Revolução Abissal

4 Ruins of the Old Age


Notas iniciais
Sabe quando você tem ideia pra o que vai acontecer no resto inteiro da fic, mas não tem ideia do que vai botar no proximo capitulo? Foi tipo isso, por isso a demora hauhaua

Vão ser cinco POVs nessa fic, e dois desses povs eu já apresentei (Shast não conta, ele é tipo um prólogo), e tipo, eu to doido pra escrever sobre os outros XD

Esse ficou um pouquinho maior, enfim, aproveitem :p (se alguem tiver lendo mesmo isso) Se acharem qualquer erro de ortografia, deem um toque ae ^^

Vou botar no começo dos caps agora quem tiver narrando ele, já alterei isso nos outros caps.

Karl


Ano 2500



As ruínas iam e viam, complexos de aço e cimento quebrados e retorcidos tantas vezes, que pareciam estar lá desde que o mundo começara a existir. Como podem ser tão lindas? São só ruínas. Mas era lá que estava a resposta: Restos de um mundo próspero e pacífico, um mundo onde outrora reinaram humanos, o meu povo, e não baleias assassinas gigantes. Rey ainda me agarrava pendurada em uma corda atada a um besouro mecânico voador, que nos levava a longe dali, mas preferia não pensar nisso. “O besouro está abarrotado lá em cima, vamos ter de ficar içados aqui.” Ela dissera. Matas vermelhas cresciam em alguns cantos, tão altas como alguns velhos edifícios que havia ali. Estavam fartas de frutas, mas quando tentei pegar, Rey me respondeu com um soco de metal no meu estômago.



_Você tem retardo? Esse é alimento de baleia, Bom Recruta. — Começou a me chamar assim há poucos minutos, acompanhado de uma conversa de como eu daria um bom soldado na tal Resistência dela. – Nós só comemos as árvores verdes. E carne de baleia, claro. Mas tem de assar bem antes, para tirar o veneno vermelho delas.


_Não precisava me dar um soco, era só me dizer não. Não conhece essa palavra?

_Não. – E agitou seus cabelos róseos esquisitos, como fazia a cada dez segundos

O besouro cortava os céus tão rápido quanto era imaginável. A viagem já corria há horas, e não tinha ideia de quando o destino chegaria. Também não ousava perguntar. A garota rosada transbordava fúria e ousadia.



Dava-me por pensar que as ruínas talvez fossem todas iguais. Como os homens, enfim. No final, apenas esqueletos, todos iguais. Essa era outra coisa que sabia e tinha certeza, além de meu nome ser Karl.



Mais dois besouros voadores emergiram do distante horizonte, se encaminhando até nós.


_Meu irmão Reymond provavelmente está dirigindo um daqueles. – Anunciou ela. – Ele é aprendiz do Shiro em nossa força aérea. – Rey apresentara o homem que dirigia nosso besouro como Shiro. Era um homem atarracado e muito baixo, com os braços peludos e uma única sobrancelha unida a espessa barba negra, que descia em longas voltas até o chão. Sua voz era um grosso gutural, e quando ria tal fosse ouvido até a Lua. Se ainda houver alguém para ouvir lá, claro. – Irá suceder o tampinha quando ele morrer. Meu irmãozinho, Bom Recruta. Ele é tão idiota quanto você, mas tem meu sangue, e não deve ser lá tão difícil pilotar um trambolho destes. – Ela abriu um sorriso torto, e quando percebeu o que havia feito, corou. Revirou os olhos, numa carranca. Um apito sai do estranho braço mecânico de Rey, seguido de um cheiro de fumaça. – Opa! Tá pronto, finalmente. Vai querer um pedaço? Digo, só um pedaço, não mais, eu tô com fome.

_Pedaço... Do quê? – Não vou gostar do que está por vir. Ela abriu um compartimento do braço.

_Bacon de Orca do Marfim. É uma maravilha, eu te juro. Ultimamente elas têm desenvolvido músculos e perdendo gordura, mas uma Orca ainda rende bacon pra um homem por uns bons dois anos. – Ela pegou um pedaço, de um vermelho que brilhava mais que o sol. Artômio? – Não tem com o que se preocupar. Meu braço tira a praga vermelha com um neutralizante. É gostoso, mas não garanto que seja saudável. A resistência é lotada de gente gorda até o cu. Até mortas e em pedaços de carnes essas malditas nos atrapalham. Vamos, pega um pedaço. – Hesitei, e joguei a mão para trás, com nojo. – Você é estranho. Todo ser humano em um raio de cem mil quilômetros gosta de bacon. Tudo bem, engordo sozinha. – Ela estalou os dedos, e saiu um prato de dentro do braço dela.

_Por que tem esse braço de ferro, afinal? Hmn, quer dizer... – Karl, seu babaca. Não pra ter perguntado isso logo de cara. – Érr... Como perdeu ele? Matando uma dessas baleias?

Ela me olhou incrédula, com as sobrancelhas cerradas.

_Eu não perdi ele. Eu o arranquei. – Disse, como se estivesse falando a coisa mais obvia do mundo. – Um braço mecânico é muito mais útil. Olha só. – Uma lâmina de trinta centímetros cresceu, e ela golpeou o ar. As placas de aço se moviam quase como se pensassem sozinhas, formando todos os tipos de canhões e armas. A grossura do braço era de cinco a dez vezes a do meu, dependendo de como ela o transformava. – Vê? Aquela tal assassina do Kin’ya...

