Ribelle Amato

28 Capítulo 25 – Acalmada


Notas iniciais
Capítulo fofo vindo aí! Espero que gostem o suficiente para os leitores fantasmas aparecerem! ;)

Capítulo 25 – Acalmada

EU ESTAVA QUIETA NA CASA ABANDONADA que havia não muito longe de Tucson. Esse sempre foi nosso esconderijo e, por mais que Matt tenha me feito prometer que eu a abandonaria, não conseguia sair dali. Era nossa casa, nosso refúgio. Não poderia simplesmente pegar minhas trouxas e ir embora. Tudo bem que não era o lugar mais confortável que eu e Matt já passamos, mas não deixava de ser o mais seguro. Uma casa de campo abandonada, onde as Almas jamais imaginariam procurar um humano. Principalmente se as próprias Almas acreditavam que aquele lugar era mal-assombrado.

Eu observava toda a sala em que estava. Dois finos colchonetes no canto, onde nós dormimos durante anos, um pequeno armário de madeira negra e descascada, com nosso limitado estoque de comida. O único móvel que não estava mofado. Ali eu também colocava meus poucos livros da época dos humanos que eu conseguia pegar em algumas livrarias aqui e ali. Não era nem um pouco legal colocar meus bebês junto dos mantimentos, mas eu jamais deixaria-os expostos ao mofo.

Eram as únicas coisas do tempo que o mundo ainda era normal que eu tinha. Com certeza eu não exporia assim dessa maneira.

Olhei ao redor novamente e me senti impotente diante daquela situação que me encontrava. Eu não podia fazer nada para trazer meu irmão de volta. E não era porque não queria. Era porque eu não podia. Por causa de uma merda de uma promessa que eu fizera. Foi golpe baixo. Matt sabia o quanto a palavra "prometo" tinha um peso forte em cima de mim.

Por fim, depois de tanto repassar em minha mente o que eu deveria fazer — e fazer o mais breve possível, antes que a Alma que seja inserida em Matt me encontre -, minhas pernas finalmente conseguiram seguir as ordens dadas há, pelo menos, três horas. É, eu fiquei três horas em pé, tentando decidir o que fazer da minha vida, se ficava e morria pelas mãos dos Buscadores, ou se saía e morria desidratada no deserto. Acabou que minhas pernas resolveram me carregar para fora da casa, como se ela estivesse em perigo iminente de explodir. O que eu não duvidava nada.

Peguei minha mochila, com os dois pares de lente e minha arma, e os dois capacetes, mesmo sem saber o porque de estar levando o outro. Provavelmente para não deixar muito rastro. Peguei umas quatro garrafas de água e saí pela porta dos fundos da casa abandonada. Rapidamente avistei minha Harley vermelha encostada em um pinheiro, meio encoberta pela vegetação rasteira de modo peculiar, mas prático o suficiente para não ser notada por Almas curiosas que chegavam, ao máximo, em frente ao portão da propriedade abandonada. Bando de imbecis, isso sim.

Tirei rapidamente os galhos e folhas que impediam a passagem da moto e a montei em um movimento perfeitamente ensaiado e habitual. Eu fizera isso por anos. Pendurei minha mochila sobre os dois ombros, tentando não prender meus longos cabelos ruivos por baixo das abas. Coloquei um dos capacetes e encaixei o outro em meu braço, tentando ficar o mais confortável possível. Puxei o acelerador e soltei a embreagem. Dei uma última olhada para o lugar que eu quase podia chamar de lar e então voltei minha atenção à minha frente.

Segundos depois, o vento batia forte no capacete, fazendo um zumbido em meu ouvido e me lembrando que eu havia uma promessa a pagar e atravessar o deserto sem morrer desidratada.

– RACHEL, ACORDE!

Abri os olhos desesperadas, sentindo os cílios se desgrudando pouco a pouco e eu sabia que tinha chorado enquanto dormia. Eu tinha chorado enquanto os pesadelos ainda me perseguiam. Eu tinha chorado quando pensei que, agora tendo Matt de volta na minha vida, dormindo a menos de dez metros de mim, os pesadelos teriam acabado.

Braços fortes me apertaram um pouco mais, quando eu nem havia percebido que estava sendo embalada por alguém que jamais me seria irreconhecível. Jamie ficou ali, me abraçando durante vários minutos, esperando que eu me acalmasse de alguma forma.

– Ruiva, você está melhor? — ele perguntou, segurando meu queixo e me obrigando a olhar em seus olhos azuis. Não que eu estivesse reclamando.

Assenti. Ele sabia o quanto representava para mim a diferença entre "você está bem" e "você está melhor".

– Onde está Matt? — perguntei baixinho, com medo de que ele tenha acordado com os gritos que eu provavelmente dera.

