Ribelle Amato
44 Capítulo 41 – Acolhida 2.O
Notas iniciais

Capítulo 41 – Acolhida 2.O
acolher
a.co.lher
(a¹+colher) vtd 1 Hospedar, receber (alguém). vtd 2 Abrigar, dar acolhida a, recolher (alguém). vtd 3 Atender, deferir, receber (pedido, requerimento, opinião). vtd 4 Dar crédito a, dar ouvido a. vpr 5 Abrigar-se, amparar-se, recolher-se, refugiar-se.
lar
lar
sm (lat lare) 1 Lugar na cozinha em que se acende o fogo; lareira; fogão. 2 Superfície do forno onde se põe o pão para cozer. 3 Face inferior do pão, que fica assente sobre a superfície do forno. 4 Torrão natal; pátria. 5 Casa de habitação. 6 Família. sm pl Nome dos deuses familiares e protetores do lar doméstico, entre os romanos e etruscos. L. doméstico: a casa da família.
Algum tempo depois...
– Quem é a bebezinha mais fofa daqui? — forcei a voz a sair mais fina, e tendo como recompensa a risada gostada de Violet.
– Você vai acabar sufocando a coitada. — ouvi a voz de Allison e ela logo apareceu com Rick no colo.
E não, os gêmeos não eram meus filhos. Eram de Melanie e Jared. Foi um alvoroço quando, menos de dois meses para o parto, Melanie finalmente anunciou a gravidez. Jamie surtou, Jared desmaiou, Jebediah zoou. Foi difícil fazer a ficha cair para Jared, mas assim que isso aconteceu, ele e Ian saíram atrás das coisas necessárias para o bebê. Dylan foi com eles, para pegar os materiais necessários para o parto. Sorte que ele era Curandeiro; e tínhamos Doc também. Quase batemos em Jared quando trouxeram tudo em dobro, mas quando nasceram gêmeos, demos graças a Deus.
Ah, eu surtei também! Quando Melanie me chamou para ser madrinha de Violet, quase tive um ataque cardíaco. Peg é madrinha de Rick, que teve o nome escolhido por Lily e Jamie escolheu o de Violet. Só acho que ele poderia ter escolhido um nomezinho mais normal para a minha afilhada.
– Você está é com inveja porque já não te paparico mais! — mandei-lhe língua.
Allie revirou os olhos, sentando-se ao meu lado no colchão e ajeitando Rick nos braços. Não tenho ideia do porquê Lily escolheu esse nome, mas imagino ser uma homenagem à Alma que trouxe Matt para nós. Eu teria escolhido o mesmo nome.
– Você me paparica até hoje. — Allie disse, num tom de superioridade brincalhona. Bom saber que ela se sente superior a um bebê. Como meus braços estavam ocupados demais em não deixar a cabeça de Violet tombar para dar um soco nela, mandei-lhe língua outra vez. — Caraca, a aura infantil está te tomando completamente!
Revirei os olhos, e agradeci aos céus quando Peg apareceu no quarto.
– Peg. — chamei sua atenção. — Você pode ficar com Violet um pouco?
Peg sorriu, mas parecia um pouco nervosa. — Claro!
Coloquei Violet cuidadosamente em seus braços, com medo de que ela começasse a chorar.
– Estou indo para o quarto, quero conversar com Jamie. — avisei, e quase podia jurar que vi uma troca de olhares significativa entre as duas.
– Ele não está no quarto. — disse Peg. — Passei lá em frente agora.
Franzi o cenho. — Mas ele não tinha dito que ia descansar?
Allie deu de ombros, mas eu não esperei qualquer resposta concreta. Saí do quarto de Melanie e comecei a minha procura. Não queria pensar no que aquela troca de olhar podia significar, então simplesmente deixei a mente em branco. O primeiro que eu vi foi Ian, todo suado e com uma muda de roupas na mão enquanto saía do quarto; provavelmente procurando um banho.
– Ian! — chamei-lhe, e quando ele me olhou um pouco tenso, soube que algo estava errado. — Você viu Jamie?
Vi seu pomo-de-adão se elevando quando ele engoliu em seco. Algo estava muito errado.
– Não o vi o dia inteiro, mas soube que ele tinha ido atrás de Doc.
Bufei, já impaciente com essa estranheza toda.
– Tudo bem, obrigada. — agradeci, partindo logo para o hospital.
