281 d.C

Rhaegar Targaryen

Sexto dia do torneio. Não havia tido qualquer outro contato com lady Stark no dia anterior após o desastroso encontro da quarta noite. Sendo assim, havia concentrado suas energias e todo seu desempenho em ganhar o torneio. Ontem, havia derrotado lorde Yohn Royce e hoje pela manhã havia derrubado o filho mais velho do Guardião do Norte e irmão de Lyanna, Brandon Stark. Agora, restava apenas seu companheiro e amigo sir Arthur Dayne. Então, quem vencesse as justas do final da tarde duelaria com ele e enfim teriam um campeão.

Apesar das festividades em Harrenhal terem sido programadas para durarem por 10 dias, o torneio seria até o dia de hoje. Então, os outros 4 dias provavelmente teriam uma quantidade menor de pessoas, pois ao menos os soldados e guerreiros deixariam o local a mando de seus senhores.

O almoço em breve seria servido, então haveria tempo para a disputa com sir Dayne. Ao invés de seguir rumo ao Salão, entretanto, Rhaegar viu a si mesmo parar num dos corredores do castelo devido a uma figura familiar que havia ocupado sua visão. No pátio do castelo estava Lyanna andando de braços dados com um homem mais alto e de cabelos escuros. Ela também o viu, mas desviou o olhar. Sorriu ao olhar para o Baratheon e a ideia de que ela pudesse estar feliz ao lado daquele homem o incomodou profundamente. Se sentia como um homem traído, embora ela estivesse noiva do cervo.

Como se não fosse ruim o suficiente vê-la ao lado daquele...ser, viu ele dizer algo e se aproximar dela. As mãos no rosto que o Targaryen quisera desesperadamente tocar. Ela ergueu seu corpo sobre os pés elevados e o beijou. Rhaegar sentiu ira genuína e quis descer até o pátio para socar o rosto do Baratheon. Suas mãos se fecharam em punhos e ele sabia. Uma parte de si sabia que não havia nada mais tolo ou irracional do que sentir ciúmes e raiva de uma mulher que não era sua. Ainda assim, era exatamente como se sentia.

Ao invés de ir ao Salão, foi em direção aos aposentos de sua esposa. Ele deveria dirigir seu desejo e sua afeição a Elia Martell, não a uma garota selvagem do Norte. Chegando no quarto destinado a Elia, notou que seu estado anterior não havia se arrefecido. O coração ainda batia forte e ele ainda estava irritado. Tentou manter a compostura ou ao menos a aparência de calma ao bater na porta e segurar as mãos atrás das costas.

Uma vez que a porta estava aberta, viu as servas que ajudavam a princesa a se vestir saírem apressadamente aos cochichos. Sozinhos no quarto, Rhaegar parou atrás de sua prometida, deslizando os dedos com delicadeza por seus braços. Encarou os olhos castanhos pelo espelho.

— Posso perguntar o motivo de sua aparição repentina?

— Faz algum tempo que não me aqueço junto a minha esposa – respondeu breve com um pequeno sorriso lateral em seu rosto. Ela pareceu surpresa por um momento. Talvez pela sugestão em sua voz ou pelo fato de ter sorrido quando quase nunca o fazia. Rhaegar não sabia o motivo dos olhos arregalados, porém quando a Martell virou o rosto em sua direção, viu a si mesmo beijá-la. Não um beijo terno, mas algo mais primitivo. Ela recuou um momento e logo voltou a se aproximar, beijando-o com o mesmo ardor.

As roupas caíram ao chão com facilidade e o Targaryen envolveu o corpo da dornesa com facilidade e rapidez, logo colocando-a sobre a cama e cobrindo seu corpo sobre o dela. Ele beijava cada parte da pele morena como se quisesse tê-la inteiramente em sua boca e por mais que cheirasse sua pele ou beijasse seus dedos, não a tinha perto o suficiente. Tão logo certa umidade se apresentou entre as pernas da mulher, ele se juntou inteiramente a carne de seu íntimo.