_Chamo-a de Mercenária. E quem é esse tal de Kin’ya?

_Se me interromper, de novo, faço meu braço se transformar nisso – o metal mudou de lugar várias vezes em forma circular, se comprimindo. No final, era um mastro com uma protuberância na parte de cima. Quando entendi o que era, soltei um gemido de medo que até eu estranhei. – e enfio em um lugar que vai adorar. Kin’ya é o líder, aquele que decepamos fora suas duas presas. E essa Mercenária é a Kanade. Continuando, a tal Kanade copiou meu braço.

_Os braços mecânicos da Orca ficaram muito melhores, por sinal! – Gritou Shiro, lá no alto do besouro voador.

“Ele veio do Fim do Mundo, ele e o Frank. O povo antigo, de antes de a Desgraça Vermelha cair dos céus, chamava o lugar de Ártico” Disse a menina rosada, algumas horas atrás. “Um conflito entre as baleias e as noventa-braços se arrastou por lá, e todo seu povo habilidoso ruiu. O pai de Shiro o ensinou tudo sobre as armas e tecnologia do povo antigo, bem como o pai deste o ensinou e o pai antes dele. Eles ainda tinham esperança de reerguer a espécie humana.” Concluiu, triste. E ela e sua Resistência ainda têm essa esperança, em vão, pensei.

“Quem são essas noventa-braços?” perguntei.

“São as piores, quando um braço te pega, esmaga você como uma folha. São as lulas.” Os dentes de Rey cerravam de fúria. “Um conhecimento secreto escapuliu das mãos do povo antigo após a Desgraça Vermelha. Ironicamente, metade dele parou nas mãos das baleias, e a outra, das lulas. Foi aí que começou a guerra.” Ela engoliu a própria saliva, em desgosto. “O que restou da nossa espécie morreu aos poucos, pelo veneno que a Desgraça deixou no ar, tóxico para os humanos.”

“Como sabe de tudo isso?”

“Eu não sei nada. Eu vivi. Cada humano que luta até hoje conheceu isso tudo da pior forma.” Seu olhar era duro, mas era fácil ver a tristeza por trás daquela muralha. “Me admira você não conhecer nada disso.” Ela dissera. “Sua existência é um mistério, a partir do momento que nem você mesmo sabe quem você é. De onde você veio, afinal?” Rey fingia impaciência, mas estava intrigada, e isso era visível.

Um homem sem memórias. Um homem que nunca viveu. Um homem oco. O pior de tudo é o meu passado não me intriga mais do que o faz a Rey. Algo me empurrava para longe do passado, e me fazia não me atrever a tentar lembrá-lo. Um passado triste, era o óbvio. Não havia começo ou final feliz para um humano, isso havia ficado claro. Parecia melhor não lembrar.

_Você não deveria existir. – Falou Rey agora, olhando mais para o além do que para mim. Suas palavras estavam abafadas, quase com grunhido. Sua testa, franzida. –. Quando vimos um humano no radar, corremos o mais rápido que podíamos. Você aparecia e desaparecia do radar o tempo todo. – A garota rosada suspirou. – Não deveria existir. – Ela repetiu.

Os dois besouros haviam chegado, e um deles içou uma escada para subirmos. Lá em cima, um homem magro e sorridente estava sentado em uma cadeira, com várias torres pequenas ligadas à sua cabeça. Devia ser o tal Reymond, pois ele tinha feições parecidas com as de Rey. E foi sortudo em não herdar aquela carranca.

_Prazxer, Eymmo-mond! – Abriu a boca para sorrir novamente, e pude reparar em seus tortos, um sobre o outro, e quase pretos de estrago. Pareciam ter sido roídos, lixados. Sua voz era distante e falha.

Rey agarrou as bochechas do irmão, e o sacudiu de um lado para o outro. Ele soltou a língua para fora, rindo freneticamente e jogando baba até na Lua. A garota rosada levantou ligeiramente os lábios para o lado, num sorriso amarelo. Ela parecia realmente feliz, e o abraçava com fervor. Talvez o Reymond seja a última coisa que resta para ela, reflito, por isso o agarra tanto. Do que um homem que nada tem, como eu, poderia questionar.

_Karl, tá esperando o quê? – A cara da garota quase que instantaneamente se transformou de um sorriso para a carranca. Arrancar presas de baleias não era seu único dom, afinal. — Cumprimente o Mon-mon. – Mas o quê?

_O prazer é meu, éér... – Me esforcei para conseguir falar aquilo. – Mon-mon.

Estava começando a preferir se perseguido todos os dias pelas Orcas de Marfim. Quando Mon-mon agitou seus cabelos, igual à irmã fazia, reparei que eles também eram rosa. Ou ele se espalhava na irmã, ou todos da tal Resistência são todos iguais. Prefiro ficar com a primeira.

O resto da viagem não fora lá tão animador; Reymond-Mon-Mon cantarolava algo ininteligível, Rey o aplaudia e eu tentava não chorar. O estopim foi quando uma saliva pegajosa vinda de Mon-mon voara todo o interior do besouro até mim. Fiquei em pé em um raio, mas um olhar frio da Rey me sobrepujou. Sentei, limpando o cuspe da minha cara.

