Ribelle Amato
23 Capítulo 21 – Entorpecida
Notas iniciais
Capítulo 21 – Entorpecida
A VIAGEM ATÉ A GARAGEM COM CERTEZA pareceu mais curta do que na ida. Provavelmente pelo monte de bobajada dita na vinda. Mas apenas para os outros. Eu ainda estava meio entorpecida pela novidade de ter meu irmão de volta. Mas era justamente esse o motivo da minha inquietação silenciosa no meu canto atrás do banco de Melanie. Eu não sabia como seria minha vida dali para frente. E essa sensação de inutilidade entorpecia meus sentidos de tal maneira que chegava ao ponto de eu não conseguir seguir uma linha de raciocínio. Minhas duas vidas estariam sendo interligadas.
E eu não tinha ideia de como isso se seguiria pela frente.
Eu não poderia fazer muitas das coisas que eu fazia com Matt. Nós tínhamos nossa própria maneira de diversão. Éramos cuidadosos, mas sempre que conseguíamos, viajávamos para uma cidade distante apenas para nos divertir. Fazíamos o que antes os humanos chamavam de vandalismo. Não sei qual nome que as Almas agora deram para pichar muros e destruir propriedade pública, mas era isso que fazíamos. Além de nossos treinos. Eu só consegui matar o Buscador dias atrás porque eu havia treinado bastante o tiro ao alvo em garrafas vazias de vidro.
Agora não nas cavernas não poderíamos fazer isso. E isso me deixava irritada.
Também não seria a mesma coisa fazer tudo o que eu fazia antes dessa incursão. Jogar bola ficaria incrivelmente mais emocionante — eu e Matt no mesmo time então! Nada nos atingiria -, eu não poderia trabalhar na colheita como eu lutei para conseguir fazer. Minha amizade com Peg, Melanie e Lily ficaria um pouco de lado, com quase toda a certeza. Ao menos no início, enquanto eu tentaria de tudo para fazer Matt se esquecer desses dois meses que passamos longe. Mesmo que eu tivesse certeza que ele se daria bem com Kyle e Jared. Ian também, pois ambos tinham a simpatia em comum, mas Matt também fazia o estilo durão.
E havia Jamie.
O garoto de olhos azuis celestes por quem eu estava apaixonada.
Matt provavelmente não me deixaria mais dormir no mesmo quarto que Jamie, mas era meio difícil de me imaginar em qualquer outro lugar. Ele foi meu melhor amigo, meu porto seguro, desde o início. Até que eu percebi que eu o amava — e sim, desisti de tentar negar, afinal, de que adiantaria?! — e já não conseguia mais me imaginar longe dele. E eu tenho medo de que os pesadelos voltem. E se voltarem, como Matt me consolará? Não são os mesmos pesadelos de quando éramos só nós dois, que envolvia a perda dos nossos pais e minha falta de esperança para o futuro. Nessa época, ele conseguia me confortar, dizendo que não precisaríamos de ninguém além de nós dois. Mas as coisas mudaram e agora eu tenho uma família, eu tenho um lar. Que em pouco tempo será o lar dele também. E nesse lar, apenas Jamie conseguiu me confortar da maneira correta — ou quase correta, pois eu ainda não parava de pensar em nosso beijo.
– Em que está pensando? — ouvi uma voz pouco grave ao meu lado.
Eu nem precisaria me virar para constatar quem estava sentado ao meu lado, mas mesmo assim eu o fiz, apenas para encontrar seus olhos azuis hipnotizantes.
– Em o quanto minha vida vai mudar. — eu disse, sem sorrir.
Ele passou o braço por meus ombros, abraçando-me de lado, e eu apoiei minha cabeça contra seu ombro.
– Também foi um pouco estranho ter Mel de volta. Mas você se acostuma.
Eu levantei meu olhar para Rick, e eu pude perceber o quanto ele lutava para não olhar em meu rosto enquanto conversava com Peg. Sabia que Matt estaria forçando-o a me olhar, vigiar cada passo meu. E isso não deixava de ser engraçado. Matt era uma pessoa difícil de lidar quando quer.
