“Festas à fantasia são ótimas, pois se você não conseguir pensar num papo para puxar, sempre dá pra usar a fantasia da pessoa como um”. Foi com esse pensamento que Felipe decidiu ir para a festa à fantasia de sua antiga faculdade em Sorocaba no final de novembro, com o tema astros do rock. Festas nunca foram a primeira escolha dele para um sábado à noite, mas ter assistido 500 Dias com Ela o fez cair na real que ele nunca teve um relacionamento decente com alguém. Talvez até nunca mesmo tenha sido importante e marcante pra alguém. E isso passou a incomodá-lo de uma maneira que ele nunca imaginou que fosse possível ser.

Esses são os motivos que o fizeram ir para a tal festa. E aqui está ele. Vestindo sua camisa surrada da lendária banda The Cure, com o rosto do vocalista estampado nela, maquiagem no rosto e uma corrente de caveira. Um “verdadeiro” gótico. Sozinho. 2h da manhã. No canto da festa.

- Eu realmente não sei o que estou fazendo aqui. Eu realmente acho que deveria ter ido para a cama hoje à noite mas...

Fato é que ele não levou em consideração algo muito importante. Ele simplesmente não consegue conversar com alguém em ambiente de festa. Todas as luzes, música alta, gritos para se fazer entender. Tudo isso prejudicava e o fazia desistir na hora de chegar em alguma garota. Na verdade, isso não passava de desculpa esfarrapada para não admitir que sua timidez simplesmente não deixava, mas a desculpa o fazia se sentir bem. Quem pode culpá-lo? Mesmo assim ele não desistia da festa e procurava um incentivo para tomar uma atitude. Vagando pela festa fingindo procurar alguém (ele achava que assim todos achariam que ele não estava sozinho), ele nota uma garota sozinha na sacada enorme do local da festa, olhando para o céu estrelado como se estivesse procurando por algo. Ela estava sozinha. Tinha um estilo próprio sensacional, cabelo preto curto e tatuagem nas costas. Todas as características que ele mais curtia em uma garota. “Ok, aja naturalmente”, pensou ele. Não havia luzes piscando. E muito menos música alta. Não havia mais desculpas para usar. Ele tinha que falar com ela. Com muita hesitação, Felipe se posicionou ao lado da garota, tentou ao máximo imitar a pose blasé de Keanu Reeves e disse olhando para o céu.

- No jornal disse que hoje seria noite de estrelas cadentes. Está procurando-as?

- Não, to procurando carona pra casa.

- Mas... olhando pro céu. Que jeito inusitado de procurar carona. De onde você é?
— Saturno. E você?

Felipe tirou os olhos do céu estrelado e voltou-se para a garota a seu lado. Agora sim ele pôde reparar mais nela e em sua fantasia. Certamente ela estava de Keith Richards, com a bandana e a camisa dos Stones. Só que as antenas em sua cabeça não faziam o menor sentido... “Será que era uma homenagem ao Bowie?”. Felipe ficou imerso em seus pensamentos enquanto a olhava – Nossa, essa garota deve ter tomado muitas drogas... Bom, vou entrar na brisa dela.

- Eu sou de Plutão!

Agora foi a vez de a garota tirar os olhos do céu para se voltar para Felipe.

- Jura? O planeta que foi rebaixado a planeta-anão?

- É, esse mesmo. Combina bem com meu time, sabe haha

- ???

- Anyway, meu nome é Felipe Figueiredo e faço piadas sem graça auto-depreciativas. Prazer.

- Eu sou Milena Guimarães. Prazer.

E apertaram as mãos. Felipe então continuou a conversa.

- Então... o que te traz aqui?

-Aonde? Na festa ou na Terra?
— Nos dois! Haha

- Bom, você conhece o Guia do Mochileiro das Galáxias, certo? Então, eu trabalho para eles. Desde que a viagem no tempo se tornou muito barata, a Terra passou de um dos planetas mais chatos do universo para um dos que valem a pena visitar. Claro que você precisa escolher a época certa... Essa a que nós estamos é a mais sem atrativos, não atrai nenhum turista. Porém os chamados anos 60, 70 são muito bem falados no resto do universo e o Guia resolveu escrever um artigo sobre essa época de ouro. Então eu fiz o que todos os agentes de turismo são obrigados a fazer antes de partir pra uma viagem intertemporal. Aprender os costumes, a apreciar a cultura, música, cinema, arte em geral da época por hipnopedia. Depois eles nos dão as roupas do período e nos mandam para a época em questão. Só que algo deve ter dado terrivelmente errado e eu vim parar nos anos 2000, com toda essa merda de new metal, crepúsculo e tal.

Felipe achou q era o momento de dizer algo para confirmar que estava ouvindo – wow... – mas na verdade ele estava pensando – Nossa, essa mina ta indo longe!

- Fato é que eu estou presa aqui. São eles que controlam minha viagem de volta. Mas eles precisam saber das minhas coordenadas para isso. E como eu estou perdida no tempo, as chances de eles me acharem são baixíssimas...

- oh... não sei o que dizer... – e ele não sabia MESMO. Afinal, o que poderia ser dito? “Fique tranqüila, amanhã os efeitos das drogas passarão” foi o que ele pensou de melhor mas preferiu ficar quieto. Ao invés disso, continuou a conversa – E nessa festa? O que veio fazer?

- Eu estudei na faculdade daqui, sabe. Já que estou perdida aqui, que faça algo de útil. Escolhi turismo porque pode contribuir para o meu artigo sobre a Terra (se é que o escreverei um dia mesmo...). Podia ter feito na USP em São Paulo mas lá os prédio são muito altos, impedindo a visualização das naves que passam pelo planeta. Sorocaba é o ideal pois dá pra ver um céu claríssimo.

- Hunm, entendo... E as estrelas cadentes que o jornal anunciou, são, na verdade, naves espaciais?

- Exato. É por isso que eu estou sempre à procura dos que os terráqueos chamam de estrelas cadentes. No começo eu falava a verdade, mas todo mundo achava que era sarcasmo...

-Hah, que coisa, não!

De repente uma garota loira, da mesma altura de Milena surgiu na entrada da sacada e gritou:

- Maicon! Estamos indo. Vai querer ir com a gente?

- Vou, Lígia. Pode ir na frente que eu já estou indo.

- Ooook.

Milena se virou para Felipe e continuou:

- Então... Felipe, né?

- Yeah.

- Semana que vem vai ter uma reunião lá em São Paulo dos extra seres que estão nesse planeta que nem a gente. Ao que parece surgiu um problema para todos nós. Ou você pode fazer o que os terráqueos fazem de melhor: achar que não é problema seu. Sei lá, você quem sabe. Aqui está meu cartão – e entregou um cartão de visitas para Felipe – Qualquer coisa, me mande um e-mail – e começou a caminhar em direção à saída.

Felipe leu o cartão para si mesmo – “Shelly Bustamante” – e gritou para Milena – Espera!! Acho que você me deu o cartão errado. Aqui tá escrito Shelly Bustamante.

- Ah, sou eu sim. Mas esse cartão é da época que era cigana da galáxia. Antes do rebaixamento do seu planeta ferrar com meu negócio. Até!!! Fui!

E Felipe ficou sozinho na sacada, pensando consigo mesmo – “Cigana da galáxia”... Quanto será que precisa fumar pra ficar assim?