A destruição deu lugar a um enorme complexo, não mais organizado. O ferro e aço se organizavam em paredes amontoadas no formato de um círculo, ao redor de algumas elevações menores, no centro. Uma muralha, concluí. Minha tese se mostrou concreta, ao observar algumas sentinelas em alguns pontos do amontoado redondo de metais.

Mon-mon deslizou o besouro voador em um pátio externo, que possuía uma vasta frota aérea. Os outros dois besouros que nos acompanhavam estacionaram. Uma companhia de homens e mulheres de rostos endurecidos por centenas de batalhas desceram dos veículos. No de Shiro, viera na frente uma garota mais forte e saudável do que todos os outros desceu primeiro, com longos cabelos castanhos em um encaracolado bem trabalhado. Seu corpo era o único sem cicatrizes; uma pele rosada que dava vontade de apertar, apertar, apertar. De onde veio essa vontade de apertar? Poderia passar como a donzela mais inocente que o mundo conheceu, até eu reparar o gigante montante de guerra que ela arrastava no chão, carregando-o com apenas um de seus finos braços. Bateu a arma no chão, várias faíscas se espalhando pelo solo. Pude jurar sentir a terra respondendo com um tremor.

Em seguida veio um homem gordo portando dois braços mecânicos parecidos com os de Rey, acompanhado por uma comitiva de pequeninos robôs, chamando-o com gritinhos agudos. Seguiu-o uma mulher alta e esguia e de braços peludos. Vi algo se movimentando no meio da selva de pelos, talvez aranhas, mas tinha certeza. Uma cicatriz de formato sinuoso se estendia por todo o seu rosto, localizada no meio dele, como se sua cabeça houvesse sido cortada pela metade e costurada de volta. O cabelo se elevava até um metro partindo de sua cabeça, e outras coisas pareciam se mover lá. Do outro besouro, uma mulher de cabelos platinados caídos em uma longa trança, com outras duas emaranhadas na parte da frente de sua cabeça, amarradas para trás. Tinha orelhas pontudas e um rosto comprido e pálido, com olhos verdes como esmeralda, dando um status de superioridade. Atrás veio um homem forte e sorridente, e outro pequeno, esquelético e que não parava de se coçar e ranger os dentes. Todos eles tinham pequenas torres cravadas em sua cabeça. Não me lembrara de ter visto aquilo antes senão em Reymond e Rey, mas algo me dizia que os instrumentos cravados se chamavam Discovers. Não sabia dizer de onde vinha aquela lembrança. Um barulho estranho vinha de dentro do besouro de Shiro, mas ignorei.

Por último, saiu um garoto pequeno de pele acobreada, com um sorriso caloroso. Este tinha várias torres em sua cabeça, assim como Shiro e Reymond-mon-mon, o que sugeria que ele era quem dirigia o besouro.

_Você tá me zoando, Alvyn? Um dia sem uma cabeça de baleia rolando é um dia frustrado. – Disse o homem sorridente, agora com as sobrancelhas cerradas, para o gordo com braços mecânicos.

_A Rey arrancou a presa do Kin’ya. – lembrou Alvyn, o cara gordo.

_Uma presa não é uma cabeça gorda de Orca rolando. Concordo com Lawha, um dia matar as malditas não é um bom dia. – Foi a garota de cabelos cacheados bonita que se pronunciou. Sua voz era fina e infantil, mas imponente. Ao lado dela, estava sentada a mulher peluda, abraçada aos joelhos e com os olhos arregalados. Talvez esse devesse ser o jeito normal dela. O menino magrelo continuava a se coçar, em êxtase.

_Deveríamos ter matado algumas daquelas e esfolado suas peles. Precisamos de peles novas para o novo recruta vestir. – Sugeriu o homem sorridente, Lawha.

_Vocês deveriam ler livros de estratégia assim como eu. – Se intrometeu a loira alta de orelhas pontudas, lançador um olhar de superioridade. – Eram centenas de Orcas de Marfim lá, não tínhamos chance.

_Ler aqueles livros mofados que achou naquela biblioteca abandonada há quatrocentos anos não vai te transformar em uma estrategista, Chrome. – disse Lawha à loira de orelhas pontudas.

_Meu novo nome é Lord, já disse. – esbravejou Chrome, ou Lord, ou o que quer que ela se chame. – E não fale mal de Lord of the Rings, ou arrancarei esse sorriso feio de seu rosto.


O garoto moreno, capitão de um dos besouros, deu dois passos a frente e levantou uma mão, seguida de um olhar duro. Bastou aquilo para que todos se calassem. Seu rosto se transformou quando se dirigiu a mim, o sorriso caloroso retornando. Ele tinha o mesmo dom da Rey. Talvez fosse o talento de todos da Resistência, nunca se sabe.



_Temos um recruta novo vindo do centro do território do antigo Estados Unidos. Veio da área mais infestada pela Praga Vermelha, e não pereceu. Escapou por dias a fio de uma legião das Orcas de Marfim. – Ele lançou um olhar cuidadoso a mim. – Certamente tem muitas coisas para nos contar... – Ele deu uma pausa, esperando uma resposta.



Rey mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça. Ela sabia o que viria a seguir.



_Karl. Esse é meu nome. É a única coisa que tenho para contar a vocês. Lamento. – Um homem sem memórias, um homem sem histórias, um homem que nunca teve glórias. Um homem oco, vazio.



