt. Jared estava tendo um pouco de dificuldade para colocar as lentes em frente ao espelho.
– Olhe para a gente. — eu disse, abrindo os braços em forma de chamar a atenção. — Vai dizer que não é um bom disfarce?!
Matt me analisou de cima à baixo e, do modo como eu o conhecia, sabia que ele estava pensando em todas as possibilidades de uma falha nesse plano. Não que eu fosse deixá-lo encontrá-la.
– Vamos, Matt, por favor! — implorei. — Eu preciso fazer isso pelo Jamie. Não vou suportar olhar nos olhos dele e ver reflexos que não são das lentes, sabendo que eu poderia ter impedido aquilo por minutos.
Matt suspirou pesadamente, e eu soube que tinha ganhado a batalha.
– Jared. — Matt o chamou e Jared rapidamente chegou ao nosso lado, já com as lentes no lugar. Impressionante como qualquer um é mais alto que eu. — Cuida da baixinha.
Jared assentiu. — Pode deixar.
– Acho que deu. — eu disse, olhando para a porta. — Vamos antes que alguém tente entrar aqui.
Fomos até a porta e eu a abri devagar. Olhei para os dois lados, garantindo que não tinha ninguém à vista e fiz sinal para Matt sair.
– Sala 337. — ele sussurrou quando passou por mim.
Se formos bem sucedidos, eu estaria agradecida eternamente a ele. Andei pelos corredores com Jared em meus calcanhares. Acenamos e sorrimos para, pelo menos, vinte a trinta Almas e eu sabia que Jared havia quebrado seu recorde. Não era difícil, mas fingir que pertencia àquele lugar, quando você já o repudiava quase naturalmente, não é a tarefa mais fácil do mundo. Principalmente quando havia a tensão de que em poucos minutos Jamie já não seria ele mesmo. Quando finalmente chegamos à sala 337, parei em frente à porta fechada e respirei fundo, antes bater e abrir a porta levemente.
E um alívio me percorreu por inteira quando vi Jamie deitado de bruços em uma maca de hospital, inconsciente, mas sem qualquer corte na nuca visível e os instrumentos de operação ainda expostos abertos sobre uma pequena mesinha. Mas não era só isso. Havia uma mulher ali naquela sala. Baixinha como eu, mas morena e com os cabelos curtos repicados até pouco abaixo dos ombros, mas os reflexos acabavam com seus lindos olhos castanhos. Sorriu simpática para nós.
– Em que posso ajudá-la? — ela perguntou.
– Meu nome é Cristal de Gelo e esse é Rio de Águas Cristalinas. — lembrei rapidamente dos nomes de Cris e Rick, enquanto nos apresentava. — Fomos escalados para fazer uma substituição.
– Substituição? — ela perguntou confusa. Me deu até vontade de bater nela.
– Isso. — eu confirmei, sorrindo. — Pediram para que fizéssemos essa inserção porque temos mais experiência com humanos resistentes.
– Sério? — ela perguntou, parecendo animada. — Era minha primeira inserção e eu estou bem nervosa. Foi a Curandeira Natuzera Bela que os mandou?
– Sim. — eu disse, rezando para que não fosse pegadinha. Mas ela era Alma, não saberia fazer isso. — Ela disse que tem um paciente esperando por seus cuidados.
– Alguma especificação? — ela perguntou, franzindo o cenho em preocupação.
– Não tive mais informações. — eu disse, sorrindo amigavelmente enquanto ela agradecia e saía da sala com seu jaleco balançando pelo corpo.
Jared entrou na sala logo atrás de mim e trancou rapidamente a porta.
– Você é boa. — ele disse e eu o olhei confusa.
– Em quê?
– Mentir.
– Anos de prática. — eu disse simplesmente, antes de me aproximar da maca da Jamie.
Jared veio logo para o meu lado e girou o corpo inerte de Jamie sobre a maca. Ver seu rosto era um alívio, com certeza, mas ver os traços serenos e sem aquela expressão sorridente que era tão típica dele chegava a ser estranho. Jared levantou a pálpebra de Jamie, e pudemos ver sua íris azul fosca. Sem qualquer reflexo de Alma. Eu entendi porque Jared fizera isso. Por mais que aquela Alma Curandeira tenha dito, queria garantir que Jamie ainda era Jamie.