Larkin, com o tornozelo torcido, estava deitado em uma maca, com Cristal ao seu lado, fazendo-o rir. Sorri, vendo quanto o relacionamento deles fazem bem a ambos. Olhei em volta do hospital, mas no lugar de Jamie e Doc, vi Dylan mexendo em alguns arquivos em sua mesa.
– Dylan! — sorri para a Alma que se tornou meu pai ao longo do tempo. Ele me olhou com um sorriso nervoso, e percebi que o dia estranho estava só começando. — Jamie não veio aqui atrás de Doc? — perguntei, mas acho que já esperava uma desculpa.
– Nem sinal. — ele respondeu, lançando um olhar ansioso para o casalzinho atrás de mim.
Nem olhei para trás, sabia que eles estavam do mesmo jeito.
– E Doc? — perguntei, apenas por confirmação.
– Saiu com Sharon já tem um tempo. — disse Larkin.
Eu não duvidava.
– Okay, valeu. — saí dali, já sentindo a paciência prestes a estourar.
Na praça principal, Lily e Matt estavam em um agarramento que devia ser proibido, mas me responderam quando perguntei de Jamie — cozinha. Saí de lá sem nem mesmo despedir. Na cozinha, minha mãe ajeitando o jantar com Heidi e Kyle consertando uma mesa: disseram que Jamie estava jogando futebol com Andy, Jared e Brandt. Mas o cúmulo da minha irritação, a gota d'água de toda aquela situação estranha foi quando encontrei Melanie.
– Não, eu tenho certeza que ele estava com os gêmeos. — ela respondeu quando perguntei de seu irmão.
Respirei fundo, tentando me acalmar.
– Não, eu estava com os gêmeos.
– Não os meus filhos, os O'Shea. Eu os vi trabalhando na plantação.
Foi aí que a bolha mínima da minha paciência estourou. Eu vi Ian indo para o banho e Kyle consertando uma mesa na cozinha.
– Quer saber? Desisto de vocês! Estou indo pro depósito.
Irritada, fui andando a passos pesados para o depósito, agora sem nem me importar com o motivo de todos, todos, estarem tirando uma com a minha cara. E eu odeio isso. Não saber as coisas é uma coisa — irritante, mas completamente diferente de me fazerem de trouxa. Custava apenas me falaram que Jamie não queria me ver? Okay, não era fácil entender porque porque meu namorado não quer me ver, mas eu aceito. O que mais eu poderia fazer? Sair atrás dele e obrigá-lo a ficar ao meu lado 24 horas por dia?! Isso eu não podia fazer, e nem tentaria. Se Jamie queria um tempo, tudo bem, eu lhe faria esse tempo.
Respirei fundo, tentando impedir que meu coração murchasse em meu peito. Ou voltasse ao endurecimento anterior a Jamie. Não era algo que eu queria que acontecesse novamente. As lágrimas não aguentaram o caminho ao depósito e desceram antes disso. Já era difícil o caminho escuro até o depósito, então, quando cheguei à bifurcação que separava o caminho ao depósito do caminho para fora das cavernas, não dei nem mais um passo. Sentei-me no chão, as costas na parede, as pernas contra o peito e a respiração ruidosa. Respirei fundo, controlando a respiração, mas as lágrimas continuavam a cair. Um zumbido irritando dentro da minha cabeça impedia-me de ouvir a aproximação de alguém, o que explicou minha surpresa ao ver Jamie vindo pelo caminho de entrada e saída das cavernas.
– Rach? O que houve? — ele perguntou, ajoelhado ao meu lado e secando o rastro de lágrimas.
Levantei-me levemente dele. — Na-nada.
– Aconteceu, sim. — ele afirmou, sentando à minha frente.
Jamie segurou meu rosto e obrigou-me a olhar em seus olhos preocupados.
– Olha — comecei, engolindo em seco meu nervosismo -, se quiser algum tempo ou algo assim, é só falar, só não quero ser feita de trouxa.
– De que você está falando? — ele perguntou, franzindo o cenho. — Por quê pensa que eu quero isso?
– Fiquei as últimas horas procurando por você e ninguém pareceu querer realmente falar comigo. Chegaram a mentir para mim. — eu disse — Então, se está tentando me evitar, eu quero saber.
De todas as reações que eu esperava desse momento, eu jamais esperaria que Jamie começasse a rir. Ele. Riu.
Ofendida, estava já prestes a me levantar, mas Jamie me segurou no lugar.
