Ribelle Amato
4 Capítulo 3 - Compreendida
Notas iniciais
Capítulo 3 — Compreendida
VIREI-ME, IRRITADA E CANSADA, EM DIREÇÃO à parede e me surpreendi quando vi uma garota loira, aparentemente frágil, sentada em um canto. De onde eu estava – sete metros de distância – pude ver o reflexo de Alma em seus olhos cinzentos. Meu primeiro impulso foi pegar o revólver que eu mantinha no bolso lateral da mochila – e que, graças a Deus, Jeb não havia recolhido. Talvez ele nem desconfiasse que eu pudesse ter uma. Mas eu forcei o pé no chão e enfiei as mãos nos bolsos do short jeans antes que eu fizesse algo de que possa me arrepender mais tarde.
Ela provavelmente era de confiança, para estar livre no meio de uma resistência humana. Também não era uma prisioneira perigosa, pois eu tinha certeza que Jeb não a deixaria sozinha se esse fosse o caso. Por um segundo fiquei indecisa se deveria matá-la ou ignorá-la. Mas, enquanto ela levantava o olhar para o jogo e o acompanhava inferiormente maravilhada, tomei uma decisão que não estava no meio das minhas opções: fui até ela e sentei-me ao seu lado.
— Anh... Olá. – eu disse, meio sem saber como me dirigir a uma Alma. Uma Alma que saiba que sou humana. Ela me lançou um olhar de surpresa.
— É nova aqui? – ela perguntou, meio receosa, e eu apenas assenti. Ela começou a se afastar, provavelmente com medo que eu lhe fizesse algo, mas segurei levemente seu pulso.
— Vi seus reflexos e não vou tentar nada. – disse por impulso e logo soltei seu pulso para cruzar meus braços sobre o peito. Como eu disse, meus instintos pediam que eu pegasse meu revólver e atirasse em sua cabeça.
— Sério? – ela perguntou, surpresa, e eu me questionei quantas vezes ela quase fora morta por humanos daqui.
— Se você está aqui sem nenhum segurança na sua cola e os outros não se importam, por que eu deveria?
Ela sorriu de orelha a orelha.
— É a primeira humana que pensa assim sem nem me conhecer.
— Então não conheceu muitos humanos decentes. – rimos descontraidamente.
— E convencidos! – exclamou uma voz masculina acima de nossas cabeças.
Olhei para cima e vi Jamie ofegando, com os fios negros grudados no suor da testa. Achei essa visão tão divina que precisei morder a língua para controlar minha respiração e meus batimentos cardíacos.
— Engraçadinho. – ironizei.
— Por que está aqui quando deveria estar jogando? – perguntou a menina.
Vi um breve brilho em seus olhos. Não entendi esse brilho se passar nos olhos dela e senti meu coração se contrair, até que ela deu um sorriso para ele. Um sorriso protetor, mesmo que ela fosse um tanto mais baixa que ele. Era uma relação familiar-afetiva e ao perceber isso, meu coração relaxou.
— Eu ia dizer a você – apontou para mim – que uma das regras é não matar as Almas daqui, mas vejo que vocês se deram melhor em dez minutos do que eu esperaria em um ano.
— Credo, você me faz parecer um monstro assim! – reclamei.
— Sei que você anda armada, pois não me parece o tipo de menina que anda despreparada.
Vi, pelo cano do olho, o maxilar da menina se tencionar e reprimi a vontade de atirar em Jamie por estar prejudicando minha quase amizade com a primeira garota que vi em anos – mesmo que fosse uma Alma.
— Mas como sou uma humana decente de dezesseis anos, só atiraria se houvesse necessidade.
Ele revirou os olhos, mas permaneceu com um sorriso no rosto. Depois se virou para a menina.
— Vocês podem pegar mais umas cinco garrafas de água na cozinha?
— Não posso mesmo jogar? – perguntou a menina, indignada.
— Ninguém aqui quer ver você machucada.
Eu fechei a cara, mas não disse nada – precisava pensar em algo para lhe mostrar que não somos tão fracas, porque era claro que ele deixara implícito antes que não acreditava que eu pudesse jogar. Levantei-me num pulo, ajeitei a mochila sobre meus ombros e estendi a mão para a menina. Puxei-a levemente para levantá-la. Enganchei meu braço no dela e fomos andando.
— Tchau, Jamie, foi bom te ver de novo! – gritei por sobre o ombro, ouvindo a risada delicada da menina ao meu lado e Jamie falando sozinho.
— Você é má! – disse a menina, ainda rindo. Fiquei surpresa por ela ser mais baixa que eu.
— Só um pouquinho – eu disse, mandando-lhe uma piscadela.
— Meu nome é Peregrina, mas pode me chamar de Peg.
— Rachel – me apresentei, enquanto atravessávamos o portal da cozinha. – Mas Rocker é melhor.
— Está tudo bem? — ela perguntou quando eu diminuí o ritmo.
— Só cansada da viagem até aqui.