Olhei ao meu redor, e vi alguns pequenos armários de portas brancas. Corri até lá e abri-as, sabendo bem o que eu procurava nesse momento. Encontrei o frasco de Acordar e voltei até a maca com ele em mãos. Espirrei sobre a boca de Jamie e aos poucos seu rosto foi se mexendo, entregando que ele estava recuperando os sentidos. Quando vi seus olhos azuis olharem confusos entre mim e Jared, eu não aguentei. Me joguei em seus braços, já sem conseguir segurar o choro, e enterrei meu rosto em seu pescoço. Um milésimo de segundo depois, seus braços envolveram minha cintura, puxando-me para mais perto.
– Rachel. — ele sussurrou ao meu ouvido com uma voz rouca.
Separei-me dele e segurei seu rosto em minhas mãos. Jamie segurou meu pulso, sorrindo.
– Nunca mais me assuste assim. — exigi.
– Nunca. — ele concordou, aproximando seu rosto e encostando nossos lábios rapidamente. Mas o suficiente para causar a tão familiar explosão de sentimentos dentro de mim.
Eu o afastei rapidamente, indicando Jared com a cabeça, que ria enquanto sentia minhas bochechas pegando fogo. Belos amigos que fui arranjar naquela caverna. Simplesmente adoram nos importunar. Bem, ao menos era melhor do que ser amiga da Sharon. Jamie se levantou da maca sorrindo e abraçou Jared fortemente.
– Precisamos ir. — eu os apressei, olhando nervosamente para a porta. — Matt e Larkin devem estar preocupados.
– Larkin? — Jamie arqueou uma sobrancelha em sinal de confusão e desconfiança.
– Ele quis vir ajudar a te resgatar, então não reclama. — eu disse.
Jamie levantou as mãos em forma de rendição.
– Precisávamos agora apenas de um jeito de você passar despercebido. — disse Jared.
Eu não tinha pensado nessa parte.
– Rocker, alguma ideia? — perguntou Jared, apenas para me ferrar mais um pouco. Merda! — A ideia foi toda sua.
Eles me olharam em expectativa. E então uma luz se acendou.
Virei-me para Jamie, bagunçando seus cabelos de modo que cobrissem seus olhos. Quase não dava para a ver a diferença e eu percebi que era hora de cortar o cabelo dele. Mas só quando chegássemos às cavernas.
– O que está fazendo? — ele perguntou meio indignado, mas parece ter percebido que apenas isso que tínhamos.
– O que tenho no momento. — eu disse, virando-me para a porta. — A entrada secundária fica há uns dois corredores. Preciso que você finja que está bem, que é uma Alma. Como tinha fingido no dia em que achamos Rick. Larkin e Matt estão no jipe e nós dois vamos para a minha moto. Entendido? — perguntei a ambos. Sabia que Jared que geralmente tinha os planos, mas ele realmente parecia perdido ali no meio.
Jamie assentiu, segurando minha mão e entrelaçando seus dedos aos meus. Jared abriu a porta e eu dei graças a Deus por não haver nenhuma Alma. Andamos calmamente pelo corredor, sentindo a tensão entre nós três quase paupável. Passamos por duas Almas que sorriram para nós, mas que estavam ocupados demais para se importar em nos olhar mais atentamente. Saímos pela entrada secundária sem maiores problemas. Estávamos chegando no jipe e na moto, onde Larkin e Matt olhavam aflitos para nós.
Até que tudo dá errado.
– Rachel! — ouvi uma voz familiar atrás de mim e eu quase atirei em mim mesma quando virei o rosto para ver minha mãe parada há vários metros dali.
Sem arma, mas quando me viu olhando-a começou a correr.
– CORRE! — eu gritei, já sabendo que nosso plano já estava todo ferrado.
Jared correu e entrou rapidamente na capota do jipe, enquanto eu e Jamie colocamos os capacetes apressadamente e montamos na moto. Eu quase não consegui acionar o motor quando vi que ela se aproximava de nós. A Harley arrancou antes do jipe, mas esse logo nos seguiu, enquanto ouvíamos a Buscadora gritando por mim e por Matt. Pelos nossos nomes.
– Aquela foi a Buscadora que me pegou na casa da sua prima. — Jamie disse gritando, segurando mais firmemente em minha cintura, quando já estávamos atravessando o deserto. — Como ela sabe seu nome e o de Matt?
Eu suspirei pesadamente. Mais cedo ou mais tarde ele acabaria sabendo.
– Tem um bom motivo. — eu disse, gritando sobre o vento para que ele me ouvisse.
– E qual é?! — ele perguntou visivelmente curioso.
– Ela é minha mãe.
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