O menino levantou uma sobrancelha, um pouco surpreso.



_Ninguém sobrevive àquele número de Orcas de Marfim apenas com sorte. Nem mesmo nós. – falou o menino.



_Uma anomalia sobreviveria. Digo, a anomalia. – Murmurou a mulher peluda para si mesma, enquanto roia as unhas dos pés em uma posição estranha. Todos se viraram e deram atenção a ela. – Vougan, ouça, só pode ser ele. – Então esse é o nome do garoto. – O cheiro desse tal Karl é estranho. Cheira a mar, à Praga Vermelha.


_Guarde suas loucuras para você, Tesla. – Rosnou Alvyn. Tesla o ignorou.

_O novo recruta terá se apresentar ao Comandante daqui a pouco. – Vougan deu os ombros. – O que quer que ele seja, descobriremos com Grimm. Estarei esperando na sala dele. – Ele deu as costas, e adentrou nas muralhas de ferro e aço.

Se não deveria ficar esperançoso, fiquei. O Comandante costuma ser alguém sábio, e talvez esse Grimm possa saber quem sou. Expectativas tolas que um homem comum alimentaria. Teria um homem oco expectativas?

Meus devaneios foram interrompidos por uma agitação vinda de dentro do besouro de Shiro. Passadas foram ouvidas de dentro. Todos que estavam cochichando uns com os outros pararam para ver quem estava lá. Um homem de tamanho médio e robusto saiu de fora de besouro com um salto. Era bonito e de sorriso fácil, com grandes e firmes braços e corpo definido. Tinha cabelo preto e um topete metido, e olhos azuis escuros, da cor do mar. Não tinha memórias de ter visto o mar uma única vez, mas a lembrança estava lá, dentro de mim. Um robozinho simpático de não mais que meio metro o seguia.

_Frank! – gritou Chrome (ou Lord), num guincho agudo. Sua pele pálida enrubesceu, e seus olhos brilharam. A garota bonita de cabelos castanhos e cacheados soltou um suspiro um suspiro discreto. Até Rey levantou os olhos. Ele nem é isso tudo. O tal Frank ignorou Chrome. O pequeno robô riu dela.

_Então você é o novato? – Disse Frank, apertando a minha mão. – Sei que ninguém apresentou o pessoal para você aqui. Me desculpe por isso. Aquela de cabelos castanhos é a Gisel. – Ele lançou uma piscada para a garota. – A orelhuda ali é a Chrome, ou Lord, você escolhe. – Pude jurar ver uma lágrima cintilante saltando do olho de Chrome. O robô explodiu em risadas. – O barrigudo é Alvyn, meu aprendiz no Esquadrão de Criação. Ele que fez seus próprios braços mecânicos, embora não tenham ficado tão bons quanto os que faço. Dizem que uma cachalote fodeu com ele e ele é barrigudo assim por causa da gravidez. Se é verdade ou não, isso você também escolhe. – O robô gargalhou ainda mais, e todo o resto riu dessa vez, principalmente Alvyn. – A peluda é a Tesla. Ela cria aranhas-gigantes, as bichinhas têm gosto de caranguejo. Só a peluda que não deixa nós comermos as filhas dela quando acaba a carne de baleia, maldita seja ela. – Ele cuspiu, mas estava rindo. – O bobo-alegre é o Lawha. O outro bobo-alegre é o Reymond, chame ele de Mon-mon, vai descobrir que ele gosta. O garoto com coceira é Dioros, filho da Tesla. Se eu saísse da vagina da Tesla, eu também teria coceira até hoje. O baixinho barbudo é o Shiro, o Capitão do Esquadrão Aéreo. – Frank virou-se agora na direção de Rey, e se ajoelhou. – Essa, meu amigo novato, é o sol que nos acorda todas as manhãs, a flor que vinga ao meio da praga vermelha, Rey, ou Jenny, você escolhe.

A garota de cabelos rosados explodiu em fúria. Numa fração de segundo, seu braço se transformou em um martelo de cabo longo, se abaixou, mirou entre as pernas de Frank, e...

Ai.

Ele saiu da guarda dela, deu uma volta rápida e a agarrou por trás. Agarrou não, abraçou. Suas mãos estavam muito em cima... No lugar onde não deveriam estar. Ela foi tão rápida quanto ele fora, e mordeu o braço de Frank com toda a força que podia reunir. Sangue escorreu, um pedaço de pele voou e risadas explodiram por todos os lados.

_Da próxima vez que falar esse nome, arrancarei o braço inteiro. – Rosnou Rey, e saiu, rumo ao que havia dentro das muralhas.

Frank se juntou às risadas, enquanto lambia o sangue que escorria. Até eu consegui rir um pouco. O robô fazia movimentos e pulos estranhos com Mon-mon em um canto. Quando a euforia passou, ele continuou a fala.

_Mon-mon, pare de dançar com ele. Só te faz parecer mais retardado. – Caçoou Frank. Quando Rey não estava perto, parecia que ninguém tinha medo de zombar do irmão dela. Reymond se encolheu em um canto. – Este robozinho é meu filho, o Trotsky, gerado pela minha esposa, a lataria. Eu dispenso qualquer apresentação. E você é...?

_Karl.

_Você riu das minhas piadas, então já é membro da Resistência, não importa o que aquele velho melequento do Grimm diga. – Frank deu tapa nas minhas costas. Era muito mais forte que eu, o que me fez voar alguns metros para frente.

