Ribelle Amato
2 Capítulo 1 - Acolhida
Notas iniciais
Capítulo 1 — Acolhida
ASSIM QUE AVISTEI A SEGUNDA pista que me levaria até onde eu pensava ser o esconderijo de Jeb, saltei da moto e arranquei o capacete da cabeça, deixando o par jogado no chão ao seu lado. O short jeans preto e a blusinha, também preta, não estavam me ajudando muito no calor escaldante. Assim que pudesse, pegaria uma roupa mais confortável na mochila em minhas costas.
Não sabia como chamar a atenção dos humanos que eu sentia estarem por perto. Mas e se meus instintos estiverem errados? E se eu estivesse enganada quanto a outros sobreviventes? Eu não podia estar enganada. Tinha que continuar tentando. Mas e se as tais “pistas” me levassem a lugares errados? Afinal, como alguém poderia sobreviver naquele deserto insuportável?
Abaixei-me ao lado da moto e apertei a buzina com toda força.
— JEB! – gritei, juntando todas as forças que tinha e não tinha em meus pulmões. – JEB, SEI QUE ESTÁ AÍ!
Caí sobre meus próprios pés, já sentindo minha cabeça girando e a escuridão ameaçando entorpecer meus sentidos. Senti-me fraca, toda a força se esvaindo do meu ser e eu já não tinha certeza se poderia continuar consciente. Mas eu sabia que precisava continuar sobre mim mesma, pois seria minha única chance de sobreviver nesse deserto.
Ao longe, saindo da boca de uma caverna que eu não sabia que existia, vi duas silhuetas aparentemente masculinas se aproximando. Pisquei meus olhos rapidamente, tentando afastar a areia que turvava minha visão. Eu precisava manter meus olhos abertos para que eles vissem que não passavam dos lindos, maravilhosos, desbotados e comuns castanhos amendoados. A ausência daquele reflexo brilhoso era a única prova de que eu ainda era humana.
Eu detestava aqueles reflexos. Era uma prova clara de que a humanidade se perdera para algo pior do que ela própria. Aquela invasão me fez perder tudo: meus pais, minha infância e minha chance de ter um futuro. Meu irmão era tudo o que eu tinha. E era por ele que eu tentava me manter viva. Precisava buscar ajuda para salvá-lo.
Os homens pararam a uns cinco metros de distância e eu pude distingui-los. O mais baixo era também o mais velho. Meio gorducho e a barba branca, jeans, colete e uma bandana vermelha na testa. Tinha um rifle apoiado sobre o ombro direito. Soube imediatamente que aquele era Jeb e minha lembrança dele era tão clara e nítida que quase pude ouvir sua risada alta e rouca ecoando pela sala de estar da minha antiga casa em uma de suas visitas à minha mãe.
O outro era alto, músculos disfarçados sobre a camisa azul, o cabelo de um loiro cor de bronze e os olhos azuis me analisava defensivamente, como se eu pudesse ser tanto de confiança quanto uma ameaça. O que, na verdade, eu era. Enquanto Jeb me olhava com um ar de reconhecimento surpreso, esse me olhava confuso e apreensivo.
— Rachel?! – perguntou Jeb e se eu não estivesse com a garganta se fechando contra si mesma, eu teria gritado com ele.
Ele sabia muito bem que eu odiava aquele nome.
Tentei dizer que sim, mas a secura estava tão mais grave do que eu imaginava que tudo o que consegui fazer foi assentir. Ele pareceu perceber meu problema, pois pegou uma garrafa d’água que estava presa no cinto do outro homem e correu até mim. Agachou-se ao meu lado, retirando a tampa, e colocou o bico sobre meus lábios secos, forçando a passagem da água fresca. Senti um alivio imediato à medida que as paredes da minha garganta iam se afastando e se refrescando.
— Ian. – ele dirigiu-se ao outro homem. – Ajude-me a levantá-la.
O homem chamado Ian aproximou-se e os dois me levantaram um puxando cada braço. Assim que fiquei de pé desvencilhei-me de seus braços, ciente de que poderia ao menos me manter sobre meus próprios pés. Olhei de relance para minha moto – não queria deixar meu bebê à mercê do sol escaldante e dos coiotes selvagens. Meu olhar apreensivo não passou despercebido por Jeb, que seguiu meu olhar e sorriu compreensivo para mim.
— Ian, por que não leva a moto da mocinha à caverna de veículos? Pode se tornar útil às incursões futuras.
Eu abri um sorriso de agradecimento e ele mandou-me uma piscadela brincalhona. Ian montou na Harley e se afastou na direção contrária.
— Cadê meu abraço, little Rocker? – perguntou-me Jeb, assim que o outro se afastou, abrindo os braços.
— Deixa para a próxima, não é, Jeb?
— E voltamos aos velhos tempos! – ele disse, rindo, e dando um tapinha em meu ombro.
Ele foi andando adiante, em direção à boca da caverna e eu o segui, meio receosa. O túnel era escuro, o chão íngreme e o teto baixo. Posso não ser muito alta, mas o teto era tão baixo que foi preciso manter-me abaixada para não bater a cabeça. Tempos depois – não sei se foram horas ou minutos, sei que foi tempo suficiente para nunca mais querer ver um túnel desses na minha frente –, vi uma claridade à frente, que me pareceu ser finalmente as cavernas.
De repente, senti-me insegura.
Já não sabia se queria encarar outras pessoas que podiam não me aceitar. Eu não sabia nem quantos mais haviam. E eu estaria sozinha, por mim mesma. Sem me dar conta, segurei o pulso de Jeb, impedindo-o de avançar. Ele virou-se confuso, mas a compreensão invadiu seu olhar quando viu a insegurança no meu.