Peg foi até uma bancada e pegou duas garrafas. Entregou-me e foi pegar as outras três garrafas. Empilhou-as no braço esquerdo e estendeu a mão direita para mim.
— Pode deixar que eu levo. Parece cansada.
Eu a analisei e percebi que ela era o tipo de menina que não gostava de parecer fraca. Assim como eu. Mesmo estando cansada, carregar algumas garrafas de água não me mataria.
— Quero mostrar a Jamie que não sou fraca e inútil como ele parece pensar. Além disso, é bem capaz de eu apanhar se deixar você levar tudo.
Ela suspirou, parecendo derrotada, enquanto andávamos de volta à sala de jogos.
— E acho que não sou a única que sente isso. – comentei.
— Só queria um jeito de mostrar que não sou frágil como meu corpo aparenta! Nem ao menos me deixam jogar. E ninguém está disposto a treinar comigo.
Então, enquanto víamos a luz da sala de jogos no fim do túnel, uma ideia iluminou minha mente.
— O que acha de jogarmos futebol? Só nós duas.
Ela pareceu se animar com a ideia, mesmo sem ter entendido completamente.
— Mas como seria isso?
— Bom... Nós iríamos trabalhar normalmente e quando o dia acabasse nós nos encontraríamos na sala de jogos para treinar.
Entramos e Jamie e Jeb nos esperavam, enquanto os outros estavam dispersos, conversando separadamente. Enquanto nos aproximávamos, abaixei a voz para que eles não escutassem.
— E quando já estiver boa o suficiente, daremos um jeito de mostrar a eles.
Ela sorriu no exato momento em que os dois vieram até nós e pegaram as garrafas.
— Já sabemos exatamente onde te colocar para trabalhar. – anunciou Jamie, parecendo feliz e relaxado com a notícia.
Jeb bufou e disse:
— Jamie implorou para te colocar na cozinha com Peg. – ele disse calmamente e enquanto eu endurecia a expressão, Jamie o encarava furioso.
Respirei fundo e cansadamente, sentindo toda a exaustão do deserto me atingindo em cheio novamente. Queria muito dizer a eles que não sou tão fraca quanto pareço, que posso muito bem trabalhar nos campos. Mas eu estava cansada espiritualmente também. Além disso, Peg e eu tínhamos um plano.
— Tudo bem. – eu disse por fim, com a voz arrastada.
— Estou indo, Rocker, a gente se vê. – disse Peg, me abraçando e indo embora. Mas antes gritou por cima do ombro. – Acho melhor você ir descansar, parece mesmo exausta.
Eu concordei, sentindo o sono me abater. Cocei os olhos, tentando espantar a tontura. Jamie veio até meu lado e passou o braço por minha cintura para me dar apoio, mesmo que eu negasse ser preciso. Se eu não estivesse me sentindo com as pernas tão bambas – tanto pelo sono quanto pela aproximação dele – eu teria me afastado. Mas eu simplesmente me recostei nele, agradecida por poder relaxar os músculos por alguns instantes.
— Little Rocker. – chamou Jeb. – Você se importa de dormir no quarto de dois homens?
Eu neguei, afinal, sempre tive que dormir no mesmo local que meu irmão.
— Junto com quem? – perguntei com a voz rouca, tentando me manter acordada e com os pensamentos alinhados.
— Jamie e Brandt. – respondeu ele. – A única exigência de Jamie é que você não seja o tipo super organizada.
Enquanto eu sentia o corpo de Jamie se enrijecer atrás do meu, três perguntas atravessaram minha mente. Por que justo no quarto dele? Desde quando ele tinha direito de exigir alguma coisa? E a terceira... Bem, ela saiu mais alto do que eu pretendia.
— Quais as chances de ele ser mais organizado que eu?
Jeb sorriu, brincalhão. Já eu tinha plena consciência de que poderia ser bem desorganizada às vezes.
— Quase nula.
— EI! – resmungou Jamie, mas nós simplesmente o ignoramos.
— Então acho que não terei problemas.
— Jamie, você pode levá-la até o quarto? Ela parece realmente exausta. – pediu Jeb, se afastando logo depois.
Jamie, sem dizer nada, tirou a mochila das minhas costas e pendurou sobre o próprio ombro.
— Não precisa... – resmunguei, levantando o braço para tentar batê-lo, mas eu simplesmente não queria realmente pegá-la. De repente Jamie segurou meu braço enquanto me levantava no colo. Queria argumentar, reclamar, dizer que podia muito bem andar sobre meus próprios pés, mas assim que abri a boca, ele se precipitou.
— Você não está em condições de discutir. – disse, enquanto me carregava para fora da sala de jogos. – Pode relaxar, eu te levo até lá.
— Hmmm... – resmunguei, enquanto sentia o corpo pesar e a mínima parte do meu cérebro que uso para pôr o juízo em pratica se congelando. Passei os braços envolta de seu pescoço para manter o equilíbrio. Assim que apoiei a cabeça no vão de seu pescoço, senti seu perfume doce de hortelã e me senti ainda mais embriagada.
— Obrigada. — foi tudo o que eu disse antes de cair no sono.
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