_Eu não sei o que a Rey disse para você sobre a Resistência, mas não há luxo algum aqui. Vivemos para sobreviver, e para sobreviver precisamos fazer a cabeça daquelas malditas rolarem. – Disse Lawha.

_Correu por dez dias, mas não queremos homens que fogem. Estes sempre são pegos. – Resmungou Alvyn. – Ou você mata, ou te mandamos para a cozinha. Mas já temos três cozinheiras, então terá de matar, de qualquer forma.

_Se estiver disposto a colaborar conosco, terá abrigo e comida, e as pílulas vermelhas, um presente muito antigo da Dora. – Dora? De onde eu conheço esse nome? – Elas têm poder regenerativo, e você pode viver até mais de quinhentos anos tomando duas ao ano. Alguns de nós beiram aos cem, outros aos trezentos... Mas outros viveram tanto que viram a própria Desgraça Vermelha cair do céu. – Ele suspirou – E Se não estiver disposto, bem... Acabei de fazer os reparos no besouro do Shiro, e a viagem de volta até as Orcas será duas vezes mais rápida.

_Colaborar inclui contar o que você é, e o que você sabe. – Entoou Tesla, numa voz sombria e olhos arregalados; fosse de atenção ou medo, não havia como saber.

Não há escolha. Essa conversa é apenas simbólica.

_Eu serei um de vocês. – Poderia ser melhor ter um objetivo do que tentar lembrar aquele que eu tinha esquecido para sempre. – Serei um membro da Resistência.

Frank sorriu.

_Me siga.

Frank apertou o único botão que havia no topo da torre cravada em sua cabeça, o Discover. Um portão gigante com um desenho esculpido estilizado de um humano trespassando uma baleia com uma lança, e uma lula com um tridente, se abriu. Todo o grupo entrou nas muralhas de ferro e aço. Tesla veio andando de quatro, quase rastejando, em uma movimentação similar a de uma aranha.

O interior não era nada igual ao que se passara em minha cabeça. As elevações no meio eram apenas amontoados de pedras que formavam túneis. Havia uma ou outra toca que levava para o subsolo. Era fácil de perder lá; as ruínas formavam colossais labirintos. Na parte interna das muralhas, havia milhares de placas de vidro enfileiradas lado a lado. Observei melhor, e reparei algumas placas entre algumas ruínas, estrategicamente posicionadas. No meio estava um grande globo embalado em peles de baleia. Embaixo dele, uma grande toca, a maior de todas.

_Caso recebamos ataque e as baleias consigam adentrar nossas muralhas, desembalamos o globo. As vidraçarias refletem milhões de raios solares diretamente para o globo, que os reflete em outros bilhões por toda a área. Tantos raios acabam por formar um único círculo, que cobre todo o nosso território. As baleias não aguentariam um minuto aqui dentro, e começariam a morrer lentamente, desidratadas. – Explicou Lord. – A ideia foi minha, claro. – Esbanjou, orgulhosa.

_Chamamos a estratégia de Círculo de Fogo. – completou Frank. Ele pôs os braços na cintura, e contemplou por algum tempo as ruínas. Por fim, disse: — Os antigos chamavam este lugar de New York. Alguns de nós chamam de Old York. Mas a maioria preferiu chamar de Ruínas da Velha Era.

É um nome bonito. E triste. Acenei com a cabeça, concordando.

Fomos até a Grande Toca que se encontrava abaixo do globo incrustado de peles. A descida era uma escadaria simples, empoeirada com a passagem do tempo. Meio minuto de caminho depois, revelou-se uma grande área, que cobria cinco, dez quilômetros quadrados. Uma mesa circular gigantesca onde cinco orcas podiam ser deitadas lado a lado se encontrava no meio. Talvez fosse para almoços, jantares ou bebedeiras. Apesar do espaço, poucos homens circundavam por lá, e a maioria dos grandes portões que levava para outras extensões do local estavam fechados. O lugar, que parecia ter sido feito para o barulho e trabalho, comportava um ou outro murmúrio.

_No nosso ápice, tínhamos vinte mil homens e mulheres dispostos a reerguer a glória de nossa espécie. – Explicou Gisel. Sua voz era doce e suave, e notei pela primeira vez o volume dos seios dela, o que fez meu coração soltar. Tentei responder algo, e um balbucio desajeitado saiu. – Podíamos fazer cinco frentes de guerra, com três mil soldados cada uma. – Continuou ela. – Alguns não aguentaram e se mataram, outros deserdaram, e muitos mais morreram. Hoje, não passamos de dois mil.

_Vocês... Digo, nós, somos os últimos humanos na Terra? – perguntei-lhe.

_Não acredito que saiba tão pouco. – Gisel tentou parecer estressada, mas sua voz infantil não a ajudou. – No Saara, vive uma população de dois milhões de humanos, onde as baleias e as lulas não podem alcançar. Escolheram uma vida de paz, e nunca nos ajudaram. – Seu montante, quase do seu tamanho, arrastava no chão, criando faíscas e rachaduras. – Alguns poucos tentaram passar para o nosso lado, mas o Oceano Atlântico é dominado pelas baleias, e uma viagem da África até a América é morte certa. A medida de paz deles foi radical, e por se acharem imunes a qualquer ameaça por viverem no deserto, aboliram o uso de armamento bélico.