– Não é nada disso! — ele se apressou a dizer, acariciando minhas mãos num gesto carinhoso. — Droga, eu pensei que eles saberiam disfarçar melhor!
Olhei-o confusa. — O quê?!
– Era para ser uma surpresa, mas a culpa não é minha se eles não souberam te enrolar direito. — ele se levantou e me alavancou para cima.
Eu ainda estava confusa com aquilo tudo, mas permiti que ele me guiasse pela mão pela saída e permaneci em silêncio durante todo o tempo. Até que não suportei mais o suspense.
– Para onde está me levando?
De algum jeito, ou pelo tom de voz com que me respondeu, ou por eu o conhecer bem demais, mas sabia que ele estava sorrindo.
– É uma surpresa, Rach, qual a graça se eu falar? — Jamie ficou ao meu lado e envolveu meus ombros com o braço.
Mesmo com o espaço limitado, eu me sentia segura e confortável, como Jamie sempre me fazia sentir. Quando finalmente chegamos do lado de fora, comigo ainda me perguntando o que diabos ele queria ali, tive que fechar os olhos rapidamente, pela claridade alaranjada. Já estava tão tarde assim?
– Ai. — resmunguei, esfregando os olhos para afastar a dificuldade de visão. Okay, esqueça a lógica.
– Melhorou? — Jamie perguntou, colocando-se à minha frente para tampar o contato direto com o sol e segurando minha cintura, em seu gesto típico com o qual não me vejo sem.
Pisquei os olhos, acostumando minha visão à claridade, como sempre fazia antigamente, quando saia em incursão. Era difícil ver a luz do sol assim novamente depois de quase um ano sem sair das cavernas. Era o preço a se pagar para a segurança de Jamie. Um preço que, depois da Buscadora tê-lo pego, eu estava disposta a pagar.
– É, acho que melhorou um pouco. — respondi finalmente.
Jamie sorriu, fazendo as batidas do meu coração falhar durante alguns segundos. Seus olhos refletiam o sorriso de seus lábios, o azul tornando-se ainda mais claro. E eu sabia que estava aprontando. Jamie tomou minha mão e me guiou por um caminho que, querendo ou não, me era vagamente familiar.
Eu ainda não conseguia acreditar. Estávamos do lado de fora das cavernas que eu vivia há mais de dois meses. Eu queria pensar que era algo apenas da minha cabeça, estar ali fora — mesmo que correndo riscos — com Jamie. Sendo que ele me levou por livre e espontânea vontade. Cara, isso é bom demais pra ser verdade!
– Vem, quero te mostrar uma coisa. — Jamie disse, segurando minha mão e me levando pela terra do deserto até o que parecia ser uma rocha bem escondida.
Ele deitou-se atrás dela e, depois de analisar um pouco, percebi que não tinha nada a perder e me deitei também ao seu lado. Jamie me puxou para mais perto de si e eu me aconcheguei nele. Ficamos um tempo em silêncio apenas observando as estrelas que povoavam o céu negro. Era simplesmente mágico, não tem como explicar o que eu estava sentindo. Eu sentia um turbilhão de emoções massacrando meu coração de uma vez só. Eu não queria que isso acabasse.
Era a mesma rocha na qual demos nosso primeiro beijo.
– Por quê está me trazendo aqui? — perguntei, apertando sua mão quase inconscientemente.
Jamie virou para mim, sorrindo. — A data merece um lugar especial.
Franzi o cenho. Nosso aniversário de namoro seria só dali a algumas semanas. E estava prestes a lhe dizer isso, quando finalmente chegamos naquela rocha. E ela não estava como eu me lembrava de um ano atrás. Tinha uma barraca de acampamento logo em frente a ela.
– O que é isso, Jamie? — perguntei, confusa, e parei ao lado da barraca.
Jamie abriu um sorriso maroto.
– É a nossa comemoração. — ele respondeu, e entrou na barraca, voltando logo depois em uma cesta de piquenique, coisa que eu não via desde antes da invasão.
– Comemoração? — perguntei, mas ele me ignorou.
E continuou me ignorando enquanto pegava uma toalha vermelha quadriculada e estendia à entrada da barraca. E eu continuei lá parada feito idiota, até que Jamie riu — provavelmente da minha expressão confusa — e puxou minhas mãos para que eu sentasse à sua frente sobre a toalha. Mas não soltou minhas mãos, acariciando minha pele com movimentos circulares.
