Ribelle Amato
20 Capítulo 18 - Habilidosa
Notas iniciais
Capítulo 18 – Habilidosa
– VOCÊ É BOA NISSO! — DISSE JAMIE, pegando mais uma garrafa de óleo.
– Sou diva, querido. — eu disse, com uma voz afetada e fazendo-o rir.
Fomos em direção a outro corredor de seção de enlatados. Pegamos mais uma penca de latas de milho, ervilha e o caralho a quatro que no momento não estava me preocupando de ver o que era. Só precisávamos sair dali rápido. Além disso, qualquer humano normal iria ver se estava dentro da validade, mas como eu sou inteligente e nem um pouco normal, eu não me preocupava com isso e ensinei Peg e Sunny a também não se preocuparem. Cara, acha mesmo que as Almas deixariam alguma coisa fora da validade ali?! Bastardice é foda, né?!
– Você não olha a data de validade, não?
O que eu disse sobre bastardice mesmo?
– Jamie, meu fofo, acha mesmo que uma Alma iria querer envenenar alguém? — eu perguntei com uma falsa ironia.
– Vocês formam um casal tão bonitinho.– ouvimos uma voz atrás de nós e nos viramos. Não precisei forçar um sorriso e Jamie logo me seguiu. Saber que seríamos um bom casal me deixava feliz.
À nossa frente, estava uma velhinha simpática e comum. O quão comum poderia se ser com círculos prateados se dissolvendo com as íris verdes.
– Ahn... Obrigada. — eu disse, enquanto pegava mais algumas latas.
– Sabe, vocês me lembram de mim e meu marido quando ele era vivo. — ela disse tristemente, pegando uma lata de ervilhas.
– Faz muito tempo? — perguntei, solidária.
– Um ano. — ela respondeu, fitando meus olhos e eu senti Jamie se enrigecer ao meu lado. Mas ela não me olhava como se procurasse mentira em meus olhos (eles nunca olham). Ela me olhava como se recordasse de si mesma em mim. — Eu não sabia que a dor nestes hospedeiros era tão forte.
Eu abri um sorriso triste. — E o amor também. — eu olhei discretamente para Jamie. — As lembranças de seu marido superarão a dor da perda.
– Como sabe da dor da perda? — ela perguntou. Ela obviamente se perguntava como eu sabia, com Jamie bem ao meu lado.
– Minha hospedeira perdeu toda a família. — o que não deixava de ser mentira, não tinha mais ninguém. — As lembranças foram muito fortes.
A senhora sorriu agradecida. Ficamos alguns segundos calados, apenas absorvendo aquelas palavras. Cada um ao seu modo.
– Senhora...? — chamei. Não tínhamos muito tempo e precisávamos voltar às compras/ao roubo.
– Sim, minha querida? — ela perguntou, simpática.
Olhei timidamente para Jamie e quase surtei quando ele nos observava. Isso seria extremamente vergonhoso!
– Onde fica os... Ahn... Absorventes? — perguntei em uma voz mais baixa.
Ela olhou para mim e depois para Jamie, claramente se divertindo com nosso constrangimento. Ah, digamos que ouve certo problema com os absorventes nas últimas semanas e a maioria das mulheres quase nos imploraram para trazer mais. E eu precisava também, já que tive que pegar de Lily e Peg nas vezes que precisei.
– Por aqui,...
Percebi que ela queria saber meu nome, então eu já tinha preparado uma resposta. — Allie. — respondi, enquanto a acompanhava e Jamie vinha logo atrás, com o carrinho de compras. — Usamos os nomes dos hospedeiros. E este é Noah, meu namorado.
Ela me olhou sorrindo. Jamie me olhou sorrindo. E eu corei. Cara, depois disso como vou olhar nos olhos dele novamente?!
– Bonitos nomes. Não usei o da hospedeira, usei o usava no último planeta que habitei. Prazer, sou Sons do Rio Corrente. — ela sorriu, enquanto andávamos por entre as seções.
– Planeta dos Morcegos? — perguntei. Peg havia me dado algumas aulas.
– Em cheio. — ela me mandou uma piscadela.
E então paramos em frente a uma estante cheia de absorventes. Peguei vários de uma vez, mas não uma estante de uma vez — já estávamos estocando desde a primeira parada em Phoenix.
