Ribelle Amato
24 Capítulo 22 - Protetora
Notas iniciais
Capítulo 22 – Protetora
QUANDO PISAMOS NA PRAÇA PRINCIPAL, encontrei uma cena que não era muito bem a que eu esperava. Eu podia jurar que muitos daqueles humanos iriam se solidarizar e aceitar. Afinal, isso também era ser humano... Não era?! Aceitar aqueles que se colocam ao seu lado naquela guerra. Para mim, ser humanos era ter sentimentos. Não importa se forem negativos ou positivos, pois é isso que nos torna diferente das espécies de outros planetas. Nossa capacidade de sentir em grande intensidade.
E eu estava descobrindo o quão humana era, experimentando pela primeira — e talvez a última — vez o que era o amor e a amizade. Eu achava que as pessoas que estavam morando sobre o mesmo teto que o meu eram humanos. Mas eram apenas uma péssima falsificação disso. No momento, eu sentia nojo de ser da mesma espécie que eles. Pois nem ao menos compaixão aqueles animais tinham!
Quando eu e Rick entramos — tínhamos ficado mais atrás, conversando — encontramos Cristal jogada no chão, com a mão no rosto e lágrimas escorrendo livremente até a terra batida. Uma mulher — humana já há muito tempo aqui, mas que eu nunca conversei — estava à sua frente. Seu nome era Marelyn, e ela estava com o rosto vermelho de puro ódio e rancor. De início, eu não entendi bem a cena, mas quando vi Marelyn levantando a mão esquerda já vermelha, tudo se encaixou como quebra-cabeça.
Ela havia batido em Cristal.
Cristal. Uma Alma.
E pretendia bater de novo.
Corri até o meio da praça, me desviando de vários braços que tentavam me segurar e coloquei na frente de Cristal, no momento em que ela iria levar o soco. Senti uma dor aguda na costela, mas não fraquejei. Rapidamente dei uma rasteira em Marelyn e coloquei uma perna em cada lado seu, prendendo os pulsos acima de sua cabeça. Apesar de meu pouco tamanho, eu era forte o suficiente para imobilizar uma mulher de quarenta e tantos anos que tinha um olhar cheio de ódio e repulsa.
– Ninguém. Toca. Nela. — sibilei furiosamente e os burburinhos que estavam ali desde que cheguei se cessaram instantaneamente.
Eu estava furiosa.
E eles já me conheciam bem o suficiente para saber que não era legal ver uma baixinha ruiva furiosa.
– Já deu, Rocker. — ouvi a voz de Ian atrás de mim e logo depois seus braços me envolveram, me tirando de cima de Marelyn. — Você está sufocando ela!
EU ESTAVA POUCO ME FUDENDO SE ELA ESTAVA SENDO SUFOCADA, QUEIMADA, TORTURADA, ARRANHADA, APEDREJADA OU JOGADA EM UM VULCÃO ATIVO!
Quem ela pensava que era para tratar Cristal assim?!
Sai dos braços de Ian e ouvi quando Marelyn foi tirada dali, gritando coisas como "me solta e deixa acabar com ela" e "ela não é mais minha filha, merece estar morta". Mas eu nem dei atenção. Virei-me para Cristal, já com a expressão mais branda, e ajudei-a a se levantar — coisa que nenhum daqueles humanos se dignou a fazer.
Cristal se encolheu sobre si, tentando tampar a marca vermelha dos cinco dedos de Marelyn do rosto.
– Calma, Cristal. Não vou te machucar. Eu prometi que não iria.
Ela chorava e eu — por impulsivo, instinto, solidariedade e o caralho a quatro, escolha o que quiser — a embalei em meus braços, tentando conter seus soluços.
– Está tudo bem. — eu sussurrava, com a voz tão macia que eu quase não me reconheci. — Ninguém mais vai machucar você.
– O que está acontecendo aqui?– ouvi a voz de Jeb sobrepujando todas as outras, enquanto ele caminhava até onde estávamos eu, Cristal e Ian. Acho que Ian só estava ali ainda para me impedir de correr atrás de Marelyn e quebrar-lhe a cara. Ele sabe que eu faria.
– Agora você resolve chegar, não é, velho?! — eu me segurei para não gritar, mas minha boca estava destilando sarcasmo. A culpa não era minha se a vida me fez amarga.
– O que houve aqui, O'Shea? — caralho, o velho me ignorou completamente!
– Boas notícias, Jeb. — disse Ian ao meu lado. — Achamos o irmão da ruiva aqui!
Jeb me olhou com um sorriso enigmático no rosto. — Little Rocker, para que esse mal-humor todo se o girafinha mirin está aqui?
