Ribelle Amato
17 Capítulo 15 - Assassina
Notas iniciais
Capítulo 15 – Assassina
JAMIE SE VIROU RAPIDAMENTE, FICANDO de costas para mim e se posicionando à minha frente protetoramente. À nossa frente, não mais do que dez metros, estava um homem. Mas não um homem comum. Pela roupa preta e pela arma que portava — além do brilho nos olhos causado pelo luar — percebia-se claramente que era uma Alma. Mais do que isso; era um Buscador. E eu sabia que estávamos em um enrascada sem tamanho. Meu coração batia freneticamente e meu cérebro quase entrava em cuito para achar uma solução.
– Não se mexam e se aproximem com calma. — ele disse em uma voz mansa, como se tentasse domesticar um animal.
E isso me deu raiva. Muita. Além de que o idiota usou uma frase ridícula que, se não houvesse uma arma apontada para o peito de Jamie, eu teria retrucado. Tentei pensar bem rápido, mas a única solução que consegui encontrar foi a arma na cintura de Jamie, não muito fora do alcance da minha mão. Mas eu precisava de uma distração para conseguir segurá-la.
– Vou precisar dizer de novo?! — ele perguntou, controlando a impaciência. Meu coração estava a mil, sabendo bem que, pequena como sou, Jamie seria o primeiro a ser acertado. E eu não gostava nada dessa ideia.
– Quando eu disser, você foge, Rachel. — ouvir meu nome na voz de Jamie, mas ainda assim não valeu a pena o resto da frase.
– E você? — perguntei no mesmo tom baixo.
– Você sabe o que vai me acontecer.
E eu sabia, pois era uma das regras das cavernas. Ele se mataria. Ou iria danificar o próprio cérebro.
– Nem pensar. Eu tenho um plano. — eu disse, agora rezando mais do que nunca para que desse certo. E enquanto isso, ia aproximando lentamente minha mão para a arma.
– É melhor virem, não quero machucar ninguém. — disse o Buscador e ele olhou em volta, como que procurando por alguém que iria nos ajudar contra ele, dando-me a chance perfeita.
Peguei a arma em um reflexo rápido e veloz. Mesmo estando atrás de Jamie, consegui uma mira e puxei o gatilho. Segundos após o click estridente do tiro, o homem caiu de costas do chão, uma poça de sangue sendo formado sob sua camisa preta. Eu podia ser ótima com armas, pois Matt me ensinou bem para algum caso de emergência. Mas acontece que esse caso de emergência nunca chegara.
E ver um morto morto à minha frente — mais que isso, saber que eu fui a responsável por sua morte -, mesmo sendo uma Alma, me deixava atônita, surpresa, confusa e, acima de tudo, enojada. Eu não conseguia parar de reviver a morte do Buscador em minha mente. Sempre fui manipuladora, mentirosa, vingativa, sarcástica. Mas eu nunca havia tirado uma vida. Nunca. Pode-se ter passado segundos, minutos ou até mesmo horas, mas quando a verdade foi revelada por meu subconsciente, foi como um golpe em meu peito.
Eu era uma assassina.
– Rachel, você está bem? — ouvi a voz de Jamie me perguntando, mas me pareceu mais como um zumbido.
A única coisa que se passava em minha mente, era justamente o que eu nunca quisera ouvir. Eu era uma assassina. Olhei para Jamie, ainda atônita, e percebi que ele vinha da beira de um pequeno penhasco próximo dali. Provavelmente ele deve ter jogado o corpo do Buscador ali. E novamente a frase apareceu ali na minha mente. Eu era uma assassina. A arma ainda continuava em minha mão, lembrando do crime que eu cometera. Eu era uma assassina. Soltei-a rapidamente, sentindo um rancor e uma repulsa grande demais. Tentei procesar o que Jamie disse, mas a frase ainda martelava em minha mente. Eu era uma assassina.