– Eu sei que você não está entendendo nada. — ele começou. — E eu não tenho ideia de como falar isso. Acredite, ensaiei durante semanas — eu ri baixinho, sentindo minha garganta se apertando e ele me acompanhou. — Eu queria fazer algo mais descente para você, mas minhas opções na caverna eram meio limitadas. Então Matt me disse que você nunca quis nada complicado, mas sempre sonhou com um piquenique ao pôr-do-sol. E Allie te desmentiu, me disse que você sempre adorou acampar. Pedi ajuda pro povo, mas pelo visto são péssimos de disfarce. Jeb permitiu que ficássemos aqui durante a noite, com a arma, claro, mas depois de Melanie insistir, ele deixou. E eu tenho uma coisa para você.
Enquanto ele pegava o que quer que fosse no bolso, aproveitei para secar as lágrimas que já escorriam livremente por meu rosto. Jamie tirou a mão do bolso e nela tinha um cordão. O anel pendurado parecia ser folheado em ouro e me perguntei como durara tanto tempo.
– Esse anel foi meu pai que me deu, pouco antes de quase ser pego. — ele disse e, apesar da história, ele tinha um sorriso leve nos lábios e um olhar sonhador que indicava boas lembranças. — Ele disse que era da minha mãe. Quero que fique com ele.
– O quê? — perguntei, surpresa. — Era da sua mãe, eu não posso...
– Agora é seu, ruiva. — ele insistiu, sentando-se atrás de mim e colocando meu cabelo num ombro só.
Segurei meu cabelo ruivo, já novamente do tamanho que Jamie preferia, e senti sua respiração em meu pescoço, fazendo-me arrepiar. Jamie colou o colar em meu pescoço e abraçou minha cintura contra seu corpo, depositando alguns beijos na pele do pescoço.
– Meu pai me disse que era o anel de casamento da minha mãe. Ele me entregou o anel e disse as exatas palavras: "mesmo em nossa situação, mulheres são importantes. São seres lindos e frágeis, então trate-as como tal. E quando chegar o momento certo, entregue esse anel à sua garota." Lembro-me que perguntei como saberia quando isso aconteceria, e ele disse: "não há como saber, meu filho, você simplesmente sabe." E eu achei você. — ele disse, e eu virei meu rosto para o seu. Seus olhos azuis me analisavam com um carinho e intimidade quase devoto. — Quando Melanie teve Violet e Rick, e Jared virou um pai babão, fiquei pensando em como eu seria feliz se fossem nós dois. Esse anel é a promessa de que, quando você colocar um anel em seu dedo, será o meu.
Olhei para ele, sem saber o que falar. — Jamie, eu...
– Quero só que me prometa colocar esse anel um dia no dedo. — ele disse, e eu percebi o quanto ele parecia inseguro.
Sorri, tentando lhe acalmar.
– Eu não ousaria negar.
Jamie sorriu, e me beijou, causando a mesma explosão que sentia desde o nosso primeiro beijo.
Uma explosão dentro de mim, iniciando no centro do meu peito. Era como se já houvesse a gasolina toda necessário espalhada por todo o meu organismo, apenas esperando um fósforo. Mas foi menos do que isso que causou todo o incêndio. Fora necessária apenas uma faísca. Uma faísca de nada — para que tudo que houvesse em mim se explodisse em puro êxtase e entorpecimento. Era isso. Eu estava entorpecida por todas as sensações que Jamie me causava. Sensações que eu jamais imaginei que sentiria alguma vez na vida, apenas porque eu havia perdido as esperanças.
– Mas por quê hoje? — perguntei, ainda um pouco confusa. — Nosso aniversário de namoro é só dali algumas semanas.
– Na exata data de hoje — ele disse — faz um ano desde que demos nosso primeiro beijo, neste exato lugar.
Eu ri. — Você não existe!
– E você não reclama. — ele riu, abraçando-me mais forte.
– Então feliz aniversário de um ano. — eu disse.
– Feliz aniversário de um ano. — ele repetiu. Esticou-se para pegar a cesta, enquanto o sol se punha ao nosso redor, e começamos nossa comemoração.
Lembro-me de quando cheguei nas cavernas, que eu não sabia quem eu era. Mas agora eu sei.
E ali, nos braços de Jamie, ignorei tudo o que já passamos e pensei em como eu me sentia em casa.
Eu tinha, finalmente, um lar.
FIM
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