— Não se preocupe, little Rocker! – ele exclamou, dando uma batidinha no rifle que estava apoiado no ombro. – E você com essas roupas pretas e cara de marrenta, ninguém chegará perto de você.
Eu fechei a cara, mesmo sabendo que não passava de brincadeira. Assenti e continuamos em frente, atravessando o fim do túnel e entramos em um local grande e, graças a Deus, vazio. Olhei ao redor e vi vários espelhos no teto refletindo a luz que atravessava pequenos buracos no teto alto.
— Onde estão os outros? – vi-me perguntando.
Por mais que quisesse adiar isso, sabia que quanto mais rápido enfrentasse-os, mais rápido me sentiria aliviada.
— Hoje é dia de folga. Estão todos jogando futebol na sala de jogos. – ele respondeu e eu simplesmente assenti, sentindo-me cansada.
— Para que são os espelhos?
— Essa é a praça principal, onde os espelhos foram colocados em pontos estratégicos para refletir a luz solar em qualquer horário. – disse, orgulhoso do próprio trabalho. – Durante o dia, claro.
Sala de jogos?! Praça principal?!
Quantos locais havia ali nas cavernas de Jeb?
Eu estava cansada e tudo o que eu queria era um lugar para dormir, mas ele insistiu em me mostrar tudo. Então ele começou a me levar pelos túneis, mostrando-me todos os lugares dali em seu chamado “tour dos novatos”. Animava-se cada vez que eu lhe perguntava sobre a arquitetura do lugar. Praça principal, caverna dos banhos, cozinha, depósito, plantação, hospital, quartos. Eu ficava espantada com a inteligência de Jeb, pois foi ele quem encontrara as cavernas e a guardara em segredo, prevendo a invasão alienígena.
Estávamos indo em direção à sala de jogos quando ouvi a voz de um garoto chamando por Jeb. Olhei-o de soslaio, e mordi o lábio inferior nervosamente, mas ele somente me lançou um sorriso acolhedor. Por alguma razão, eu sabia que poderia confiar em Jeb e no garoto moreno que apareceu sorrindo segundos depois. Assim que percebeu minha presença ao lado de Jeb, parou instantaneamente, me analisando de cima a baixo. Ele era lindo e parecia ter a minha idade, o que me deixou envergonhada o suficiente para abaixar o olhar para meus próprios pés e agarrar fortemente a alça da minha mochila.
Senti minhas bochechas queimarem e finalmente entendi que eu estava me sentindo tímida. E não era de se espantar. Ele era lindo, com as mechas negras caindo sobre a testa e olhos azuis eletrizantes. Tão eletrizantes que fez meu coração acelerar um pouco e o cansaço não parecer prioridade. Fui arrancada rapidamente de meus devaneios ridiculamente infantis por um pigarro. Levantei meus olhos em um ato reflexo, mas rápido o suficiente para ver uma sombra das bochechas coradas do menino e do sorriso malicioso de Jeb.
— E então, pirralho, por que veio pulando feito uma gazela dançante atrás de mim? – perguntou Jeb, deixando o garoto claramente desconfortável, coçando a cabeça e abaixando o olhar.
— Eu... Eu estava te procurando para você e Ian se juntarem ao jogo. – disse ele em uma voz doce e rouca ao mesmo tempo, enterrando as mãos nos bolsos da calça jeans.
— O grandalhão está guardando a Harley da nossa amiguinha Rachel aqui! – declarou Jeb e somente quando ouvi a droga do meu nome que voltei a mim completamente.
— É Rocker! – exclamei, lançando-o um olhar que dizia muito bem o quanto eu odiava ser chamada pelo nome.
Ele riu e após alguns segundos de silêncio constrangedor, o menino deu um passo à frente e me estendeu a mão.
— Sou Jamie Stryder, sobrinho desse velho rabugento.
Dei um passo à frente enquanto murmurava um “meus pêsames” para que somente ele ouvisse. Tomei sua mão na minha, sentindo sua pele meio macia e meio calejada eletrificar todo o meu braço. Por um segundo, nós nos encaramos e eu me perdi em seus lindos olhos azuis. Mas eu precisava me apresentar decentemente, sem demonstrar qualquer interesse, mesmo que eu (imaginasse) que não houvesse.
— Rocker Heymiswit. – entoei meu apelido, olhando sugestivamente para Jeb e ouvindo um risinho descontraído de Jamie.
Voltei novamente meu olha para ele e perdi-me mais uma vez em seus olhos azuis. Somente azuis, sem nenhum maldito reflexo. Sorri naturalmente, algo que eu não fazia há muito, muito tempo.
— Jamie, por que não leva a little Rocker para conhecer a sala de jogos? – pediu Jeb e Jamie pareceu surpreso com essa atitude.
— Você não estava no meio do seu tour, não estava? – perguntou Jamie, parecendo meio atordoado e eu me questionei se Jeb já havia pedido a alguém para terminar seu tour antes.
— Estava, mas acho que você seria perfeito para terminá-lo para mim. – quando Jeb respondeu, percebi que não pretendia ir conosco e eu não sabia o que pensar ou sentir quanto a isso. Ele pareceu perceber meu desespero, pois completou, já se virando no túnel. – Não se preocupe, Rachel, Jamie não deixará ninguém te machucar.
— É ROCKER! – gritei roucamente, enquanto ouvia a risada de ambos os Stryder.
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