Balancei a cabeça negativamente e senti lágrimas, que eu nem sabia estarem acumuladas, escorrendo pelas bochechas, deixando um rastro quente como o sangue do Buscador já sendo encoberto de terra e areia pelo vento do deserto. Eu era uma assassina. Jamie, vendo meu estado depois que um soluço abriu espaço por minha garganta, correu até mim e me envolveu em seus braços. Envolvi meus braços finos pela sua cintura e o apertei tão forte contra mim quanto ele me apertava pelos ombros. Solucei novamente.
– Shi. Calma, agora está tudo bem. — ele disse em uma voz delicada, como se falasse com uma criança. Completamente diferente do Buscador, que havia nos tratado como animais. Jamie passou uma mão por meus cabelos ruivos e os acariciou. — Está tudo bem, ruiva.
A única coisa que consegui dizer, mesmo em uma voz rouca e esganiçada pelo choro. — Eu sou uma assassina.
– Não é não. — ele puxou meu rosto, obrigando-me a olhar em seus olhos. — Se você não tivesse o matado, estaríamos ambos mortos. Porque se ele te matasse, eu iria logo atrás.
– Não diz uma coisa dessas. — pedi, em uma voz manhosa.
– É a verdade. — ele disse, sorrindo levemente. Logo depois ele se aproximou, como se pretendesse me beijar, mas desviou para minha testa, depositando ali um beijo carinhoso.
Fiquei meio decepcionada, mas, além de termos apenas um beijo como experiência, ele sabia que eu não estava bem depois do que ocorreu. Jamie se soltou levemente de mim e se abaixou para pegar a arma que eu derrubei. Ele deve ter visto a careta que eu fiz ao vê-la, pois rapidamente a colocou no cinto da calça.
– Vamos, ainda temos muito o que andar pelo túnel de entrada. — ele disse, segurando minha mão e me puxando. Mas eu estava em choque demais para ao menos fazer com que minha pernas se mexessem.
– Jamie, eu não vou aguentar ir andando. Mesmo que seja pouco tempo. — eu disse timidamente, mas já tentando encontrar alguma solução.
Mas pareceu que ele já sabia a solução perfeita. Jamie rapidamente me segurou nos braços e eu passei os braços ao redor de seu pescoço apenas para não cair.
– Jamie, não! — eu disse autoritariamente, mas era óbvio que com ele não rolaria.
– Deixa disso, Rachel, você está cansada e talvez até traumatizada.
Eu deitei a cabeça sobre seu ombro, sorrindo. Parece que ele realmente insisti em me chamar pelo nome. E eu até gostava. Sei lá, parecia algo tão especial em sua voz. Não sei quanto tempo levamos, mas quando eu abri os olhos, a claridade que vinha da praça principal começou a invadir meus olhos. Mesmo quando chegamos e vimos Peg, Melanie e Lily desviarem os olhares preocupados rapidamente para nós, Jamie não me soltou. Ou melhor, ele me colocou no chão, mas não tirou o braço da minha cintura.
– Onde vocês estavam?! — Peg correu até nos, com seu já costumeiro tom maternal.
– Brandt acordou e não viu vocês. — Melanie vinha logo atrás dela. — Ficamos desesperados quando não encontrou em lugar nenhum!
– Eu levei Rachel lá fora para vermos as estrelas. — Jamie respondeu naturalmente.
– E aconteceu alguma coisa? — Lily estava preocupada, mas parecia a mais calma dentre elas, sorrindo maliciosa para nós dois.
Eu corei na hora e vi Jamie sorrindo bobamente; e sabia que mais cedo ou mais tarde elas viriam até nós nos metralhando de perguntas. Mas eu não estava com cabeça para isso agora.
– Meninas, eu vou arrumar minhas coisas para a incursão, tudo bem?! — eu disse e comecei a me afastar. Mas senti que alguém me seguia.
Quando olhei para trás, vi Peg sorrindo docemente para mim, enquanto nos afastávamos no túnel. — E então, vai me dizer o que aconteceu?
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