Jamie fez um sinal, indicando alguém atrás de si e eu sequei rapidamente o rastro quase seco de lágrimas em minhas bochechas. Olhei por sobre o ombro dele, que ainda me abraçava protetoramente, e vi Matt se aproximando devagar do meu colchão. A cara um pouco amassada e os cabelos loiros revoltos pelo sono, meu velho irmão se sentou ao meu lado, passando um dos braços por meus ombros.

– Como está, baixinha?

Jamie podia saber a diferença, mas Matt não sabia o quanto sofri em sua falta.

– Melhor. — respondi simplesmente.

– Foram aqueles sonhos que você e Jamie me avisaram? — Matt parecia ignorar completamente a presença de Jamie ali.

Eu assenti. — Espero não ter te acordado.

– Já estava acordado e tentei te acordar quando ouvi os soluços. Mas você não acordava, só se remexia. E Jamie estava ao meu lado, só observando, até que resolveu vir e te acordar ele mesmo. — Matt então finalmente sorriu agradecido para Jamie, enquanto este apertava mais seu abraço protetor em volta de mim.

– Pensei que os pesadelos iriam acabar. — disse Jamie.

– Eu também pensei. — sussurrei, mal conseguindo encontrar minha voz, e enterrei meu rosto na curva do pescoço de Jamie.

– Sobre o que sonhou desta vez? — Matt perguntou, acariciando meus cabelos.

Virei meu rosto para ele. — Do dia em que saí da casa de campo e vim tentar seguir as pistas.

A expressão em seu rosto mudou e eu sabia que ele se sentira impotente. Eu também me sentiria.

– Jamie, você acha que consegue fazê-la dormir? — Matt perguntou e eu respondi antes que Jamie tivesse a oportunidade.

– Ele sempre conseguiu, Matt, não se preocupe.

Matt me olhou com uma cara estranha. Como se estivesse com receio ou até mesmo não acreditando. Mas depois de alguns segundos em silêncio, ele saiu do meu colchão e voltou à sua colchonete. Jamie se deitou ao meu lado no meu colchão e me puxou para me deitar sobre seu tórax. E ficou acariciando meus cabelos até que a respiração de Matt se tornasse regular, indicando que ele dormira.

– Tem certeza de que está melhor? — ele perguntou baixinho ao meu ouvido.

– Eu acho que sim. — sussurrei em resposta.

Jamie beijou meus cabelos delicadamente e permaneceu com os lábios ali por mais alguns segundos.

– Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe?

Eu sorri e virei minha cabeça de modo a encarar seus hipnotizantes olhos azuis.

– Sei sim. — eu sussurrei.

Jamie sorriu e inclinou levemente a cabeça em direção aos meus lábios. E a explosão aconteceu de novo. Uma chama se aquecendo em meu peito, apenas esperando que a faísca terminasse de incendiar esse sentimento para o resto do meu ser. Era uma sensação única, ter os lábios de Jamie se movimentando sobre os meus. Por mais que eu tivesse tido a experiência anterior, ainda me senti diferente quando sua língua começou a dançar sobre a minha. Era diferente de tudo o que eu já experimentava e esse beijo não era urgente. Estávamos apenas aproveitando o momento, tentando decorar cada canto e cada centímetro.

Aos poucos, a sensação de explosão diminuiu aos poucos, dando espaço ao sentimento de realização e isso se fez mais presente ainda quando Jamie colocou sua mão livre sobre meu rosto. Enquanto havia uma mão me apertando delicadamente contra seu corpo, a outra acariciava a maçã arredondada do meu rosto, em um gesto carinhoso e protetor. Pode ter se passado horas, minutos e segundos, mas quando eu senti o ar me faltando, soltei um muxoxo indignado. Eu não queria nunca me separar de Jamie.

Ele me olhou com aqueles olhos azuis lindo. Eu fiquei analisando seu rosto durante um bom tempo. Jamie era lindo, isso eu jamais poderia negar. Cabelos negros e cheios, sobrancelhas grossas, maçãs do rosto salientes, lábios que no momento se encontravam vermelhos e, o meu favorito, olhos azuis eletrizantes que pareciam haver um ímã que não me deixava desviar o olhar.

– O que foi? — ele perguntou, abrindo um sorriso tímido depois de me pegar olhando-o tão atentamente.

– Nada. — eu respondi corando violentamente e enterrando o rosto na curva de seu pescoço. — Jamie, me promete uma coisa?

– Pode falar.

– Promete que nunca me abandona? — eu pedi. Eu precisava ter certeza que ele nunca seria pego. E ele sabia o quanto a palavra "prometo" significava para mim.

– Prometo. — ele respondeu, sem hesitar um segundo.

E então eu dormi.

Com apenas uma certeza em mente.

Eu não sei como isso e muito menos quando, mas já estava irremediavelmente apaixonada por Jamie Stryder.