Alvyn e Lawha rangiam os dentes em sinal de raiva: já ouviram aquela história muitas vezes antes, e não gostavam dela. Os humanos do Saara pareciam ser um tabu entre o pessoal da Resistência. A escadaria acabara, e havíamos chegado ao chão de terra batida do pátio. Aquele pátio, aquele subsolo lembravam algo... Mas não sabia se era uma lembrança de algo que já havia vivido, ou de algo que havia sonhado. Alguns homens e mulheres que estavam organizando o local e carregando coisas pararam para me observar. Pelo visto, todos estavam ansiosos pela minha chegada. Talvez não viam um outro sobrevivente além deles há décadas.

_Há quatro espécies que sobreviveram com êxito após a Desgraça Vermelha: — continuou Gisel. – Baleias, lulas, humanos e orangotangos. Todas as espécies racionais, com nível de intelecto pouco diferente. – Eu arregalei os olhos ao ouvir orangotango, e ela soltou uma risada doce. – Os humanos são os únicos que não foram afetados completamente pelo artômio. No principio, os humanos ajudaram os orangotangos a atravessar da África para a Ásia, para fugir do artômio, em vão. Hoje, os Orangotangos mantém uma população de 15 milhões na antiga Europa. Eles defendem seu território lá com garras e dentes, pregam a paz, mas desejam acima de tudo retornar à sua Mãe África.

_O norte da África é o deserto que representa a salvação da espécie humana. O sul, é dominado pelas baleias. – completou Lord.

_Os orangotangos poderiam propor uma troca, da Europa deles pelo Sul da África das baleias. – Sugeri.

_As baleias não pesam suas ambições na balança como nós fazemos, e simplesmente querem tudo. – Lord bufou. – Já os orangotangos têm um orgulho que até mesmo nós falhamos ao tentar entendê-lo. Afirmam que têm direito tanto à Europa quanto à África.

_Você se diz surpresa por eu não saber de nada disso, mas também não há como vocês saberem. O mar isola a África da América, bem como a Europa. – Concluí, intrigado.

Gisel e Lord hesitaram.

_O Comandante Grimm sabe de tudo. Você verá. – respondeu Lawha, no lugar delas. Descobri rápido que os pensamentos dele eram bem simplórios, então eu não obteria uma resposta melhor.

Rey apareceu ao nosso lado, aguardando impaciente, batendo os pés no chão.

_Já terminaram a aula de história? – Ela acenou e virou as costas. – Grimm me pediu para apresentar o local a você. Vamos andando. – Assenti com a cabeça, e andei logo atrás dela.

E essa será a minha nova casa. Parecia mais confortável do que as noites frias em que tentava dormir sobre as ruínas, pronto para fugir no primeiro sinal de baleias perseguidoras. O medo, porém, só vinha antes da batalha. Na hora em que o combate pela vida ou pela morte se iniciava, o mundo parecia se reduzir para o que eu devia enfrentar, ao mesmo tempo que se ampliava para tudo que estava ao meu redor. Era como se duas ou mais mentes trabalhassem em harmonia, cada uma capturando uma visão do mundo, e se unindo a uma só percepção.

Eu e Rey nos encaminhamos primeiro a um grande portão, o maior de todos, com um besouro voador esculpido em suas portas. Era de puro ferro, e impossível empurrá-lo de mãos nuas. Ela deu um comando mental a partir de seu Discover, e o portão abriu.

_Em breve você terá o seu. Dói bastante cravar esse maldito na cabeça, mas é rápido. – Disse Rey.

O que havia na parte de dentro do portão não frustrou minhas expectativas. Era um pátio quase tão grande quanto o anterior, dessa vez mais amplo e bem aproveitado. Estavam agrupados nele dezenas de besouros mecânicos voadores, a metade empoeirada ou destruída. Não há homens suficientes para ocuparem todos como o faziam antigamente, refleti.

_Aqui é a fábrica de besouros? – perguntei.

Rey riu ironicamente.

_Talvez tenha sido um dia, mas uma fábrica que nada produz não é uma fábrica, Bom Recruta. – Disse ela. – Chamamos o lugar de Esquadrão Aéreo. É comandado pelo Shiro.

O resto da apresentação foi longa e cansativa; regras que não me preocupei em decorar, salas empoeiradas e aulas de história sobre a outrora era de glória da Resistência. Foi apresentado também o Esquadrão de Criação, comandado pelo Frank. Lá construíam robôs, armamentos de alta tecnologia e até simples lanças ou espadas. O Comandante lá tratava seus subordinados e aprendizes como se fossem seus filhos. A sala era organizada a seu modo, mas pequena e abafada. Quando Frank apareceu sem camisa, suado e manchado de graxa, pude jurar ver Rey corando do meu lado. Trotsky, o robozinho companheiro de Frank, fez uma piada qualquer sobre os dois e a garota de cabelos rosa enrubesceu da cabeça aos pés. Rey saiu da sala sem mal me chamar, rosnando de fúria.

_Podemos ir ver as aranhas gigantes da Tesla agora? – perguntei. A tal mulher peluda deixara claro me achar estranho, e eu sentia o mesmo por ela. Além disso, toda aquela esquisitice da peluda me deixara curioso. Ela parecia esconder alguma coisa. Ou talvez fosse simplesmente loucura.