Eu bufei.
– Talvez porque a Alma que está nele trouxe duas outras que querem ser retiradas e Marelyn simplesmente chega aqui espancando uma delas! — eu gritei.
Cristal se remexeu novamente sobre meus braços, me abraçando forte pela cintura enquanto eu lhe abraçava pelos ombros.
– Calma, Cris, eu não vou deixar ninguém te machucar.
– Vieram apenas para ir? — Jeb perguntou, um pouco confuso.
– Rick disse que eles querem ir para o planeta dos Ursos. Mas querem devolver os hospedeiros, não para outra inserção, mas para eles próprios.
Jeb assentiu. — Acho melhor levá-la para comer alguma coisa antes de Doc trabalhar com isso.
Assenti em concordância e me virei para Cristal. — Vamos.
Ela me seguiu de perto, segurando forte meu braço. Pelo visto ela tinha medo da escuridão pelos túneis ou apenas de quem poderia estar escondido por ali. Ao chegarmos na cozinha, pedi que ela se sentasse em uma das mesas enquanto eu pegava alguns pãezinhos para comermos. Depois, me sentei de frente a ela, com a pequena bacia entre nós. Ficamos alguns minutos em silêncio, apenas comendo.
– Sabe porque Marelyn te atacou daquele jeito? — perguntei.
Cristal suspirou e abaixou a cabeça. — Lindsay era filha dela.
– Sua hospedeira? — perguntei.
Ela assentiu.
– Acho que deu algum tipo de surto nas minha memórias quando a vi e simplesmente corri até ela para abraçá-la...
Ela nem precisava continuar, eu já imaginava o viria a seguir.
– Então ela te agrediu quando viu seus reflexos. — eu completei e ela abaixou a cabeça como se estivesse envergonhada. — Ela não tinha esse direito.
Ficamos mais algum tempo em silêncio, até que me pronunciei de novo.
– Como você conheceu Rick?
Ela fitou fundo em meus olhos, como se esperasse sinal de ironia. Mas não havia.
– Eu era Buscadora dele.
Engasguei com o pedaço de pão. — Buscadora dele?!
– Eu havia ficado encarregada de ir atrás de você, assim que ele conseguisse informações sobre seu paradeiro. Mas nem eu consegui ir e nem Rick conseguiu soltar nada. Eu não queria ser Buscadora, não era meu Chamado. E quando vi o quão horrível estava ficando essa situação, eu resolvi fugir. Mas eu não tinha para onde ir, tinha apenas Sol, que o hospedeiro já era amigo da minha hospedeira. Eu falei com Rick para que procurasse outro Buscador e quando ele me perguntou porque eu acabei lhe dizendo. Ele também queria fugir para te procurar. Para te devolver Matt. Disse que ele estava lutando em sua mente e Sol disse que o hospedeiro dele também, então resolvemos fugir os três. E Matt sabia onde era o esconderijo, ele conseguiu decifrar as dicas, mas nos instruiu a esperar em Tucson, porque não poderíamos simplesmente aparecer e mais cedo ou mais tarde você apareceria. E foi o que aconteceu.
Eu sorri, mesmo que ainda meio atônita. Buscadores ainda poderiam estar se tornando mais violentos, tanto quanto eram os humanos, mas havia outras Almas que tomavam os sentimentos bons de ser humano para si, tornando exatamente isso. Estavam se tornando mais humanos. Talvez até mais do que os próprios humanos que sobreviveram à invasão. Talvez — apenas talvez — realmente existisse esperança.
– O hospedeiro de Sol ainda resiste? — perguntei aflita quando repassei toda a sua narrativa novamente em minha mente e esse certo trecho me chamou a atenção.
– Sim. — ela respondeu, meio receosa.
– E Lindsay? — perguntei, receosa também, e rezando para que não fosse tarde demais.
– Eu não a sinto, mas não sei se já foi reprimida. — ela disse.
Eu não sabia o que dizer, então vasculhei minha mente em busca de algo.
– “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.”. — eu citei algo que eu aprendera quando era criancinha, mas após a inserção eu já não mais acreditava. Acho que neste momento, era o que Cristal precisava.
– O que é isso? — ela perguntou.
– Uma frase de um grande pensador. Martin Luther King Jr.
Reconheci um olhar de compreensão. Mas logo se tornou dúvida. — Mas o que significa?
– Que a esperança é a última que morre. — eu disse, sorrindo, e me levantei. — Espero que esteja pronta para ser retirada. Te levaremos para o embarque na nossa próxima incursão.
Ela sorriu. — Estou pronta há meses.
Fale com o autor