– Para quê tudo isso, querida? — a mulher perguntou.
– Eu gosto sempre de estar preparada. — eu disse, em uma resposta ensaiada. Sabia que mais cedo ou mais tarde ia precisar dessa desculpa. — Não gosto de vir ao supermercado e comprar isso com Noah, então quanto menos ele precisar ver, melhor para a sua sanidade. — por fim, mandei uma piscadinha para ela.
A mulher riu, divertida com toda aquela situação. Jamie estava para do um pouco mais atrás, coçando a nuca extremamente envergonhado.
– Entendo perfeitamente como é isso! Bem, acho que agora chegou na minha hora. — ela disse. Deu um beijo na minha bochecha e outro na de Jamie. — Fiquem bem, queridos.
– Você também. — disse Jamie.
Quando ela saiu, ele se aproximou de mim e eu sentia seu olhar em minha nuca enquanto eu pegava mais algumas embalagens.
– Ok, isso foi vergonhoso. — ele disse e eu ri.
– Para mim, não pra você, né Jamie?! — disse sarcasticamente.
– Até que você tem talento. — ele disse de repente e eu o olhei confusa. — Para mentir para Almas.
~*~
Meia hora depois já estávamos no local combinado. Eu, Jamie, Peg e Sunny estávamos apenas esperando nossa carona chegar. Mas enquanto isso, Jamie contava animadamente às duas sobre minha habilidade de mentir tão facilmente e como eu paguei o maior mico de toda a minha vida. Cara, vergonhoso é pouco para quem tem que comprar zilhares de absorventes na frente do seu suposto namorado. Jamie me deve uma.
– Rocker, você ainda vai acabar pagando um mico sem tamanho! — disse Sunny.
– Maior do que esse?! Impossível. — discordou/concordou Peg e eu bufei meio impaciente.
Cadê o caralho desse trailler quando a gente precisa dele?!
E então eu vi algo que realmente me chamou a atenção. Uma placa de uma livraria que dizia estar localizada duas ruas abaixo. Olhei no relógio de pulso de Jamie e percebi que daria tempo. Teríamos meia hora ainda e a livraria não ficava muito longe dali. Comecei a andar em direção à rua lateral que cortava a tal rua da livraria, mas ouvi a voz de Jamie me chamando.
– Aonde vai, ruiva?!
Virei-me para trás e vi-o me olhando preocupado.
– Numa livraria aqui perto, não demoro.
Ele assentiu e voltou a conversar com as garotas. Eu ao menos não teria guarda-costas. Andei até que achei a livraria e ela realmente não era muito longe. Mas eu não entrei de imediato. Eu nunca entrava. Ficava primeiro olhando a vitrine, com os vários livros expostos ali, sem a menor dó de serem roubados. Na verdade, eles pareciam clamar para serem pegos. E eu ia entrar para completar o serviço. Por Deus, eu ia! Mas outra coisa me chamou a atenção. Na verdade, uma pessoa que passou atrás de mim, na outra calçada, mas que eu pude ver perfeitamente pelo reflexo da vitrine.
Ele parecia nervoso, o que não era o normal das Almas, e me pareceu bastante familiar. Mais familiar do que eu poderia imaginar. Resolvi o seguir, vai que era apenas um humano precisando de ajuda. Se fosse uma Alma eu simplesmente ignorava e seguia meu caminho, mas eu não podia deixar simplesmente assim sem tentar. Principalmente quando ele me parecia extremamente familiar. Segui-o de longe e ele não pareceu perceber. Ele entrou em um beco escuro entre dois prédios e eu estranhei, mas logo fui atrás, tentando parecer calma. Até que sou pega de surpresa e alguém me segura pela cintura e tapa minha boca com a outra mão.
Eu ia morder-lhe a mão, gritar, qualquer outra coisa e o caralho a quatro, mas então passaram duas pessoas correndo em frente ao beco e dois Buscadores logo atrás deles. Não reconheci as pessoas, mas sabia que se eu tivesse gritado, arranjaria problemas era para mim. Arfei quando senti que estava realmente encurralada. Mas algo se remexeu em meu estômago quando meu sequestrador se pronunciou em uma voz familiar. Extremamente familiar.
– Shi. Calma, Rocker, você está bem.
Era ele.
Matt.
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