Reykjavík
1 Fumaça das minhas intenções
Notas iniciais
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Eu já passei por muitos lugares, muitos países, diferentes cidades, e sempre meu lugar favorito em comum entre eles são as praças, uma mesma praça pode ter todas as paisagens possíveis dependendo do domínio morfoclimático e das estações, em todos os lugares que já visitei eu sempre sentei em um banco e passei bons bocados observando a paisagem, observando as pessoas, escrevendo estórias a partir de toda a inspiração que esses lugares me trouxeram, mas isso mudou depois que visitei a Islândia.
Reykjavík, capital da Islândia, sentada estava em um banco da praça simples porém muito bonita, principalmente naquela época que trouxera as mais variadas flores, o banco de madeira negra era confortável, comecei a analisar os fatores que compunham o cenário, aquela vista proporcionava algo diferente e único, olhando para frente via-se ruas, poucos carros passando, pequenos prédios, asfalto limpo e uma igreja mais ao longe, mas assim que virava-se de costa, havia uma imensa terra com grama, flores, e uma colorida natureza, isso foi um ótimo ponto para a minha estória, me impressionei com a falta de pessoas no local, logo o ser humano que eu tanto observava nas praças não estava ali.
Mas para minha alegria, o local pouco habitado não ficou só por isso por muito tempo, e o que me encabulou não foi nem a paisagem, o modo como o cenário se dividia em dois ou sua montagem, o que me prendeu naquele local pelo resto do dia foi exatamente dois humanos, dois jovens, os dois eram morenos, pareciam ser da mesma altura, mas o que lhes diferenciava mesmo eram suas personalidades, eu nunca os conheci de verdade, nunca troquei uma palavra sequer com algum deles, mas o modo como se portavam era bastante diferente. Um deles parecia ser mais tímido, sempre cobrindo o rosto com o cachecol, parecia estar sempre encolhido e assustado, pensei que talvez fosse por medo, já que eram um casal, pelo menos eles se beijaram algumas vezes, curtos beijos, nada que passasse muito de selinhos. O outro parecia ser bem ao contrário, tentou várias vezes andar de mãos dadas com o garoto tímido, estava o tempo todo sorrindo e cumprimentando as pessoas, parecia que por onde ele andava pintava o caminho com cores diversas e o outro vinha apagando, tentando ser o mais discreto possível.
Eles atravessaram a rua e eu fingi que estava lendo um livro quando na verdade estava observando os dois na praça. O cara mais animado estava com uma câmera na mão, ele parecia pedir para seu namorado fazer poses e o outro apenas virava de costas e cobria ainda mais seu rosto com a peça de roupa, o outro ainda insistente pareceu ter uma ideia ao olhar para as flores, ele fez um buquê colorido com a diversidade que ali tinha, entregou para o que acreditei ser seu namorado, disse-lhe algo e seu amante pareceu corar, então ele pôde tirar uma foto das mãos segurando o buquê. O sorriso do jovem com a câmera não saiu de seu rosto durante as horas seguintes que passaram ali, entre conversas e alguns beijos discretos.
Naquele mesmo lugar eu fiquei sentada até depois deles terem ido embora, pois ali mesmo comecei a escrever uma estória, até tinha escolhido nomes para os dois, Narfi e Kacper, respectivamente o mais tímido e o mais agitado. Anoiteceu e eu estava finalizando a obra na vigésima terceira página quando vi “Narfi” em meio a luz do poste na rua.
Olhei no meu relógio e era 23:40, as ruas já estavam bem mais vazias, pois ali era um lugar com pouca transição de carros, mas não é isso o que importa, o que me surpreendeu é que ali o garoto estava totalmente diferente, seu rosto estava todo descoberto mesmo que a noite estivesse bem mais fria, sua postura estava ereta e ele parecia muito sorridente, também parecia bem mais bonito, então um outro cara surgiu, eu me assustei com o aparecimento dele, ele era bem mais alto que “Narfi”, também parecia ser uns bons anos mais velho, o sorriso espaçoso na face fez o outro corar, mesmo que a primeira coisa que tenham feito foi se beijarem ali, eu apenas abaixei minha cabeça e fiquei nervosa, olhei para a minha estória, todas as vinte e três páginas que em um instante não faziam mais sentindo, olhei novamente para os dois e eles ainda estavam se beijando, “Narfi” apertava o garoto com força contra si, e lhe entregava vários sorrisos prontamente devolvidos entre o beijo, ali os dois pareciam brilhar, pareciam felizes de verdade, pareciam compartilhar de um sentimento único.
Depois de findar tal beijo eles sorriram e riram do estado um do outro, de mãos dadas se foram para alguma direção compartilhando sorrisos e risadas altas.
O jovem moreno estava feliz com aquele novo cara, não sei por quê, minha estória pareceu inapropriada naquele momento, pareceu um absurdo, pareceu um artigo sem sentindo, uma escrita chata, uma aula de Geografia.
Então eu peguei mais uma folha de papel e tentei pensar em suas possíveis razões, o porquê, como ele estava passando por isso, se estava certo ou errado, ou até se aquele primeiro casal tinha um relacionamento aberto, o que me deixou estranha comigo mesma é que depois de tantas teorias eu não consegui fazer nada na vigésima quarta página, nem mais uma palavra, nem mais uma letra, nada.
Eu nunca entendi tal sentimento que tive naquele dia, talvez aquela estória teria sido a minha melhor, mas eu li e reli e não havia mais o mesmo sentimento de quando a escrevi, por isso o que fiz foi me levantar e jogar as todas as páginas fora no lixo mais próximo, olhei todas aquelas folhas caindo no lixo e para mim foi como se estivessem queimando, a fumaça colorida das minhas intenções ao escrever aquilo sobrevoando no ar.
Não aguentei mais passar nenhum dia em Reykjavík, talvez se eu tivesse visitado a praça mais uma vez eu encontraria outras pessoas, criaria outras estórias, ou talvez eu visse o mesmo casal e reencontrasse a inspiração, mas senti medo, medo de pela primeira vez não conseguir criar algo, não que isso não tenha sido um fato, porém eu que escolhi não tentar.
Ao chegar em casa, em Hong Kong, sentei em minha escrivaninha do meu escritório e percebi o quão vazia estava, porque sempre que voltava de viagem eu tirava minhas roupas e antes de ir para a banheira eu deixava as tantas folhas escritas em cima da escrivaninha, mas dessa vez não havia nada, nenhuma página, isso parece bobagem perante tudo o que já escrevi nessa vida, mas eu chorei naquele dia, senti-me incapaz e incompleta, naquela semana eu escrevi dez estórias diferentes, algumas pequenas, outras se tornaram livros maiores, mas ao reler todos eles senti como se nenhum fosse bom o bastante para se tornar público, acho que não apenas deixei uma estória naquele lixo da praça, mas uma parte do meu talento, ou da minha paixão por minha escrita.
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