Elia sentia-se assaltada de repente. Seu marido nunca a havia tido com tanta ferocidade ou desejo antes. Ele era caloroso e gentil, mas nunca tão feroz. Não poderia dizer que a incomodava, entretanto. Era um pouco aliviador que ele pudesse querê-la na intensidade que ela o queria. O que realmente dominava a mente do príncipe, todavia, não era a imagem de sua esposa ou o desejo que sentia por ela, mas o desespero que sentia por uma certa garota do Norte.

Os cabelos da Martell eram castanhos e sob a baixa iluminação do local, Rhaegar imaginava consigo que seriam negros e escuros como o pelo de um alazão sangue-puro. Em seus olhos, a fantasia de sua mente o cegava ao ponto de se ver tocando a pele clara e branca como a neve ao invés do corpo obscurecido como terra de Elia. No momento final do ato, entretanto, quando ele juntou sua boca ao pescoço da mulher em suas últimas estocadas contra a carne úmida, viu a si mesmo sussurrar o nome de Lyanna antes de desabar.

O peso de seu corpo não era sufocante o suficiente para machucar Elia. Porém, tão logo caiu sobre ela, a garota dornesa sentiu lágrimas assumirem seus olhos. Ela estava confiante, exultante e com expectativas altas de que aquele momento significava a declaração amorosa que tanto esperou de seu marido. Agora, entretanto, a realidade batia duramente contra seu rosto e percebia que o marido havia se afeiçoado a outra. Pensava consigo que seria menos doloroso se ele a houvesse assassinado com um corte limpo, pois a dor em seu coração era dilacerante.

Quando enfim a consciência de seus atos assumiu forma na mente de Rhaegar, ele se viu levantar com certa pressa e se distanciar da esposa. A rejeição de seu toque foi mais um motivo para engrandecer a mágoa de Elia. Por três anos estavam casados. Por três anos ela o havia acolhido com seu corpo e o respeitado e amado em seu coração. Agora descobria que seu afeto se dirigia a outra. Como os deuses poderiam ser tão injustos?

— Quem é Lyanna? – questionou e se fez de forte, pois jamais se permitiria chorar na frente dele. As mulheres nascidas no deserto eram fortes. Desde a princesa Meria conhecida como mulher-sapo até os dias atuais, o povo de Dorne sabia que mulheres podiam ser guerreiras e poderiam ser fortes.

Rhaegar estava sentado na beirada da cama. O corpo completamente nu como havia nascido neste mundo, mas não se importava. Em sua mente, pensava na garota do Norte. Pensava em Lyanna Stark e finalmente entendia aqueles poetas que diziam que o amor era um mal a ser combatido. Consigo mesmo pensava em quanta destruição poderia causar aquele sentimento, pois tal logo havia sido plantado em seu peito, suas raízes profundas incomodavam seu coração e agora havia magoado Elia.

— Estou apaixonado por ela – disse ao virar o rosto para a esposa, mas foi apenas um gesto instintivo. Não tinha a coragem para encará-la nos olhos. Estava envergonhado consigo mesmo de novo. Se sentia ainda com raiva de Robert e ao mesmo tempo injustiçado frente a vida. O príncipe que poderia ter tudo, não tinha a mulher que queria.

Vestiu suas roupas com certa pressa e se isolou na biblioteca abandonada em busca de paz e certo consolo. Quando enfim chegou a hora do torneio, Rhaegar sentia-se desta vez fortalecido. Subiu em seu cavalo como um campeão, pois havia decidido não mais se lamentar pelo modo como as coisas haviam ocorrendo. Em qualquer outra situação, Rhaegar miraria sua lança no peito do amigo, atento e considerando a possibilidade de feri-lo. Aquela tarde, entretanto, pensava consigo que só haviam ganhadores por haverem perdedores.

Ele derrubou seu amigo no chão sem feri-lo e a multidão foi a loucura. Aplausos e gritos. Seu nome estava inscrito para a batalha final e momentaneamente se sentiu melhor, até que seus olhos foram em direção a garota do Norte. Ela sorria o encarando e Rhaegar percebeu consigo que era tarde demais. Ele não poderia mais voltar atrás e fingir que aquele sentimento não existia. Não havia mulher mais bela que aquela nem nenhuma que ele quisesse mais do que aquela. Lyanna seria a rainha do Amor e da Beleza. Lyanna seria sua esposa.