– O que Rick está fazendo? — Jamie perguntou baixinho, me fazendo rir também baixinho.
– Matt é um irmão ciumento. — disse quase sem pensar e rapidamente tapei minha boca com uma mão.
– Ele tem algum motivo para ter ciúmes? — Jamie me perguntou, uma sobrancelha arqueada e um brilho nos olhos, como se implorasse que eu confirmava.
E eu queria. Ah, se eu queria! Mas como eu sou eu, e não facilito para ninguém, respondi outra coisa.
– Me diz você. — desafiei, imitando sua expressão.
Ele sorriu malicioso. E eu nem sabia que ele sabia dar esse sorriso.
– Se eu disser que sim, seu irmão me fuzila? — ele perguntou mais próximo de mim.
Então eu percebi o que ele fazia. Mas Rick não estava muito longe e Matt parecia ter uma resistência maior do que a que aparentava. Olhei para Peg, e ela, como se sentisse um ímã, olhou discretamente para mim. Acho que deixei meus sentimentos muito aparentes no olhar, pois assentiu minimamente e, ao voltar sua conversa com Rick,conseguiu com que ele ficasse de frente a ela e de costas para mim e Jamie. Eu só rezava para que fosse tempo suficiente. E pelo olhar que Sunny me quando eu passei o meu rapidamente por ela, eu sabia que não era apenas Peg que me ajudaria. Sunny sorria para mim, Peg conversava com Rick, Cristal desviava o olhar e Rick fazia o máximo para não olhar, como se soubesse exatamente o que aconteceria e pelos músculos dos ombros tensos, pude perceber que talvez estivesse colocando um paredão em sua mente como Peg me disse ser possível.
Com Matt eu me vivaria mais tarde.
– Uma possibilidade indiscartável. — eu disse a Jamie, sorrindo.
Ele olhou em volta e sorriu ao perceber o que os outros faziam. Depois ele voltou seu olhar azul penetrante para mim, com um brilho quase indescritível no olhar. Ele se aproximou minimamente de mim, com seus lábios quase roçando nos meus.
– Acho que posso lidar com isso mais tarde. — ele sussurrou em uma voz rouca que quase me fez ter um ataque. Acho que é isso o que Melanie me descreveu ser sexy. Se fosse, Jamie era terrivelmente sexy.
– Eu sei que pode. — minha voz falhou no último segundo; quase não tive tempo de falar, pois Jamie já tomava meus lábios nos seus.
E então eu senti.
Uma explosão dentro de mim, iniciando no centro do meu peito. Era como se já houvesse a gasolina toda necessário espalhada por todo o meu organismo, apenas esperando um fósforo. Mas foi menos do que isso que causou todo o incêndio. Fora necessária apenas uma faísca. Uma faísca de nada — para que tudo que houvesse em mim se explodisse em puro êxtase e entorpecimento. Era isso. Eu estava entorpecida por todas as sensações que Jamie me causava. Sensações que eu jamais imaginei que sentiria alguma vez na vida, apenas porque eu havia perdido as esperanças.
Estava tão atônita que não havia muitas coisas da qual eu tinha consciência. Eram poucas, mas eram todas referentes a Jamie. A Jamie e somente a ele. Eu tinha consciência de seus pelos da nuca se arrepiando sobre meus dedos; eu tinha consciência dos braços de Jamie em volta de minha cintura, me puxando para mais perto sem que eu precisasse subir sobre suas pernas. Mas o que eu mais tinha consciência era de seus lábios macios sobre os meus. Não era um beijo urgente como fora o nosso primeiro. Foi um beijo carinhoso e suave, como se temesse que me machucasse. E não foi de língua, o que deixava a mágica ainda mais incrível. Apenas movimentava seus lábios sobre os meus, como se tentasse memorizá-los de alguma forma. Ele não tinha pressa; e nem eu.