A resposta foi uma grande encarada acompanhada de uma carranca. Rey suspirou e acenou com a cabeça para eu segui-la.

No canto do salão principal, aquele com a gigante mesa redonda, Rey bateu em uma parte da parede de terra, que se revelou uma parede falsa. Aparecera uma toca tão grande quanto àquela na parte superior, que levava ao subsolo. Seguimos em um túnel estreito e fracamente iluminado, onde as paredes de terra pareciam cochichar entre si numa língua que eu não entendia. Pequenas passadas arrastadas assombraram o lugar, vindas de todo lugar; debaixo da terra, em cima, aos lados, revelando possíveis túneis habitados por criaturas que eu mal conseguia imaginar. Criaturas que sobreviveram à destruição e ao tempo. A ideia não era tão descartável: já havíamos descido um quilômetro, ou bem mais que isso, na pior das hipóteses. Chamei Rey duas ou três vezes, mas ela dizia não ter ouvido nada.

_Tesla era uma mulher tão forte e saudável quanto qualquer outra mulher teria inveja. — Contou a garota carrancuda no caminho. — Ela amava um homem, Trant, e ele a amava. Uma história de amor impossível em um mundo que só conhece a guerra e a morte. Os dois acabaram por motivar a todos nós, da Resistência. — Eu podia sentir a amargura pesando em suas palavras. -Tesla desde sempre criara as aranhas gigantes, e eram tão eficazes que ela e Trant tinham um lugar na vanguarda em nossas investidas. E foi em uma investida como qualquer outra que Trant morreu, dias após de plantar sua semente em sua amada, deixando-a esperando um filho. — Uma bifurcação surgiu, e ela seguiu à direita, quase que automaticamente. Era sempre à direita. — Ela caiu em desgosto, e suas aranhas, que tinham conexão forte com ela, se descontrolam — continuou. — Elas mataram vinte homens naquele mesmo dia, e arrancaram os dois braços de Alvyn, ainda normais. Grimm a obrigou a isolar suas aranhas no lugar mais profundo e inóspito de nossa Resistência. Elas eram a única coisa que restaram a Tesla, e ela decidiu não as abandonar. Seu filho, Dioros, nasceu e cresceu aqui em baixo, e não sabe se comunicar com as outras pessoas. O garoto se coça tanto por causa das aranhas filhotes vivendo em seu corpo. Ele ainda não se acostumou a elas. — Disse Rey, com uma voz falha. Parecia difícil a ela relembrar aquela história.

Dei-me por pensar em Reymond. Rey o protegia daquela maneira pelo mesmo motivo que Tesla protege suas aranhas gigantes. Cada um da Resistência se agarrava a algo, alimentando juntos, esperanças. Era aquelas coisas das quais eles se agarravam que os faziam não deixar de serem humanos. E foi essa falta que deve ter levado Tesla à loucura.

_Porque ela saiu de sua toca para vir até mim, então? – questionei-lhe.

_Tesla ficou sabendo da história, e rapidamente espalhou que você o homem de uma profecia... Um sonho, na verdade. Mais um dos milhares de sonhos do Comandante Grimm. Na época, chamaram o garoto do sonho de a anomalia. Tudo o que ele e Dora sonhavam sempre se concretizava, e todos esperaram por anos a aparição do garoto. Ele nunca veio por séculos... Ou se ele sequer existiu, está morto.

_E o que falava esse... Sonho?

Rey andava na minha frente, e notei ela arqueando e endurecendo as costas, desconfortável. Abaixou a cabeça, e ignorou a minha pergunta.

Descemos, viramos e entramos em mais tocas por mais alguns minutos, enquanto Rey reclamava algo por estar arrependida de ter voltado àquele lugar. Por fim, um túnel estendeu-se e deu lugar a uma grande cripta, com comida apodrecida no chão, junta de centenas de ossos, pequenos demais para serem de humanos.

Um vulto surgiu em meio à escuridão, andando em movimentos laterais e sinuosos, com máxima cautela. Um segundo e um terceiro surgiram, negros como uma noite sem lua. Outros se juntaram; alguns eram poucos menores que eu, mas a maioria se elevava a até meio metro a mais. Outros se moveram por trás de nós, vindos do túnel fracamente iluminado pelo qual viemos, e pude ver suas verdadeiras formas. Eram as aranhas gigantes.

Pelos tão secos e marrons como os da mulher peluda cresciam por suas seis, oito... Dezesseis patas. Duas presas maiores que minhas cabeça, tão grandes que se faziam desproporcionais aos seus corpos, se abriam e fechavam lentamente. Uma gosma branca escorria das presas, encharcando o chão. Uma das maiores começou a tecer uma teia colossal na entrada do túnel, trancando nossa saída. Elas moviam-se de forma circular, em uma organizada e mortífera dança ritualística. Rey continuava com sua cara de sempre, mas transbordava medo, bem como eu. Vi ela ativando seu braço mecânico e transmutando-o para o modo de um canhão laser.

Uma forma menor emergiu da escuridão, engatinhando. Soltava um clamor agudo ininteligível pela sua boca, e as aranhas ficaram confusas. Por fim, recuaram, demonstrando algo parecido com estresse. A sombra ganhou forma, e reconheci o garoto que sempre se coçava, filho de Tesla.