Mas ouvi-o soltando um resmungo indignado quando ouvimos um movimento atrás de nós, no banco de Melanie. Eu sabia que ela e Jared também sabiam o que estávamos fazendo e apenas tentaram disfarçar de Rick/Matt durante esse tempo. Mas mesmo assim, Melanie podia esperar apenas mais um pouquinho para nos interromper.
– Chegamos. — ela avisou e eu me separei completamente de Jamie, envergonhada.
Acho que minhas bochechas estavam coradas o suficiente por esse beijo e pelo outro, há dias atrás, quando eu estava ocupada demais me culpando por ter matado um Buscador do que para me sentir constrangida. Isso não é nada legal. Jamie me olhava com um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios — que não estavam muito vermelhos. Quase me joguei novamente em seus braços apenas para sentir aqueles lábios novamente contra os meus, mas me segurei. Ele, porém, se inclinou sobre mim e me deu um selinho antes de se levantar e estender a mão para me ajudar. Eu podia ouvir o burburinho de conversas enquanto descíamos do trailler, de mãos dadas e mochilas nas costas, mas eu não consegui identificar muitas palavras.
Até que Melanie passou por nós e me rebocou pelo braço, fazendo-me soltar rapidamente a mão de Jamie, que também foi arrastado por um Kyle que ria estrondosamente. Aposto que Sunny já disse o que aconteceu no trailler. Não que eu reclamasse, precisava lembrar de agradecê-la. Quem eu quero enganar, não lembro nem o que almocei hoje!
– Rocker, Rocker. — disse Melanie, sorrindo, enquanto pegávamos algumas sacolas de dentro de um dos furgões. — Tome cuidado com Matt, eu vi que Rick quase não conseguiu contê-lo.
Eu ri. — E você nem está se importando, não é?!
– Como assim?
– De eu ter beijado seu irmão mais novo na sua frente.
Ela fez um sinal de desdém com a mão, como se descartasse a ideia. — Que nada! Vocês ficam bem juntos!
Eu corei.
De novo.
– Devia dizer isso a Matt quando ele acordar. — eu disse.
– E vou. Eu e Lily.
– Lily?! — perguntei, confusa.
– É, ela com certeza vai conseguir. Porque qualquer coisa nós duas socamos ele.
Eu ri. — Com certeza que vão.
Ouvi alguém chamando meu nome. Quando me virei, Jared me chamava com um sinal de mão e eu fui.
– Fala, Jared.
– Acho que é melhor levarmos com os olhos vendados apenas por garantia. — ele disse e eu assenti. Ele me entregou uma bandana preta e apontou por sobre meu ombro. — Leve seu irmão. Eu levo o outro cara.
Quando já estávamos andando pelos túneis, os homens carregando pesadas caixas, enquanto eu e as meninas levávamos algumas sacolas de roupas, Rick se pronunciou.
– Isso é engraçado. — ele disse.
Se o túnel de acesso às cavernas não fossem tão estreitos, escorregadios e irregulares, eu me permitiria olhar para seu rosto apenas para ver a careta que ele provavelmente herdara de Matt.
– O que é engraçado? — eu perguntei.
– Os nomes que Matt está usando na minha mente para xingar aquele seu amigo, aquele da sua idade. — ele disse em uma voz risonha e eu engoli em seco. — Ele está gritando aqui apenas com a possibilidade de ele estar perto de você.
Eu ri. Quando disse que Matt era super protetor eu não estava brincando.
– Diga a ele pra se acalmar que aqui não tem nenhum estuprador maníaco. — ambos rimos, com nosso passos mais lentos que os dos outros, que já estavam mais à frente.
– Ele não quer que eu diga, mas como no momento ele está meio impossibilitado de me impedir, eu direi assim mesmo. Matt está se fazendo de durão, mas está quase pulando como uma gazela aqui dentro por ter reencontrado a ruivinha dele.
Eu ri, finalmente um riso verdadeiramente feliz.
– Diga a ele que mesmo eu também estando feliz por isso, vou zoar com ele o resto da eternidade por você ter me dito isso.
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