_Dioros. – apontou Rey. Ela esperou uma resposta, até parecer lembrar que ele não falava nenhuma língua humana. Ele a olhou com seus imensos olhos, de um castanho sujo. Aproximou-se com cuidado, ainda de quatro, e a farejou. Quando sentiu meu cheiro, retornou à escuridão tão rápido quanto um trovão. Se Tesla estava lá, não estava disposta a aparecer. – Parece que esse lugar o rejeita. — Disse, se digirindo a mim. — Primeiro as filhas da mulher-peluda, e agora o filho dela. Já conheceu o que queria, e garanto que se arrependeu. Hora de retornar.

A subida foi triplamente cansativa e demorada, sobretudo com as teias que haviam ficado para bloquear o caminho. Mesmo na volta, seguíamos sempre pela direita quando apareciam bifurcações. Aqueles túneis pareciam, senão, arquitetonicamente bem planejados, e não um bando de escavações sem rumo.

Na volta, suados e engolidos pela terra da cabeça aos pés, conhecemos as cozinhas. Era liderada por três mulheres. Agatha e Angina, as gêmeas, dizia Rey, disputavam Frank e dormiam cada uma uma noite junto dele. Quando estavam de bom humor, dormiam as duas, sem disputas. Segundo a garota de cabelos rosados, era algo que Frank só fazia para dar ciúmes nela, mas não parecia funcionar. Uma garotinha, Rikka, dividia o serviço com elas. Tinha dentes tortos, mas um sorriso carismático, umas sardas e um cabelo pintado de verde cuidadosamente arrumado. Um grupo de robôs produzidos no Esquadrão de Criação as auxiliava na tarefa de cozinhar para os dois mil homens, mulheres e crianças da Resistência todos os dias.

Visitamos também o Pátio do Combate Direto, onde eram treinados os soldados para as linhas de frente nas batalhas. Parecia ter sido construído para comportar cerca de oito mi homens, portanto estava com um aspecto de vazio, mesmo com as centenas que lá treinavam. Um quarto da área era ocupado por um imenso tanque de água salgada, onde os homens eram treinados para batalhas aquáticas. Senti uma vontade insaciável de pular lá dentro e tirar toda aquela sujeira do corpo, mas Rey disse que tínhamos de terminar o tour primeiro. Visitamos outros esquadrões pequenos, como o de espionagem e de construção.

_Agora, nossa última parada. O Salão da Vanguarda. Lá habitam os cinco melhores guerreiros da Resistência, e os que sempre iniciam as investidas, por tradição. – Indicou Rey. E os que acabam por morrerem primeiro, pensei, mas preferi guardar para mim.

_Você é um deles.

_O óbvio – disse, rindo. – Além de mim, há o Frank – ela torceu a boca — o Shiro, o Aaron, e a Dora. – De novo, esse nome.

Rey abriu a porta. Do outro lado, estava uma mulher morena, nem muito gorda ou magra. Quando nossos olhos se encontraram, pude reparar em suas feições.

Todas as minhas lembranças vieram à tona.

Aquela era a mulher que havia destruído o mundo. A mulher que outrora o bombardeara até transformá-lo em uma imensa esfera vermelha e sem vida, estava em meio aos únicos homens honrados que lá restavam, e lutavam para reerguer o mundo que ela destruíra.

Sem eu sequer pensar, minha mente entrou em modo de batalha, se transformando em duas, três, várias. Eu agora possuía milhares de olhos, focados em um único objetivo.

Toda a minha fúria explodiu dentro de mim, e um buraco abriu-se dentro do meu corpo, aumentando, rastejando para fora, para fora, e para fora, consumindo-me de dentro até a minha casca, minha pele. Não tinha só milhares de olhos, mas milhares de braços, eu sangrara, me contorcia, gritava e clamava pela Deusa Mãe. Meus clamores se tornaram mudos, as dezenas que corriam para ver o que acontecia me fizeram surdo, e o mundo rodopiou, de novo e novamente, e todos os milhares de olhos se tornaram inúteis, cegos.



Notas finais
Eu sei que esse capítulo ficou até um pouco arrastado demais, + ele foi mesmo necessario. Ah, reviews :p

~MINI GUIA PARA CASOS DE WFT~

->RESISTÊNCIA, SITUADA NO ANTIGO EUA, NA ANTIGA NEW YORK.
*Grimm, comandante da Resistência.
*Vougan, segundo em comando.
*Rey, comandante da Vanguarda, composta por:
Dora, comandante do Esquadrão de Espionagem, ESES.
Aaron, comandante do Esquadrão de Combate Direto, ESCOM.
Frank, comandante do Esquadrão de Criação, ESCRI.
Shiro, comandante do Esquadrão de Combate Aéreo, ESCA.

Reymond, irmão da Rey, do ESCA.
Lawha, Lord/Chrome e Gisel, do ESCOM.
Alvyn, do ESCRI.
Rikka, Aghata e Angina, das cozinhas
Tesla e seu filho Dioros, isolados nas cavernas, criadores de aranhas gigantes.
Trotsky, robô de estimação do Frank.

->BALEIAS:
*ORCAS DO MARFIM
Kin'ya, líder.
Kanade, assassina a serviço de Kin'ya.

Deixem reviews! Se estão gostando da historia, reviews me motivam a continuar com ela :p se não estão gostando tambem, aceito críticas contrutivas ^^